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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 05/04/2020

05 de Abril de 2020

Por que cobrir as imagens na Quaresma?

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Por que cobrir as imagens na Quaresma?

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Por que cobrir as imagens na Quaresma? 0

29/02/2020 00:00

A Santa Quaresma é o tempo forte da Igreja em que os católicos são convidados a se unir mais intimamente ao mistério de Jesus, entrando com Ele no deserto e, a partir daí, acompanhando os seus passos em sua missão salvífica. A Igreja sempre quis que este fosse um tempo de mais empenhada busca pela santidade, de modo que a cada ano seja possível um real progresso em vista do ideal de vida cristã. É o grande retiro espiritual da Igreja em vista da preparação para as festas pascais. Tempo particularmente apropriado aos exercícios espirituais, às liturgias penitenciais, às peregrinações em sinal de penitência, às privações voluntárias, como o jejum e a esmola, à partilha fraterna (Catecismo da Igreja Católica 1438). É tempo de conversão e reconciliação. Tempo em que a Igreja pede perdão e perdoa, exorciza, prega e ouve mais atentamente a Palavra de Deus. Tempo de renovação da vida interior e exterior. E para nos ajudar ainda mais neste itinerário espiritual, a liturgia é o ponto nuclear e fundamental a nos guiar rumo ao Calvário e ao sepulcro glorioso do Senhor. Por isso, neste período a liturgia traz consigo algumas peculiaridades, como a ausência do termo ‘aleluia’ e do “Hino de Louvor” (o Glória), a cor roxa dos paramentos e o gesto de cobrir as imagens com panos ou toalhas também de cor roxa. Entretanto, neste editorial quero discorrer, brevemente, sobre esta última característica marcante da Quaresma que no Pós-Concílio caiu em desuso em muitos lugares, mas que hoje retorna com grande força.

No passado, as famílias cobriam até as imagens dos oratórios domésticos, mas hoje pode parecer estranho para alguns fiéis entrar numa igreja e ver todas as suas imagens de devoção cobertas nesta época do ano. Porém, trata-se de uma prática antiquíssima na Igreja Católica por ocasião da Quaresma. Na Idade Média, quando já não mais havia os chamados “penitentes públicos”, mantinha-se, porém, a consciência da importância e da necessidade da penitência quaresmal. Assim, na Quarta-feira de Cinzas estendia-se um grande véu roxo com a largura de todo o templo entre a nave e o altar-mor. Tal uso deste grande véu penitencial com o passar dos séculos desapareceu de nossas igrejas, ou foi gradativamente modificado, de modo que o Missal do Concílio de Trento previa que as imagens dos santos fossem cobertas com véus escuros durante a Quaresma, mais precisamente a partir da Quinta Semana da Quaresma, quando então se iniciava o chamado Tempo da Paixão. Se hoje o ciclo litúrgico da Páscoa compreende basicamente os tempos da Quaresma e da Páscoa, antes da reforma do Concílio Vaticano II, o referido ciclo continha ainda entre um e outro período o chamado Tempo da Paixão, que se estendia desde o Quinto Domingo da Quaresma, também chamado de Domingo Oficioso da Paixão –, oficioso porque o domingo oficial da Paixão é o Domingo de Ramos – até o Sábado Santo. O motivo principal para tal orientação era de que não parecia legítimo que os cristãos distraíssem com os santos a sua devoção, que deve estar fundamentada e neste tempo plenamente voltada para o Mistério Pascal de Cristo, ou seja, sua paixão, morte e ressurreição. Assim, cobrindo-se todas as imagens dos santos e os crucifixos, destaca-se com maior evidência o que há de essencial em nossas igrejas: o altar, onde se opera e atualiza o Mistério Pascal do Senhor. Todavia, como já aludimos acima, após a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, não se pode mais falar propriamente de um Tempo da Paixão, nem de Domingo Oficioso da Paixão. Porém, a versão original em latim do Missal Romano de Paulo VI manteve a orientação, mesmo que facultativa, de se cobrir as imagens a partir do Quinto Domingo da Quaresma, mas também deixando tal prática a juízo da conferência episcopal, no nosso caso, da CNBB. Na tradução do Missal de Paulo VI para o Brasil, nada se diz a respeito deste antigo costume, assim como também não há nenhuma consideração relativa ao assunto no diretório litúrgico da CNBB, ou seja, a conferência episcopal brasileira não emitiu nenhum juízo a respeito da matéria, conforme prevê a versão original em latim do atual Missal Romano. E nem precisa fazê-lo, haja vista tratar-se de algo extrínseco e acidental que, inclusive, pode ser inviável para algumas realidades, como é o caso das igrejas com imagens em afrescos pintados em paredes e tetos; imaginemos, por exemplo, a situação da Capela Sistina de Roma.

No entanto, não é por ser um ato extrínseco e acidental que deverá ser desprezado. O que é exterior deve manifestar o que é interior, de modo que a prática de se cobrir imagens e crucifixos durante o período da Quaresma deve manifestar a piedade e a disposição interiores de se voltar a atenção para o que é fundante e fundamental para a fé cristã, a saber, o Mistério Pascal celebrado na liturgia católica. Neste sentido, ao se cobrir as imagens numa igreja, sobressai o altar, onde é celebrado o Mistério da Páscoa do Senhor na expectativa do seu retorno. O altar, com efeito, é o centro da vida cristã, a árvore da vida, o sepulcro vazio, a rocha fendida da qual brota a verdadeira fonte de água viva que jorra e sacia a nossa sede nesta peregrinação da vida, porque nele é celebrado o sacratíssimo mistério da eucaristia, o mistério do corpo e sangue do Senhor, alimento espiritual em vista da eternidade.

Aproveitemos este tempo santíssimo em que dos céus jorram as mais abundantes graças para toda a Igreja. Entremos no deserto com Jesus e busquemos no silêncio e na penitência uma maior intimidade com o seu Mistério Pascal, participando mais intensamente da liturgia sagrada, em que nos alimentamos da Palavra e da Eucaristia em vista da verdadeira conversão.

Padre Valtemario S. Frazão Jr.


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Por que cobrir as imagens na Quaresma?

29/02/2020 00:00

A Santa Quaresma é o tempo forte da Igreja em que os católicos são convidados a se unir mais intimamente ao mistério de Jesus, entrando com Ele no deserto e, a partir daí, acompanhando os seus passos em sua missão salvífica. A Igreja sempre quis que este fosse um tempo de mais empenhada busca pela santidade, de modo que a cada ano seja possível um real progresso em vista do ideal de vida cristã. É o grande retiro espiritual da Igreja em vista da preparação para as festas pascais. Tempo particularmente apropriado aos exercícios espirituais, às liturgias penitenciais, às peregrinações em sinal de penitência, às privações voluntárias, como o jejum e a esmola, à partilha fraterna (Catecismo da Igreja Católica 1438). É tempo de conversão e reconciliação. Tempo em que a Igreja pede perdão e perdoa, exorciza, prega e ouve mais atentamente a Palavra de Deus. Tempo de renovação da vida interior e exterior. E para nos ajudar ainda mais neste itinerário espiritual, a liturgia é o ponto nuclear e fundamental a nos guiar rumo ao Calvário e ao sepulcro glorioso do Senhor. Por isso, neste período a liturgia traz consigo algumas peculiaridades, como a ausência do termo ‘aleluia’ e do “Hino de Louvor” (o Glória), a cor roxa dos paramentos e o gesto de cobrir as imagens com panos ou toalhas também de cor roxa. Entretanto, neste editorial quero discorrer, brevemente, sobre esta última característica marcante da Quaresma que no Pós-Concílio caiu em desuso em muitos lugares, mas que hoje retorna com grande força.

No passado, as famílias cobriam até as imagens dos oratórios domésticos, mas hoje pode parecer estranho para alguns fiéis entrar numa igreja e ver todas as suas imagens de devoção cobertas nesta época do ano. Porém, trata-se de uma prática antiquíssima na Igreja Católica por ocasião da Quaresma. Na Idade Média, quando já não mais havia os chamados “penitentes públicos”, mantinha-se, porém, a consciência da importância e da necessidade da penitência quaresmal. Assim, na Quarta-feira de Cinzas estendia-se um grande véu roxo com a largura de todo o templo entre a nave e o altar-mor. Tal uso deste grande véu penitencial com o passar dos séculos desapareceu de nossas igrejas, ou foi gradativamente modificado, de modo que o Missal do Concílio de Trento previa que as imagens dos santos fossem cobertas com véus escuros durante a Quaresma, mais precisamente a partir da Quinta Semana da Quaresma, quando então se iniciava o chamado Tempo da Paixão. Se hoje o ciclo litúrgico da Páscoa compreende basicamente os tempos da Quaresma e da Páscoa, antes da reforma do Concílio Vaticano II, o referido ciclo continha ainda entre um e outro período o chamado Tempo da Paixão, que se estendia desde o Quinto Domingo da Quaresma, também chamado de Domingo Oficioso da Paixão –, oficioso porque o domingo oficial da Paixão é o Domingo de Ramos – até o Sábado Santo. O motivo principal para tal orientação era de que não parecia legítimo que os cristãos distraíssem com os santos a sua devoção, que deve estar fundamentada e neste tempo plenamente voltada para o Mistério Pascal de Cristo, ou seja, sua paixão, morte e ressurreição. Assim, cobrindo-se todas as imagens dos santos e os crucifixos, destaca-se com maior evidência o que há de essencial em nossas igrejas: o altar, onde se opera e atualiza o Mistério Pascal do Senhor. Todavia, como já aludimos acima, após a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, não se pode mais falar propriamente de um Tempo da Paixão, nem de Domingo Oficioso da Paixão. Porém, a versão original em latim do Missal Romano de Paulo VI manteve a orientação, mesmo que facultativa, de se cobrir as imagens a partir do Quinto Domingo da Quaresma, mas também deixando tal prática a juízo da conferência episcopal, no nosso caso, da CNBB. Na tradução do Missal de Paulo VI para o Brasil, nada se diz a respeito deste antigo costume, assim como também não há nenhuma consideração relativa ao assunto no diretório litúrgico da CNBB, ou seja, a conferência episcopal brasileira não emitiu nenhum juízo a respeito da matéria, conforme prevê a versão original em latim do atual Missal Romano. E nem precisa fazê-lo, haja vista tratar-se de algo extrínseco e acidental que, inclusive, pode ser inviável para algumas realidades, como é o caso das igrejas com imagens em afrescos pintados em paredes e tetos; imaginemos, por exemplo, a situação da Capela Sistina de Roma.

No entanto, não é por ser um ato extrínseco e acidental que deverá ser desprezado. O que é exterior deve manifestar o que é interior, de modo que a prática de se cobrir imagens e crucifixos durante o período da Quaresma deve manifestar a piedade e a disposição interiores de se voltar a atenção para o que é fundante e fundamental para a fé cristã, a saber, o Mistério Pascal celebrado na liturgia católica. Neste sentido, ao se cobrir as imagens numa igreja, sobressai o altar, onde é celebrado o Mistério da Páscoa do Senhor na expectativa do seu retorno. O altar, com efeito, é o centro da vida cristã, a árvore da vida, o sepulcro vazio, a rocha fendida da qual brota a verdadeira fonte de água viva que jorra e sacia a nossa sede nesta peregrinação da vida, porque nele é celebrado o sacratíssimo mistério da eucaristia, o mistério do corpo e sangue do Senhor, alimento espiritual em vista da eternidade.

Aproveitemos este tempo santíssimo em que dos céus jorram as mais abundantes graças para toda a Igreja. Entremos no deserto com Jesus e busquemos no silêncio e na penitência uma maior intimidade com o seu Mistério Pascal, participando mais intensamente da liturgia sagrada, em que nos alimentamos da Palavra e da Eucaristia em vista da verdadeira conversão.

Padre Valtemario S. Frazão Jr.