Arquidiocese do Rio de Janeiro

31º 22º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 12/12/2019

12 de Dezembro de 2019

Cristo Rei

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24/11/2019 00:00

Cristo Rei 0

24/11/2019 00:00

Com a semana que começa na Solenidade de Cristo, Rei do Universo, encerramos o Ano Litúrgico. No domingo seguinte, dia 1 de dezembro, será o primeiro domingo do Advento, um novo Ano Litúrgico, início da preparação para o Natal. Esta Solenidade de Cristo Rei e Senhor de todas as coisas criadas foi especialmente instituída para nos mostrar Jesus como único soberano de uma sociedade que parece querer viver de costas para Deus. Como é final do ano litúrgico nos direciona para o final de nossa vida e a conclusão dos tempos: Cristo deve reinar em nossas vidas e em nossos relacionamentos. A solenidade de hoje foi instituída no Ano Jubilar de 1925 pelo Papa Pio XI com a Carta Encíclica “Quas Primas” (QP), com o qual coincidiu o 16º centenário do Concílio de Niceia, que proclamara a divindade do Filho de Deus; este Concílio inseriu também em sua fórmula de fé as palavras: “cujo reino não terá fim”, afirmando assim a dignidade real de Cristo (cf. QP 2).

Quando nós cristãos confessamos que Cristo é Rei estamos nos referindo que acreditamos com todo o coração e confessamos com toda convicção que Jesus Cristo – e só ele! – é Rei: Rei do universo, Rei da história, Rei da humanidade, Rei da vida de cada pessoa humana, cristã ou não-cristã. Ele é Rei porque é Deus feito homem, é, como diz a Escritura, aqu’Ele “através de quem e para quem todas as coisas foram criadas, no céu e na terra… Tudo foi criado através d’Ele e para Ele… Ele é o Primogênito dentre os mortos” (cf. Cl 1,1518). Ele reina da Cruz como nos faz referência o evangelho do dia.

Jesus veio ao mundo para buscar e salvar o que estava perdido; veio em busca dos homens dispersos e afastados de Deus pelo pecado. E como estavam feridos e doentes, curou-os as feridas. Tanto os amou que deu a vida por eles. Como Rei, vem para revelar o amor de Deus, para ser o Mediador da Nova Aliança, o Redentor do homem. No Prefácio da Missa fala-se de Jesus que ofereceu ao Pai “um reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz”.

No Evangelho da festa (cf. Lc 23,35-43) percebe-se o desejo através da conjunção ‘se’: “se és o Cristo, o escolhido de Deus!” – manifestam os príncipes dos sacerdotes; “se és o rei dos judeus” – dizem os soldados; “se és o Cristo” – diz um dos malfeitores crucificados com Jesus. Parece existir uma dúvida que no fundo é um “grito silencioso” que poderia ser traduzido dessa maneira: “Por favor, Senhor, se manifesta; por favor, me diz quem é você. Não aconteça que pela minha ignorância, venha eu a perecer. Se você é o Cristo, me salva”. Frequentemente, diante da aparente indiferença em relação à escuta do Evangelho, devemos escutar esse apelo oculto, silencioso, um grito suplantado.

O chamado “bom ladrão” teve coragem de expressar nitidamente o desejo do seu coração: “Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!” (cf. Lc 23,42) Não devemos temer as revoltas humanas contra Deus. Temos a esperança de que, um dia, essas pessoas possam dizer como esse pecador que, como era um bom ladrão, soube “roubar” o céu nos últimos minutos de vida. Tenhamos por certo: a verdade de Cristo é que o que todos os homens e mulheres desejam, sabendo ou não.

A Liturgia da solenidade coloca como antífona de entrada do Missal romano uma frase do Apocalipse que é surpreendente: “O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A Ele a glória e poder através dos séculos!” (cf. Ap 5,12,1,6) Frase surpreendente, sim! Quem é aqu’Ele que proclamamos Rei? O Cordeiro; e Cordeiro imolado. Cordeiro evoca mansidão, paz, fragilidade… Nosso Rei é o Cordeiro que foi esmagado na cruz, aqu’Ele que foi imolado pelo Pecado do mundo. O mundo passou e passa por cima do nosso Rei, refuta seu Evangelho, desdenha de sua Palavra, ridiculariza seus preceitos, calunia sua Igreja… Esse Rei é aqu’Ele que foi crucificado, que foi derrotado e terminou sozinho, é o homem de dores prenunciado por Isaías. No Evangelho escutamos que zombaram e zombam d’Ele: “A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se de fato é o Cristo de Deus, o Escolhido! Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” (cf. Lc 23,35.39).

Jesus não é Rei nos moldes dos reis da Terra. O reinado de Cristo somente pode ser compreendido a partir da lógica do próprio Cristo: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (cf. Mc 10,45). Eis o modo que Cristo tem de reinar: servindo, dando vida e entregando a própria vida. Ele mesmo disse: “Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim…” (cf. Mc 10,42s). Cristo é Rei porque Se fez solidário conosco ao fazer-Se um de nós, é Rei porque tomou nossa vida sobre seus ombros, é Rei porque passou entre nós servindo até o maior serviço: entregar-se totalmente na cruz.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ



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Cristo Rei

24/11/2019 00:00

Com a semana que começa na Solenidade de Cristo, Rei do Universo, encerramos o Ano Litúrgico. No domingo seguinte, dia 1 de dezembro, será o primeiro domingo do Advento, um novo Ano Litúrgico, início da preparação para o Natal. Esta Solenidade de Cristo Rei e Senhor de todas as coisas criadas foi especialmente instituída para nos mostrar Jesus como único soberano de uma sociedade que parece querer viver de costas para Deus. Como é final do ano litúrgico nos direciona para o final de nossa vida e a conclusão dos tempos: Cristo deve reinar em nossas vidas e em nossos relacionamentos. A solenidade de hoje foi instituída no Ano Jubilar de 1925 pelo Papa Pio XI com a Carta Encíclica “Quas Primas” (QP), com o qual coincidiu o 16º centenário do Concílio de Niceia, que proclamara a divindade do Filho de Deus; este Concílio inseriu também em sua fórmula de fé as palavras: “cujo reino não terá fim”, afirmando assim a dignidade real de Cristo (cf. QP 2).

Quando nós cristãos confessamos que Cristo é Rei estamos nos referindo que acreditamos com todo o coração e confessamos com toda convicção que Jesus Cristo – e só ele! – é Rei: Rei do universo, Rei da história, Rei da humanidade, Rei da vida de cada pessoa humana, cristã ou não-cristã. Ele é Rei porque é Deus feito homem, é, como diz a Escritura, aqu’Ele “através de quem e para quem todas as coisas foram criadas, no céu e na terra… Tudo foi criado através d’Ele e para Ele… Ele é o Primogênito dentre os mortos” (cf. Cl 1,1518). Ele reina da Cruz como nos faz referência o evangelho do dia.

Jesus veio ao mundo para buscar e salvar o que estava perdido; veio em busca dos homens dispersos e afastados de Deus pelo pecado. E como estavam feridos e doentes, curou-os as feridas. Tanto os amou que deu a vida por eles. Como Rei, vem para revelar o amor de Deus, para ser o Mediador da Nova Aliança, o Redentor do homem. No Prefácio da Missa fala-se de Jesus que ofereceu ao Pai “um reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz”.

No Evangelho da festa (cf. Lc 23,35-43) percebe-se o desejo através da conjunção ‘se’: “se és o Cristo, o escolhido de Deus!” – manifestam os príncipes dos sacerdotes; “se és o rei dos judeus” – dizem os soldados; “se és o Cristo” – diz um dos malfeitores crucificados com Jesus. Parece existir uma dúvida que no fundo é um “grito silencioso” que poderia ser traduzido dessa maneira: “Por favor, Senhor, se manifesta; por favor, me diz quem é você. Não aconteça que pela minha ignorância, venha eu a perecer. Se você é o Cristo, me salva”. Frequentemente, diante da aparente indiferença em relação à escuta do Evangelho, devemos escutar esse apelo oculto, silencioso, um grito suplantado.

O chamado “bom ladrão” teve coragem de expressar nitidamente o desejo do seu coração: “Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!” (cf. Lc 23,42) Não devemos temer as revoltas humanas contra Deus. Temos a esperança de que, um dia, essas pessoas possam dizer como esse pecador que, como era um bom ladrão, soube “roubar” o céu nos últimos minutos de vida. Tenhamos por certo: a verdade de Cristo é que o que todos os homens e mulheres desejam, sabendo ou não.

A Liturgia da solenidade coloca como antífona de entrada do Missal romano uma frase do Apocalipse que é surpreendente: “O Cordeiro que foi imolado é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a força e a honra. A Ele a glória e poder através dos séculos!” (cf. Ap 5,12,1,6) Frase surpreendente, sim! Quem é aqu’Ele que proclamamos Rei? O Cordeiro; e Cordeiro imolado. Cordeiro evoca mansidão, paz, fragilidade… Nosso Rei é o Cordeiro que foi esmagado na cruz, aqu’Ele que foi imolado pelo Pecado do mundo. O mundo passou e passa por cima do nosso Rei, refuta seu Evangelho, desdenha de sua Palavra, ridiculariza seus preceitos, calunia sua Igreja… Esse Rei é aqu’Ele que foi crucificado, que foi derrotado e terminou sozinho, é o homem de dores prenunciado por Isaías. No Evangelho escutamos que zombaram e zombam d’Ele: “A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se de fato é o Cristo de Deus, o Escolhido! Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!” (cf. Lc 23,35.39).

Jesus não é Rei nos moldes dos reis da Terra. O reinado de Cristo somente pode ser compreendido a partir da lógica do próprio Cristo: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muitos” (cf. Mc 10,45). Eis o modo que Cristo tem de reinar: servindo, dando vida e entregando a própria vida. Ele mesmo disse: “Sabeis que aqueles que vemos governar as nações as dominam, e os seus grandes as tiranizam. Entre vós não será assim…” (cf. Mc 10,42s). Cristo é Rei porque Se fez solidário conosco ao fazer-Se um de nós, é Rei porque tomou nossa vida sobre seus ombros, é Rei porque passou entre nós servindo até o maior serviço: entregar-se totalmente na cruz.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ



Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro