Arquidiocese do Rio de Janeiro

37º 19º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 14/10/2019

14 de Outubro de 2019

Homilia – 26º Domingo do Tempo Comum

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14 de Outubro de 2019

Homilia – 26º Domingo do Tempo Comum

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Homilia – 26º Domingo do Tempo Comum 0

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Neste domingo, tanto a primeira leitura quanto o Evangelho, apresentam graves contrastes sociais. Na primeira leitura, o profeta Amós denuncia aqueles que “dormem em camas de marfim”, “comem cordeiros do rebanho”, “bebem vinhos em taças”, mas “não se preocupam com a ruína de José”. Amós mostra o grande contraste que há, na sociedade de seu tempo, entre os que possuem grandes fortunas, uma vida regalada, e os pobres que vivem desassistidos. Não é possível conceber que alguém possa conciliar a fé em Deus com a injustiça, ou com a despreocupação com os graves males que a miséria pode trazer para a vida do outro.

Em Am 6,7 encontramos o anúncio do juízo que se abaterá sobre o povo: “Por isso, eles irão agora para o desterro, na primeira fila...” O exílio do Reino do Norte, ocorrido em 722 a.C., foi uma desgraça que se abateu sobre todo o povo. O profeta anuncia, contudo, que os primeiros a sofrerem tal desgraça serão os “gozadores”, literalmente, os que “estão estirados” em seus divãs, divertindo-se em seus banquetes, sem se preocupar com os mais necessitados. Sua sorte mudará bruscamente, e eles se verão, de repente, na mesma situação daqueles a quem eles oprimem. Talvez isso sirva para produzir nesses injustos a conversão.

A mesma “mudança de sorte” para os ricos que não se preocupam com os mais necessitados é apresentada no Evangelho. O cap. 16 de Lucas é emoldurado por duas parábolas, que trazem como tema o bom e o mau uso das riquezas. Em Lc 16,1 Jesus está se dirigindo aos discípulos. Contudo, no v. 14, Jesus dirige uma palavra aos fariseus “amigos do dinheiro”, o que faz pensar que agora, diante da segunda parábola, o auditório se compõe por estes dois grupos: os discípulos e os fariseus.

Os vv. 19-21 trazem uma “cena terrestre”: de um lado, um “rico”, sem nome, que se veste com roupas finas (linho e púrpura) e faz grandes banquetes “todos os dias”; de outro lado, um pobre, mas que tem um nome: Lázaro, que significa “Deus ajuda!”. O nome significativo do pobre e a ausência de nome para o rico já anuncia um primeiro contraste. Além disso, a figura e a situação de Lázaro é descrita de modo mais detalhado que a figura e a situação do “rico”. Estes primeiros versículos colocam a diferente sorte destes dois homens neste plano terreno: o rico tem tudo de sobra, mas não se importa com o pobre Lázaro que jaz à porta. Embora o texto não traga uma condenação explícita para o rico, esta nasce naturalmente em quem contempla a cena.

Os versículos seguintes, 22 e 23, nos transportam para o plano celeste. O pobre Lázaro morre e os anjos o levam ao seio de Abraão. Aquele que, na vida terrena, não mereceu sequer um gesto de bondade do rico, agora é carregado “por anjos”. A sua situação nós a vemos pelos olhos do rico que, no meio dos seus tormentos, “vê”, “ao longe”, Abraão com Lázaro ao seu lado.

Houve uma grande mudança de sorte no além para esses dois homens. Como se pode perceber no diálogo que se estabelecerá entre o rico e Abraão, o rico se torna “mendigo” e começa a suplicar. Sua primeira súplica é para que Abraão permita que Lázaro o ajude, mas é impossível. Existe um “grande abismo” entre eles, um abismo intransponível. Durante a vida terrena, esse abismo podia ser transposto, preenchido pela caridade do rico. Com o seu dinheiro ele poderia ter feito uma ponte entre ele e o pobre, mas não o quis. Agora, na vida eterna, nada mais pode ser feito: o abismo tornou-se intransponível. A este ponto da parábola compreendemos o que Jesus disse em Lc 16,9: “E eu vos digo: fazei amigos com o Dinheiro da iniquidade, a fim de que, no dia em que faltar, eles vos recebam nas tendas eternas.” Esta é, sem dúvida alguma, uma exortação do Senhor a que pratiquemos a caridade para com os mais necessitados.

As súplicas do rico continuam, ainda envolvendo Lázaro: a segunda e a terceira são em favor da sua família. Ele quer que seus irmãos sejam “prevenidos” por Lázaro do perigo de cair, também eles, naquele lugar de tormento. Abraão diz que a “prevenção” já foi feita: Moisés e o os profetas já anunciaram o que precisa ser feito em vista da vida eterna. Eles devem “escutá-los”, coisa que o rico não fez.

Sua terceira e última tentativa de convencer Abraão se conecta com o tema da ressurreição dos mortos: “se um dos mortos for até eles, certamente vão se convencer”. A resposta de Abraão parece apontar para o tema da incredulidade, mesmo diante de um sinal tão grande como o é a ressurreição de um morto: “Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”. Há quem sugira que este versículo final tenha sido escrito sob a “influência do fracasso da proclamação cristã a Israel: nem sequer a ressurreição de Jesus conseguiu o arrependimento e a conversão do povo eleito”.1

Para nós que ouvimos esta parábola na liturgia, depois de termos acolhido “Moisés e os Profetas”, ou seja, toda a Escritura do Antigo Testamento, e que professamos cada domingo nossa fé no “Ressuscitado”, fica um questionamento: Como nos relacionamos com os bens desse mundo? Será que os utilizamos de modo irresponsável e desmedido, levando uma vida desenfreada, como o filho mais jovem de Lc 15, ou como o rico da parábola de hoje? Será que pensamos nos nossos irmãos desfavorecidos e utilizamos nossos bens em favor deles? Será que damos atenção aos “Lázaros” que a todo momento nos interpelam? É fato que vivemos cercado pelo medo. Muitas vezes, quando um pedinte se aproxima de nós não sabemos se é golpe, assalto ou uma necessidade real. Tudo isso influi, sem dúvida, no nosso comportamento. Contudo, existem pessoas que estão muito próximas de nós, irmãos de comunidade, membros da nossa família, vizinhos, pessoas que trabalham conosco ou para nós e que passam grandes penúrias... Qual é a nossa atitude diante dessas pessoas? Devemos nos recordar que, de acordo com a parábola que ouvimos este domingo na Liturgia, nosso destino eterno depende das decisões e atitudes que tomamos no momento presente...

Por fim, gostaria de me dirigir aos “Lázaros”. Penso que existem muitos e que cada um de nós, em algum momento da nossa vida, se torna “Lázaro”. Às vezes, é a pobreza material que nos aflige; outras vezes, é a doença irremediável; quase sempre, o pecado; muitas e muitas vezes, o desamparo interior e as doenças que daí derivam: depressão, angústia, medo, ansiedade... Mas, nós não estamos sozinhos. O Salmo nos convida a bendizer o Senhor, porque Ele é “fiel” para sempre. Ainda que nossa vida seja toda inteira marcada pela dor e o sofrimento, podemos olhar com confiança para o que está à frente e nos espera: a vida eterna, onde seremos saciados pela visão de Deus.


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Neste domingo, tanto a primeira leitura quanto o Evangelho, apresentam graves contrastes sociais. Na primeira leitura, o profeta Amós denuncia aqueles que “dormem em camas de marfim”, “comem cordeiros do rebanho”, “bebem vinhos em taças”, mas “não se preocupam com a ruína de José”. Amós mostra o grande contraste que há, na sociedade de seu tempo, entre os que possuem grandes fortunas, uma vida regalada, e os pobres que vivem desassistidos. Não é possível conceber que alguém possa conciliar a fé em Deus com a injustiça, ou com a despreocupação com os graves males que a miséria pode trazer para a vida do outro.

Em Am 6,7 encontramos o anúncio do juízo que se abaterá sobre o povo: “Por isso, eles irão agora para o desterro, na primeira fila...” O exílio do Reino do Norte, ocorrido em 722 a.C., foi uma desgraça que se abateu sobre todo o povo. O profeta anuncia, contudo, que os primeiros a sofrerem tal desgraça serão os “gozadores”, literalmente, os que “estão estirados” em seus divãs, divertindo-se em seus banquetes, sem se preocupar com os mais necessitados. Sua sorte mudará bruscamente, e eles se verão, de repente, na mesma situação daqueles a quem eles oprimem. Talvez isso sirva para produzir nesses injustos a conversão.

A mesma “mudança de sorte” para os ricos que não se preocupam com os mais necessitados é apresentada no Evangelho. O cap. 16 de Lucas é emoldurado por duas parábolas, que trazem como tema o bom e o mau uso das riquezas. Em Lc 16,1 Jesus está se dirigindo aos discípulos. Contudo, no v. 14, Jesus dirige uma palavra aos fariseus “amigos do dinheiro”, o que faz pensar que agora, diante da segunda parábola, o auditório se compõe por estes dois grupos: os discípulos e os fariseus.

Os vv. 19-21 trazem uma “cena terrestre”: de um lado, um “rico”, sem nome, que se veste com roupas finas (linho e púrpura) e faz grandes banquetes “todos os dias”; de outro lado, um pobre, mas que tem um nome: Lázaro, que significa “Deus ajuda!”. O nome significativo do pobre e a ausência de nome para o rico já anuncia um primeiro contraste. Além disso, a figura e a situação de Lázaro é descrita de modo mais detalhado que a figura e a situação do “rico”. Estes primeiros versículos colocam a diferente sorte destes dois homens neste plano terreno: o rico tem tudo de sobra, mas não se importa com o pobre Lázaro que jaz à porta. Embora o texto não traga uma condenação explícita para o rico, esta nasce naturalmente em quem contempla a cena.

Os versículos seguintes, 22 e 23, nos transportam para o plano celeste. O pobre Lázaro morre e os anjos o levam ao seio de Abraão. Aquele que, na vida terrena, não mereceu sequer um gesto de bondade do rico, agora é carregado “por anjos”. A sua situação nós a vemos pelos olhos do rico que, no meio dos seus tormentos, “vê”, “ao longe”, Abraão com Lázaro ao seu lado.

Houve uma grande mudança de sorte no além para esses dois homens. Como se pode perceber no diálogo que se estabelecerá entre o rico e Abraão, o rico se torna “mendigo” e começa a suplicar. Sua primeira súplica é para que Abraão permita que Lázaro o ajude, mas é impossível. Existe um “grande abismo” entre eles, um abismo intransponível. Durante a vida terrena, esse abismo podia ser transposto, preenchido pela caridade do rico. Com o seu dinheiro ele poderia ter feito uma ponte entre ele e o pobre, mas não o quis. Agora, na vida eterna, nada mais pode ser feito: o abismo tornou-se intransponível. A este ponto da parábola compreendemos o que Jesus disse em Lc 16,9: “E eu vos digo: fazei amigos com o Dinheiro da iniquidade, a fim de que, no dia em que faltar, eles vos recebam nas tendas eternas.” Esta é, sem dúvida alguma, uma exortação do Senhor a que pratiquemos a caridade para com os mais necessitados.

As súplicas do rico continuam, ainda envolvendo Lázaro: a segunda e a terceira são em favor da sua família. Ele quer que seus irmãos sejam “prevenidos” por Lázaro do perigo de cair, também eles, naquele lugar de tormento. Abraão diz que a “prevenção” já foi feita: Moisés e o os profetas já anunciaram o que precisa ser feito em vista da vida eterna. Eles devem “escutá-los”, coisa que o rico não fez.

Sua terceira e última tentativa de convencer Abraão se conecta com o tema da ressurreição dos mortos: “se um dos mortos for até eles, certamente vão se convencer”. A resposta de Abraão parece apontar para o tema da incredulidade, mesmo diante de um sinal tão grande como o é a ressurreição de um morto: “Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos”. Há quem sugira que este versículo final tenha sido escrito sob a “influência do fracasso da proclamação cristã a Israel: nem sequer a ressurreição de Jesus conseguiu o arrependimento e a conversão do povo eleito”.1

Para nós que ouvimos esta parábola na liturgia, depois de termos acolhido “Moisés e os Profetas”, ou seja, toda a Escritura do Antigo Testamento, e que professamos cada domingo nossa fé no “Ressuscitado”, fica um questionamento: Como nos relacionamos com os bens desse mundo? Será que os utilizamos de modo irresponsável e desmedido, levando uma vida desenfreada, como o filho mais jovem de Lc 15, ou como o rico da parábola de hoje? Será que pensamos nos nossos irmãos desfavorecidos e utilizamos nossos bens em favor deles? Será que damos atenção aos “Lázaros” que a todo momento nos interpelam? É fato que vivemos cercado pelo medo. Muitas vezes, quando um pedinte se aproxima de nós não sabemos se é golpe, assalto ou uma necessidade real. Tudo isso influi, sem dúvida, no nosso comportamento. Contudo, existem pessoas que estão muito próximas de nós, irmãos de comunidade, membros da nossa família, vizinhos, pessoas que trabalham conosco ou para nós e que passam grandes penúrias... Qual é a nossa atitude diante dessas pessoas? Devemos nos recordar que, de acordo com a parábola que ouvimos este domingo na Liturgia, nosso destino eterno depende das decisões e atitudes que tomamos no momento presente...

Por fim, gostaria de me dirigir aos “Lázaros”. Penso que existem muitos e que cada um de nós, em algum momento da nossa vida, se torna “Lázaro”. Às vezes, é a pobreza material que nos aflige; outras vezes, é a doença irremediável; quase sempre, o pecado; muitas e muitas vezes, o desamparo interior e as doenças que daí derivam: depressão, angústia, medo, ansiedade... Mas, nós não estamos sozinhos. O Salmo nos convida a bendizer o Senhor, porque Ele é “fiel” para sempre. Ainda que nossa vida seja toda inteira marcada pela dor e o sofrimento, podemos olhar com confiança para o que está à frente e nos espera: a vida eterna, onde seremos saciados pela visão de Deus.


Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida