Arquidiocese do Rio de Janeiro

24º 17º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/08/2019

19 de Agosto de 2019

Buscai as coisas do alto

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do e-mail.
E-mail enviado com sucesso.

19 de Agosto de 2019

Buscai as coisas do alto

Se você encontrou erro neste texto ou nesta página, por favor preencha os campos abaixo. O link da página será enviado automaticamente a ArqRio.

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do erro.
Erro relatado com sucesso, obrigado.

04/08/2019 00:00 - Atualizado em 06/08/2019 11:59

Buscai as coisas do alto 0

04/08/2019 00:00 - Atualizado em 06/08/2019 11:59

Estamos iniciando o mês de agosto, mês em que a Igreja no Brasil comemora como o mês das vocações. Oportunidade de refletir sobre o chamado do Senhor em nossas vidas, desde nossa vocação à vida, enquanto dom recebido de Deus, nossa vocação batismal, onde participamos todos do tríplice múnus (missão, tarefa, encargo) de Cristo que é sacerdote, profeta e Rei, e nossas vocações específicas e de especial consagração: o matrimônio, o sacerdócio, a vida consagrada e a vida missionária. 

A cada semana teremos uma intenção específica de orações e reflexões. Sabemos que os meses temáticos seguem um ritmo específico, mas que também nos ajudam a viver a liturgia de maneira mais direcionada.

Na primeira semana contemplamos e rezamos pelas vocações para o ministério ordenado: bispos, padres e diáconos. Neste domingo, dia 04 de agosto, seria o dia em que celebraríamos (se não fosse domingo) a memória de São João Maria Vianney, o Cura D´Ars padroeiro dos párocos e de todos aqueles sacerdotes que tem a cura de almas. Rezemos por nossos sacerdotes, por sua santificação e pelas vocações sacerdotais. Vamos bendizer a Deus por aqueles que dão a sua vida para serem os primeiros servidores das paróquias e em nossas comunidades. Façamos uma oração especial por nossos sacerdotes neste domingo. Que nossas vocações sejam santas, que não nos faltem vocações e que todos nós, em nossa caminhada, saibamos reconhecer a importância e a necessidade das vocações.

Na segunda semana de agosto, iniciando com o domingo comemorando o dia dos pais, recordamos, refletimos e rezamos pela vocação familiar. Realidade tão importante que até temos a semana nacional da família, que neste ano vai do 11 ao 17 de agosto e tem como tema: “A família, como vai?” temos que prepara-la muito bem!

Na terceira semana, recordamos a vocação à vida consagrada, que vai iniciar com a celebração da Solenidade (transferida para o domingo) da Assunção de Nossa Senhora. Rezaremos por toda a vida consagrada e religiosa, junto com todos os tipos de consagração, para que continuem sendo sinal vivo neste mundo que passa das realidades que não passam.

Na quarta semana, rezamos pela vocação dos leigos e leigas, em especial, pelos ministérios leigos ao serviço da comunidade e também, no último domingo, comemoramos o dia do catequista, enquanto educadores fundamentais na fé.

Neste 18º Domingo do Tempo Comum, a Palavra do Senhor vem nos falar de uma necessidade muito grande nos dias de hoje: nossa vida de despojamento. Por sabermos que este mundo passa, devemos estar continuamente sintonizados e buscando as coisas do alto. Isso não significa que não devemos nos preocupar com o mundo de hoje. Nós nos preocupamos e muito, pois é aqui que realizamos nossa vocação e cumprimos a vontade do Senhor. É aqui que somos chamados a ser sinais de um tempo novo, com uma nova maneira de ser e de caminhar. Que a partir do prisma da busca das coisas do alto saibamos, saibamos considerar as coisas deste mundo, estando entre as coisas que passa, abraçar as que não passam, sabendo que tudo é passageiro, mas que nos ajuda a viver a vida de santidade e de conversão.

No Evangelho deste Domingo (Lc 12, 13-21), apresenta uma triste realidade ainda presente hoje em nossas famílias, que é a briga por herança. Por mais que nossas famílias sejam unidas, sempre há brigas por dinheiro e por heranças. Não só por herança, mas por tantas outras situações que, quando levam a colocar a mão no bolso, partilhar bens, economizar, ajudar em algumas situações, partilhar algum dom, facilmente nossas relações começam a ser abaladas. Infelizmente o deus dinheiro continua facilmente mandando no coração das pessoas: isso acontece nas famílias, nas paróquias, nas comunidades, onde existem seres humanos, no geral. Por isso, é importante que, de coração, busquemos as coisas do alto e saibamos dar o devido valor ao que temos no dia a dia. Se temos bens, é para que possamos fazer o bem, partilhar com os que mais precisam e edificar nossas vidas com o essencial. Essa é uma das grandes preocupações que o Papa Francisco tem apontado para a Igreja como um todo: o olhar para os pobres, os excluídos, para aqueles que perambulam pelas periferias existenciais. Temos uma grande e grave responsabilidade de transformar, a partir do Evangelho, essa sociedade onde a vida seja melhor respeitada e valorizada.

No Evangelho, ante a querela sobre a herança apresentada a Jesus, entre dois irmãos onde um pede a intervenção no reparto da herança: Alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: 'Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo. 'Jesus respondeu: 'Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?' E disse-lhes: 'Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens.' (Lc 12, 13-15).

Jesus vai responder afirmando que o problema não está no repartir os bens, mas sim na ganância de ambos. A vida de um homem não consiste na abundância de bens. A partir disso, conta-lhes então uma parábola: 'A terra de um homem rico deu uma grande colheita. Ele pensava consigo mesmo: 'O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita'. Então resolveu: 'Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!' Mas Deus lhe disse: 'Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste? 'Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus.' (Lc 12, 17-21).

No contexto geral da parábola, Jesus ensina mais uma vez a valorizar as coisas da terra com o olhar voltado aos céus. Jesus, ante a demanda apresentada, vai explicar o perigo de colocar o sentido da vida na busca de riquezas. O Papa Paulo VI assim nos recordava, falando sobre esta realidade: “Ter mais, tanto para os povos como para as pessoas, não é o fim último. Todo possuir pode ser ambivalente. Ele é necessário para permitir que o homem tenha atendidas suas necessidades humanas básicas, pode se converter em uma prisão a partir do momento em que se torna o bem supremo que o impede de olhar para as coisas celestes (Populorum Progressio , n. 19). A parábola contada por Jesus para exemplificar seu ensinamento é muito significativa, pois num primeiro momento, parece que aquele homem tem uma atitude prudente e que está agindo para prevenir: se a colheita foi boa, devemos guardar e não esbanjar. Mas Jesus corrige esta visão a partir de uma perspectiva mais profunda. Mostra que esta vida, embora seja vida, é pouca coisa: devemos viver com uma outra perspectiva, devemos ser ricos sim, mas ricos diante de Deus. Por isso, ter em vista a morte é uma riqueza para nossa vida. Até mesmo a filosofia mostra isso para nós: tanto os epicuristas como Heidegger, ao apontar o ser para a morte como caminho essencial para a existência autêntica, nos mostram isso. Sobre isso, afirmava também Santo Atanásio: Quem vive como se fosse morrer um dia, já que nossa vida é incerta por natureza, não se perderá, pois o verdadeiro temor de Deus extingue grande parte dos nossos desejos desregrados; ao contrário, aquele que acredita que terá uma vida longa, facilmente se deixa levar pelos prazeres.”

Bem dentro da mentalidade hedonista existente ainda hoje, o personagem da parábola deseja somente uma boa vida. Podemos juntar muitas coisas, mas nossa vida material não é eterna, e todos iremos prestar contas a Deus. E esta prestação de contas pode acontecer a qualquer momento. Muitas vezes acabamos por só acumular coisas e não viver a nossa própria vida como dom, não sando os bens que temos para fazer o bem, para ajudar as pessoas que necessitam ou mesmo para compartilhar com nossas próprias famílias, servido depois como motivo de divisão.

Jesus fala do sentido e da motivação essencial de nossa existência: a vida do ser humano só se realiza e encontra plenitude quando ela se faz dom.
É nesse sentido que a primeira leitura, tirada do livro do Eclesiastes (1,2; 2, 21-23) colocando muito direta essa realidade da fragilidade da existência humana: Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.' Por exemplo: um homem que trabalhou com inteligência,
competência e sucesso, vê-se obrigado a deixar tudo em herança a outro que em nada colaborou. Também isso é vaidade e grande desgraça. De fato, que resta ao homem de todos os trabalhos e preocupações que o desgastam debaixo do sol? Toda a sua vida é sofrimento, sua ocupação, um tormento.

Nem mesmo de noite repousa o seu coração. Também isso é vaidade.A palavra do Eclesiastes e do Evangelho é um sério questionamento sobre o sentido último da nossa vida e sobre o como saber viver neste mundo, com dignidade, com justiça, tendo o necessário e sabendo construir um mundo onde todos possam viver também desta forma, de forma digna e que não nos falte o essencial, nem do corpo nem da alma. Este mundo, com todos os seus problemas de injustiça, nos acusa de estarmos vivendo inutilmente muitas vezes. Somente o coração do homem transformado pode nos fazer atentos ao que precisa ser mudado cada vez mais.

É nesse sentido que a segunda leitura, tirada da Carta de São Paulo aos Colossenses (Cl 3, 1-5.9-11) lembra isso para nós: Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus (Cl 3, 1-3). Com o nosso batismo fomos mergulhados em Cristo e nossa vida passou a estar escondida com Cristo em Deus. Morremos para este mundo e nascemos para a vida da eternidade. Temos os pés na terra, colocados em coisas concretas, mas com a alma e o coração ancorados na cidade permanente e nas realidades eternas. Mesmo aqueles que não tem fé ou que não acreditam na vida eterna, viverão melhor neste mundo quanto mais partilharem o que tem com os outros. “Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória.

Portanto, fazei morrer o que em vós pertence à terra: imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça, que é idolatria. Não mintais uns aos outros. Já vos despojastes do homem velho e da sua maneira de agir e vos revestistes do homem novo, que se renova segundo a imagem do seu Criador, em ordem ao conhecimento. Aí não se faz distinção entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, inculto, selvagem, escravo e livre, mas Cristo é tudo em todos” (Cl 3, 5.9-11). Pés na terra e corações ao alto, vivendo já neste mundo fazendo o bem, não acumulando supérfluos, não tendo uma existência estéril, mas fazendo o possível naquilo que dependa de nós para que nosso mundo e nossos ambientes sejam lugares melhores de se estar. Embora estejamos sujeitos a interesses de governos e ideologias, a doutrina social da Igreja, a partir de uma visão de fé, nos convida a não nos conformarmos com esse mundo e à mentalidade que vem contra o próprio homem.

Eis os desafios que a Palavra do Senhor nos apresenta neste domingo. Participemos da missa e ouçamos atentamente a palavra do Senhor. Rezemos por nossos sacerdotes, em especial pelos sacerdotes de nossas paróquias, neste dia do Cura D´Ars e rezemos pelas vocações. Que juntos como Igreja, em meio a tantas lutas que enfrentamos, manifestemos a beleza do homem que se consagra ao Senhor e se coloca ao serviço da comunidade para ajudá-la a crescer cada vez mais.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro
Leia os comentários

Deixe seu comentário

Resposta ao comentário de:

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do comentário.
Comentário enviado para aprovação.

Buscai as coisas do alto

04/08/2019 00:00 - Atualizado em 06/08/2019 11:59

Estamos iniciando o mês de agosto, mês em que a Igreja no Brasil comemora como o mês das vocações. Oportunidade de refletir sobre o chamado do Senhor em nossas vidas, desde nossa vocação à vida, enquanto dom recebido de Deus, nossa vocação batismal, onde participamos todos do tríplice múnus (missão, tarefa, encargo) de Cristo que é sacerdote, profeta e Rei, e nossas vocações específicas e de especial consagração: o matrimônio, o sacerdócio, a vida consagrada e a vida missionária. 

A cada semana teremos uma intenção específica de orações e reflexões. Sabemos que os meses temáticos seguem um ritmo específico, mas que também nos ajudam a viver a liturgia de maneira mais direcionada.

Na primeira semana contemplamos e rezamos pelas vocações para o ministério ordenado: bispos, padres e diáconos. Neste domingo, dia 04 de agosto, seria o dia em que celebraríamos (se não fosse domingo) a memória de São João Maria Vianney, o Cura D´Ars padroeiro dos párocos e de todos aqueles sacerdotes que tem a cura de almas. Rezemos por nossos sacerdotes, por sua santificação e pelas vocações sacerdotais. Vamos bendizer a Deus por aqueles que dão a sua vida para serem os primeiros servidores das paróquias e em nossas comunidades. Façamos uma oração especial por nossos sacerdotes neste domingo. Que nossas vocações sejam santas, que não nos faltem vocações e que todos nós, em nossa caminhada, saibamos reconhecer a importância e a necessidade das vocações.

Na segunda semana de agosto, iniciando com o domingo comemorando o dia dos pais, recordamos, refletimos e rezamos pela vocação familiar. Realidade tão importante que até temos a semana nacional da família, que neste ano vai do 11 ao 17 de agosto e tem como tema: “A família, como vai?” temos que prepara-la muito bem!

Na terceira semana, recordamos a vocação à vida consagrada, que vai iniciar com a celebração da Solenidade (transferida para o domingo) da Assunção de Nossa Senhora. Rezaremos por toda a vida consagrada e religiosa, junto com todos os tipos de consagração, para que continuem sendo sinal vivo neste mundo que passa das realidades que não passam.

Na quarta semana, rezamos pela vocação dos leigos e leigas, em especial, pelos ministérios leigos ao serviço da comunidade e também, no último domingo, comemoramos o dia do catequista, enquanto educadores fundamentais na fé.

Neste 18º Domingo do Tempo Comum, a Palavra do Senhor vem nos falar de uma necessidade muito grande nos dias de hoje: nossa vida de despojamento. Por sabermos que este mundo passa, devemos estar continuamente sintonizados e buscando as coisas do alto. Isso não significa que não devemos nos preocupar com o mundo de hoje. Nós nos preocupamos e muito, pois é aqui que realizamos nossa vocação e cumprimos a vontade do Senhor. É aqui que somos chamados a ser sinais de um tempo novo, com uma nova maneira de ser e de caminhar. Que a partir do prisma da busca das coisas do alto saibamos, saibamos considerar as coisas deste mundo, estando entre as coisas que passa, abraçar as que não passam, sabendo que tudo é passageiro, mas que nos ajuda a viver a vida de santidade e de conversão.

No Evangelho deste Domingo (Lc 12, 13-21), apresenta uma triste realidade ainda presente hoje em nossas famílias, que é a briga por herança. Por mais que nossas famílias sejam unidas, sempre há brigas por dinheiro e por heranças. Não só por herança, mas por tantas outras situações que, quando levam a colocar a mão no bolso, partilhar bens, economizar, ajudar em algumas situações, partilhar algum dom, facilmente nossas relações começam a ser abaladas. Infelizmente o deus dinheiro continua facilmente mandando no coração das pessoas: isso acontece nas famílias, nas paróquias, nas comunidades, onde existem seres humanos, no geral. Por isso, é importante que, de coração, busquemos as coisas do alto e saibamos dar o devido valor ao que temos no dia a dia. Se temos bens, é para que possamos fazer o bem, partilhar com os que mais precisam e edificar nossas vidas com o essencial. Essa é uma das grandes preocupações que o Papa Francisco tem apontado para a Igreja como um todo: o olhar para os pobres, os excluídos, para aqueles que perambulam pelas periferias existenciais. Temos uma grande e grave responsabilidade de transformar, a partir do Evangelho, essa sociedade onde a vida seja melhor respeitada e valorizada.

No Evangelho, ante a querela sobre a herança apresentada a Jesus, entre dois irmãos onde um pede a intervenção no reparto da herança: Alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: 'Mestre, dize ao meu irmão que reparta a herança comigo. 'Jesus respondeu: 'Homem, quem me encarregou de julgar ou de dividir vossos bens?' E disse-lhes: 'Atenção! Tomai cuidado contra todo tipo de ganância, porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a vida de um homem não consiste na abundância de bens.' (Lc 12, 13-15).

Jesus vai responder afirmando que o problema não está no repartir os bens, mas sim na ganância de ambos. A vida de um homem não consiste na abundância de bens. A partir disso, conta-lhes então uma parábola: 'A terra de um homem rico deu uma grande colheita. Ele pensava consigo mesmo: 'O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita'. Então resolveu: 'Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores; neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: Meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!' Mas Deus lhe disse: 'Louco! Ainda nesta noite, pedirão de volta a tua vida. E para quem ficará o que tu acumulaste? 'Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus.' (Lc 12, 17-21).

No contexto geral da parábola, Jesus ensina mais uma vez a valorizar as coisas da terra com o olhar voltado aos céus. Jesus, ante a demanda apresentada, vai explicar o perigo de colocar o sentido da vida na busca de riquezas. O Papa Paulo VI assim nos recordava, falando sobre esta realidade: “Ter mais, tanto para os povos como para as pessoas, não é o fim último. Todo possuir pode ser ambivalente. Ele é necessário para permitir que o homem tenha atendidas suas necessidades humanas básicas, pode se converter em uma prisão a partir do momento em que se torna o bem supremo que o impede de olhar para as coisas celestes (Populorum Progressio , n. 19). A parábola contada por Jesus para exemplificar seu ensinamento é muito significativa, pois num primeiro momento, parece que aquele homem tem uma atitude prudente e que está agindo para prevenir: se a colheita foi boa, devemos guardar e não esbanjar. Mas Jesus corrige esta visão a partir de uma perspectiva mais profunda. Mostra que esta vida, embora seja vida, é pouca coisa: devemos viver com uma outra perspectiva, devemos ser ricos sim, mas ricos diante de Deus. Por isso, ter em vista a morte é uma riqueza para nossa vida. Até mesmo a filosofia mostra isso para nós: tanto os epicuristas como Heidegger, ao apontar o ser para a morte como caminho essencial para a existência autêntica, nos mostram isso. Sobre isso, afirmava também Santo Atanásio: Quem vive como se fosse morrer um dia, já que nossa vida é incerta por natureza, não se perderá, pois o verdadeiro temor de Deus extingue grande parte dos nossos desejos desregrados; ao contrário, aquele que acredita que terá uma vida longa, facilmente se deixa levar pelos prazeres.”

Bem dentro da mentalidade hedonista existente ainda hoje, o personagem da parábola deseja somente uma boa vida. Podemos juntar muitas coisas, mas nossa vida material não é eterna, e todos iremos prestar contas a Deus. E esta prestação de contas pode acontecer a qualquer momento. Muitas vezes acabamos por só acumular coisas e não viver a nossa própria vida como dom, não sando os bens que temos para fazer o bem, para ajudar as pessoas que necessitam ou mesmo para compartilhar com nossas próprias famílias, servido depois como motivo de divisão.

Jesus fala do sentido e da motivação essencial de nossa existência: a vida do ser humano só se realiza e encontra plenitude quando ela se faz dom.
É nesse sentido que a primeira leitura, tirada do livro do Eclesiastes (1,2; 2, 21-23) colocando muito direta essa realidade da fragilidade da existência humana: Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.' Por exemplo: um homem que trabalhou com inteligência,
competência e sucesso, vê-se obrigado a deixar tudo em herança a outro que em nada colaborou. Também isso é vaidade e grande desgraça. De fato, que resta ao homem de todos os trabalhos e preocupações que o desgastam debaixo do sol? Toda a sua vida é sofrimento, sua ocupação, um tormento.

Nem mesmo de noite repousa o seu coração. Também isso é vaidade.A palavra do Eclesiastes e do Evangelho é um sério questionamento sobre o sentido último da nossa vida e sobre o como saber viver neste mundo, com dignidade, com justiça, tendo o necessário e sabendo construir um mundo onde todos possam viver também desta forma, de forma digna e que não nos falte o essencial, nem do corpo nem da alma. Este mundo, com todos os seus problemas de injustiça, nos acusa de estarmos vivendo inutilmente muitas vezes. Somente o coração do homem transformado pode nos fazer atentos ao que precisa ser mudado cada vez mais.

É nesse sentido que a segunda leitura, tirada da Carta de São Paulo aos Colossenses (Cl 3, 1-5.9-11) lembra isso para nós: Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres. Pois vós morrestes, e a vossa vida está escondida, com Cristo, em Deus (Cl 3, 1-3). Com o nosso batismo fomos mergulhados em Cristo e nossa vida passou a estar escondida com Cristo em Deus. Morremos para este mundo e nascemos para a vida da eternidade. Temos os pés na terra, colocados em coisas concretas, mas com a alma e o coração ancorados na cidade permanente e nas realidades eternas. Mesmo aqueles que não tem fé ou que não acreditam na vida eterna, viverão melhor neste mundo quanto mais partilharem o que tem com os outros. “Quando Cristo, vossa vida, aparecer em seu triunfo, então vós aparecereis também com ele, revestidos de glória.

Portanto, fazei morrer o que em vós pertence à terra: imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça, que é idolatria. Não mintais uns aos outros. Já vos despojastes do homem velho e da sua maneira de agir e vos revestistes do homem novo, que se renova segundo a imagem do seu Criador, em ordem ao conhecimento. Aí não se faz distinção entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, inculto, selvagem, escravo e livre, mas Cristo é tudo em todos” (Cl 3, 5.9-11). Pés na terra e corações ao alto, vivendo já neste mundo fazendo o bem, não acumulando supérfluos, não tendo uma existência estéril, mas fazendo o possível naquilo que dependa de nós para que nosso mundo e nossos ambientes sejam lugares melhores de se estar. Embora estejamos sujeitos a interesses de governos e ideologias, a doutrina social da Igreja, a partir de uma visão de fé, nos convida a não nos conformarmos com esse mundo e à mentalidade que vem contra o próprio homem.

Eis os desafios que a Palavra do Senhor nos apresenta neste domingo. Participemos da missa e ouçamos atentamente a palavra do Senhor. Rezemos por nossos sacerdotes, em especial pelos sacerdotes de nossas paróquias, neste dia do Cura D´Ars e rezemos pelas vocações. Que juntos como Igreja, em meio a tantas lutas que enfrentamos, manifestemos a beleza do homem que se consagra ao Senhor e se coloca ao serviço da comunidade para ajudá-la a crescer cada vez mais.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro
Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro