Arquidiocese do Rio de Janeiro

36º 23º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/09/2019

20 de Setembro de 2019

Condições para ser discípulo

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08/09/2019 00:00

Condições para ser discípulo 0

08/09/2019 00:00

Neste dia 8 de setembro, em que celebramos o 23º Domingo do tempo Comum, existe a tradição litúrgica de celebrar a Natividade de Nossa Senhora. Mas neste ano prevalece a celebração do Dia do Senhor, a não ser onde essa comemoração mariana tenha o grau de solenidade. Neste 23º Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus vai mais uma vez iluminar nossa vida e fazer-nos viver melhor nosso relacionamento com o Senhor. Ao mesmo tempo seguimos no aprofundamento, nas reflexões e nas meditações sobre o mês temático, o mês da Bíblia, em que aprofundamos neste ano a 1ª Carta de João: conhecer o autor, conhecer a época, conhecer os destinatários, conhecer as influências culturais, conhecer o esquema da carta e seus ensinamentos principais, de forma especial atentos ao lema: “nós amamos porque Deus primeiro nos amou!” (1 Jo 4, 19). Além dos textos que a Liturgia nos propõe diariamente, temos também esse direcionamento especial no mês da Bíblia, mês em que comemoramos a memória de São Jerônimo no dia 30. Cremos que a Sagrada Escritura contém a revelação Divina, mas sabemos que a Bíblia foi escrita por homens e para homens, tendo Deus por autor. Sendo assim, é também importante aprofundar a Bíblia tendo um olhar científico para uma melhor compreensão da mensagem divina quem vem a nós por meio de linguagem humana. 

Estamos vivenciando também, neste final de semana, o 4º congresso nacional vocacional, que tem como tema vocação e discernimento e como lema: mostra-me Senhor os teus caminhos. Desejamos que aqueles que estão participando possam voltar para as suas comunidades animados pelo fato de serem vocacionados do Pai e assim animar a todos os outros na proclamação da boa nova do Reino.

Neste final de semana, a Palavra de Deus coloca umas condições para o seguimento de Jesus Cristo e as consequências que são inerentes a este seguimento. O Evangelho de Lc 14, 25-33, começa citando a grande quantidade de pessoas que seguiam Jesus devido aos milagres e sinais que realizava: Naquele tempo: Grandes multidões acompanhavam Jesus.

É interessante notar o entusiasmo que a figura de Jesus despertou e que ainda continua despertando. Vemos pessoas que seguem, participam de grandes manifestações, encontros, etc. Porém, Jesus que estas multidões que o seguem nem sempre há pessoas que saibam o que significa o verdadeiro seguimento de Cristo, viver com Cristo: o compromisso existencial, as renúncias, a conversão de vida, a nova forma de ver-se e ver o outro. Talvez seja esta uma das dificuldades que encontramos hoje no seguimento de Cristo, onde há um entusiasmo muito grande para os seguimentos multitudinários, mas pouca tradução desse seguimento na simplicidade do dia a dia e nas ações concretas: em casa, na escola, no trabalho, no ônibus, no mercado, etc. É nesse sentido que Jesus, vendo essas multidões todas, dirige algumas palavras onde coloca as condições para o verdadeiro seguimento dele. Seguir Cristo significa estar perto dele, intimidade com sua presença e viver aquilo que Ele ensina. O Cristão é chamado a ser outro Cristo, Cristo que passa nas circunstâncias existenciais concretas. Não bastam as multidões que estejam interessadas pela figura de Jesus. É necessário deixar-se transformar por ele, formando a comunidade dos discípulos de Jesus. No Evangelho ele vai apresentando algumas das condições, como a de amar a Deus sobre todas as coisas, colocando o verdadeiro centro de nossa vida como orientação fundamental de todo o nosso caminhar: Voltando-se, ele lhes disse: 'Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo (Amar a Deus sobre todas as coisas!). A cruz pesa sobre os ombros de todos os homens e das mais variadas formas. O seguimento de Cristo não é um seguimento masoquista, onde gostamos e escolhemos voluntariamente o sofrimento. A novidade do cristianismo está em que somos chamados a assumir o sofrimento e não ficarmos parados nos lamentando nele, mas seguir adiante com ele, pois não estamos sós nele. Ele é quem nos sustenta na caminhada. Ser Cristão supõe esta radicalidade positiva de ir adiante e colocar a palavra de Deus em prática. A positividade está em que atribuímos sentido ao que fazemos ou ao que suportamos. Não fazemos meramente por fazer nem suportamos as contradições somente pelo fato de suportar.

Isso pode parecer muito duro num primeiro momento, mas devemos entender essa realidade dentro do conjunto das exigências do Senhor e da linguagem bíblica que reproduzem. Em vários textos do Antigo Testamento, amar e odiar indicam preferência e sobretudo escolha. Sendo assim, as palavras de Jesus devem ser entendidas como uma preferência e como uma escolha decisiva: ser discípulo de Jesus é escolher Deus, sem divisões (primeiro mandamento do decálogo). É nesse sentido que a Tradição da Igreja compreendeu esta passagem, como já nos recordava S Gregório Magno: “Devemos praticar a caridade com todos, com os parentes e os estranhos, mas sem afastar-se do amor de Deus e por amor a eles.” Da mesma forma e com termos parecidos nos ensina o Vaticano II quando afirma que “os cristãos se esforçam por agradar a Deus antes que aos homens, sempre dispostos a deixar tudo por cauda de Cristo” (AA, 4).

Junto com esta realidade, Jesus apresenta então duas parábolas que irão ajuda na compreensão do que foi proposto:
Com efeito: qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar, dizendo: 'Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!' Ou ainda: Qual o rei que ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz. Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!'

As duas comparações aqui apresentadas, a do que começa a edificar uma torre e a do rei que sai para a guerra, ilustram a decisão de deixar tudo para seguir a Jesus. Mas a decisão, se não estiver amparada pelas ações do dia a dia, não teremos ânimo suficiente para terminar a obra, nem para lutar contra as coisas mundanas e o resultado será a vergonha ou a derrota, conforme dizia também S. Gregório Magno: “Se não podes renunciar a todas as coisas do mundo, que de tal modo as utilizes que não sejas detido no mundo. Deves possuir as coisas da terra, não ser possuídos por elas. As coisas terrenas são para ser usadas, as eternas para ser possuídas. Usemos as coisas terrenas, mas desejemos chegar à posse das eternas.”
Dentro dessa linha é que iremos ler a segunda leitura a carta de São Paulo a Filêmon (Fm 9b-10.12-17). Ele era um cristão, dono de muitas posses, que teve um de seus escravos, Onésimo, que fugiu e foi preso. Na prisão se encontra com Paulo, que estava preso por causa de Cristo e lhe comunica a mensagem do Evangelho e Onésimo acaba sendo batizado. Paulo então escreve como que um bilhete de recomendação a Filêmon, pedindo q ele receba Onésimo de uma outra forma, pois a partir de agora ele é irmão dele no Senhor:

“Caríssimo: Eu, Paulo, velho como estou e agora também prisioneiro de Cristo Jesus, faço-te um pedido em favor do meu filho que fiz nascer para Cristo na prisão, Onésimo. Eu o estou mandando de volta para ti. Ele é como se fosse o meu próprio coração. Gostaria de tê-lo comigo, a fim de que fosse teu representante para cuidar de mim nesta prisão, que eu devo ao evangelho. Mas, eu não quis fazer nada sem o teu parecer, para que a tua bondade não seja forçada, mas espontânea. Se ele te foi retirado por algum tempo, talvez seja para que o tenhas de volta para sempre, já não como escravo, mas, muito mais do que isso, como um irmão querido, muitíssimo querido para mim quanto mais ele o for para ti, tanto como pessoa humana quanto como irmão no Senhor. Assim, se estás em comunhão de fé comigo, recebe-o como se fosse a mim mesmo” (Fm 9b-10.12-17).

Numa época em que a escravidão era prática comum na cultura greco-romana, vemos que o ser cristão é ser diferente, mudar os critérios, mesmo os vigentes de determinada época. No caso da escravidão, Paulo pede que Onésimo seja agora recebido como irmão. Ao longo da história, nem sempre aqueles que seguiram Cristo deram ou tiveram bons exemplos, mas são muito mais numerosos aqueles que souberam marchar contra a corrente para permanecer firmes no seguimento de Cristo. Ser cristão traz consigo uma nova forma de ser. O novo comportamento do cristão não é fruto de um mero agir exterior, mas reflexo imediato da força transformadora da Graça de Cristo.

Essa unidade de vida, essa coerência entre fé que professamos e vida que levamos que tantas vezes nos falta e que pode ser uma forma extremamente eficaz de evangelização: a vida do testemunho para dar credibilidade ao evangelho.

Na primeira leitura (Sb 9, 13-18), reconhecemos o Senhor falando palavras importantes para nós:
Qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Ou quem pode imaginar o desígnio do Senhor? Na verdade, os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões incertas: porque o corpo corruptível torna pesada a alma e, tenda de argila, oprime a mente que pensa. Mal podemos conhecer o que há na terra, e com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos; quem, portanto, investigará o que há nos céus? Acaso alguém teria conhecido o teu desígnio, sem que lhe desses Sabedoria e do alto lhe enviasses teu santo espírito? Só assim se tornaram retos os caminhos dos que estão na terra, e os homens aprenderam o que te agrada, e pela Sabedoria foram salvos'.

O livro da sabedoria vai mostrar que o homem, por si mesmo, não pode alcançar os planos de Deus. Devido a sua pequenez e a seu apego às coisas deste mundo, o homem estaria limitado de conhecer os planos de Vida. A questão apresentada pelo livro da Sabedoria tem em Cristo Jesus sua resposta definitiva. Só em Cristo conhecemos verdadeiramente quem é Deus e quais são os desígnios dele para o homem. Há tantas coisas das realidades desta terra que não conhecemos! Podemos afirmar que são muito mais numerosos nossos questionamentos do que nossas respostas. Quanto mais a alma humana e os desígnios do Senhor! Por isso somos chamados a buscar o sentido da vida e da história na presença e na ação do Senhor.

Contagiemos a vida do mundo com o agir cristão. Sal da terra, luz do mundo, fermento na massa! Vivamos a fé, aprofundemos nosso seguimento de Jesus, não sendo meros seguidores esporádicos em meio à multidão. Cabe a nós ajudar os homens a libertar sua vida e orientá-la no seguimento daquele que tem vida e a tem em abundância.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro

 
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Neste dia 8 de setembro, em que celebramos o 23º Domingo do tempo Comum, existe a tradição litúrgica de celebrar a Natividade de Nossa Senhora. Mas neste ano prevalece a celebração do Dia do Senhor, a não ser onde essa comemoração mariana tenha o grau de solenidade. Neste 23º Domingo do Tempo Comum, a Palavra de Deus vai mais uma vez iluminar nossa vida e fazer-nos viver melhor nosso relacionamento com o Senhor. Ao mesmo tempo seguimos no aprofundamento, nas reflexões e nas meditações sobre o mês temático, o mês da Bíblia, em que aprofundamos neste ano a 1ª Carta de João: conhecer o autor, conhecer a época, conhecer os destinatários, conhecer as influências culturais, conhecer o esquema da carta e seus ensinamentos principais, de forma especial atentos ao lema: “nós amamos porque Deus primeiro nos amou!” (1 Jo 4, 19). Além dos textos que a Liturgia nos propõe diariamente, temos também esse direcionamento especial no mês da Bíblia, mês em que comemoramos a memória de São Jerônimo no dia 30. Cremos que a Sagrada Escritura contém a revelação Divina, mas sabemos que a Bíblia foi escrita por homens e para homens, tendo Deus por autor. Sendo assim, é também importante aprofundar a Bíblia tendo um olhar científico para uma melhor compreensão da mensagem divina quem vem a nós por meio de linguagem humana. 

Estamos vivenciando também, neste final de semana, o 4º congresso nacional vocacional, que tem como tema vocação e discernimento e como lema: mostra-me Senhor os teus caminhos. Desejamos que aqueles que estão participando possam voltar para as suas comunidades animados pelo fato de serem vocacionados do Pai e assim animar a todos os outros na proclamação da boa nova do Reino.

Neste final de semana, a Palavra de Deus coloca umas condições para o seguimento de Jesus Cristo e as consequências que são inerentes a este seguimento. O Evangelho de Lc 14, 25-33, começa citando a grande quantidade de pessoas que seguiam Jesus devido aos milagres e sinais que realizava: Naquele tempo: Grandes multidões acompanhavam Jesus.

É interessante notar o entusiasmo que a figura de Jesus despertou e que ainda continua despertando. Vemos pessoas que seguem, participam de grandes manifestações, encontros, etc. Porém, Jesus que estas multidões que o seguem nem sempre há pessoas que saibam o que significa o verdadeiro seguimento de Cristo, viver com Cristo: o compromisso existencial, as renúncias, a conversão de vida, a nova forma de ver-se e ver o outro. Talvez seja esta uma das dificuldades que encontramos hoje no seguimento de Cristo, onde há um entusiasmo muito grande para os seguimentos multitudinários, mas pouca tradução desse seguimento na simplicidade do dia a dia e nas ações concretas: em casa, na escola, no trabalho, no ônibus, no mercado, etc. É nesse sentido que Jesus, vendo essas multidões todas, dirige algumas palavras onde coloca as condições para o verdadeiro seguimento dele. Seguir Cristo significa estar perto dele, intimidade com sua presença e viver aquilo que Ele ensina. O Cristão é chamado a ser outro Cristo, Cristo que passa nas circunstâncias existenciais concretas. Não bastam as multidões que estejam interessadas pela figura de Jesus. É necessário deixar-se transformar por ele, formando a comunidade dos discípulos de Jesus. No Evangelho ele vai apresentando algumas das condições, como a de amar a Deus sobre todas as coisas, colocando o verdadeiro centro de nossa vida como orientação fundamental de todo o nosso caminhar: Voltando-se, ele lhes disse: 'Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo (Amar a Deus sobre todas as coisas!). A cruz pesa sobre os ombros de todos os homens e das mais variadas formas. O seguimento de Cristo não é um seguimento masoquista, onde gostamos e escolhemos voluntariamente o sofrimento. A novidade do cristianismo está em que somos chamados a assumir o sofrimento e não ficarmos parados nos lamentando nele, mas seguir adiante com ele, pois não estamos sós nele. Ele é quem nos sustenta na caminhada. Ser Cristão supõe esta radicalidade positiva de ir adiante e colocar a palavra de Deus em prática. A positividade está em que atribuímos sentido ao que fazemos ou ao que suportamos. Não fazemos meramente por fazer nem suportamos as contradições somente pelo fato de suportar.

Isso pode parecer muito duro num primeiro momento, mas devemos entender essa realidade dentro do conjunto das exigências do Senhor e da linguagem bíblica que reproduzem. Em vários textos do Antigo Testamento, amar e odiar indicam preferência e sobretudo escolha. Sendo assim, as palavras de Jesus devem ser entendidas como uma preferência e como uma escolha decisiva: ser discípulo de Jesus é escolher Deus, sem divisões (primeiro mandamento do decálogo). É nesse sentido que a Tradição da Igreja compreendeu esta passagem, como já nos recordava S Gregório Magno: “Devemos praticar a caridade com todos, com os parentes e os estranhos, mas sem afastar-se do amor de Deus e por amor a eles.” Da mesma forma e com termos parecidos nos ensina o Vaticano II quando afirma que “os cristãos se esforçam por agradar a Deus antes que aos homens, sempre dispostos a deixar tudo por cauda de Cristo” (AA, 4).

Junto com esta realidade, Jesus apresenta então duas parábolas que irão ajuda na compreensão do que foi proposto:
Com efeito: qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar, dizendo: 'Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!' Ou ainda: Qual o rei que ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz. Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!'

As duas comparações aqui apresentadas, a do que começa a edificar uma torre e a do rei que sai para a guerra, ilustram a decisão de deixar tudo para seguir a Jesus. Mas a decisão, se não estiver amparada pelas ações do dia a dia, não teremos ânimo suficiente para terminar a obra, nem para lutar contra as coisas mundanas e o resultado será a vergonha ou a derrota, conforme dizia também S. Gregório Magno: “Se não podes renunciar a todas as coisas do mundo, que de tal modo as utilizes que não sejas detido no mundo. Deves possuir as coisas da terra, não ser possuídos por elas. As coisas terrenas são para ser usadas, as eternas para ser possuídas. Usemos as coisas terrenas, mas desejemos chegar à posse das eternas.”
Dentro dessa linha é que iremos ler a segunda leitura a carta de São Paulo a Filêmon (Fm 9b-10.12-17). Ele era um cristão, dono de muitas posses, que teve um de seus escravos, Onésimo, que fugiu e foi preso. Na prisão se encontra com Paulo, que estava preso por causa de Cristo e lhe comunica a mensagem do Evangelho e Onésimo acaba sendo batizado. Paulo então escreve como que um bilhete de recomendação a Filêmon, pedindo q ele receba Onésimo de uma outra forma, pois a partir de agora ele é irmão dele no Senhor:

“Caríssimo: Eu, Paulo, velho como estou e agora também prisioneiro de Cristo Jesus, faço-te um pedido em favor do meu filho que fiz nascer para Cristo na prisão, Onésimo. Eu o estou mandando de volta para ti. Ele é como se fosse o meu próprio coração. Gostaria de tê-lo comigo, a fim de que fosse teu representante para cuidar de mim nesta prisão, que eu devo ao evangelho. Mas, eu não quis fazer nada sem o teu parecer, para que a tua bondade não seja forçada, mas espontânea. Se ele te foi retirado por algum tempo, talvez seja para que o tenhas de volta para sempre, já não como escravo, mas, muito mais do que isso, como um irmão querido, muitíssimo querido para mim quanto mais ele o for para ti, tanto como pessoa humana quanto como irmão no Senhor. Assim, se estás em comunhão de fé comigo, recebe-o como se fosse a mim mesmo” (Fm 9b-10.12-17).

Numa época em que a escravidão era prática comum na cultura greco-romana, vemos que o ser cristão é ser diferente, mudar os critérios, mesmo os vigentes de determinada época. No caso da escravidão, Paulo pede que Onésimo seja agora recebido como irmão. Ao longo da história, nem sempre aqueles que seguiram Cristo deram ou tiveram bons exemplos, mas são muito mais numerosos aqueles que souberam marchar contra a corrente para permanecer firmes no seguimento de Cristo. Ser cristão traz consigo uma nova forma de ser. O novo comportamento do cristão não é fruto de um mero agir exterior, mas reflexo imediato da força transformadora da Graça de Cristo.

Essa unidade de vida, essa coerência entre fé que professamos e vida que levamos que tantas vezes nos falta e que pode ser uma forma extremamente eficaz de evangelização: a vida do testemunho para dar credibilidade ao evangelho.

Na primeira leitura (Sb 9, 13-18), reconhecemos o Senhor falando palavras importantes para nós:
Qual é o homem que pode conhecer os desígnios de Deus? Ou quem pode imaginar o desígnio do Senhor? Na verdade, os pensamentos dos mortais são tímidos e nossas reflexões incertas: porque o corpo corruptível torna pesada a alma e, tenda de argila, oprime a mente que pensa. Mal podemos conhecer o que há na terra, e com muito custo compreendemos o que está ao alcance de nossas mãos; quem, portanto, investigará o que há nos céus? Acaso alguém teria conhecido o teu desígnio, sem que lhe desses Sabedoria e do alto lhe enviasses teu santo espírito? Só assim se tornaram retos os caminhos dos que estão na terra, e os homens aprenderam o que te agrada, e pela Sabedoria foram salvos'.

O livro da sabedoria vai mostrar que o homem, por si mesmo, não pode alcançar os planos de Deus. Devido a sua pequenez e a seu apego às coisas deste mundo, o homem estaria limitado de conhecer os planos de Vida. A questão apresentada pelo livro da Sabedoria tem em Cristo Jesus sua resposta definitiva. Só em Cristo conhecemos verdadeiramente quem é Deus e quais são os desígnios dele para o homem. Há tantas coisas das realidades desta terra que não conhecemos! Podemos afirmar que são muito mais numerosos nossos questionamentos do que nossas respostas. Quanto mais a alma humana e os desígnios do Senhor! Por isso somos chamados a buscar o sentido da vida e da história na presença e na ação do Senhor.

Contagiemos a vida do mundo com o agir cristão. Sal da terra, luz do mundo, fermento na massa! Vivamos a fé, aprofundemos nosso seguimento de Jesus, não sendo meros seguidores esporádicos em meio à multidão. Cabe a nós ajudar os homens a libertar sua vida e orientá-la no seguimento daquele que tem vida e a tem em abundância.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro

 
Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro