Arquidiocese do Rio de Janeiro

26º 21º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 06/06/2020

06 de Junho de 2020

Ele caminha conosco

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26/04/2020 00:00

Ele caminha conosco 0

26/04/2020 00:00

Estamos no tempo da Páscoa! Vivemos o 3º Domingo deste tempo tão belo. Apesar de toda a situação da pandemia em que estamos envoltos, o tempo é para anunciar a vida e a esperança. Mesmo com saudade de nossas comunidades e do encontro de irmãos, a liturgia desse domingo nos conduz para percebermos que o Senhor está no meio de nós, em nossa história, e nos abre os olhos para vê-Lo. Páscoa é o tema central do Ano Litúrgico e da vida cristã. Durante 50 dias seguimos celebrando o mistério central de nossa fé. Essa celebração deve ir confirmando aquilo que queremos viver cada vez mais: se a Quaresma foi um tempo de constatação de nosso pecado, com uma chamada à conversão, a Páscoa se apresenta como um chamado a olharmos para o alto e considerar aquilo que devemos ser, ao que somos chamados a trilhar e caminhar e a encontrar em Cristo a Vida! Que a cada dia possamos estar encontrando com o Senhor Jesus Cristo Ressuscitado, caminho da nossa vida, para que buscando as coisas do alto o anunciemos a tantos irmãos e irmãs que encontrarmos pelo caminho, nesta época e neste mundo de hoje.

A realidade do encontro com o Senhor pelo caminho vai ser exatamente o que vai nos ser relatado na Liturgia deste domingo. O Evangelho (Lc 24,13-35) vai nos narrar o episódio dos discípulos de Emaús. Tal evangelho retrata bem a caminhada da Igreja na História. Ele retrata a volta para casa de dois discípulos a um povoado chamado Emaús. Neste caminho, os discípulos iam comentando sobre os fatos acontecidos dias anteriores, quando Jesus se aproxima e segue caminho com eles. No diálogo, os discípulos relatam todo o acontecido durante o drama da paixão e da morte, e relatam, com certa descrença, o fato de que algumas mulheres testemunharam ter visto o Senhor. O Divino Caminhante prossegue o diálogo, repassando todas as profecias do Antigo Testamento, indicando que o Messias deveria passar pelo sofrimento para depois entrar na Glória. Chegaram ao seu destino. Enquanto o caminhante ia seguir seu caminho, os discípulos apresentam um pedido para que Ele permaneça com eles: 'Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!' (Lc 24,29). O Viajante entra e permanece com eles. Sentados à mesa, Jesus toma o pão, o abençoa, parte o pão e compartilha com eles. É aí que os olhos dos discípulos se abrem e reconhecem o Senhor, que desaparece da frente deles. Diante desse fato, exclamam: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?' Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros” (Lc 24, 32s). No início do relato há uma constatação de desânimo por parte dos discípulos ante os fatos acontecidos anteriormente. Embora Cristo tivesse feito anúncios de sua Paixão, os discípulos não esperavam a radicalidade daquela entrega redentora, o escândalo da cruz. Além de uma esperança sobrenatural, muitos esperavam que Jesus fosse um libertador político, que iria libertar Israel do jugo do Império Romano e instaurar o Reino de Deus em seu tempo, conforme várias vezes nos recorda a literatura apocalíptica. Essa esperança se vê decepcionada, principalmente a daqueles que tinham deixado casa, família e a própria cidade para seguir Jesus. Os discípulos estavam voltando para suas casas para cuidar de suas vidas.

O Papa São João Paulo II, por ocasião do Ano da Eucaristia (2004/2005), publicou uma Carta Apostólica inspirada nesta passagem, a Mane Nobiscum, Domine! Fica Conosco, Senhor! (Lc 24, 29) e assim comenta: “Fica conosco, Senhor, pois a noite vai caindo. Foi este o convite sincero que os dois discípulos, viajando para Emaús na tarde do próprio dia da ressurreição, dirigiram ao Viajante que se lhes tinha juntado no caminho. Carregados de tristes pensamentos, não imaginavam que aquele desconhecido fosse precisamente o seu Mestre, já ressuscitado. Mas sentiam 'arder' o seu íntimo (cf. Lc 24,32), quando Ele lhes falava, 'explicando' as Escrituras. A luz da Palavra ia dissipando a dureza do seu coração e 'abria-lhes os olhos' (cf. Lc 24, 31). Por entre as sombras do dia que findava e a obscuridade que pairava na alma, aquele Viajante era um raio de luz que fazia despertar a esperança e abria os seus ânimos ao desejo da luz plena. 'Fica conosco' — suplicaram. E Ele aceitou. Pouco depois o rosto de Jesus teria desaparecido, mas o Mestre 'permaneceria' sob o véu do 'pão partido', à vista do qual se abriram os olhos deles" (Cf. http://www.vatican.va/content/johnpaulii/pt/apost_letters/2004/documents/hf_jp-ii_apl_20041008_mane-nobiscum-domine.html).

Semelhante a eles, nós também muitas vezes nos cansamos, nos decepcionamos e temos desilusões em nossa caminhada, em nosso desejo de querer sempre ter o controle de todas as situações, enquanto não percebemos que Cristo está no meio de nós e é o Senhor da história, e de todas as situações pode tirar um bem muito maior. Diante das várias situações devemos perceber a Palavra de Deus que nos alimenta, nos mostra o caminho e interpreta os acontecimentos de nossa vida.

O gesto de abençoar o pão, partir e compartilhar nos faz recordar aquele gesto feito por Jesus na última ceia e que se repete em cada Eucaristia. Ao partir o pão, os olhos dos discípulos se abriram, seu desânimo se foi, sua esperança que estava desfalecida torna-se agora certeza. Em meio a tantas lutas do dia a dia, não deixemos de reconhecer o Senhor que caminha conosco e nos faz encontrar sentido em todas as situações. Isso faz a diferença em nossas vidas. Nós cristãos estamos no mundo para sermos testemunhas dessa presença viva em nosso caminhar.

Ao mesmo tempo, a Palavra de Deus na primeira leitura (At 2,14.22-33) é o discurso de Pedro no Dia de Pentecostes, contando sua experiência de encontro com o Senhor e apresentando o Kerigma, as realidades essenciais sobre quem é Jesus, o que fez e ensinou. Hoje, somos também chamados a renovar esse encontro com o Senhor, sempre vivo e sempre novo, e testemunhar a alegria deste encontro, que se manifesta em atitudes de bem para com o próximo. Jesus está vivo e somos testemunhas, assim como foram os discípulos de Jesus. Renovemos a fé na presença do Senhor em nosso meio.

Na segunda leitura (1Pd 1,17-21), Pedro recorda o nosso resgate das trevas por meio do maior tesouro possível, o precioso sangue de Cristo Redentor, o Cordeiro sem mancha. Por meio da Ressurreição, sabemos etemos confirmada a nossa esperança, já que “nossa fé e esperança estão em Deus” (Cf. 1 Pd 1,21).

Na Palavra de Deus deste domingo, vemos de diversas formas a experiência de nossa história, semelhante à experiência dos discípulos de Emaús. Deixemos que a Palavra de Deus afervore nossa caminhada rumo ao Céu! Por mais que tentem ninguém pode tirar a graça da presença do Senhor em nosso meio. Ele está no meio de nós vivo e Ressuscitado!

Que possamos, nesse tempo da Páscoa, reconhecer que, mesmo em meio a tantas lutas, é possível sermos sinais de esperança. Peçamos ao Senhor que nos dê o dom da fé, que aumente a nossa fé e nos faça contagiar cada vez mais este mundo com a Boa Notícia. Somos chamados a ser sinais de esperança aos povo de nosso tempo.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro


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26/04/2020 00:00

Estamos no tempo da Páscoa! Vivemos o 3º Domingo deste tempo tão belo. Apesar de toda a situação da pandemia em que estamos envoltos, o tempo é para anunciar a vida e a esperança. Mesmo com saudade de nossas comunidades e do encontro de irmãos, a liturgia desse domingo nos conduz para percebermos que o Senhor está no meio de nós, em nossa história, e nos abre os olhos para vê-Lo. Páscoa é o tema central do Ano Litúrgico e da vida cristã. Durante 50 dias seguimos celebrando o mistério central de nossa fé. Essa celebração deve ir confirmando aquilo que queremos viver cada vez mais: se a Quaresma foi um tempo de constatação de nosso pecado, com uma chamada à conversão, a Páscoa se apresenta como um chamado a olharmos para o alto e considerar aquilo que devemos ser, ao que somos chamados a trilhar e caminhar e a encontrar em Cristo a Vida! Que a cada dia possamos estar encontrando com o Senhor Jesus Cristo Ressuscitado, caminho da nossa vida, para que buscando as coisas do alto o anunciemos a tantos irmãos e irmãs que encontrarmos pelo caminho, nesta época e neste mundo de hoje.

A realidade do encontro com o Senhor pelo caminho vai ser exatamente o que vai nos ser relatado na Liturgia deste domingo. O Evangelho (Lc 24,13-35) vai nos narrar o episódio dos discípulos de Emaús. Tal evangelho retrata bem a caminhada da Igreja na História. Ele retrata a volta para casa de dois discípulos a um povoado chamado Emaús. Neste caminho, os discípulos iam comentando sobre os fatos acontecidos dias anteriores, quando Jesus se aproxima e segue caminho com eles. No diálogo, os discípulos relatam todo o acontecido durante o drama da paixão e da morte, e relatam, com certa descrença, o fato de que algumas mulheres testemunharam ter visto o Senhor. O Divino Caminhante prossegue o diálogo, repassando todas as profecias do Antigo Testamento, indicando que o Messias deveria passar pelo sofrimento para depois entrar na Glória. Chegaram ao seu destino. Enquanto o caminhante ia seguir seu caminho, os discípulos apresentam um pedido para que Ele permaneça com eles: 'Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando!' (Lc 24,29). O Viajante entra e permanece com eles. Sentados à mesa, Jesus toma o pão, o abençoa, parte o pão e compartilha com eles. É aí que os olhos dos discípulos se abrem e reconhecem o Senhor, que desaparece da frente deles. Diante desse fato, exclamam: “Não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?' Naquela mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém onde encontraram os Onze reunidos com os outros” (Lc 24, 32s). No início do relato há uma constatação de desânimo por parte dos discípulos ante os fatos acontecidos anteriormente. Embora Cristo tivesse feito anúncios de sua Paixão, os discípulos não esperavam a radicalidade daquela entrega redentora, o escândalo da cruz. Além de uma esperança sobrenatural, muitos esperavam que Jesus fosse um libertador político, que iria libertar Israel do jugo do Império Romano e instaurar o Reino de Deus em seu tempo, conforme várias vezes nos recorda a literatura apocalíptica. Essa esperança se vê decepcionada, principalmente a daqueles que tinham deixado casa, família e a própria cidade para seguir Jesus. Os discípulos estavam voltando para suas casas para cuidar de suas vidas.

O Papa São João Paulo II, por ocasião do Ano da Eucaristia (2004/2005), publicou uma Carta Apostólica inspirada nesta passagem, a Mane Nobiscum, Domine! Fica Conosco, Senhor! (Lc 24, 29) e assim comenta: “Fica conosco, Senhor, pois a noite vai caindo. Foi este o convite sincero que os dois discípulos, viajando para Emaús na tarde do próprio dia da ressurreição, dirigiram ao Viajante que se lhes tinha juntado no caminho. Carregados de tristes pensamentos, não imaginavam que aquele desconhecido fosse precisamente o seu Mestre, já ressuscitado. Mas sentiam 'arder' o seu íntimo (cf. Lc 24,32), quando Ele lhes falava, 'explicando' as Escrituras. A luz da Palavra ia dissipando a dureza do seu coração e 'abria-lhes os olhos' (cf. Lc 24, 31). Por entre as sombras do dia que findava e a obscuridade que pairava na alma, aquele Viajante era um raio de luz que fazia despertar a esperança e abria os seus ânimos ao desejo da luz plena. 'Fica conosco' — suplicaram. E Ele aceitou. Pouco depois o rosto de Jesus teria desaparecido, mas o Mestre 'permaneceria' sob o véu do 'pão partido', à vista do qual se abriram os olhos deles" (Cf. http://www.vatican.va/content/johnpaulii/pt/apost_letters/2004/documents/hf_jp-ii_apl_20041008_mane-nobiscum-domine.html).

Semelhante a eles, nós também muitas vezes nos cansamos, nos decepcionamos e temos desilusões em nossa caminhada, em nosso desejo de querer sempre ter o controle de todas as situações, enquanto não percebemos que Cristo está no meio de nós e é o Senhor da história, e de todas as situações pode tirar um bem muito maior. Diante das várias situações devemos perceber a Palavra de Deus que nos alimenta, nos mostra o caminho e interpreta os acontecimentos de nossa vida.

O gesto de abençoar o pão, partir e compartilhar nos faz recordar aquele gesto feito por Jesus na última ceia e que se repete em cada Eucaristia. Ao partir o pão, os olhos dos discípulos se abriram, seu desânimo se foi, sua esperança que estava desfalecida torna-se agora certeza. Em meio a tantas lutas do dia a dia, não deixemos de reconhecer o Senhor que caminha conosco e nos faz encontrar sentido em todas as situações. Isso faz a diferença em nossas vidas. Nós cristãos estamos no mundo para sermos testemunhas dessa presença viva em nosso caminhar.

Ao mesmo tempo, a Palavra de Deus na primeira leitura (At 2,14.22-33) é o discurso de Pedro no Dia de Pentecostes, contando sua experiência de encontro com o Senhor e apresentando o Kerigma, as realidades essenciais sobre quem é Jesus, o que fez e ensinou. Hoje, somos também chamados a renovar esse encontro com o Senhor, sempre vivo e sempre novo, e testemunhar a alegria deste encontro, que se manifesta em atitudes de bem para com o próximo. Jesus está vivo e somos testemunhas, assim como foram os discípulos de Jesus. Renovemos a fé na presença do Senhor em nosso meio.

Na segunda leitura (1Pd 1,17-21), Pedro recorda o nosso resgate das trevas por meio do maior tesouro possível, o precioso sangue de Cristo Redentor, o Cordeiro sem mancha. Por meio da Ressurreição, sabemos etemos confirmada a nossa esperança, já que “nossa fé e esperança estão em Deus” (Cf. 1 Pd 1,21).

Na Palavra de Deus deste domingo, vemos de diversas formas a experiência de nossa história, semelhante à experiência dos discípulos de Emaús. Deixemos que a Palavra de Deus afervore nossa caminhada rumo ao Céu! Por mais que tentem ninguém pode tirar a graça da presença do Senhor em nosso meio. Ele está no meio de nós vivo e Ressuscitado!

Que possamos, nesse tempo da Páscoa, reconhecer que, mesmo em meio a tantas lutas, é possível sermos sinais de esperança. Peçamos ao Senhor que nos dê o dom da fé, que aumente a nossa fé e nos faça contagiar cada vez mais este mundo com a Boa Notícia. Somos chamados a ser sinais de esperança aos povo de nosso tempo.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro


Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro