Arquidiocese do Rio de Janeiro

24º 21º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 05/06/2020

05 de Junho de 2020

A bênção Urbi et Orbi no curso da História

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do e-mail.
E-mail enviado com sucesso.

05 de Junho de 2020

A bênção Urbi et Orbi no curso da História

Se você encontrou erro neste texto ou nesta página, por favor preencha os campos abaixo. O link da página será enviado automaticamente a ArqRio.

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do erro.
Erro relatado com sucesso, obrigado.

27/03/2020 00:00 - Atualizado em 07/04/2020 18:24

A bênção Urbi et Orbi no curso da História 0

27/03/2020 00:00 - Atualizado em 07/04/2020 18:24

No ultimo dia 27 de março, recebemos do Papa Francisco a bênção Urbi et Orbi. Foi um fato histórico, pois o Romano Pontífice o fez motivado pela pandemia do coronavírus em uma Praça de São Pedro vazia e escura. Estamos acostumados a ver a principal praça do menor estado do mundo sempre em tons mais quentes de amarelo, laranja e areia. Todo o mundo se voltou para assistir esse momento no qual era predominante o azul e o cinza. Muito também se falou da indulgência plenária que se pôde lucrar pelo sacramental dispensado pelo Papa. Contudo, penso que seria interessante que soubéssemos sobre a origem dessa bênção que estamos habituados a ver no Natal, na Páscoa e nas eleições dos Papas.

Primeiramente, devemos saber que o nome 'Urbi et Orbi' vem do Império Romano. Assim, começavam as proclamas imperiais que eram dirigidas à cidade por excelência, ou seja, Roma, e a todo o mundo romano. A bênção Urbi et Orbi começou a ser celebrada de forma ritual no tempo do Papa Gregório X (1271 – 1276). Para que entendamos a escolha do nome, é preciso compreender que nesse tempo era forte a imitatioimperii ('imitação do império'),vinda da concepção de que a Igreja seria sucessora natural do Império Romano por meio da doação de Constantino.

Dentre os símbolos e fórmulas que expressavam esse poder temporal da Igreja, havia o uso do manto vermelho. Como nos ensina o padre Jesus Hortal no seu "De Initio Potestatis Primatialis Romani Pontificis" (“O Início da Potestade Primacial do Romano Pontifice”), no Ordo Romanus XIII, o arquidiácono ao impor o manto sobre o Pontífice dizia: "Investio te de papatu romano, ut praesis urbi et orbi" ("Invisto-te do papado romano, para que presidas a cidade e o mundo"). Já o CerimonialeRomanum, de 1486, nos aponta que o uso dessa fórmula na hora de impor o manto caiu em desuso, pois como observa o historiador Walter Ullman, não era muito agradável aos príncipes seculares. Todavia, o nome 'Urbi et Orbi', para identificar a bênção dada em ocasiões especiais por um Papa que tinha consciência de uma jurisdição universal, permaneceu. Gregório X expandia sua visão de mundo, pois havia recebido notícias trazidas pela família Polo. Tal família de navegadores e exploradores venezianos certamente lhe oferecia informações sobre um mundo não tão conhecido, até então, pelos europeus ocidentais.

De acordo com a "Catholic Encyclopedia", essa bênção era dada em três lugares diversos. Na Basílica de São Pedro, por ocasião da Quinta-Feira Santa, da Páscoa e da Solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo. Na Basílica de São João de Latrão, por ocasião da Ascensão ou de Pentecostes. Na Basílica de Santa Maria Maior, por ocasião da Assunção. A partir do século XVII, essa bênção foi dada da sacada do Quirinal, residência dos Papas naquele momento, em algumas ocasiões.

De 1870 a 1921, os Papas por se considerarem prisioneiros no Vaticano, devido à Questão Romana, não davam a bênção da sacada central da Basílica como estamos acostumados a ver. Quando eleito em 1922, o Papa Pio XI retoma o costume de dar a bênção na sacada central externa.
Que nesses tempos difíceis nos unamos em oração ao Santo Padre para que se reforce nossa consciência de sermos um só corpo e um só espírito (cf. Ef 4, 5). O mundo inteiro unido na esperança de que Jesus Cristo, Senhor do tempo e da História, está sempre conosco.

Padre Rafael Siqueira
Mestrando de História da Igreja na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma


Leia os comentários

Deixe seu comentário

Resposta ao comentário de:

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do comentário.
Comentário enviado para aprovação.

A bênção Urbi et Orbi no curso da História

27/03/2020 00:00 - Atualizado em 07/04/2020 18:24

No ultimo dia 27 de março, recebemos do Papa Francisco a bênção Urbi et Orbi. Foi um fato histórico, pois o Romano Pontífice o fez motivado pela pandemia do coronavírus em uma Praça de São Pedro vazia e escura. Estamos acostumados a ver a principal praça do menor estado do mundo sempre em tons mais quentes de amarelo, laranja e areia. Todo o mundo se voltou para assistir esse momento no qual era predominante o azul e o cinza. Muito também se falou da indulgência plenária que se pôde lucrar pelo sacramental dispensado pelo Papa. Contudo, penso que seria interessante que soubéssemos sobre a origem dessa bênção que estamos habituados a ver no Natal, na Páscoa e nas eleições dos Papas.

Primeiramente, devemos saber que o nome 'Urbi et Orbi' vem do Império Romano. Assim, começavam as proclamas imperiais que eram dirigidas à cidade por excelência, ou seja, Roma, e a todo o mundo romano. A bênção Urbi et Orbi começou a ser celebrada de forma ritual no tempo do Papa Gregório X (1271 – 1276). Para que entendamos a escolha do nome, é preciso compreender que nesse tempo era forte a imitatioimperii ('imitação do império'),vinda da concepção de que a Igreja seria sucessora natural do Império Romano por meio da doação de Constantino.

Dentre os símbolos e fórmulas que expressavam esse poder temporal da Igreja, havia o uso do manto vermelho. Como nos ensina o padre Jesus Hortal no seu "De Initio Potestatis Primatialis Romani Pontificis" (“O Início da Potestade Primacial do Romano Pontifice”), no Ordo Romanus XIII, o arquidiácono ao impor o manto sobre o Pontífice dizia: "Investio te de papatu romano, ut praesis urbi et orbi" ("Invisto-te do papado romano, para que presidas a cidade e o mundo"). Já o CerimonialeRomanum, de 1486, nos aponta que o uso dessa fórmula na hora de impor o manto caiu em desuso, pois como observa o historiador Walter Ullman, não era muito agradável aos príncipes seculares. Todavia, o nome 'Urbi et Orbi', para identificar a bênção dada em ocasiões especiais por um Papa que tinha consciência de uma jurisdição universal, permaneceu. Gregório X expandia sua visão de mundo, pois havia recebido notícias trazidas pela família Polo. Tal família de navegadores e exploradores venezianos certamente lhe oferecia informações sobre um mundo não tão conhecido, até então, pelos europeus ocidentais.

De acordo com a "Catholic Encyclopedia", essa bênção era dada em três lugares diversos. Na Basílica de São Pedro, por ocasião da Quinta-Feira Santa, da Páscoa e da Solenidade dos Apóstolos São Pedro e São Paulo. Na Basílica de São João de Latrão, por ocasião da Ascensão ou de Pentecostes. Na Basílica de Santa Maria Maior, por ocasião da Assunção. A partir do século XVII, essa bênção foi dada da sacada do Quirinal, residência dos Papas naquele momento, em algumas ocasiões.

De 1870 a 1921, os Papas por se considerarem prisioneiros no Vaticano, devido à Questão Romana, não davam a bênção da sacada central da Basílica como estamos acostumados a ver. Quando eleito em 1922, o Papa Pio XI retoma o costume de dar a bênção na sacada central externa.
Que nesses tempos difíceis nos unamos em oração ao Santo Padre para que se reforce nossa consciência de sermos um só corpo e um só espírito (cf. Ef 4, 5). O mundo inteiro unido na esperança de que Jesus Cristo, Senhor do tempo e da História, está sempre conosco.

Padre Rafael Siqueira
Mestrando de História da Igreja na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma