Arquidiocese do Rio de Janeiro

30º 15º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 04/07/2020

04 de Julho de 2020

14 de junho de 2020 – Ano A

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14 de junho de 2020 – Ano A

Ex 19,2-6a
Sl 99
Rm 5,6-11
Mt 9,36 – 10,8

“De graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,8)

A coleta deste 11º Domingo do Tempo Comum nos faz tomar consciência da nossa pequenez e da absoluta necessidade que temos da graça do Senhor em nossas vidas: “dai-nos sempre o socorro da vossa graça, para que possamos querer e agir conforme a vossa vontade”. É a graça do Senhor que nos faz conhecer sua vontade e que nos impulsiona a agir conforme o conhecimento que temos de Deus e do seu projeto de amor para cada um de nós.

As leituras de hoje nos falam de eleição. Na primeira leitura, a eleição do povo de Israel, “porção escolhida” pelo Senhor entre todos os povos. No Evangelho, Cristo elege os apóstolos e os envia a dar de graça aquilo o que receberam, ou seja, eles devem anunciar a boa-nova tornando os homens conscientes de que Deus quer fazer com todos uma “aliança de amor”. Por fim, Paulo, na segunda leitura, nos mostra a gratuidade dessa eleição: “Cristo morreu por nós, quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). Não somos dignos de tal eleição, mas Deus, na sua bondade, nos escolheu, e nos enviou o seu Filho para nos manifestar o seu amor e a graça do seu chamado a vivermos uma vida de comunhão com Ele.

Na primeira leitura, o povo chega no deserto, um lugar um tanto quanto ambíguo na Escritura. É um lugar onde a vida parece impossível, um lugar de provação; muitas vezes no deserto o povo murmurou contra Deus e contra Moisés pela falta de água e comida. Mas o deserto é, também, lugar do encontro com Deus. Dt 32,10 afirma que Deus achou seu povo “numa terra do deserto, num vazio solitário... Cercou-o, cuidou dele e guardou-o com carinho, como se fosse a menina dos seus olhos”. Podemos nos recordar, ainda, do Salmo 135 (136),16, que afirma: “Ele guiou o seu povo no deserto, porque o seu amor é para sempre!”

É nesse deserto solitário que Deus chama Moisés ao alto da montanha e o envia para comunicar ao povo que ele fora escolhido, eleito para viver uma relação de especial comunhão com Deus: “sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19,6). A contraparte do povo nessa aliança de amor é a obediência à Palavra: “se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha Aliança” (Ex 19,5). Deus tirou o povo do Egito, os guiou pelo deserto protegendo-os, levando-os “sobre asas de águia” e agora, ao estabelecer com eles uma aliança, Deus exige tão somente a obediência, a escuta à sua Palavra: nisso se resume a tarefa do povo de “guardar a Aliança”. Claro que o “ouvir” supõe o “praticar”, pois não basta ouvir de modo desatento a Palavra, mas é necessário acolhê-la no coração e manifestá-la na vida.

Cristo também elege um “povo”, o novo povo de Deus que tem como fundamento os apóstolos. Mateus começa dizendo que Jesus “viu” as multidões e que teve “compaixão”. O tema do Deus que “vê” nos une à primeira leitura e ao Êxodo. Em Ex 3,7-8 podemos ler o que Deus diz a Moisés: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito... Por isso, desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios” (Ex 3,7-8). Deus vê o sofrimento do seu povo e desce, faz sua “kénosis”, esvazia-se, e vem ao encontro do que sofre. Isso acontece maximamente em Cristo, que, segundo afirma Paulo naquele belíssimo hino de Fl 2,6-11, “esvaziou-se” (eskénosen) a si mesmo...” Assim é o amor de Deus: um amor que desce ao encontro do outro, que se esvazia de si mesmo para que o outro seja, tenha vida! Cristo “vê” e tem “compaixão”. A compaixão é expressa aqui por um verbo particular, o verbo splanknidzomai, que tem sua raiz ligada ao termo grego “entranhas” (splanka). A situação do povo perdido, como ovelhas sem pastor, mexe com o interior do Cristo, com suas entranhas, e ele arde de compaixão.

O que Cristo faz diante da miséria do povo, movido como está pela compaixão? No AT Deus fez a Aliança e agora Cristo faz uma nova aliança: ele elege os doze, os alicerces do novo povo de Deus e os envia. Sua missão é como a do próprio Cristo: no início, eles devem ir primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel. Só mais tarde eles irão aos samaritanos e aos pagãos. O núcleo da sua mensagem é “O Reino de Deus está próximo”; eles devem olhar para todos os necessitados: doentes, leprosos, possessos e devem até ressuscitar os mortos, como sinal de que o Senhor da Vida caminha com eles, age com eles e por meio deles. Contudo, a missão dos apóstolos não vai cessar aí. Mais tarde eles serão enviados a todas as nações (Mt 28,19) e deverão “dar de graça aquilo que receberam de graça”. Numa de suas homilias, que reproduzimos aqui, o Pe. Raniero Cantalamessa expõe com muita clareza o que os apóstolos devem “dar de graça” e “de que modo” eles devem fazê-lo”:

“Dai gratuitamente! O quê? Tudo aquilo o que recebestes: tudo aquilo que sois. Nenhum privilégio para nós. Tudo deve circular, tudo se deve repartir: de Deus a nós, de nós aos irmãos. Antes de tudo, isso vale no amor: aquele amor de Deus do qual a comunidade cristã fez experiência se deve derramar e transbordar aos irmãos como amor ao próximo. (...) Dai gratuitamente! De que modo? Eis talvez a palavra mais importante da Liturgia: a missão. Jesus escolheu doze e os mandou em missão, mostrando, com isso, que, se ele escolhe e prefere alguns homens, o faz para mandá-los aos outros, àquela multidão desfalecida pelo cansaço como ovelhas sem pastor referida no começo do trecho do Evangelho e da qual Jesus teve compaixão. Nós cristãos, todos nós, não somente os padres e os religiosos, somos, portanto, aliados de Deus, não contra os outros homens, mas a favor deles, procurando fazer chegar a todos s alvação.” Nós também, que ouvimos hoje este evangelho, devemos “dar de graça” aquilo o que “recebemos de graça”: devemos dar o amor e anunciar a todos que Deus os chama a viver em comunhão com Ele.




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Sl 99
Rm 5,6-11
Mt 9,36 – 10,8

“De graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,8)

A coleta deste 11º Domingo do Tempo Comum nos faz tomar consciência da nossa pequenez e da absoluta necessidade que temos da graça do Senhor em nossas vidas: “dai-nos sempre o socorro da vossa graça, para que possamos querer e agir conforme a vossa vontade”. É a graça do Senhor que nos faz conhecer sua vontade e que nos impulsiona a agir conforme o conhecimento que temos de Deus e do seu projeto de amor para cada um de nós.

As leituras de hoje nos falam de eleição. Na primeira leitura, a eleição do povo de Israel, “porção escolhida” pelo Senhor entre todos os povos. No Evangelho, Cristo elege os apóstolos e os envia a dar de graça aquilo o que receberam, ou seja, eles devem anunciar a boa-nova tornando os homens conscientes de que Deus quer fazer com todos uma “aliança de amor”. Por fim, Paulo, na segunda leitura, nos mostra a gratuidade dessa eleição: “Cristo morreu por nós, quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). Não somos dignos de tal eleição, mas Deus, na sua bondade, nos escolheu, e nos enviou o seu Filho para nos manifestar o seu amor e a graça do seu chamado a vivermos uma vida de comunhão com Ele.

Na primeira leitura, o povo chega no deserto, um lugar um tanto quanto ambíguo na Escritura. É um lugar onde a vida parece impossível, um lugar de provação; muitas vezes no deserto o povo murmurou contra Deus e contra Moisés pela falta de água e comida. Mas o deserto é, também, lugar do encontro com Deus. Dt 32,10 afirma que Deus achou seu povo “numa terra do deserto, num vazio solitário... Cercou-o, cuidou dele e guardou-o com carinho, como se fosse a menina dos seus olhos”. Podemos nos recordar, ainda, do Salmo 135 (136),16, que afirma: “Ele guiou o seu povo no deserto, porque o seu amor é para sempre!”

É nesse deserto solitário que Deus chama Moisés ao alto da montanha e o envia para comunicar ao povo que ele fora escolhido, eleito para viver uma relação de especial comunhão com Deus: “sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa” (Ex 19,6). A contraparte do povo nessa aliança de amor é a obediência à Palavra: “se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha Aliança” (Ex 19,5). Deus tirou o povo do Egito, os guiou pelo deserto protegendo-os, levando-os “sobre asas de águia” e agora, ao estabelecer com eles uma aliança, Deus exige tão somente a obediência, a escuta à sua Palavra: nisso se resume a tarefa do povo de “guardar a Aliança”. Claro que o “ouvir” supõe o “praticar”, pois não basta ouvir de modo desatento a Palavra, mas é necessário acolhê-la no coração e manifestá-la na vida.

Cristo também elege um “povo”, o novo povo de Deus que tem como fundamento os apóstolos. Mateus começa dizendo que Jesus “viu” as multidões e que teve “compaixão”. O tema do Deus que “vê” nos une à primeira leitura e ao Êxodo. Em Ex 3,7-8 podemos ler o que Deus diz a Moisés: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito... Por isso, desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios” (Ex 3,7-8). Deus vê o sofrimento do seu povo e desce, faz sua “kénosis”, esvazia-se, e vem ao encontro do que sofre. Isso acontece maximamente em Cristo, que, segundo afirma Paulo naquele belíssimo hino de Fl 2,6-11, “esvaziou-se” (eskénosen) a si mesmo...” Assim é o amor de Deus: um amor que desce ao encontro do outro, que se esvazia de si mesmo para que o outro seja, tenha vida! Cristo “vê” e tem “compaixão”. A compaixão é expressa aqui por um verbo particular, o verbo splanknidzomai, que tem sua raiz ligada ao termo grego “entranhas” (splanka). A situação do povo perdido, como ovelhas sem pastor, mexe com o interior do Cristo, com suas entranhas, e ele arde de compaixão.

O que Cristo faz diante da miséria do povo, movido como está pela compaixão? No AT Deus fez a Aliança e agora Cristo faz uma nova aliança: ele elege os doze, os alicerces do novo povo de Deus e os envia. Sua missão é como a do próprio Cristo: no início, eles devem ir primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel. Só mais tarde eles irão aos samaritanos e aos pagãos. O núcleo da sua mensagem é “O Reino de Deus está próximo”; eles devem olhar para todos os necessitados: doentes, leprosos, possessos e devem até ressuscitar os mortos, como sinal de que o Senhor da Vida caminha com eles, age com eles e por meio deles. Contudo, a missão dos apóstolos não vai cessar aí. Mais tarde eles serão enviados a todas as nações (Mt 28,19) e deverão “dar de graça aquilo que receberam de graça”. Numa de suas homilias, que reproduzimos aqui, o Pe. Raniero Cantalamessa expõe com muita clareza o que os apóstolos devem “dar de graça” e “de que modo” eles devem fazê-lo”:

“Dai gratuitamente! O quê? Tudo aquilo o que recebestes: tudo aquilo que sois. Nenhum privilégio para nós. Tudo deve circular, tudo se deve repartir: de Deus a nós, de nós aos irmãos. Antes de tudo, isso vale no amor: aquele amor de Deus do qual a comunidade cristã fez experiência se deve derramar e transbordar aos irmãos como amor ao próximo. (...) Dai gratuitamente! De que modo? Eis talvez a palavra mais importante da Liturgia: a missão. Jesus escolheu doze e os mandou em missão, mostrando, com isso, que, se ele escolhe e prefere alguns homens, o faz para mandá-los aos outros, àquela multidão desfalecida pelo cansaço como ovelhas sem pastor referida no começo do trecho do Evangelho e da qual Jesus teve compaixão. Nós cristãos, todos nós, não somente os padres e os religiosos, somos, portanto, aliados de Deus, não contra os outros homens, mas a favor deles, procurando fazer chegar a todos s alvação.” Nós também, que ouvimos hoje este evangelho, devemos “dar de graça” aquilo o que “recebemos de graça”: devemos dar o amor e anunciar a todos que Deus os chama a viver em comunhão com Ele.