Arquidiocese do Rio de Janeiro

36º 23º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/09/2019

20 de Setembro de 2019

15 de setembro – 24º Domingo do Tempo Comum

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15 de setembro – 24º Domingo do Tempo Comum

Ex 32,7-11.13-14
Sl 50 (51)
1Tm 1,12-17
Lc 15,1-32

Meu filho estava morto e tornou a viver...

As leituras desse domingo nos fazem contemplar a misericórdia de Deus. A primeira leitura é um trecho do livro do Êxodo que nos faz perceber como Deus passa da ira para a misericórdia.

A cena se passa aos pés do Sinai. Enquanto Moisés está diante da face de Deus recebendo as tábuas da Lei, o povo, que achava que Moisés já se demorava muito, se reuniu em torno de Aarão e pediu que este lhes fizesse “um deus”, uma imagem à qual eles pudessem chamar de deus e assim foi feito (cf. Ex 32,1-6).

O Senhor dá, então, uma ordem a Moisés: “Vai, desce, pois corrompeu-se o teu povo, que tiraste da terra do Egito.” Nos vv. 9-10 o Senhor lança uma grave ameaça contra o povo: “Vejo que este é um povo de cabeça dura. Deixa que minha cólera se inflame contra eles e que eu os extermine. Mas de ti farei uma grande nação”.

Moisés, contudo, do v.11 em diante aparece como um intercessor, que suplica a misericórdia de Deus pelo povo. Dois verbos marcam essa parte do discurso de Moisés: o verbo “suplicar” no v. 11 e o verbo “lembrar” no v. 13. Moisés “suplica”, “intercede pelo povo”, pede que Deus se “lembre” da sua Aliança. O v. 14, por sua vez, conclui este trecho, mostrando como a misericórdia de Deus se realizou: “E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer ao seu povo.”

Essa misericórdia divina já contemplada no Antigo Testamento será revelada de modo perfeito no Novo Testamento, pelo próprio Cristo. Hoje, o relato evangélico, nos apresenta as três parábolas da misericórdia de Lucas, que apresentam temas comuns: algo que é perdido; a busca e depois o reencontro; a alegria que brota desse reencontro marcada por uma festa.

Nosso olhar poderia, no conjunto do texto, se dirigir para a terceira parábola, a que ocupa a maior parte do relato evangélico: a parábola dos dois filhos. Esses dois filhos nos remetem ao início do cap. 15 onde Lucas diz nos vv. 1-2: “Naquele tempo, os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres da Lei, criticavam Jesus.” Os dois filhos da parábola, já de início, nos apontam para os dois tipos de ouvintes que estão diante de Jesus: pecadores e fariseus/mestres da Lei.

O filho mais jovem é o que sobressai na primeira parte do relato. Ele pede ao pai “a parte da herança que lhe cabe”. O pai divide os bens, e dá ao mais moço o que lhe cabe. É interessante notar o vocabulário utilizado por Lucas nesse início da parábola. O evangelista utiliza dois termos distintos para designar a “herança” pedida pelo filho mais moço ao seu pai no v. 12. Na boca do filho mais novo, Lucas coloca o termo grego “ousia”, que habitualmente traduzimos na teologia como “substância”, mas que pode designar, também a “propriedade”, a riqueza, algo que alguém possui, no caso, a “herança”. Mas, ainda no mesmo versículo, o termo que Lucas utiliza para indicar a “herança” ou “os bens” que o pai dividiu entre seus filhos é o termo “bios”, que habitualmente traduzimos como “vida”. O filho pede os bens, contudo, junto com os bens, o pai dá ao seu filho a sua própria vida, pois afinal o filho faz parte da vida do pai e, com ele, se vai, metaforicamente, também uma parte da vida do pai.

Esse filho parte para uma terra distante e gasta tudo numa vida “dissoluta” ou “desenfreada” como traduzem alguns. No meio da penúria, contudo, o filho de recorda da fartura existente na casa paterna (cf. v. 17). Ele prepara então um discurso (v. 18), se levanta, e parte para ir ao encontro da fartura que ele havia abandonado. Alguns acreditam que poderíamos ver já aqui nesse gesto, ainda que motivado pela falta dos bens materiais, o início da conversão do filho, que empreende o caminho de volta para a casa paterna. Outros, contudo, preferem ver a conversão do filho no momento do abraço paterno. Esta atitude do pai, de fato, o surpreende. Não somente o pai já o aguardava, porque o evangelista diz que quando ele ainda estava “longe” o pai o avistou e correu-lhe ao encontro (cf. v. 20).

A parábola caminha para o mesmo desfecho que as anteriores, ou seja, depois de dar ao filho que retorna os sinais que indicam a retomada da sua dignidade: anel, sandália e veste nova, o Pai manda preparar uma festa, manda matar o novilho cevado, e manda todos entrarem na sua alegria.

É neste momento da parábola que o filho mais velho, imagem dos fariseus, entra em cena. Ele não entra na festa e, quando o pai vai ao seu encontro, porque também a este o pai procura, ele despeja no pai a sua amargura: “Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado”. Embora nunca tenha transgredido nenhum dos mandamentos, o filho mais velho também não se sentir filho. Ele sentia apenas como um empregado que espera ansiosamente uma recompensa. E o pior é que ele não aceita entrar na alegria do pai, que consiste em receber e acolher de volta o filho perdido.

E assim termina a parábola, sem sabermos se o filho mais velho se “converterá”. Contudo, acolhemos as palavras do pai da parábola: “era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido, e foi encontrado.”

Essa parábola se torna um estímulo para nós. Devemos estar seguros da misericórdia do Pai dos céus. Se dele nos afastamos, não importa o quão longe tenhamos ido, ele sempre estará nos esperando, aguardando ansiosamente a nossa volta para também nos abraçar e cobrir de beijos. Ele deseja pôr em nosso dedo um anel novo, renovando conosco sua aliança de amor. Ele deseja tirar as nossas vestes e nos dar uma veste nova, aquela mesma com a qual Ele nos revestiu no dia do nosso batismo. Ele deseja, enfim, pôr em nossos pés cansados e feridos sandálias novas, para que possamos continuar nossa caminhada até a Jerusalém Celeste.


 
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Ex 32,7-11.13-14
Sl 50 (51)
1Tm 1,12-17
Lc 15,1-32

Meu filho estava morto e tornou a viver...

As leituras desse domingo nos fazem contemplar a misericórdia de Deus. A primeira leitura é um trecho do livro do Êxodo que nos faz perceber como Deus passa da ira para a misericórdia.

A cena se passa aos pés do Sinai. Enquanto Moisés está diante da face de Deus recebendo as tábuas da Lei, o povo, que achava que Moisés já se demorava muito, se reuniu em torno de Aarão e pediu que este lhes fizesse “um deus”, uma imagem à qual eles pudessem chamar de deus e assim foi feito (cf. Ex 32,1-6).

O Senhor dá, então, uma ordem a Moisés: “Vai, desce, pois corrompeu-se o teu povo, que tiraste da terra do Egito.” Nos vv. 9-10 o Senhor lança uma grave ameaça contra o povo: “Vejo que este é um povo de cabeça dura. Deixa que minha cólera se inflame contra eles e que eu os extermine. Mas de ti farei uma grande nação”.

Moisés, contudo, do v.11 em diante aparece como um intercessor, que suplica a misericórdia de Deus pelo povo. Dois verbos marcam essa parte do discurso de Moisés: o verbo “suplicar” no v. 11 e o verbo “lembrar” no v. 13. Moisés “suplica”, “intercede pelo povo”, pede que Deus se “lembre” da sua Aliança. O v. 14, por sua vez, conclui este trecho, mostrando como a misericórdia de Deus se realizou: “E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer ao seu povo.”

Essa misericórdia divina já contemplada no Antigo Testamento será revelada de modo perfeito no Novo Testamento, pelo próprio Cristo. Hoje, o relato evangélico, nos apresenta as três parábolas da misericórdia de Lucas, que apresentam temas comuns: algo que é perdido; a busca e depois o reencontro; a alegria que brota desse reencontro marcada por uma festa.

Nosso olhar poderia, no conjunto do texto, se dirigir para a terceira parábola, a que ocupa a maior parte do relato evangélico: a parábola dos dois filhos. Esses dois filhos nos remetem ao início do cap. 15 onde Lucas diz nos vv. 1-2: “Naquele tempo, os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres da Lei, criticavam Jesus.” Os dois filhos da parábola, já de início, nos apontam para os dois tipos de ouvintes que estão diante de Jesus: pecadores e fariseus/mestres da Lei.

O filho mais jovem é o que sobressai na primeira parte do relato. Ele pede ao pai “a parte da herança que lhe cabe”. O pai divide os bens, e dá ao mais moço o que lhe cabe. É interessante notar o vocabulário utilizado por Lucas nesse início da parábola. O evangelista utiliza dois termos distintos para designar a “herança” pedida pelo filho mais moço ao seu pai no v. 12. Na boca do filho mais novo, Lucas coloca o termo grego “ousia”, que habitualmente traduzimos na teologia como “substância”, mas que pode designar, também a “propriedade”, a riqueza, algo que alguém possui, no caso, a “herança”. Mas, ainda no mesmo versículo, o termo que Lucas utiliza para indicar a “herança” ou “os bens” que o pai dividiu entre seus filhos é o termo “bios”, que habitualmente traduzimos como “vida”. O filho pede os bens, contudo, junto com os bens, o pai dá ao seu filho a sua própria vida, pois afinal o filho faz parte da vida do pai e, com ele, se vai, metaforicamente, também uma parte da vida do pai.

Esse filho parte para uma terra distante e gasta tudo numa vida “dissoluta” ou “desenfreada” como traduzem alguns. No meio da penúria, contudo, o filho de recorda da fartura existente na casa paterna (cf. v. 17). Ele prepara então um discurso (v. 18), se levanta, e parte para ir ao encontro da fartura que ele havia abandonado. Alguns acreditam que poderíamos ver já aqui nesse gesto, ainda que motivado pela falta dos bens materiais, o início da conversão do filho, que empreende o caminho de volta para a casa paterna. Outros, contudo, preferem ver a conversão do filho no momento do abraço paterno. Esta atitude do pai, de fato, o surpreende. Não somente o pai já o aguardava, porque o evangelista diz que quando ele ainda estava “longe” o pai o avistou e correu-lhe ao encontro (cf. v. 20).

A parábola caminha para o mesmo desfecho que as anteriores, ou seja, depois de dar ao filho que retorna os sinais que indicam a retomada da sua dignidade: anel, sandália e veste nova, o Pai manda preparar uma festa, manda matar o novilho cevado, e manda todos entrarem na sua alegria.

É neste momento da parábola que o filho mais velho, imagem dos fariseus, entra em cena. Ele não entra na festa e, quando o pai vai ao seu encontro, porque também a este o pai procura, ele despeja no pai a sua amargura: “Eu trabalho para ti há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com prostitutas, matas para ele o novilho cevado”. Embora nunca tenha transgredido nenhum dos mandamentos, o filho mais velho também não se sentir filho. Ele sentia apenas como um empregado que espera ansiosamente uma recompensa. E o pior é que ele não aceita entrar na alegria do pai, que consiste em receber e acolher de volta o filho perdido.

E assim termina a parábola, sem sabermos se o filho mais velho se “converterá”. Contudo, acolhemos as palavras do pai da parábola: “era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido, e foi encontrado.”

Essa parábola se torna um estímulo para nós. Devemos estar seguros da misericórdia do Pai dos céus. Se dele nos afastamos, não importa o quão longe tenhamos ido, ele sempre estará nos esperando, aguardando ansiosamente a nossa volta para também nos abraçar e cobrir de beijos. Ele deseja pôr em nosso dedo um anel novo, renovando conosco sua aliança de amor. Ele deseja tirar as nossas vestes e nos dar uma veste nova, aquela mesma com a qual Ele nos revestiu no dia do nosso batismo. Ele deseja, enfim, pôr em nossos pés cansados e feridos sandálias novas, para que possamos continuar nossa caminhada até a Jerusalém Celeste.