Arquidiocese do Rio de Janeiro

36º 23º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/09/2019

20 de Setembro de 2019

Homilia 01 de setembro – 22º Domingo do Tempo Comum

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20 de Setembro de 2019

Homilia 01 de setembro – 22º Domingo do Tempo Comum

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Homilia 01 de setembro – 22º Domingo do Tempo Comum 0

01/09/2019 00:00

Eclo 3,19-21.30-31
Sl 67
Hb 12,18-19.22-24a
Lc 14,1.7-14 

“Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (cf. Lc 14,14)

A respeito do Domingo, assim se expressa a Constituição Sacrosanctum Concilium no seu n. 102: “A santa mãe Igreja considera seu dever celebrar com uma comemoração sagrada, em determinados dias do ano, a obra de salvação do seu divino Esposo. Em cada semana, no dia a que chamou Domingo, celebra a memória da ressurreição do Senhor, como a celebra também uma vez no ano, na Páscoa, a maior das solenidades, unida à memória da sua bem-aventurada paixão.” O Domingo é nossa “Páscoa Semanal”. Nesse dia, oferecemos a Deus a nossa ação de graças e recebemos d’Ele o alimento celeste: primeira, na mesa da Palavra; depois, na mesa do Corpo e Sangue de Cristo.

No Tempo Comum, a primeira leitura e o evangelho estão unidos de um modo muito particular. Neste 22º Domingo do Tempo Comum, a primeira leitura, do livro do Eclesiástico, tem no seu centro o chamado do Senhor a vivermos a humildade. “Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade”... afirma o texto – e ainda “é aos humildes que ele revela seus mistérios”. A lógica do Reino é muito distante da lógica mundana. O cristão, à medida em que “sobe” de função, como se costuma dizer, quer na Igreja quer no mundo civil, deve saber “descer” pela humildade à sua própria realidade. Deve tomar uma consciência cada vez mais clara de que é apenas um ser humano, cercado de fraquezas, e que sua autoridade deve ser um serviço humilde, como o foi o do próprio Senhor.

A primeira leitura afirma que Deus é glorificado pelos humildes (v. 21) e que para o “mal” do orgulhoso não existe remédio (v. 30). Os Padres do deserto, de modo particular Evágrio Pôntico que, no seu Tratado Prático procurou elencar as “oito doenças espirituais”, ou os “oito pensamentos malvados” (em grego logismói), colocou no topo da sua lista o orgulho. Segundo a antropologia de sua época, enquanto as demais paixões atingiam o homem nas partes mais baixas de sua alma, o concupiscível e o irascível, o orgulho o atingia na parte mais alta e nobre: o nous, a parte racional, que deveria controlar o concupiscível e o irascível. Se o nous está doente, tomado pelo mal do orgulho, logo todo o restante do homem está doente. O orgulhoso chega mesmo a acreditar que é a fonte do próprio que bem pratica, invalidando assim até o bem que realiza. Ele se coloca em grande perigo, porque ao cair, corre o risco de não mais conseguir se levantar, tamanha é a altura na qual se colocou.

Sob este pano de fundo entende-se o evangelho, que une dois ditos de Jesus. De um lado, temos os vv. 7-11 e, de outro, os vv. 12-14. Nos vv. 7-11 Jesus está a observar o comportamento dos convidados numa festa de casamento. Ele percebe que eles tomam os primeiros lugares no banquete. O mestre, então, lhes ensina um comportamento de ordem prática, mas que alcança valor teológico à luz do v. 11. Nos vv. 8-10 o Senhor ensina aos seus ouvintes, aos convidados do banquete, que estes devem escolher os últimos lugares. Se assim o fizerem, poderão ser elevados pelo dono da casa, caso este queira lhes oferecer um lugar de mais destaque. Quem previamente se eleva, ao contrário, corre um grande risco, o de ser “humilhado” pelo dono da casa que, ao ver chegar alguém mais importante, pode pedir que este ou aquele convidado se retire para um lugar de menor honra.

O ápice da primeira parte do evangelho é o v. 11, onde um lógion de Jesus, ou seja, um dito que é encontrado também alhures nos sinóticos (cf. Lc 18,14; Mt 23,12), dá o sentido teológico de toda a primeira parte deste evangelho: ...quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado. Assim como acontece no banquete, também acontecerá no dia do juízo. Quem souber humilhar-se, ou seja, quem souber reconhecer a própria natureza limitada e finita, não colocando-se acima dos outros, mas servindo aos irmãos como Cristo o fez, será exaltado pelo Pai no último dia. Assim agiu o Cristo, como se pode apreender de Fl 2,6-11: porque se humilhou, Cristo foi superexaltado pelo Pai. Também nós, se descemos, se nos esvaziamos, se abandonamos o orgulho, se nos tornamos humildes, seremos exaltados pelo Senhor.

A segunda parte do evangelho está nos vv. 12-14. O Senhor Jesus se dirige agora ao seu anfitrião. Ele o exorta a ser generoso não com quem possa recompensá-lo, mas justamente com os que não podem recompensá-lo, a fim de que receba do Senhor a paga no último dia. Mais uma vez, o Senhor parte do plano puramente natural, para o sobrenatural. À luz de um evento ordinário e corriqueiro, o Senhor apresenta o modo de ser das realidades da vida futura. Quem faz o bem sem o interesse de receber algo em troca, decerto não ficará sem recompensa: esta se dará na ressurreição dos justos.

O que mais um cristão pode querer do que ser elevado pelo Senhor no último dia? Que outra recompensa poderíamos almejar, senão a ressurreição, a vida eterna que o Senhor nos preparou? Sigamos, portanto, o caminho apresentado pelo evangelho: sejamos humildes, sejamos servidores, façamos o bem sem esperar nada em troca. Assim, virá do Senhor a recompensa: ele no-la dará na “ressurreição dos justos”. Lá, no lugar que aprendemos a chamar de céu, ele preparou “com carinho”, como diz o salmo, “uma mesa para o pobre”. Esse pobre sou eu; esse pobre é você, querido leitor. Somos pobres, porque nenhuma riqueza desse mundo poderá ser levada conosco quando partirmos desse mundo. Só levaremos o que de bom tivermos feito, à espera de receber, das mãos do Eterno, a recompensa.

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Homilia 01 de setembro – 22º Domingo do Tempo Comum

01/09/2019 00:00

Eclo 3,19-21.30-31
Sl 67
Hb 12,18-19.22-24a
Lc 14,1.7-14 

“Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (cf. Lc 14,14)

A respeito do Domingo, assim se expressa a Constituição Sacrosanctum Concilium no seu n. 102: “A santa mãe Igreja considera seu dever celebrar com uma comemoração sagrada, em determinados dias do ano, a obra de salvação do seu divino Esposo. Em cada semana, no dia a que chamou Domingo, celebra a memória da ressurreição do Senhor, como a celebra também uma vez no ano, na Páscoa, a maior das solenidades, unida à memória da sua bem-aventurada paixão.” O Domingo é nossa “Páscoa Semanal”. Nesse dia, oferecemos a Deus a nossa ação de graças e recebemos d’Ele o alimento celeste: primeira, na mesa da Palavra; depois, na mesa do Corpo e Sangue de Cristo.

No Tempo Comum, a primeira leitura e o evangelho estão unidos de um modo muito particular. Neste 22º Domingo do Tempo Comum, a primeira leitura, do livro do Eclesiástico, tem no seu centro o chamado do Senhor a vivermos a humildade. “Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade”... afirma o texto – e ainda “é aos humildes que ele revela seus mistérios”. A lógica do Reino é muito distante da lógica mundana. O cristão, à medida em que “sobe” de função, como se costuma dizer, quer na Igreja quer no mundo civil, deve saber “descer” pela humildade à sua própria realidade. Deve tomar uma consciência cada vez mais clara de que é apenas um ser humano, cercado de fraquezas, e que sua autoridade deve ser um serviço humilde, como o foi o do próprio Senhor.

A primeira leitura afirma que Deus é glorificado pelos humildes (v. 21) e que para o “mal” do orgulhoso não existe remédio (v. 30). Os Padres do deserto, de modo particular Evágrio Pôntico que, no seu Tratado Prático procurou elencar as “oito doenças espirituais”, ou os “oito pensamentos malvados” (em grego logismói), colocou no topo da sua lista o orgulho. Segundo a antropologia de sua época, enquanto as demais paixões atingiam o homem nas partes mais baixas de sua alma, o concupiscível e o irascível, o orgulho o atingia na parte mais alta e nobre: o nous, a parte racional, que deveria controlar o concupiscível e o irascível. Se o nous está doente, tomado pelo mal do orgulho, logo todo o restante do homem está doente. O orgulhoso chega mesmo a acreditar que é a fonte do próprio que bem pratica, invalidando assim até o bem que realiza. Ele se coloca em grande perigo, porque ao cair, corre o risco de não mais conseguir se levantar, tamanha é a altura na qual se colocou.

Sob este pano de fundo entende-se o evangelho, que une dois ditos de Jesus. De um lado, temos os vv. 7-11 e, de outro, os vv. 12-14. Nos vv. 7-11 Jesus está a observar o comportamento dos convidados numa festa de casamento. Ele percebe que eles tomam os primeiros lugares no banquete. O mestre, então, lhes ensina um comportamento de ordem prática, mas que alcança valor teológico à luz do v. 11. Nos vv. 8-10 o Senhor ensina aos seus ouvintes, aos convidados do banquete, que estes devem escolher os últimos lugares. Se assim o fizerem, poderão ser elevados pelo dono da casa, caso este queira lhes oferecer um lugar de mais destaque. Quem previamente se eleva, ao contrário, corre um grande risco, o de ser “humilhado” pelo dono da casa que, ao ver chegar alguém mais importante, pode pedir que este ou aquele convidado se retire para um lugar de menor honra.

O ápice da primeira parte do evangelho é o v. 11, onde um lógion de Jesus, ou seja, um dito que é encontrado também alhures nos sinóticos (cf. Lc 18,14; Mt 23,12), dá o sentido teológico de toda a primeira parte deste evangelho: ...quem se eleva será humilhado e quem se humilha será elevado. Assim como acontece no banquete, também acontecerá no dia do juízo. Quem souber humilhar-se, ou seja, quem souber reconhecer a própria natureza limitada e finita, não colocando-se acima dos outros, mas servindo aos irmãos como Cristo o fez, será exaltado pelo Pai no último dia. Assim agiu o Cristo, como se pode apreender de Fl 2,6-11: porque se humilhou, Cristo foi superexaltado pelo Pai. Também nós, se descemos, se nos esvaziamos, se abandonamos o orgulho, se nos tornamos humildes, seremos exaltados pelo Senhor.

A segunda parte do evangelho está nos vv. 12-14. O Senhor Jesus se dirige agora ao seu anfitrião. Ele o exorta a ser generoso não com quem possa recompensá-lo, mas justamente com os que não podem recompensá-lo, a fim de que receba do Senhor a paga no último dia. Mais uma vez, o Senhor parte do plano puramente natural, para o sobrenatural. À luz de um evento ordinário e corriqueiro, o Senhor apresenta o modo de ser das realidades da vida futura. Quem faz o bem sem o interesse de receber algo em troca, decerto não ficará sem recompensa: esta se dará na ressurreição dos justos.

O que mais um cristão pode querer do que ser elevado pelo Senhor no último dia? Que outra recompensa poderíamos almejar, senão a ressurreição, a vida eterna que o Senhor nos preparou? Sigamos, portanto, o caminho apresentado pelo evangelho: sejamos humildes, sejamos servidores, façamos o bem sem esperar nada em troca. Assim, virá do Senhor a recompensa: ele no-la dará na “ressurreição dos justos”. Lá, no lugar que aprendemos a chamar de céu, ele preparou “com carinho”, como diz o salmo, “uma mesa para o pobre”. Esse pobre sou eu; esse pobre é você, querido leitor. Somos pobres, porque nenhuma riqueza desse mundo poderá ser levada conosco quando partirmos desse mundo. Só levaremos o que de bom tivermos feito, à espera de receber, das mãos do Eterno, a recompensa.