Arquidiocese do Rio de Janeiro

28º 18º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 18/11/2019

18 de Novembro de 2019

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A palavra de Deus deste 17º Domingo do Tempo Comum nos faz aprofundar sobre a oração de intercessão. O catecismo da Igreja católica tem uma parte inteira dedicada à oração (quarta parte), mostrando a necessidade de sermos iniciados nela. Na sequência do Catecismo, temos as orientações do credo, sobre os sacramentos e da liturgia, o agir na moral cristã, concluindo com a oração que é apresentada como um dos fundamentos da vida cristã. De forma mais específica, ao falar sobre a oração de intercessão, o Catecismo assim diz: A intercessão é uma oração de petição que nos conforma de perto com a oração de Jesus. É Ele o único intercessor junto do Pai em favor de todos os homens, em particular dos pecadores. Ele «pode salvar de maneira definitiva aqueles que, por seu intermédio, se aproximam de Deus, uma vez que está sempre vivo, para interceder por eles» (Heb 7, 25). O próprio Espírito Santo «intercede por nós intercede pelos santos, em conformidade com Deus» (Rm 8, 26-27). Interceder, pedir a favor de outrem, é próprio, desde Abraão, dum coração conforme com a misericórdia de Deus. No tempo da Igreja, a intercessão cristã participa na de Cristo: é a expressão da comunhão dos santos. Na intercessão, aquele que ora não «olha aos seus próprios interesses, mas aos interesses dos outros» (Fl 2, 4), e chega até a rezar pelos que lhe fazem mal. As primeiras comunidades cristãs viveram intensamente esta forma de partilha. O apóstolo Paulo fá-las participar deste modo no seu ministério do Evangelho, mas ele próprio também intercede por elas. A intercessão dos cristãos não conhece fronteiras: «[...] por todos os homens, [...] por todos os que exercem a autoridade» (1 Tm 2, 1), pelos perseguidores, pela salvação dos que rejeitam o Evangelho (CIC 2634).

O Evangelho deste domingo (Lc 11, 1-13), nos coloca dentro dessa realidade e assim se inicia: “Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe: 'Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1). A Igreja tem essa missão: ensinar o caminho da oração e da adequada vida cristã. Os pais devem ser os primeiros catequistas da oração, demonstrando pelo exemplo e pelo ensinamento o caminho de intimidade com Deus. Cabe à Igreja não perder de vista sua dimensão essencialmente orante, em que somos chamados a aprender a rezar e lembrar que a oração faz parte também de nossa atividade missionária. Embora haja muitas formas de oração, a Igreja nos ensina a forma de oração cristã, que é uma oração pessoal e de encontro com outra pessoa, como bem vemos nas petições da oração do Pai Nosso, que na versão de Lucas, assim como na de Mateus, aparece no contexto de pedido dos discípulos para ensinar a orar: “Quando rezardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação'”(Lc 11, 2-4).

O texto de Lucas vai apresentando ainda outras referências à realidade da oração: “E Jesus acrescentou: 'Se um de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite e lhe disser: `Amigo, empresta-me três pães, porque um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe oferecer', e se o outro responder lá de dentro: 'Não me incomode! Já tranquei a porta, e meus filhos e eu já estamos deitados; não me posso levantar para te dar os pães'; eu vos declaro: mesmo que o outro não se levante para dá-los porque é seu amigo, vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário. Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá. Será que algum de vós que é pai, se o filho pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Ora, se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem! (Lc 11, 5-13).

Jesus fala da importância da insistência na oração. As comparações apresentadas por Jesus fazem referência explícita a costumes próprios do dia a dia do povo judeu. Fica explícita a confiança que devemos ter em Deus, a ponto de chamarmos Deus de Pai. Paternidade Divina e proximidade de Deus que se fazem palpáveis no momento da oração. Não nos dirigimos ao primeiro motor imóvel aristotélico, mas o Deus grande e próximo, que fala aos homens com palavras humanas e se deixa chamar de Pai! Conhece-nos profundamente, pois somos obra de Suas mãos, soprou em nossas narinas o sopro da vida, e sabe o que necessitamos antes mesmo que nós o peçamos. Sobre esta realidade, já dizia Santo Tomás de Aquino: “Não oramos para que Deus tenha consciência de nossas necessidades; oramos para que nós tenhamos consciência da necessidade que temos de Deus.”
Confiemos no poder da oração! Deus nos dá o que é melhor para nós. Deus dá o que necessitamos e aquilo que nos santifica cada vez mais. A oração faz com que vivemos melhor nossa vida cristã e humana. É sempre bom observar como a liturgia vai pouco a pouco retomando os aspectos essenciais da vida e da catequese cristã, como é o caso do Pai Nosso neste domingo.

É nesse sentido que a primeira leitura (Gn 18, 20-32) também se refere à intercessão de Abraão por Sodoma e Gomorra: O Senhor disse a Abraão: 'O clamor contra Sodoma e Gomorra cresceu, e agravou-se muito o seu pecado. Vou descer para verificar se as suas obras correspondem ou não ao clamor que chegou até mim'. Partindo dali os homens dirigiram-se a Sodoma, enquanto Abraão ficou na presença do Senhor. Então, aproximando-se, disse Abraão: 'Vais realmente exterminar o justo com o ímpio? Se houvesse cinquenta justos na cidade, acaso iríeis exterminá-los? Não pouparias o lugar por causa dos cinquenta justos que ali vivem? Longe de ti agir assim, fazendo morrer o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio. Longe de ti! O juiz de toda a terra não faria justiça? 'O Senhor respondeu: 'Se eu encontrasse em Sodoma cinquenta justos, pouparia por causa deles a cidade inteira'. Abraão prosseguiu dizendo: 'Estou sendo atrevido em falar a meu Senhor, eu que sou pó e cinza. Se dos cinquenta justos faltassem cinco, destruirias por causa dos cinco a cidade inteira?' O Senhor respondeu: 'Não destruiria, se achasse ali quarenta e cinco justos'. Insistiu ainda Abraão e disse: 'E se houvesse quarenta?' Ele respondeu: 'Por causa dos quarenta, não o faria'. Abraão tornou a insistir: 'Não se irrite o meu Senhor, se ainda falo. E se houvesse apenas trinta justos?'. Ele respondeu: 'Também não o faria, se encontrasse trinta'. Tornou Abraão a insistir: 'Já que me atrevi a falar a meu Senhor, e se houver vinte justos?' Ele respondeu: 'Não a iria destruir por causa dos vinte'. Abraão disse: 'Que o meu Senhor não se irrite, se eu falar só mais uma vez: e se houvesse apenas dez?' Ele respondeu: 'Por causa dos dez, não a destruiria'.

Essa forma de pensar faz ver como a salvação de muitos, inclusive pecadores, pode vir pela fidelidade de alguns justos e prepara assim o caminho para entender como a salvação de toda a humanidade se realiza pela obediência de um só, Cristo. Em qualquer situação, mesmo que seja apenas em meio a uma minoria, o bem pode ser contagioso, espalhando-se aos que estão ao nosso redor. Em meio a tantos problemas presentes em nossas cidades e regiões, há sempre um núcleo que segue o Senhor e este deve ser também sustento para os que não se aproximaram ainda da presença de Deus, amando por aqueles que ainda não amam, adorando por aqueles que ainda não adoram. Aqueles que de verdade amam a Deus fazem a diferença onde se encontram. São muitas as vezes em que nos perdemos no lamento e na murmuração pela presença do mal no mundo e nos esquecemos de formar aquele núcleo que assim como Jesus, passa pelo mundo fazendo o bem, e que vão contagiando o seu entorno com a luz do Evangelho: Que a tua vida não seja uma vida estéril. - Sê útil. - Deixa rasto. - Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor. Apaga, com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. - E incendeia todos os caminhos da terra com o fogo de Cristo que levas no coração (S. Josemaria Escrivá). Vamos agir e interceder por nossas cidades! Em tempos de pastoral urbana, que não deixemos de lada nossa solicitude pastoral pelas realidades concretas do nosso entorno. O Cristão não foge do mundo, ele está no meio do mundo, no meio das realidades temporais sendo presença viva das realidades eternas.

O salmo de resposta, (Sl 137/138), nos faz repetir no refrão: Naquele dia em que gritei, vós me escutastes, ó Senhor. Como necessitado, humilde e perseguido, o salmista confessa sua confiança no Senhor e em seus planos porque Ele é fiel. Tendo sido Deus quem o criou não pode abandoná-lo.
Percebemos finalmente que tudo isso vem por nossa vida batismal, como nos recorda a segunda leitura da liturgia deste domingo (Cl 2, 12-14): “Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos. Ora, vós estáveis mortos por causa dos vossos pecados, e vossos corpos não tinham recebido a circuncisão, até que Deus vos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados. Existia contra nós uma conta a ser paga, mas ele a cancelou, apesar das obrigações legais, e a eliminou, pregando-a na cruz”. De homens e mulheres que renasceram de Cristo pela graça, somos chamados a ser presença viva do Senhor em meio aos homens.

Vida de oração, vida de intercessão, vida de testemunho em meio à sociedade. Não nos cansemos de pedir que as maravilhas de Deus se realizem em nosso meio. Sal da terra e luz do mundo, fermento no meio da massa, semente de mostarda lançada em meio aos homens: presença eficaz dos cristãos em meio aos homens, sendo instrumentos de paz. Que a palavra de Deus nos ajude a recuperarmos a necessidade de termos uma vida orante, como bons cristãos. Coloquemos nossas vidas diante do Senhor, confiantes de que Ele nos dará o que é bom no seu devido tempo.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro
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O Evangelho deste domingo (Lc 11, 1-13), nos coloca dentro dessa realidade e assim se inicia: “Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um de seus discípulos pediu-lhe: 'Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos” (Lc 11,1). A Igreja tem essa missão: ensinar o caminho da oração e da adequada vida cristã. Os pais devem ser os primeiros catequistas da oração, demonstrando pelo exemplo e pelo ensinamento o caminho de intimidade com Deus. Cabe à Igreja não perder de vista sua dimensão essencialmente orante, em que somos chamados a aprender a rezar e lembrar que a oração faz parte também de nossa atividade missionária. Embora haja muitas formas de oração, a Igreja nos ensina a forma de oração cristã, que é uma oração pessoal e de encontro com outra pessoa, como bem vemos nas petições da oração do Pai Nosso, que na versão de Lucas, assim como na de Mateus, aparece no contexto de pedido dos discípulos para ensinar a orar: “Quando rezardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação'”(Lc 11, 2-4).

O texto de Lucas vai apresentando ainda outras referências à realidade da oração: “E Jesus acrescentou: 'Se um de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite e lhe disser: `Amigo, empresta-me três pães, porque um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe oferecer', e se o outro responder lá de dentro: 'Não me incomode! Já tranquei a porta, e meus filhos e eu já estamos deitados; não me posso levantar para te dar os pães'; eu vos declaro: mesmo que o outro não se levante para dá-los porque é seu amigo, vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário. Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá. Será que algum de vós que é pai, se o filho pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Ora, se vós que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem! (Lc 11, 5-13).

Jesus fala da importância da insistência na oração. As comparações apresentadas por Jesus fazem referência explícita a costumes próprios do dia a dia do povo judeu. Fica explícita a confiança que devemos ter em Deus, a ponto de chamarmos Deus de Pai. Paternidade Divina e proximidade de Deus que se fazem palpáveis no momento da oração. Não nos dirigimos ao primeiro motor imóvel aristotélico, mas o Deus grande e próximo, que fala aos homens com palavras humanas e se deixa chamar de Pai! Conhece-nos profundamente, pois somos obra de Suas mãos, soprou em nossas narinas o sopro da vida, e sabe o que necessitamos antes mesmo que nós o peçamos. Sobre esta realidade, já dizia Santo Tomás de Aquino: “Não oramos para que Deus tenha consciência de nossas necessidades; oramos para que nós tenhamos consciência da necessidade que temos de Deus.”
Confiemos no poder da oração! Deus nos dá o que é melhor para nós. Deus dá o que necessitamos e aquilo que nos santifica cada vez mais. A oração faz com que vivemos melhor nossa vida cristã e humana. É sempre bom observar como a liturgia vai pouco a pouco retomando os aspectos essenciais da vida e da catequese cristã, como é o caso do Pai Nosso neste domingo.

É nesse sentido que a primeira leitura (Gn 18, 20-32) também se refere à intercessão de Abraão por Sodoma e Gomorra: O Senhor disse a Abraão: 'O clamor contra Sodoma e Gomorra cresceu, e agravou-se muito o seu pecado. Vou descer para verificar se as suas obras correspondem ou não ao clamor que chegou até mim'. Partindo dali os homens dirigiram-se a Sodoma, enquanto Abraão ficou na presença do Senhor. Então, aproximando-se, disse Abraão: 'Vais realmente exterminar o justo com o ímpio? Se houvesse cinquenta justos na cidade, acaso iríeis exterminá-los? Não pouparias o lugar por causa dos cinquenta justos que ali vivem? Longe de ti agir assim, fazendo morrer o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio. Longe de ti! O juiz de toda a terra não faria justiça? 'O Senhor respondeu: 'Se eu encontrasse em Sodoma cinquenta justos, pouparia por causa deles a cidade inteira'. Abraão prosseguiu dizendo: 'Estou sendo atrevido em falar a meu Senhor, eu que sou pó e cinza. Se dos cinquenta justos faltassem cinco, destruirias por causa dos cinco a cidade inteira?' O Senhor respondeu: 'Não destruiria, se achasse ali quarenta e cinco justos'. Insistiu ainda Abraão e disse: 'E se houvesse quarenta?' Ele respondeu: 'Por causa dos quarenta, não o faria'. Abraão tornou a insistir: 'Não se irrite o meu Senhor, se ainda falo. E se houvesse apenas trinta justos?'. Ele respondeu: 'Também não o faria, se encontrasse trinta'. Tornou Abraão a insistir: 'Já que me atrevi a falar a meu Senhor, e se houver vinte justos?' Ele respondeu: 'Não a iria destruir por causa dos vinte'. Abraão disse: 'Que o meu Senhor não se irrite, se eu falar só mais uma vez: e se houvesse apenas dez?' Ele respondeu: 'Por causa dos dez, não a destruiria'.

Essa forma de pensar faz ver como a salvação de muitos, inclusive pecadores, pode vir pela fidelidade de alguns justos e prepara assim o caminho para entender como a salvação de toda a humanidade se realiza pela obediência de um só, Cristo. Em qualquer situação, mesmo que seja apenas em meio a uma minoria, o bem pode ser contagioso, espalhando-se aos que estão ao nosso redor. Em meio a tantos problemas presentes em nossas cidades e regiões, há sempre um núcleo que segue o Senhor e este deve ser também sustento para os que não se aproximaram ainda da presença de Deus, amando por aqueles que ainda não amam, adorando por aqueles que ainda não adoram. Aqueles que de verdade amam a Deus fazem a diferença onde se encontram. São muitas as vezes em que nos perdemos no lamento e na murmuração pela presença do mal no mundo e nos esquecemos de formar aquele núcleo que assim como Jesus, passa pelo mundo fazendo o bem, e que vão contagiando o seu entorno com a luz do Evangelho: Que a tua vida não seja uma vida estéril. - Sê útil. - Deixa rasto. - Ilumina com o resplendor da tua fé e do teu amor. Apaga, com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. - E incendeia todos os caminhos da terra com o fogo de Cristo que levas no coração (S. Josemaria Escrivá). Vamos agir e interceder por nossas cidades! Em tempos de pastoral urbana, que não deixemos de lada nossa solicitude pastoral pelas realidades concretas do nosso entorno. O Cristão não foge do mundo, ele está no meio do mundo, no meio das realidades temporais sendo presença viva das realidades eternas.

O salmo de resposta, (Sl 137/138), nos faz repetir no refrão: Naquele dia em que gritei, vós me escutastes, ó Senhor. Como necessitado, humilde e perseguido, o salmista confessa sua confiança no Senhor e em seus planos porque Ele é fiel. Tendo sido Deus quem o criou não pode abandoná-lo.
Percebemos finalmente que tudo isso vem por nossa vida batismal, como nos recorda a segunda leitura da liturgia deste domingo (Cl 2, 12-14): “Com Cristo fostes sepultados no batismo; com ele também fostes ressuscitados por meio da fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos. Ora, vós estáveis mortos por causa dos vossos pecados, e vossos corpos não tinham recebido a circuncisão, até que Deus vos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoou os pecados. Existia contra nós uma conta a ser paga, mas ele a cancelou, apesar das obrigações legais, e a eliminou, pregando-a na cruz”. De homens e mulheres que renasceram de Cristo pela graça, somos chamados a ser presença viva do Senhor em meio aos homens.

Vida de oração, vida de intercessão, vida de testemunho em meio à sociedade. Não nos cansemos de pedir que as maravilhas de Deus se realizem em nosso meio. Sal da terra e luz do mundo, fermento no meio da massa, semente de mostarda lançada em meio aos homens: presença eficaz dos cristãos em meio aos homens, sendo instrumentos de paz. Que a palavra de Deus nos ajude a recuperarmos a necessidade de termos uma vida orante, como bons cristãos. Coloquemos nossas vidas diante do Senhor, confiantes de que Ele nos dará o que é bom no seu devido tempo.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro
Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro