Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/02/2020

23 de Fevereiro de 2020

Eu, porém, vos digo...

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14/02/2020 11:35

Eu, porém, vos digo... 0

14/02/2020 11:35

Temos a graça de celebrarmos neste final de semana o sexto domingo do Tempo Comum. A primeira leitura (cf. Eclo 15,15-21) deixa claro que cada pessoa é sujeito de sua felicidade ou desgraça, à medida que faz opções a favor da vida ou a favor da morte. Deus deixa toda liberdade de escolha às pessoas, mas aponta, ao mesmo tempo, o único caminho certo: “Escolha, pois, a vida…” (cf. Dt 30,19). É, portanto, responsável pela própria vida! São Paulo em sua carta, lida na segunda leitura da missa, chamou os cristãos de Corinto (cf. 1Cor 2,6-10) de pessoas maduras na fé, porque se abriram à novidade de Jesus Cristo crucificado. A maturidade na fé começa quando se entende o mistério da encarnação, morte e ressurreição de Jesus. A sabedoria da qual fala Paulo é o projeto de Deus, ‘‘uma sabedoria misteriosa, escondida, que Ele reservou antes dos séculos para a nossa glória.” (cf. 1Cor 2,7) As comunidades de Corinto são destinatárias dessa sabedoria, porque, em sua pobreza, escolheram o projeto de Deus já anunciado pelos profetas. O mesmo Deus, que caminhou no passado com seu povo, está presente agora na comunidade que aceitou Jesus crucificado, revelando seu projeto por meio do Espírito. 

O texto do Evangelho escolhido para este domingo é a continuação do Sermão da Montanha ou um desdobramento das bem-aventuranças (cf. Mt 5,17-37). Ele afirma que Jesus não veio para destruir o Antigo Testamento, mas para cumprir, pois Ele respeitou as leis e as instituições de seu povo, e sempre as interpretou na perspectiva da promoção da vida e do bem comum. Na segunda parte do Evangelho, Jesus explica de maneira mais profunda quatro exemplos do Antigo Testamento. Jesus nos alerta que não basta observar leis para ser justo. É preciso observá-las de maneira pessoal, consciente daquilo que se está fazendo, a fim de realizar o bem ao qual a lei visa. A justiça não depende da observância da lei. É na intenção profunda do coração que se decide a atitude mais verdadeira e mais radical do homem. É para aí que devemos dirigir a atenção e a escolha. Não basta, portanto, não matar, mas é necessário não se irritar. Não basta não cometer adultério; é preciso não desejar a mulher dos outros. Não basta lavar as mãos antes das refeições, mas é necessário purificar o coração. Não basta erguer monumentos aos profetas, mas é preciso não os calar, matando-os. Não basta o sacrifício, pois, de nada serve o ato de culto, se não se põe na própria vida moral e justiça, a misericórdia e a fé. Não basta multiplicar palavras nas orações, mas é necessário ter fé na bondade de Deus. Qual é mesmo a proposta de Jesus para nós? Nossas relações favorecem a justiça que conduz à vida para todos?

O Senhor diz no Evangelho (cf. Mt 5, 17-37) que Ele não veio destruir a antiga Lei, mas dar-lhe a sua plenitude; restaura, aperfeiçoa, e eleva a uma ordem superior os preceitos do Antigo Testamento. Somos convidados a refletir sobre qual deve ser a atitude do cristão diante da Lei de Deus e as implicações que a mesma tem nas nossas opções de vida. Jesus não veio abolir a lei, mas levá-la à perfeição. Depois de ter anunciado os grandes princípios da nova lei, nas bem-aventuranças, Jesus as desenvolve, aprofundando o espírito dos mandamentos dados ao povo de Deus por Moisés. Trata-se de cumprir não apenas materialmente os mandamentos, mas de dar-lhes o verdadeiro espírito de justiça e de amor. Daí as palavras de Jesus: “Ouvistes o que foi dito aos antigos; Eu, porém, vos digo” (Mt 5, 17-37). Isso em relação à vida, à felicidade ao amor conjugal e à verdade. Não basta, por exemplo, não matar; é preciso também evitar palavras de desamor, de ressentimento ou de desprezo para com o próximo. Não basta privar-se dos atos materiais contra a lei; é preciso eliminar também os maus pensamentos e os maus desejos, porque quem os consente, já pecou no “seu coração” (cf. Mt 5, 28): já assassinou o seu irmão ou cometeu adultério.

Quanto à verdade, diz Jesus: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (cf. Mt 5, 37). O cristão é chamado a ser transparente, simples. O contrário seria cheio de dobras, complicado. Não é só não jurar em falso, mas viver de tal modo a verdade, que não se precise jurar de modo algum. Fazer tudo em nome do Senhor, no Senhor.

“Ouvistes o que foi dito aos antigos… Mas eu vos digo” (cf. Mt 5,21-22). Somente Jesus que é Deus pode fazer essas alterações nas tradições dadas por Deus no Antigo Testamento. Jesus é Deus! É incrível como algumas comunidades ainda hoje insistem em alguns preceitos antigos, mas que foram totalmente abolidos pela realidade autenticamente cristã: “ninguém, pois, vos critique por causa de comida ou bebida, ou espécies de festas ou de luas novas ou de sábados. Tudo isto não é mais que sombra do que devia vir.

Contudo, meus irmãos e irmãs, “a realidade é Cristo” (cf. Cl 2,16-17). Enquanto se insistem nessas “sombras da realidade”, é possível que coisas mais importantes sejam descuradas como aquelas que o Senhor nos diz no Evangelho de hoje: viver a caridade para com todos, guardar o coração puro e casto, viver na verdade em todo momento.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ


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Eu, porém, vos digo...

14/02/2020 11:35

Temos a graça de celebrarmos neste final de semana o sexto domingo do Tempo Comum. A primeira leitura (cf. Eclo 15,15-21) deixa claro que cada pessoa é sujeito de sua felicidade ou desgraça, à medida que faz opções a favor da vida ou a favor da morte. Deus deixa toda liberdade de escolha às pessoas, mas aponta, ao mesmo tempo, o único caminho certo: “Escolha, pois, a vida…” (cf. Dt 30,19). É, portanto, responsável pela própria vida! São Paulo em sua carta, lida na segunda leitura da missa, chamou os cristãos de Corinto (cf. 1Cor 2,6-10) de pessoas maduras na fé, porque se abriram à novidade de Jesus Cristo crucificado. A maturidade na fé começa quando se entende o mistério da encarnação, morte e ressurreição de Jesus. A sabedoria da qual fala Paulo é o projeto de Deus, ‘‘uma sabedoria misteriosa, escondida, que Ele reservou antes dos séculos para a nossa glória.” (cf. 1Cor 2,7) As comunidades de Corinto são destinatárias dessa sabedoria, porque, em sua pobreza, escolheram o projeto de Deus já anunciado pelos profetas. O mesmo Deus, que caminhou no passado com seu povo, está presente agora na comunidade que aceitou Jesus crucificado, revelando seu projeto por meio do Espírito. 

O texto do Evangelho escolhido para este domingo é a continuação do Sermão da Montanha ou um desdobramento das bem-aventuranças (cf. Mt 5,17-37). Ele afirma que Jesus não veio para destruir o Antigo Testamento, mas para cumprir, pois Ele respeitou as leis e as instituições de seu povo, e sempre as interpretou na perspectiva da promoção da vida e do bem comum. Na segunda parte do Evangelho, Jesus explica de maneira mais profunda quatro exemplos do Antigo Testamento. Jesus nos alerta que não basta observar leis para ser justo. É preciso observá-las de maneira pessoal, consciente daquilo que se está fazendo, a fim de realizar o bem ao qual a lei visa. A justiça não depende da observância da lei. É na intenção profunda do coração que se decide a atitude mais verdadeira e mais radical do homem. É para aí que devemos dirigir a atenção e a escolha. Não basta, portanto, não matar, mas é necessário não se irritar. Não basta não cometer adultério; é preciso não desejar a mulher dos outros. Não basta lavar as mãos antes das refeições, mas é necessário purificar o coração. Não basta erguer monumentos aos profetas, mas é preciso não os calar, matando-os. Não basta o sacrifício, pois, de nada serve o ato de culto, se não se põe na própria vida moral e justiça, a misericórdia e a fé. Não basta multiplicar palavras nas orações, mas é necessário ter fé na bondade de Deus. Qual é mesmo a proposta de Jesus para nós? Nossas relações favorecem a justiça que conduz à vida para todos?

O Senhor diz no Evangelho (cf. Mt 5, 17-37) que Ele não veio destruir a antiga Lei, mas dar-lhe a sua plenitude; restaura, aperfeiçoa, e eleva a uma ordem superior os preceitos do Antigo Testamento. Somos convidados a refletir sobre qual deve ser a atitude do cristão diante da Lei de Deus e as implicações que a mesma tem nas nossas opções de vida. Jesus não veio abolir a lei, mas levá-la à perfeição. Depois de ter anunciado os grandes princípios da nova lei, nas bem-aventuranças, Jesus as desenvolve, aprofundando o espírito dos mandamentos dados ao povo de Deus por Moisés. Trata-se de cumprir não apenas materialmente os mandamentos, mas de dar-lhes o verdadeiro espírito de justiça e de amor. Daí as palavras de Jesus: “Ouvistes o que foi dito aos antigos; Eu, porém, vos digo” (Mt 5, 17-37). Isso em relação à vida, à felicidade ao amor conjugal e à verdade. Não basta, por exemplo, não matar; é preciso também evitar palavras de desamor, de ressentimento ou de desprezo para com o próximo. Não basta privar-se dos atos materiais contra a lei; é preciso eliminar também os maus pensamentos e os maus desejos, porque quem os consente, já pecou no “seu coração” (cf. Mt 5, 28): já assassinou o seu irmão ou cometeu adultério.

Quanto à verdade, diz Jesus: “Seja o vosso sim, sim, e o vosso não, não” (cf. Mt 5, 37). O cristão é chamado a ser transparente, simples. O contrário seria cheio de dobras, complicado. Não é só não jurar em falso, mas viver de tal modo a verdade, que não se precise jurar de modo algum. Fazer tudo em nome do Senhor, no Senhor.

“Ouvistes o que foi dito aos antigos… Mas eu vos digo” (cf. Mt 5,21-22). Somente Jesus que é Deus pode fazer essas alterações nas tradições dadas por Deus no Antigo Testamento. Jesus é Deus! É incrível como algumas comunidades ainda hoje insistem em alguns preceitos antigos, mas que foram totalmente abolidos pela realidade autenticamente cristã: “ninguém, pois, vos critique por causa de comida ou bebida, ou espécies de festas ou de luas novas ou de sábados. Tudo isto não é mais que sombra do que devia vir.

Contudo, meus irmãos e irmãs, “a realidade é Cristo” (cf. Cl 2,16-17). Enquanto se insistem nessas “sombras da realidade”, é possível que coisas mais importantes sejam descuradas como aquelas que o Senhor nos diz no Evangelho de hoje: viver a caridade para com todos, guardar o coração puro e casto, viver na verdade em todo momento.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ


Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro