Arquidiocese do Rio de Janeiro

24º 16º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 17/07/2019

17 de Julho de 2019

A Missão Continental à luz do Novo Pontificado de Sua Santidade Francisco e dos conteúdos do Magistério Pontifício no Ano da Fé

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do e-mail.
E-mail enviado com sucesso.

17 de Julho de 2019

A Missão Continental à luz do Novo Pontificado de Sua Santidade Francisco e dos conteúdos do Magistério Pontifício no Ano da Fé

Se você encontrou erro neste texto ou nesta página, por favor preencha os campos abaixo. O link da página será enviado automaticamente a ArqRio.

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do erro.
Erro relatado com sucesso, obrigado.

17/11/2013 19:45

A Missão Continental à luz do Novo Pontificado de Sua Santidade Francisco e dos conteúdos do Magistério Pontifício no Ano da Fé 0

17/11/2013 19:45

A Missão Continental à luz do Novo Pontificado de Sua Santidade Francisco e dos conteúdos do Magistério Pontifício no Ano da Fé / Arqrio

Eminências, Excelências, sacerdotes, irmãos e irmãs, amigos no Senhor Jesus e Nossa Senhora de Guadalupe, um bom dia para todos. Meu cordial agradecimento à Pontifícia Comissão para América Latina, na pessoa do seu Presidente, Senhor Cardeal Marc Ouellet, por ter-me convidado a participar deste Congresso e termos juntos a oportunidade de aprofundarmos, à luz do pensamento do Papa Francisco, no desafio da Missão Continental no limiar do Ano da Fé. Meu agradecimento também ao Senhor Cardeal Norberto Rivera, Arcebispo de Cidade do México, por nos acolher nesta Arquidiocese, tão querida no nosso Continente.

INTRODUÇÃO

Para aproximar-nos do tema que me foi proposto: “A Missão Continental à luz do Novo Pontificado de Sua Santidade Francisco e dos conteúdos do Magistério Pontifício no Ano da Fé”, julguei que a minha contribuição podia focar-se na profundidade teológico-pastoral do Magistério do Santo Padre Francisco. Especialmente na sua Carta Encíclica “Lumen Fidei”, assim como em seus discursos e palavras no Brasil, sobretudo durante a Jornada Mundial da Juventude realizada no Rio de Janeiro, que sem dúvida significou para toda a Igreja um dos momentos mais fortes do Ano da Fé. Sou testemunha de que este tempo propiciou um encontro de discípulos missionários com Cristo. Discípulos missionários que, impregnados do entusiasmo e da coerência de quem se deixa conduzir pela ação do Espírito Santo, receberam o mandato de Jesus: “Ide e fazei discípulos entre as nações!” (cf. Mt 28,19).

Também considerarei outros pronunciamentos nas homilias, audiências e ângelus que o Santo Padre Francisco tem realizado nos últimos meses, num verdadeiro espírito de renovação, em continuidade com o Magistério Petrino e em perfeita consonância com o Magistério da América Latina. Considero importante explicitar que a América Latina deu de presente ao mundo este Papa e agora, pela sua presença e apostolado, sente-se renovada na sua missão evangelizadora. Sem dúvida é de particular significado o lugar onde nos encontramos hoje, já que marca a presença mariana nos primeiros tempos da Evangelização do Continente Americano. Tenho a certeza que deste lugar e neste Congresso, nas nossas reflexões e celebrações, Santa Maria, nossa Mãe, especialmente Nossa Senhora de Guadalupe vai guiar os nossos esforços para cada vez mais compreender, acolher e sobretudo dar vida ao chamado que nos faz o Santo Padre Francisco: o anúncio pessoal da Boa Nova do Senhor Jesus. Por isso, hoje, neste santuário mariano, junto com o Santo Padre renovemos nosso amor e Fé em Nossa Senhora e lembremos que somos convidados a bater à porta da casa de Maria, e assim descobrir como Ela abre-nos a porta, faz-nos entrar e aponta-nos o seu Filho.  Agora Ela nos pede: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2,5). É, pois peregrinando neste Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe e colocando sob seus cuidados nossas intenções e bons propósitos da Missão Continental, que Nossa Senhora, Estrela da Nova Evangelização, saberá guiar-nos e conduzir-nos nesta tarefa missionária.

Voltando ao título desta Conferência, em primeiro lugar gostaria de lembrar que a Missão Continental apresenta-se como um grande desafio para toda a Igreja. O desafio de realizar a tarefa da Nova Evangelização. A Missão Continental foi definida e iniciada a partir da V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe, em Aparecida, e atualmente se enriquece e concretiza com o Magistério e a ação pastoral do Papa Francisco. Assim, alentados pelo Santo Padre Francisco, por seus gestos e palavras de misericórdia, e por seu chamado fundamental e urgente a viver a santidade, a Missão Continental lançada em Aparecida deve orientar o caminho que a Igreja da América Latina há de seguir.

Neste dinamismo de renovação em continuidade, suscitado pelo Espírito Santo, e de forte presença mariana na Evangelização dos nossos povos, é muito importante considerar junto com o Papa Francisco, que “o documento de Aparecida é fruto da primeira Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe realizada em um Santuário mariano” [1].

Devemos afirmar com o coração aquecido, que na primeira viagem deste primeiro Papa da América Latina, o Santo Padre Francisco, nós fomos alentados a redescobrir nos desafios da Nova Evangelização, um “forte impulso do Espírito na V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, em Aparecida, que continua animando os trabalhos do CELAM para a anelada renovação das Igrejas particulares” [2].

Sabemos bem que nos encontramos diante de uma mudança de época e neste contexto existe a urgente necessidade de recuperar a vida de discípulos e missionários com que Cristo fundou a Igreja. Por isso, nesta conferência, unidos ao Santo Padre Francisco, lembrando da Conferência de Aparecida, gostaria abordar este tema a partir do que ele denomina “patrimônio herdado daquele encontro fraterno e que todos batizamos como Missão Continental” [3].

Como diz o Papa Francisco aos Bispos do CELAM, foi em Aparecida, “neste contexto de oração e vivência de Fé, (que) surgiu o desejo de um novo Pentecostes para a Igreja e o compromisso da Missão Continental. (Assim) Aparecida não termina com um documento, mas prolonga-se na Missão Continental” [4]. Certamente tudo isto tem um significado especial neste Ano da Fé, especialmente iluminados pela luz dessa Fé, que nos comunica no seu Magistério.

  1. OLHANDO O MUNDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE FÉ DO PAPA FRANCISCO.

Este nosso encontro neste Santuário Mariano acontece no grande umbral do Ano da Fé. Lembremos que o Bispo Emérito de Roma, então Papa Bento XVI, decidiu proclamar um “Ano da Fé”. Começou no dia 11 de outubro de 2012, no cinquentenário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II e celebração de vinte anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, e terminará na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, no dia 24 de novembro de 2013.

Providencialmente este congresso “tem lugar próximo da conclusão do Ano da Fé, ocasião importante para revigorarmos a nossa amizade com o Senhor e o nosso caminho como Igreja que anuncia com coragem o Evangelho” [5].

1.1.A Carta Encíclica Lumen Fidei.

Neste Ano da Fé, sem dúvida fomos enriquecidos com o Magistério do Santo Padre Francisco. Consideremos a primeira Encíclica do Papa Francisco, que ─ iniciada pelo Bispo emérito de Roma, Bento XVI ─ sem duvida ajuda a fortalecer a Fé dos católicos em todo o mundo. Neste documento, dirigido aos Bispos, aos presbíteros, aos diáconos, às pessoas consagradas e a todos os fiéis leigos, o Papa Francisco e o Bispo Emérito de Roma, juntos, mostram a beleza da Fé da Igreja. Fé que é confessada dentro do Corpo de Cristo, na comunhão concreta dos crentes. É com grande alegria e gratidão que nós devemos acolher esta verdadeira profissão de Fé na forma de catequese escrita a quatro mãos pelos sucessores de Pedro.

Neste momento em que restam poucos dias para findarmos este tempo fecundo do Ano da Fé, devemos renovar nossa consciência de que o seguimento de Jesus Cristo deve ser essencialmente missionário. Assim, devemos recordar que nossa missão primordial é transmitir a Fé através do testemunho eficaz de nossa vida cristã, proporcionado ao nosso próximo, pelo contato pessoal, um encontro com Cristo. Neste sentido, destaca o Santo Padre Francisco na Lumen Fidei que “a Fé transmite-se por assim dizer sob a forma de contacto, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama. Os cristãos, na sua pobreza, lançam uma semente tão fecunda que se torna uma grande árvore, capaz de encher o mundo de frutos” (cf. n.37)

Na introdução da Carta Encíclica “Lumen Fidei” ou "Luz da Fé", o Papa Francisco  diz que o Sucessor de Pedro, ontem, hoje e amanhã, sempre estará chamado a «confirmar os irmãos» no tesouro incomensurável da Fé que Deus dá a cada homem como luz para o seu caminho". Demonstrando um dinamismo de perfeita comunhão e de renovação em continuidade com o Magistério eclesial, o Papa Francisco expressa estar profundamente agradecido" ao seu antecessor por ter quase concluído um primeiro esboço da Encíclica, e diz que seus ensinamentos "pretendem juntar-se a tudo aquilo que Bento XVI escreveu nas cartas encíclicas sobre a caridade e a esperança."

A Encíclica da Fé está dividida em quatro capítulos, uma introdução e uma conclusão. Brevemente desejo apresentá-la para depois tirar algumas conclusões para a Missão Continental, que somos convidados a realizar nas Américas.

O primeiro capítulo é intitulado "Acreditamos no Amor" e explica a Fé como "escutar" o mundo de Deus, particularmente porque Ele nos chama a vê-lo como o Pai e não como um estranho. Também destaca Jesus como uma "testemunha fiável" e que nos chama a participar "do seu modo de ver" e a abrir-nos para o amor que transforma por dentro.
 “A Fé não é um fato privado, uma concepção individualista, uma opinião subjetiva," menciona o Papa no primeiro capítulo.

O segundo capítulo, chamado "Se não acreditardes, não compreendereis", mostra a ligação entre Fé e verdade e entre Fé e amor. "O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui," diz o Pontífice.

"Transmito-vos aquilo que recebi" é o título no terceiro capítulo, que se concentra exclusivamente na importância da evangelização. "É impossível crer sozinhos," diz o Papa Francisco. "A Fé não é só uma opção individual." O capítulo explica que a Fé não é uma relação privada entre o divino "Vós" e o "eu", mas sim entre o "nós". O Papa também escreveu sobre a importância dos Sacramentos para a transmissão da Fé, especialmente o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia.

O último capítulo foi intitulado "Deus prepara para eles uma cidade," e fala sobre a ligação entre a Fé e o bem comum. A Encíclica revela que o propósito da Fé não é meramente construir a vida após a morte, mas ajudar na edificação da sociedade. O quarto capítulo também salienta a importância do casamento, entendido entre homem e mulher.

Assim, pois, iluminados pela Luz da Fé, vemos como claramente a Missão Continental deve considerar temas fundamentais apresentados na Carta Encíclica como: a Fé e sua relação com a verdade e o amor, o anúncio evangelizador, a Igreja e os sacramentos na sua missão, a família e o bem comum numa sociedade com sinais de sofrimento.

Iniciar nossa Missão exige propor-nos realizá-la a partir da Fé. Sem duvida este é o caminho que o Continente Americano deve percorrer.

 

1.2.A Mensagem do Santo Padre Francisco para o Dia Mundial das missões.

Considerando o dom da Fé, também é oportuno aprofundar a reflexão na Mensagem do Santo Padre Francisco no Dia Mundial das Missões. Gostaria de convidá-los a percorrer comigo um itinerário que nos leve a descobrir o grande significado e a importância que está tendo este Ano da Fé, especialmente olhando para a missão que o Senhor Jesus nos confia e o Santo Padre Francisco nos alenta a realizar. Passo a traçar algumas consequências que todo batizado deve viver pessoal e comunitariamente e que estão presentes nas palavras do Papa:

1. A Igreja inteira deve adquirir uma renovada consciência da sua presença no mundo contemporâneo, da sua missão entre os povos e as nações.

2. A missionariedade não é questão apenas de territórios geográficos, mas de povos, culturas e indivíduos.

3. É próprio de cada batizado e de todas as comunidades cristãs o dever missionário, o dever de entender isto como um aspecto essencial da vida cristã, na qual todos são enviados para caminhar com os irmãos, professando e testemunhando a nossa Fé em Cristo, num compromisso constante que deve animar toda a vida da Igreja.

4. Somos convocados a descobrir a Fé como um dom precioso de Deus que não está reservado a poucos, mas é oferecido a todos com generosidade. Todos deveriam poder experimentar a alegria de se sentirem amados por Deus e a alegria da salvação.

5. O dom da Fé recebido é para ser partilhado, senão tornamo-nos cristãos isolados, estéreis e combalidos.

6. Somos chamados a professar, celebrar e anunciar nossa Fé com alegria. Também somos alentados a viver a caridade e anunciar sem cessar a Palavra de Deus, saindo de nós mesmos e indo até as «periferias», sobretudo alcançando a quem ainda não teve a oportunidade de conhecer Cristo.

7. Toda a Igreja, os Bispos, os presbíteros, os conselhos presbiterais, pastorais, e cada pessoa e grupo responsável é convidada a dar destaque à dimensão missionária nos programas pastorais e formativos,

8. A missionariedade não é apenas uma dimensão programática na vida cristã; é também uma dimensão paradigmática, que diz respeito a todos os aspectos da vida cristã.

9. Os obstáculos à obra de evangelização muitas vezes se encontram não no exterior, mas dentro da própria comunidade eclesial.

10. Devemos sempre ter a coragem e a alegria de propor, com respeito, o encontro com Cristo e de nos fazermos portadores do seu Evangelho. Jesus veio entre nós para nos mostrar o caminho da salvação, e nos confiou à missão de dá-lo a todos, até os confins da terra.

11. No nosso tempo é urgente fazer resplandecer dentro da Igreja a vida boa do Evangelho pelo anúncio e pelo testemunho. Porque, nesta perspectiva, é importante não esquecer jamais um princípio fundamental para todo o evangelizador: não se pode anunciar Cristo sem a Igreja. É fundamental lembrar que evangelizar nunca é um ato isolado, individual, privado, mas sempre eclesial. E isto dá força à missão e faz sentir a cada missionário e evangelizador que nunca está sozinho, mas é parte de um único Corpo animado pelo Espírito Santo.

Nesta Mensagem do Santo Padre Francisco para o Dia Mundial das Missões, também descobrimos um diagnóstico que ele faz da realidade mundial e eclesial.

Ele descreve esta época como um tempo de mobilidade difusa e ao mesmo tempo de facilidade de comunicação, onde através das novas mídias misturaram-se entre si os povos, os conhecimentos e as experiências.  O Santo Padre diz que é “uma época na qual vivemos num momento de crise que atinge vários setores da existência, e não apenas os da economia, das finanças, da segurança alimentar, do meio ambiente, mas também os do sentido profundo da vida e dos valores fundamentais que a animam. A própria convivência humana está marcada por tensões e conflitos, que provocam insegurança e dificultam o caminho para uma paz estável”.

Na vida eclesial o Santo Padre Francisco nos alerta sobre uma realidade cada vez mais frequente, que é o crescimento do número daqueles que vivem alheios à Fé, indiferentes à dimensão religiosa ou que estão animados por outras crenças. Também o caso cada vez mais presente de alguns batizados que fazem opções de vida que os afastam da Fé, tornando-os assim carecidos de uma «Nova Evangelização». A tudo isso se junta o fato de que grande parte da humanidade ainda não foi atingida pela Boa Nova de Jesus Cristo.

O Papa alenta a Igreja e diz que: nesta “complexa situação, onde o horizonte do presente e do futuro parece atravessado por nuvens ameaçadoras, torna-se ainda mais urgente levar corajosamente a todas as realidades o Evangelho de Cristo, que é anúncio de esperança, de reconciliação, de comunhão, anúncio da proximidade de Deus, da sua misericórdia, da sua salvação, anúncio de que a força de amor de Deus é capaz de vencer as trevas do mal e guiar pelo caminho do bem”.

  1. DIMENSÕES DA MISSÃO CONTINENTAL.

Aprofundando no Magistério do Santo Padre Francisco, vemos que o Papa fala de dimensões da Missão Continental. Nestas dimensões, acredito que é possível descobrir cinco tópicos, que se apresentam como um programa necessário para nossos tempos. Permitam-me batizar este diagnóstico com o nome de desafios. Desafios para a Nova Evangelização e realização da Missão Continental.

Como referência para compreender estes desafios, teremos sempre as reflexões propostas pelo Papa Francisco, feitas nos encontros com a Comissão de coordenação do CELAM, e com os Bispos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Também considerarei os temas programáticos que Sua Santidade depois formulou na Mensagem por ocasião do Dia Mundial das Missões. Tudo isto significou para a Igreja uma atualização, a partir do seu olhar, do documento de Aparecida.

De fato, o Papa tem considerado as circunstâncias atuais e tem retomado o entusiasmo da V Conferência do Episcopado da América Latina, na qual Ele mesmo trabalhou ainda como Cardeal e como principal responsável pela redação. Vemos, pois, claramente, como é, para a América Latina, um novo impulso para a Missão Continental, a missão permanente e as dimensões do discipulado e apostolado.

2.1. Desafio do serviço eclesial.

O Santo Padre nos alenta a entender que a missionariedade da Igreja não é proselitismo, mas testemunho de vida que ilumina o caminho, que traz esperança e amor.  Suas palavras nos lembram sempre que a Igreja não é uma organização assistencial, uma empresa, uma ONG, mas uma comunidade de pessoas animadas pela ação do Espírito Santo, que viveram e vivem a maravilha do encontro com Jesus Cristo e desejam partilhar esta experiência de profunda alegria. Partilhar a Mensagem de salvação que o Senhor nos trouxe. Justamente é o Espírito Santo que guia a Igreja neste caminho e para realizar esta missão existe a necessidade de uma formação missionária mais profunda de todo o Povo de Deus, alimentando a sensibilidade das comunidades cristãs para darem a sua ajuda a favor da difusão do Evangelho no mundo.

A partir desta visão eclesial, o Santo Padre abordou o desafio da Missão Continental, e nos diz que a Missão Continental “está projetada em duas dimensões: programática e paradigmática”.

A missão programática se concretiza na realização de atos missionários habituais, enquanto que a missão paradigmática não só é muito importante, como também supõe colocar em chave missionária a atividade das Igrejas particulares.

Nesse sentido, creio que a grande resposta de nossas Igrejas no Continente seja o incremento dos processos missionários. Precisamos fomentar ainda mais experiências missionárias capazes de atingir os católicos, em seus diversos níveis, vivenciando a forte articulação que o Santo Padre apresenta entre a dimensão programática e paradigmática da Missão Continental.

Longa é, em nosso continente, a história, por exemplo, das missões populares. Com diferentes nomes de acordo com a região, estes momentos fortes de animação missionária fazem bem não apenas aos que são visitados, mas ajudam aos que visitam a perceberem outro jeito de viver a eclesialidade. Em várias regiões, constatamos que, ao lado das Santas Missões levadas a efeito por congregações religiosas, vemos emergir no laicato forte sensibilidade para atividades missionárias. Todos nós conhecemos, em nossas igrejas locais, homens e mulheres que, deixando a estabilidade de suas origens, assumem servir profissionalmente ou como agentes evangelizadores.

Sou diretamente testemunha do bem que é feito pelo trabalho missionário de leigos e leigos em áreas de pobreza e violência aguda. Em regiões onde a violência retira quase toda a esperança, são estes corações generosos que, unidos aos clérigos e superando o medo e o cansaço, passam finais de semana visitando casa por casa. Diante de tudo que é feito em nossas igrejas, estas experiências podem deixar a impressão de serem pequenas. Quando, no entanto, olhamos com os olhos do coração, tendo a Missão Continental como referência, nós entendemos o quanto tais experiências significam.

Em consequência disso, verifica-se toda uma dinâmica de reforma das estruturas eclesiais. Reformas que serão consequência da dinâmica da própria missão. Assim a missionariedade é uma chave que muda o que está caduco e transforma os corações.

Dentro desta missão o discípulo deve experimentar-se inserido numa comunidade eclesial com uma clara identidade cristã e assim ser capaz de se doar, escapando de qualquer intimismo.

O Santo Padre também nos ajuda a enxergar uma realidade muito feliz na Igreja da América Latina. Trata-se de ver como “as próprias Igrejas jovens estão empenhando-se generosamente no envio de missionários às Igrejas que se encontram em dificuldade – não raro Igrejas da antiga cristandade – levando assim a vigor e o entusiasmo com que elas mesmas vivem a Fé que renova a vida e dá esperança. Viver com este fôlego universal, respondendo ao mandato de Jesus «ide, pois, fazei discípulos de todos os povos» (Mt 28, 19), é uma riqueza para cada Igreja particular, para cada comunidade; e dar missionários nunca é uma perda, mas um ganho”. Junto aos movimentos missionários, verifica-se toda uma dinâmica de reforma das estruturas eclesiais. Reformas que serão consequência da dinâmica da própria missão. Assim a missionariedade é uma chave que muda o que está caduco e transforma os corações. Deste modo, o discípulo deve experimentar-se inserido numa comunidade eclesial com uma clara identidade cristã e assim ser capaz de se doar, escapando de qualquer intimismo. Viverá em comunidade e realizará a missão. Será o que Aparecida indicou como discípulo missionário [6].

O Papa diz que estas realidades eclesiais “podem assim tornar-se caminho para uma espécie de «restituição» da Fé, a fim de que estas reencontrem o entusiasmo e a alegria de partilhar a Fé, numa permuta que é enriquecimento recíproco no caminho de seguimento do Senhor”.

Outro aspecto importante que deve caracterizar a Missão Continental é entender a dimensão de co-responsabilidade que devemos ter no serviço eclesial. Ajudar-nos uns aos outros e aprender cada vez mais a viver com generosidade a missão evangelizadora. O Santo Padre Francisco faz um “apelo, a todos aqueles que sentem este chamado, para que correspondam generosamente à voz do Espírito, segundo o próprio estado de vida, e não tenham medo de ser generosos com o Senhor”. Ele diz: “convido também os Bispos, as famílias religiosas, as comunidades e todas as agregações cristãs a apoiarem, com perspicácia e cuidadoso discernimento, a vocação missionária ad gentes e a ajudarem as Igrejas que precisam de sacerdotes, de religiosos e religiosas e de leigos para revigorar a comunidade cristã. E a mesma atenção deveria estar presente entre as Igrejas que fazem parte de uma Conferência Episcopal ou de uma Região: é importante que as Igrejas mais ricas de vocações ajudem, com generosidade, aquelas que padecem a sua escassez”.

Com um coração de Pastor o Santo Padre também lança seu olhar e “o seu pensamento para os cristãos que, em várias partes do mundo, encontram dificuldades em professar abertamente a própria Fé, e ver reconhecidos o direito a vivê-la dignamente”.

Nesse sentido é muito importante que, em nossas Igrejas particulares, estejamos unidos, pela oração, às pessoas, às famílias e às comunidades que sofrem violência e intolerância, alimentando-nos das palavras consoladoras de Jesus: «Tende confiança, Eu já venci o mundo» (Jo 16, 33).

2.2. Desafio da renovação interna da Igreja.

Neste horizonte do desafio da renovação interna da Igreja, o Santo Padre Francisco a partir do documento de Aparecida propôs comodesafio a Conversão Pastoral.Esta Conversão Pastoralexige que tenhamos uma opção fundamental a partir da Fé que nos leve a acreditar.  O Papa apresenta-nos várias linhas deste acreditar:

- Acreditar na Boa Nova do Senhor Jesus, portador do Reino de Deus.

- Acreditar na sua presença vitoriosa sobre o mal;

- Acreditar na assistência e guia do Espírito Santo;

- Acreditar na Igreja, Corpo de Cristo e prolongamento do dinamismo da Encarnação.

Neste sentido o Papa alentou os Bispos do CELAM a entender que é necessário que tal como um exame de consciência e de propósito de Conversão Pastoral, todos os membros da Igreja, Corpo de Cristo, nos perguntemos como vai nossa resposta ao chamado que o Senhor nos faz para evangelizar. Das questões que o Santo Padre tratou com os senhores Bispos do CELAM, permito-me destacar treze pontos fundamentais, que brotam como tarefas concretas que devemos realizar.

  1. Realizar um trabalho eclesial verdadeiramente pastoral e não apenas administrativo.
  2. Buscar no trabalho pastoral o bem de toda a Igreja considerada como Povo de Deus na sua totalidade.
  3. Ter uma atitude proativa diante dos problemas que surgem.
  4. Promover espaços de reconciliação e encontro com a misericórdia de Deus.
  5. Repensar as atitudes pastorais e o funcionamento das estruturas eclesiais.
  6. Buscar o bem dos fiéis e da sociedade.
  7. Promover a participação ativa e o apostolado dos fiéis leigos.
  8. Renovar a consciência da presença do Espírito Santo na Palavra de Deus e nos Sacramentos.
  9. Promover o discernimento pastoral através dos conselhos onde os leigos tenham uma verdadeira participação na consulta, organização e planejamento pastoral.
  10. Promover a participação e o discernimento livre dos fiéis para que se tornem verdadeiros discípulos do Senhor Jesus sem nenhum tipo de manipulação ou submissão.
  11. Deixar-se interpelar pela busca do bem e da missão da Igreja no mundo.
  12. Promover o sentido de pertença à Igreja
  13. Aproximar-se dos batizados indiferentes e afastados.

Destas tarefas concretas, que são necessárias para que se realize uma verdadeira Conversão Pastoral, surge à exigência de uma verdadeira reforma das atitudes e da vida. Um fundamento e chave de interpretação desta Conversão Pastoral deve ser uma clara identidade católica concebida como pertença eclesial.

De fato, a transmissão da fé através do contato pessoal, como indicado na Lumen Fidei, pede não apenas que estimulemos em cada batizado as atitudes do testemunho e do anúncio explícito da pessoa e da mensagem de Jesus Cristo, mas também que busquemos estruturas pastorais capazes de proporcionar tal contato. Neste sentido, destaca-se a firme convocação de Aparecida para que as paróquias do continente tornem-se efetivas comunidades de comunidades [7], “capazes de se articular e conseguir que seus membros se sintam realmente discípulos missionários de Jesus Cristo em comunhão” [8].

Nosso empenho missionário por formar comunidades de comunidades tem sua raiz mais profunda na certeza de que precisamos fazer todos os esforços para que a Igreja se torne cada vez mais próxima de cada pessoa, lá onde esta pessoa se encontra. E, estando próxima, colocar cada uma e todas as pessoas em contato com Jesus Cristo, convidando-as a segui-lo, sem o que, lembra-nos Aparecida, nós não estaremos cumprindo nossa missão evangelizadora [9]. Completaremos, pois, os processos missionários com as redes de comunidades e com o forte investimento na iniciação cristã dos adultos, sejam os batizados, mas não suficientemente evangelizados [10], sejam os que, chegando à juventude ou à idade adulta, não tiveram contato suficiente com Jesus Cristo e sua Igreja, não sendo sequer batizados.

2.3. Desafio do diálogo com o mundo atual.

O fundamento do diálogo com o mundo atual deve ser considerado a partir das luzes do documento conciliar Gaudium et Spes, 1, que diz “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e atribulados, são também alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo”.

Para poder dialogar com o mundo atual o Santo Padre Francisco nos lembra que: “a resposta às questões existenciais do homem de hoje, especialmente das novas gerações, atendendo à sua linguagem, entranha uma mudança fecunda que devemos realizar com a ajuda do Evangelho, do Magistério e da Doutrina Social da Igreja”.

Pode-se descobrir no pensamento do Papa Francisco a consciência de que diante dos cenários mais variados do nosso tempo é necessário abrir-se ao Espírito Santo e saber descobrir Deus em toda parte. Porque só descobrindo-O poderemos anunciá-lO a todas as culturas e realidades segundo cada idioma e ritmos próprios.

2.4. Desafio de superar algumas tentações contra o discipulado missionário.

Uma Igreja que opta pela missionariedade, estará sempre exposta a algumas tentações. O Santo Padre nos alenta a ter lucidez e prudência para saber discernir e ver por onde entra o espírito do mal e assim identificar algumas propostas que na dinâmica do discípulo e missionário, poderiam deter, até fazer fracassar o processo da Conversão Pastoral. O Papa lembra a todo o Povo de Deus, através destas palavras dirigidas aos Bispos, três tentações contra o discípulo missionário: A ideologização da mensagem evangélica, o funcionalismo e o clericalismo. Ele considera que estas são as mais fortes e importantes tentações neste momento da América Latina e do Caribe.

2.4.1. A ideologização da mensagem evangélica.

O Santo Padre diz que: “É uma tentação que se verificou na Igreja desde o início: procurar uma hermenêutica de interpretação evangélica fora da própria mensagem do Evangelho e fora da Igreja”.

Isto acontece, diz o Santo Padre, “quando se pretende usar uma hermenêutica asséptica. Que não enxerga a realidade com o olhar de discípulo”. O Papa mencionou algumas maneiras de ideologização da mensagem que aparecem na América Latina e no Caribe.

a) O reducionismo socializante: Trata-se de uma pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo com as ciências sociais. Engloba desde o liberalismo de mercado até a categorização marxista.

b) A ideologização psicológica: Trata-se de uma hermenêutica elitista que, reduz o "encontro com Jesus Cristo" e seu sucessivo desenvolvimento a uma dinâmica de autoconhecimento. Não tem sabor de transcendência, nem, portanto, de missionariedade.

c) A proposta gnóstica: Muito ligada à tentação anterior. Costuma ocorrer em grupos de elites com uma proposta de espiritualidade superior, bastante desencarnada.

d) A proposta pelagiana: Aparece fundamentalmente sob a forma de restauracionismo. Na América Latina, costuma verificar-se em pequenos grupos, em algumas novas Congregações Religiosas, em tendências para a "segurança" doutrinal ou disciplinar. Fundamentalmente é estática, embora possa prometer uma dinâmica para dentro, regride. Procura "recuperar" o passado perdido.

2.4.2. Uma segunda tentação é o funcionalismo burocrata. A sua ação na Igreja é paralisante. Reduz a realidade da Igreja à estrutura de uma ONG. O que vale é o resultado palpável e as estatísticas. Constitui uma espécie de "teologia da prosperidade" no organograma da pastoral.

2.4.3. A terceira tentação, o clericalismo é também um problema muito atual na América Latina. O fenômeno do clericalismo explica, em grande parte, a falta de maturidade adulta e de liberdade cristã em boa parte do laicato da América Latina.

Diante desta realidade o Santo Padre destaca algumas experiências de liberdade e autonomia que se expressam fundamentalmente na piedade popular. Também diz o Papa que o documento de Aparecida coloca como meios de superação do clericalismo e favoráveis a um crescimento da responsabilidade laical a proposta dos grupos bíblicos, das comunidades eclesiais e dos Conselhos pastorais.

2.5. Desafios para o discípulo-missionário inserido numa pastoral eclesial.

2.5.1. O discipulado-missionário, que em Aparecida se propôs às Igrejas da América Latina e do Caribe, é o caminho que Deus quer para "hoje". Toda a projeção utópica (para o futuro) ou restauracionista (para o passado) não é do espírito bom. Deus é real e se manifesta no "hoje".

2.5.2. O discipulado missionário é vocação: chamado e convite. Acontece em um "hoje", mas "em tensão". Não existe o discipulado missionário estático.

2.5.3. O discípulo missionário não pode possuir-se a si mesmo. Não admite a auto-referencialidade: ou refere-se a Jesus Cristo ou refere-se às pessoas a quem deve levar o anúncio dele. É sujeito que se transcende; sujeito projetado para o encontro: encontro com o Mestre (que nos unge discípulos) e encontro com os homens que esperam o anúncio. A posição do discípulo missionário não é uma posição de centro, mas de periferias. No anúncio evangélico, falar de "periferias existenciais" descentraliza e, habitualmente, temos medo de sair do centro. O discípulo-missionário é um descentrado no sentido de que o centro é Jesus Cristo, que convoca e envia. Assim o discípulo se experimenta enviado para as periferias existenciais, neste sentido o essencial deste anuncio deve ser a pessoa do Senhor Jesus.

2.5.4.  O discípulo missionário deve realizar sua ação pastoral na Igreja. Assim, descobrindo que a Igreja é instituição, deve sempre se esforçar por superar a tentação do centralismo e funcionalismo. Senão, afirma o Papa Francisco que a Igreja “pouco a pouco, se transforma em uma ONG. Torna-se cada vez mais auto-referencial, e se enfraquece a sua necessidade de ser missionária”. O Papa Francisco nos alerta do perigo de se transformar de "Instituição" em "Obra" e como consequência disso deixar de ser Esposa, para acabar sendo Administradora; deixar de ser Servidora para se transformar em "Controladora”. O Papa diz que Aparecida quer “uma Igreja Esposa, Mãe, Servidora, facilitadora da Fé e não controladora da Fé”.

2.5.5. O discípulo missionário deve viver a realidade do encontro e proximidade.  O Papa nos chama a pensar como em Aparecida. Verificam-se duas categorias pastorais, que também podem servir de orientação para avaliarmos o modo como vivemos eclesialmente este discipulado missionário: a proximidade e a cultura do encontro. Encontro com Jesus Cristo e encontro com os irmãos. A proximidade cria comunhão e pertença, dá lugar ao encontro. A proximidade toma forma de diálogo e cria uma cultura do encontro, da solidariedade e da reconciliação.

2.5.6. O discípulo missionário deve ser um promotor de comunhão eclesial. Neste esforço por realizar a pastoral eclesial da Nova Evangelização através da Missão Continental, é fundamental revisar a relação dos Bispos com o Povo de Deus. Já tendo falado nos tópicos anteriores das atitudes que todo batizado deve ter em relação à sua missão na Igreja e no mundo, o Santo Padre aprofunda na missão e no papel fundamental que o Bispo deve ter. Ele afirma que “quem guia a pastoral, a Missão Continental (seja programática seja paradigmática), é o Bispo”.

A seguir passa a descrever uma série de características e atitudes pastorais, que poderíamos chamar de virtudes, que todos os Bispos devem procurar viver: “ser Pastores, próximos das pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão: pacientes e misericordiosos. Homens que amem a pobreza, quer a pobreza interior como liberdade diante do Senhor, quer a pobreza exterior como simplicidade e austeridade de vida. Homens que não tenham "psicologia de príncipes". Homens que não sejam ambiciosos e que sejam esposos de uma Igreja sem viver na expectativa de outra. Homens capazes de vigiar sobre o rebanho que lhes foi confiado e cuidando de tudo aquilo que o mantém unido: vigiar sobre o seu povo, atento a eventuais perigos que o ameacem, mas sobretudo para cuidar da esperança: que haja sol e luz nos corações. Homens capazes de sustentar com amor e paciência os passos de Deus em seu povo. E o lugar onde o Bispo pode estar com o seu povo é triplo: ou à frente para indicar o caminho, ou no meio para mantê-lo unido e neutralizar as debandadas, ou então atrás para evitar que alguém se desgarre mas também, e fundamentalmente, porque o próprio rebanho tem o seu olfato para encontrar novos caminhos”.

Com tudo isto, o Santo Padre alenta o Povo de Deus a viver em comunhão com o Episcopado e nos diz que “convém que nos ajudemos um pouco mais a dar os passos que o Senhor quer que cumpramos neste "hoje" da América Latina e do Caribe”.

2.6. Os desafios da Nova Evangelização

Na Assembléia plenária do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização, realizada no 14 de Outubro, o Papa Francisco apontou três linhas de orientação que o desafio da Nova Evangelização deveria ter: Primado do testemunho, urgência de ir ao encontro, projeto pastoral centrado no essencial

O Santo Padre diz nessa ocasião que a “Nova Evangelização significa despertar no coração e na mente dos nossos contemporâneos a vida da Fé. A Fé é um dom de Deus, mas é importante que nós, cristãos mostremos que vivemos concretamente a Fé, através do amor, da concórdia, da alegria, do sofrimento”. Ele olhando para o mundo diz que muitas pessoas se afastaram da Igreja e diante desta situação: “como filhos da Igreja, devemos prosseguir o caminho do Concílio Vaticano II, despojando-nos de coisas inúteis e prejudiciais, de falsas seguranças mundanas que pesam na Igreja e desfiguram o seu rosto. São precisos cristãos que tornem visível aos homens de hoje a misericórdia de Deus, a sua ternura por cada criatura”.

Passando ao segundo ponto programático – ir ao encontro dos outros – o Papa Francisco sublinhou que “a Nova Evangelização é um movimento renovado em relação a quem perdeu a Fé e o sentido profundo da vida”. É “um dinamismo que faz parte da grande missão de Cristo de trazer a vida ao mundo, o amor do Pai à humanidade”. Também a Igreja se encontra no interior desde movimento. Cada cristão está chamado a ir ao encontro dos outros, a dialogar com quem não pensa como nós, com os que têm outra idéia da Fé, ou outra Fé. E isso sem renunciar à nossa própria pertença.

Finalmente, o Papa Francisco insistiu que se requer “um projeto pastoral bem centrado no essencial, isto é, em Jesus Cristo”. Coloca o desafio de não“dispersarmos em tantas coisas secundárias ou supérfluas, mas concentrando-nos sobre a realidade fundamental que é o encontro com Cristo, com a sua misericórdia, com o seu amor e com o amar os irmãos como Ele nos amou. Um projeto animado da criatividade e da fantasia do Espírito Santo, que nos leva a percorrer também caminhos novos, com coragem, sem nos fossilizarmos”.

  1. ALGUNS OUTROS TEMAS RELEVANTES DO MAGISTÉRIO DO PAPA FRANCISCO FRENTE À MISSÃO CONTINENTAL.

O Magistério do Santo Padre Francisco, tanto nas suas homilias diárias, ângelus e audiências está se apresentando muito rico. Com um estilo humilde, sincero, sereno e direto, ele vem tocando diversos temas fundamentais para a vida da Igreja e de toda a sociedade que são muito importantes para realizar uma verdadeira e contínua renovação.

3.1. O Papa da esperança na Juventude

A missão Continental tem como desafio assumir a “opção preferencial pelos jovens”, que embora não exclusiva nem excludente, se propus a Igreja em America Latina, e que foi reafirmada em Santo Domingo e em Aparecida[11]. Em Santo Domingo, apresenta se Jesus como a vida para os jovens com anseios de vida[12]. Em Aparecida retoma se a expressão bíblica “sentinelas do amanhã”, reforçando que “como discípulos missionários, as novas gerações estão chamadas a transmitir aos irmãos jovens (...) a correnteza de vida que vem de Cristo” [13]. De diversas formas, vemos sinais que permitem reconhecer o dinamismo de “renovação em continuidade” tão característico da Igreja.

O Papa coloca o desafio da formação dos jovens na Missão e diz na Missa aos bispos e sacerdotes durante a Jornada, que “ajudemos os jovens. Estejam os nossos ouvidos atentos para escutar as suas ilusões – tem necessidade de ser escutadas –, para ouvir os seus sucessos, para ouvir as suas dificuldades. É preciso sentar-se, talvez escutando o mesmo relatório, mas com uma música diversa, com identidades diferentes. A paciência de escutar: isto lhes peço com todo o coração. No confessionário, na direção espiritual, no acompanhamento. Saibamos perder tempo com eles. Semear custa e cansa; cansa muitíssimo! É muito mais gratificante alegrar-se com a colheita! Vejam a nossa esperteza! Todos nos alegramos mais com a colheita, e todavia Jesus nos pede para semear, e semear com seriedade. Não poupemos forças na formação da juventude! São Paulo usa uma expressão, que se tornou realidade na sua vida, dirigindo-se aos seus cristãos: «Meus filhos, por vós sinto de novo as dores do parto até Cristo ser formado em vós» (Gal 4, 19). Também nós façamos que isso se torne realidade no nosso ministério! Ajudemos os nossos jovens a descobrir a coragem e a alegria da fé, a alegria de ser pessoalmente amados por Deus.Isto é muito difícil, mas quando um jovem o compreende, quando um jovem o ouve com a unção que lhe dá o Espírito Santo, este «ser pessoalmente amados por Deus» acompanha-o depois durante toda a vida; ajudemo-los a descobrir a alegria de saber que Deus deu o seu Filho Jesus para nossa salvação. Eduquemo-los para a missão, para sair, para partir, para ser “caixeiros-viajantes” da fé. Assim fez Jesus com os seus discípulos: não os manteve colados a si, como uma galinha com os seus pintinhos; Ele os enviou! Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades, na nossa instituição paroquial ou na nossa instituição diocesana, quando há tanta gente esperando o Evangelho! Mas sair…enviados. Não se trata simplesmente de abrir a porta para que venham, para acolher, mas de sair pela porta fora para procurar e encontrar. Incitemos os jovens para sair. Vão certamente fazer asneiras... não tenhamos medo! Os Apóstolos fizeram-nas antes de nós. Incitemo-los para sair. Decididamente pensemos a pastoral a partir da periferia, daqueles que estão mais afastados, daqueles que habitualmente não freqüentam a paróquia. Eles são os convidados VIPS. Saiamos à sua procura nos cruzamentos das estradas[14].

O Santo Padre, na Jornada Mundial da Juventude, falou com muita clareza sobre como a Igreja Jovem deve estar atenta para ser a resposta e um sinal para todos os demais jovens desta América Latina que precisa de testemunhas, pessoas comprometidas com um mundo novo.  Ele afirma que devemos encontrar os jovens, mas nunca permitir que sejam isolados de sua vida. O Papa Francisco quer encontrar a juventude inserida precisamente no tecido social, em sociedade. Porque, quando isolamos os jovens, praticamos uma injustiça: despojamo-los da sua pertença. Os jovens têm uma pertença: pertença a uma família, a uma pátria, a uma cultura, a uma Fé.

A Missão Continental deve abrir espaço para eles, pois sabemos que energia alguma pode ser mais potente que aquela que se desprende do coração dos jovens quando, conquistados pela experiência da amizade com Cristo, assumem a missão que Ele próprio lhes confia: “Ide, fazei discípulos”. Esse “Ide” exige ir para além das fronteiras do que é humanamente possível e criar um mundo de irmãos. Os jovens também são alentados pelo Santo Padre a botar Fé em Cristo. Eles não devem ter medo de arriscar a única vida que possuem porque sabem que não serão desiludidos.

O desafio da Missão Continental contempla os jovens dentro da sociedade e, nela, sendo verdadeiras testemunhas. Eles são verdadeiramente o futuro de um povo. Certamente isto é verdade; mas o Santo Padre nos diz que não o são somente eles. Eles são o futuro, porque têm a força, são jovens e continuarão para diante. Mas também, no outro extremo da vida, os idosos são o futuro de um povo. Um povo tem futuro se vai em frente com ambos os pontos: com os jovens, com a força, porque o levam para diante; e com os idosos, porque são eles que oferecem a sabedoria da vida. Desta forma os jovens são convocados pelo Santo Padre não só para ir às periferias existenciais da sociedade, mas também para contribuir com sua vida e coragem numa autêntica transformação social.

Na Jornada Mundial da Juventude, a Igreja na América Latina conseguiu mostrar ao mundo seu rosto jovem. De fato a maior parte dos jovens presentes eram latinos americanos. Creio que talvez tenha sido a oportunidade onde mais jovens da América Latina se encontraram em tão grande numero e manifestaram sua diversidade, nos mais de 180 países diferentes. Por isso neste Ano da Fé, estamos experimentando, unidos ao Santo Padre Francisco, a importância de o jovem se tornar apóstolo, discípulo e missionário do próprio jovem. Neste Ano da Fé também surge à necessidade dos jovens serem acompanhados espiritualmente para que assim sua Fé tenha cada vez mais raízes.  A juventude deve experimentar-se sempre caminhando, sendo protagonista na tarefa de evangelizar.

Certamente a experiência vivida pela juventude neste Ano da Fé e as luzes do Magistério do Papa Francisco devem alegrar o nosso coração, já que contemplamos a Igreja toda que continua a refletir sobre a importância da juventude. Vemos surgir uma primavera missionária que nos leva a considerar como fundamental na Igreja uma juventude que é a principal protagonista da missão por todos os recantos do mundo. 

Os jovens são convocados pela Igreja para serem missionários, para levarem adiante a caminhada missionária no mundo como um todo e não apenas em nossas estruturas paroquiais e diocesanas. Aliás, essa tem sido a insistência do Papa Francisco na questão da missionariedade. 

Um anseio profundo do coração do Papa é ver como os jovens são capazes de sair das estruturas paroquiais e manifestar a nossa vocação missionária. Por isso, particularmente contando com o entusiasmo dos jovens em idade e dos jovens de espírito, devemos levar a Boa-Nova de Jesus aos que vivem indiferentes à nossa Fé, ofertando-lhes este grande tesouro que não podemos guardar somente para nós.

3.2  . O chamado do Papa Francisco a “Cultura do Encontro”

 

Entre as reflexões e gestos do Papa Francisco na XXXVIII Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, convém deter ser na “cultura do encontro”. Foi uma expressão que pronunciou nove vezes durante sua viagem e em dezenas de ocasiões referiu se com termos semelhantes a esta expressão. Propus esta “cultura do encontro”, como resposta a “cultura do descartável” que afeta os anciãos e aos mesmos jovens. Nesta linha, frisou que um dos dinamismos da “cultura do encontro” é, precisamente, o dialogo inter geracional[15], pois os jovens não podem ser compreendidos isolados do tecido social, isto é da cultura[16].

 

Na missa com os bispos e sacerdotes durante a Jornada, o Papa expressou estas ideais:

“Em muitos ambientes, abriu-se passagem para uma cultura da exclusão, “uma cultura do descarte” (...) Vocês tenham a coragem de ir contra a corrente dessa cultura eficientista, dessa cultura do descarte. O encontro e o acolhimento de todos, a solidariedade– uma palavra que se está escondendo nesta cultura, como se fosse um palavrão –, a solidariedade e a fraternidade são elementos que tornam a nossa civilização verdadeiramente humana. Temos de ser servidores da comunhão e da cultura do encontro. Quero vocêsquase obsessivos neste aspecto! (...) Queridos irmãos e irmãs, somos chamados por Deus,cada um de nós, por nome e apelido; chamados para anunciar o Evangelho e promover com alegria a cultura do encontro. A Virgem Maria é nosso modelo. Na sua vida, Ela deu «exemplo daquele afeto maternal de que devem estar animados todos quantos cooperam na missão apostólica que a Igreja tem de regenerar os homens» (Conc. Ecum. Vat. II, Cost. dogm. Lumen gentium, 65)”[17].

 

Também no Discurso aos dirigentes da sociedade, voltou sobre este tema: “Um processo que faz crescer a humanização integral e a cultura do encontro e do relacionamento; este é o modo cristão de promover o bem comum considero fundamental para enfrentar o presente: o diálogo construtivo (…), o diálogo entre as gerações, o diálogo no povo, porque todos somos povo, a capacidade de dar e receber, permanecendo abertos à verdade. Um país cresce, quando dialogam de modo construtivo as suas diversas riquezas culturais: a cultura popular, a cultura universitária, a cultura juvenil, acultura artística e acult

Leia os comentários

Deixe seu comentário

Resposta ao comentário de:

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do comentário.
Comentário enviado para aprovação.
A Missão Continental à luz do Novo Pontificado de Sua Santidade Francisco e dos conteúdos do Magistério Pontifício no Ano da Fé / Arqrio

A Missão Continental à luz do Novo Pontificado de Sua Santidade Francisco e dos conteúdos do Magistério Pontifício no Ano da Fé

17/11/2013 19:45

Eminências, Excelências, sacerdotes, irmãos e irmãs, amigos no Senhor Jesus e Nossa Senhora de Guadalupe, um bom dia para todos. Meu cordial agradecimento à Pontifícia Comissão para América Latina, na pessoa do seu Presidente, Senhor Cardeal Marc Ouellet, por ter-me convidado a participar deste Congresso e termos juntos a oportunidade de aprofundarmos, à luz do pensamento do Papa Francisco, no desafio da Missão Continental no limiar do Ano da Fé. Meu agradecimento também ao Senhor Cardeal Norberto Rivera, Arcebispo de Cidade do México, por nos acolher nesta Arquidiocese, tão querida no nosso Continente.

INTRODUÇÃO

Para aproximar-nos do tema que me foi proposto: “A Missão Continental à luz do Novo Pontificado de Sua Santidade Francisco e dos conteúdos do Magistério Pontifício no Ano da Fé”, julguei que a minha contribuição podia focar-se na profundidade teológico-pastoral do Magistério do Santo Padre Francisco. Especialmente na sua Carta Encíclica “Lumen Fidei”, assim como em seus discursos e palavras no Brasil, sobretudo durante a Jornada Mundial da Juventude realizada no Rio de Janeiro, que sem dúvida significou para toda a Igreja um dos momentos mais fortes do Ano da Fé. Sou testemunha de que este tempo propiciou um encontro de discípulos missionários com Cristo. Discípulos missionários que, impregnados do entusiasmo e da coerência de quem se deixa conduzir pela ação do Espírito Santo, receberam o mandato de Jesus: “Ide e fazei discípulos entre as nações!” (cf. Mt 28,19).

Também considerarei outros pronunciamentos nas homilias, audiências e ângelus que o Santo Padre Francisco tem realizado nos últimos meses, num verdadeiro espírito de renovação, em continuidade com o Magistério Petrino e em perfeita consonância com o Magistério da América Latina. Considero importante explicitar que a América Latina deu de presente ao mundo este Papa e agora, pela sua presença e apostolado, sente-se renovada na sua missão evangelizadora. Sem dúvida é de particular significado o lugar onde nos encontramos hoje, já que marca a presença mariana nos primeiros tempos da Evangelização do Continente Americano. Tenho a certeza que deste lugar e neste Congresso, nas nossas reflexões e celebrações, Santa Maria, nossa Mãe, especialmente Nossa Senhora de Guadalupe vai guiar os nossos esforços para cada vez mais compreender, acolher e sobretudo dar vida ao chamado que nos faz o Santo Padre Francisco: o anúncio pessoal da Boa Nova do Senhor Jesus. Por isso, hoje, neste santuário mariano, junto com o Santo Padre renovemos nosso amor e Fé em Nossa Senhora e lembremos que somos convidados a bater à porta da casa de Maria, e assim descobrir como Ela abre-nos a porta, faz-nos entrar e aponta-nos o seu Filho.  Agora Ela nos pede: «Fazei o que Ele vos disser» (Jo 2,5). É, pois peregrinando neste Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe e colocando sob seus cuidados nossas intenções e bons propósitos da Missão Continental, que Nossa Senhora, Estrela da Nova Evangelização, saberá guiar-nos e conduzir-nos nesta tarefa missionária.

Voltando ao título desta Conferência, em primeiro lugar gostaria de lembrar que a Missão Continental apresenta-se como um grande desafio para toda a Igreja. O desafio de realizar a tarefa da Nova Evangelização. A Missão Continental foi definida e iniciada a partir da V Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe, em Aparecida, e atualmente se enriquece e concretiza com o Magistério e a ação pastoral do Papa Francisco. Assim, alentados pelo Santo Padre Francisco, por seus gestos e palavras de misericórdia, e por seu chamado fundamental e urgente a viver a santidade, a Missão Continental lançada em Aparecida deve orientar o caminho que a Igreja da América Latina há de seguir.

Neste dinamismo de renovação em continuidade, suscitado pelo Espírito Santo, e de forte presença mariana na Evangelização dos nossos povos, é muito importante considerar junto com o Papa Francisco, que “o documento de Aparecida é fruto da primeira Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe realizada em um Santuário mariano” [1].

Devemos afirmar com o coração aquecido, que na primeira viagem deste primeiro Papa da América Latina, o Santo Padre Francisco, nós fomos alentados a redescobrir nos desafios da Nova Evangelização, um “forte impulso do Espírito na V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, em Aparecida, que continua animando os trabalhos do CELAM para a anelada renovação das Igrejas particulares” [2].

Sabemos bem que nos encontramos diante de uma mudança de época e neste contexto existe a urgente necessidade de recuperar a vida de discípulos e missionários com que Cristo fundou a Igreja. Por isso, nesta conferência, unidos ao Santo Padre Francisco, lembrando da Conferência de Aparecida, gostaria abordar este tema a partir do que ele denomina “patrimônio herdado daquele encontro fraterno e que todos batizamos como Missão Continental” [3].

Como diz o Papa Francisco aos Bispos do CELAM, foi em Aparecida, “neste contexto de oração e vivência de Fé, (que) surgiu o desejo de um novo Pentecostes para a Igreja e o compromisso da Missão Continental. (Assim) Aparecida não termina com um documento, mas prolonga-se na Missão Continental” [4]. Certamente tudo isto tem um significado especial neste Ano da Fé, especialmente iluminados pela luz dessa Fé, que nos comunica no seu Magistério.

  1. OLHANDO O MUNDO A PARTIR DA PERSPECTIVA DE FÉ DO PAPA FRANCISCO.

Este nosso encontro neste Santuário Mariano acontece no grande umbral do Ano da Fé. Lembremos que o Bispo Emérito de Roma, então Papa Bento XVI, decidiu proclamar um “Ano da Fé”. Começou no dia 11 de outubro de 2012, no cinquentenário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II e celebração de vinte anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, e terminará na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, no dia 24 de novembro de 2013.

Providencialmente este congresso “tem lugar próximo da conclusão do Ano da Fé, ocasião importante para revigorarmos a nossa amizade com o Senhor e o nosso caminho como Igreja que anuncia com coragem o Evangelho” [5].

1.1.A Carta Encíclica Lumen Fidei.

Neste Ano da Fé, sem dúvida fomos enriquecidos com o Magistério do Santo Padre Francisco. Consideremos a primeira Encíclica do Papa Francisco, que ─ iniciada pelo Bispo emérito de Roma, Bento XVI ─ sem duvida ajuda a fortalecer a Fé dos católicos em todo o mundo. Neste documento, dirigido aos Bispos, aos presbíteros, aos diáconos, às pessoas consagradas e a todos os fiéis leigos, o Papa Francisco e o Bispo Emérito de Roma, juntos, mostram a beleza da Fé da Igreja. Fé que é confessada dentro do Corpo de Cristo, na comunhão concreta dos crentes. É com grande alegria e gratidão que nós devemos acolher esta verdadeira profissão de Fé na forma de catequese escrita a quatro mãos pelos sucessores de Pedro.

Neste momento em que restam poucos dias para findarmos este tempo fecundo do Ano da Fé, devemos renovar nossa consciência de que o seguimento de Jesus Cristo deve ser essencialmente missionário. Assim, devemos recordar que nossa missão primordial é transmitir a Fé através do testemunho eficaz de nossa vida cristã, proporcionado ao nosso próximo, pelo contato pessoal, um encontro com Cristo. Neste sentido, destaca o Santo Padre Francisco na Lumen Fidei que “a Fé transmite-se por assim dizer sob a forma de contacto, de pessoa a pessoa, como uma chama se acende noutra chama. Os cristãos, na sua pobreza, lançam uma semente tão fecunda que se torna uma grande árvore, capaz de encher o mundo de frutos” (cf. n.37)

Na introdução da Carta Encíclica “Lumen Fidei” ou "Luz da Fé", o Papa Francisco  diz que o Sucessor de Pedro, ontem, hoje e amanhã, sempre estará chamado a «confirmar os irmãos» no tesouro incomensurável da Fé que Deus dá a cada homem como luz para o seu caminho". Demonstrando um dinamismo de perfeita comunhão e de renovação em continuidade com o Magistério eclesial, o Papa Francisco expressa estar profundamente agradecido" ao seu antecessor por ter quase concluído um primeiro esboço da Encíclica, e diz que seus ensinamentos "pretendem juntar-se a tudo aquilo que Bento XVI escreveu nas cartas encíclicas sobre a caridade e a esperança."

A Encíclica da Fé está dividida em quatro capítulos, uma introdução e uma conclusão. Brevemente desejo apresentá-la para depois tirar algumas conclusões para a Missão Continental, que somos convidados a realizar nas Américas.

O primeiro capítulo é intitulado "Acreditamos no Amor" e explica a Fé como "escutar" o mundo de Deus, particularmente porque Ele nos chama a vê-lo como o Pai e não como um estranho. Também destaca Jesus como uma "testemunha fiável" e que nos chama a participar "do seu modo de ver" e a abrir-nos para o amor que transforma por dentro.
 “A Fé não é um fato privado, uma concepção individualista, uma opinião subjetiva," menciona o Papa no primeiro capítulo.

O segundo capítulo, chamado "Se não acreditardes, não compreendereis", mostra a ligação entre Fé e verdade e entre Fé e amor. "O crente não é arrogante; pelo contrário, a verdade torna-o humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e possui," diz o Pontífice.

"Transmito-vos aquilo que recebi" é o título no terceiro capítulo, que se concentra exclusivamente na importância da evangelização. "É impossível crer sozinhos," diz o Papa Francisco. "A Fé não é só uma opção individual." O capítulo explica que a Fé não é uma relação privada entre o divino "Vós" e o "eu", mas sim entre o "nós". O Papa também escreveu sobre a importância dos Sacramentos para a transmissão da Fé, especialmente o Batismo, a Confirmação e a Eucaristia.

O último capítulo foi intitulado "Deus prepara para eles uma cidade," e fala sobre a ligação entre a Fé e o bem comum. A Encíclica revela que o propósito da Fé não é meramente construir a vida após a morte, mas ajudar na edificação da sociedade. O quarto capítulo também salienta a importância do casamento, entendido entre homem e mulher.

Assim, pois, iluminados pela Luz da Fé, vemos como claramente a Missão Continental deve considerar temas fundamentais apresentados na Carta Encíclica como: a Fé e sua relação com a verdade e o amor, o anúncio evangelizador, a Igreja e os sacramentos na sua missão, a família e o bem comum numa sociedade com sinais de sofrimento.

Iniciar nossa Missão exige propor-nos realizá-la a partir da Fé. Sem duvida este é o caminho que o Continente Americano deve percorrer.

 

1.2.A Mensagem do Santo Padre Francisco para o Dia Mundial das missões.

Considerando o dom da Fé, também é oportuno aprofundar a reflexão na Mensagem do Santo Padre Francisco no Dia Mundial das Missões. Gostaria de convidá-los a percorrer comigo um itinerário que nos leve a descobrir o grande significado e a importância que está tendo este Ano da Fé, especialmente olhando para a missão que o Senhor Jesus nos confia e o Santo Padre Francisco nos alenta a realizar. Passo a traçar algumas consequências que todo batizado deve viver pessoal e comunitariamente e que estão presentes nas palavras do Papa:

1. A Igreja inteira deve adquirir uma renovada consciência da sua presença no mundo contemporâneo, da sua missão entre os povos e as nações.

2. A missionariedade não é questão apenas de territórios geográficos, mas de povos, culturas e indivíduos.

3. É próprio de cada batizado e de todas as comunidades cristãs o dever missionário, o dever de entender isto como um aspecto essencial da vida cristã, na qual todos são enviados para caminhar com os irmãos, professando e testemunhando a nossa Fé em Cristo, num compromisso constante que deve animar toda a vida da Igreja.

4. Somos convocados a descobrir a Fé como um dom precioso de Deus que não está reservado a poucos, mas é oferecido a todos com generosidade. Todos deveriam poder experimentar a alegria de se sentirem amados por Deus e a alegria da salvação.

5. O dom da Fé recebido é para ser partilhado, senão tornamo-nos cristãos isolados, estéreis e combalidos.

6. Somos chamados a professar, celebrar e anunciar nossa Fé com alegria. Também somos alentados a viver a caridade e anunciar sem cessar a Palavra de Deus, saindo de nós mesmos e indo até as «periferias», sobretudo alcançando a quem ainda não teve a oportunidade de conhecer Cristo.

7. Toda a Igreja, os Bispos, os presbíteros, os conselhos presbiterais, pastorais, e cada pessoa e grupo responsável é convidada a dar destaque à dimensão missionária nos programas pastorais e formativos,

8. A missionariedade não é apenas uma dimensão programática na vida cristã; é também uma dimensão paradigmática, que diz respeito a todos os aspectos da vida cristã.

9. Os obstáculos à obra de evangelização muitas vezes se encontram não no exterior, mas dentro da própria comunidade eclesial.

10. Devemos sempre ter a coragem e a alegria de propor, com respeito, o encontro com Cristo e de nos fazermos portadores do seu Evangelho. Jesus veio entre nós para nos mostrar o caminho da salvação, e nos confiou à missão de dá-lo a todos, até os confins da terra.

11. No nosso tempo é urgente fazer resplandecer dentro da Igreja a vida boa do Evangelho pelo anúncio e pelo testemunho. Porque, nesta perspectiva, é importante não esquecer jamais um princípio fundamental para todo o evangelizador: não se pode anunciar Cristo sem a Igreja. É fundamental lembrar que evangelizar nunca é um ato isolado, individual, privado, mas sempre eclesial. E isto dá força à missão e faz sentir a cada missionário e evangelizador que nunca está sozinho, mas é parte de um único Corpo animado pelo Espírito Santo.

Nesta Mensagem do Santo Padre Francisco para o Dia Mundial das Missões, também descobrimos um diagnóstico que ele faz da realidade mundial e eclesial.

Ele descreve esta época como um tempo de mobilidade difusa e ao mesmo tempo de facilidade de comunicação, onde através das novas mídias misturaram-se entre si os povos, os conhecimentos e as experiências.  O Santo Padre diz que é “uma época na qual vivemos num momento de crise que atinge vários setores da existência, e não apenas os da economia, das finanças, da segurança alimentar, do meio ambiente, mas também os do sentido profundo da vida e dos valores fundamentais que a animam. A própria convivência humana está marcada por tensões e conflitos, que provocam insegurança e dificultam o caminho para uma paz estável”.

Na vida eclesial o Santo Padre Francisco nos alerta sobre uma realidade cada vez mais frequente, que é o crescimento do número daqueles que vivem alheios à Fé, indiferentes à dimensão religiosa ou que estão animados por outras crenças. Também o caso cada vez mais presente de alguns batizados que fazem opções de vida que os afastam da Fé, tornando-os assim carecidos de uma «Nova Evangelização». A tudo isso se junta o fato de que grande parte da humanidade ainda não foi atingida pela Boa Nova de Jesus Cristo.

O Papa alenta a Igreja e diz que: nesta “complexa situação, onde o horizonte do presente e do futuro parece atravessado por nuvens ameaçadoras, torna-se ainda mais urgente levar corajosamente a todas as realidades o Evangelho de Cristo, que é anúncio de esperança, de reconciliação, de comunhão, anúncio da proximidade de Deus, da sua misericórdia, da sua salvação, anúncio de que a força de amor de Deus é capaz de vencer as trevas do mal e guiar pelo caminho do bem”.

  1. DIMENSÕES DA MISSÃO CONTINENTAL.

Aprofundando no Magistério do Santo Padre Francisco, vemos que o Papa fala de dimensões da Missão Continental. Nestas dimensões, acredito que é possível descobrir cinco tópicos, que se apresentam como um programa necessário para nossos tempos. Permitam-me batizar este diagnóstico com o nome de desafios. Desafios para a Nova Evangelização e realização da Missão Continental.

Como referência para compreender estes desafios, teremos sempre as reflexões propostas pelo Papa Francisco, feitas nos encontros com a Comissão de coordenação do CELAM, e com os Bispos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Também considerarei os temas programáticos que Sua Santidade depois formulou na Mensagem por ocasião do Dia Mundial das Missões. Tudo isto significou para a Igreja uma atualização, a partir do seu olhar, do documento de Aparecida.

De fato, o Papa tem considerado as circunstâncias atuais e tem retomado o entusiasmo da V Conferência do Episcopado da América Latina, na qual Ele mesmo trabalhou ainda como Cardeal e como principal responsável pela redação. Vemos, pois, claramente, como é, para a América Latina, um novo impulso para a Missão Continental, a missão permanente e as dimensões do discipulado e apostolado.

2.1. Desafio do serviço eclesial.

O Santo Padre nos alenta a entender que a missionariedade da Igreja não é proselitismo, mas testemunho de vida que ilumina o caminho, que traz esperança e amor.  Suas palavras nos lembram sempre que a Igreja não é uma organização assistencial, uma empresa, uma ONG, mas uma comunidade de pessoas animadas pela ação do Espírito Santo, que viveram e vivem a maravilha do encontro com Jesus Cristo e desejam partilhar esta experiência de profunda alegria. Partilhar a Mensagem de salvação que o Senhor nos trouxe. Justamente é o Espírito Santo que guia a Igreja neste caminho e para realizar esta missão existe a necessidade de uma formação missionária mais profunda de todo o Povo de Deus, alimentando a sensibilidade das comunidades cristãs para darem a sua ajuda a favor da difusão do Evangelho no mundo.

A partir desta visão eclesial, o Santo Padre abordou o desafio da Missão Continental, e nos diz que a Missão Continental “está projetada em duas dimensões: programática e paradigmática”.

A missão programática se concretiza na realização de atos missionários habituais, enquanto que a missão paradigmática não só é muito importante, como também supõe colocar em chave missionária a atividade das Igrejas particulares.

Nesse sentido, creio que a grande resposta de nossas Igrejas no Continente seja o incremento dos processos missionários. Precisamos fomentar ainda mais experiências missionárias capazes de atingir os católicos, em seus diversos níveis, vivenciando a forte articulação que o Santo Padre apresenta entre a dimensão programática e paradigmática da Missão Continental.

Longa é, em nosso continente, a história, por exemplo, das missões populares. Com diferentes nomes de acordo com a região, estes momentos fortes de animação missionária fazem bem não apenas aos que são visitados, mas ajudam aos que visitam a perceberem outro jeito de viver a eclesialidade. Em várias regiões, constatamos que, ao lado das Santas Missões levadas a efeito por congregações religiosas, vemos emergir no laicato forte sensibilidade para atividades missionárias. Todos nós conhecemos, em nossas igrejas locais, homens e mulheres que, deixando a estabilidade de suas origens, assumem servir profissionalmente ou como agentes evangelizadores.

Sou diretamente testemunha do bem que é feito pelo trabalho missionário de leigos e leigos em áreas de pobreza e violência aguda. Em regiões onde a violência retira quase toda a esperança, são estes corações generosos que, unidos aos clérigos e superando o medo e o cansaço, passam finais de semana visitando casa por casa. Diante de tudo que é feito em nossas igrejas, estas experiências podem deixar a impressão de serem pequenas. Quando, no entanto, olhamos com os olhos do coração, tendo a Missão Continental como referência, nós entendemos o quanto tais experiências significam.

Em consequência disso, verifica-se toda uma dinâmica de reforma das estruturas eclesiais. Reformas que serão consequência da dinâmica da própria missão. Assim a missionariedade é uma chave que muda o que está caduco e transforma os corações.

Dentro desta missão o discípulo deve experimentar-se inserido numa comunidade eclesial com uma clara identidade cristã e assim ser capaz de se doar, escapando de qualquer intimismo.

O Santo Padre também nos ajuda a enxergar uma realidade muito feliz na Igreja da América Latina. Trata-se de ver como “as próprias Igrejas jovens estão empenhando-se generosamente no envio de missionários às Igrejas que se encontram em dificuldade – não raro Igrejas da antiga cristandade – levando assim a vigor e o entusiasmo com que elas mesmas vivem a Fé que renova a vida e dá esperança. Viver com este fôlego universal, respondendo ao mandato de Jesus «ide, pois, fazei discípulos de todos os povos» (Mt 28, 19), é uma riqueza para cada Igreja particular, para cada comunidade; e dar missionários nunca é uma perda, mas um ganho”. Junto aos movimentos missionários, verifica-se toda uma dinâmica de reforma das estruturas eclesiais. Reformas que serão consequência da dinâmica da própria missão. Assim a missionariedade é uma chave que muda o que está caduco e transforma os corações. Deste modo, o discípulo deve experimentar-se inserido numa comunidade eclesial com uma clara identidade cristã e assim ser capaz de se doar, escapando de qualquer intimismo. Viverá em comunidade e realizará a missão. Será o que Aparecida indicou como discípulo missionário [6].

O Papa diz que estas realidades eclesiais “podem assim tornar-se caminho para uma espécie de «restituição» da Fé, a fim de que estas reencontrem o entusiasmo e a alegria de partilhar a Fé, numa permuta que é enriquecimento recíproco no caminho de seguimento do Senhor”.

Outro aspecto importante que deve caracterizar a Missão Continental é entender a dimensão de co-responsabilidade que devemos ter no serviço eclesial. Ajudar-nos uns aos outros e aprender cada vez mais a viver com generosidade a missão evangelizadora. O Santo Padre Francisco faz um “apelo, a todos aqueles que sentem este chamado, para que correspondam generosamente à voz do Espírito, segundo o próprio estado de vida, e não tenham medo de ser generosos com o Senhor”. Ele diz: “convido também os Bispos, as famílias religiosas, as comunidades e todas as agregações cristãs a apoiarem, com perspicácia e cuidadoso discernimento, a vocação missionária ad gentes e a ajudarem as Igrejas que precisam de sacerdotes, de religiosos e religiosas e de leigos para revigorar a comunidade cristã. E a mesma atenção deveria estar presente entre as Igrejas que fazem parte de uma Conferência Episcopal ou de uma Região: é importante que as Igrejas mais ricas de vocações ajudem, com generosidade, aquelas que padecem a sua escassez”.

Com um coração de Pastor o Santo Padre também lança seu olhar e “o seu pensamento para os cristãos que, em várias partes do mundo, encontram dificuldades em professar abertamente a própria Fé, e ver reconhecidos o direito a vivê-la dignamente”.

Nesse sentido é muito importante que, em nossas Igrejas particulares, estejamos unidos, pela oração, às pessoas, às famílias e às comunidades que sofrem violência e intolerância, alimentando-nos das palavras consoladoras de Jesus: «Tende confiança, Eu já venci o mundo» (Jo 16, 33).

2.2. Desafio da renovação interna da Igreja.

Neste horizonte do desafio da renovação interna da Igreja, o Santo Padre Francisco a partir do documento de Aparecida propôs comodesafio a Conversão Pastoral.Esta Conversão Pastoralexige que tenhamos uma opção fundamental a partir da Fé que nos leve a acreditar.  O Papa apresenta-nos várias linhas deste acreditar:

- Acreditar na Boa Nova do Senhor Jesus, portador do Reino de Deus.

- Acreditar na sua presença vitoriosa sobre o mal;

- Acreditar na assistência e guia do Espírito Santo;

- Acreditar na Igreja, Corpo de Cristo e prolongamento do dinamismo da Encarnação.

Neste sentido o Papa alentou os Bispos do CELAM a entender que é necessário que tal como um exame de consciência e de propósito de Conversão Pastoral, todos os membros da Igreja, Corpo de Cristo, nos perguntemos como vai nossa resposta ao chamado que o Senhor nos faz para evangelizar. Das questões que o Santo Padre tratou com os senhores Bispos do CELAM, permito-me destacar treze pontos fundamentais, que brotam como tarefas concretas que devemos realizar.

  1. Realizar um trabalho eclesial verdadeiramente pastoral e não apenas administrativo.
  2. Buscar no trabalho pastoral o bem de toda a Igreja considerada como Povo de Deus na sua totalidade.
  3. Ter uma atitude proativa diante dos problemas que surgem.
  4. Promover espaços de reconciliação e encontro com a misericórdia de Deus.
  5. Repensar as atitudes pastorais e o funcionamento das estruturas eclesiais.
  6. Buscar o bem dos fiéis e da sociedade.
  7. Promover a participação ativa e o apostolado dos fiéis leigos.
  8. Renovar a consciência da presença do Espírito Santo na Palavra de Deus e nos Sacramentos.
  9. Promover o discernimento pastoral através dos conselhos onde os leigos tenham uma verdadeira participação na consulta, organização e planejamento pastoral.
  10. Promover a participação e o discernimento livre dos fiéis para que se tornem verdadeiros discípulos do Senhor Jesus sem nenhum tipo de manipulação ou submissão.
  11. Deixar-se interpelar pela busca do bem e da missão da Igreja no mundo.
  12. Promover o sentido de pertença à Igreja
  13. Aproximar-se dos batizados indiferentes e afastados.

Destas tarefas concretas, que são necessárias para que se realize uma verdadeira Conversão Pastoral, surge à exigência de uma verdadeira reforma das atitudes e da vida. Um fundamento e chave de interpretação desta Conversão Pastoral deve ser uma clara identidade católica concebida como pertença eclesial.

De fato, a transmissão da fé através do contato pessoal, como indicado na Lumen Fidei, pede não apenas que estimulemos em cada batizado as atitudes do testemunho e do anúncio explícito da pessoa e da mensagem de Jesus Cristo, mas também que busquemos estruturas pastorais capazes de proporcionar tal contato. Neste sentido, destaca-se a firme convocação de Aparecida para que as paróquias do continente tornem-se efetivas comunidades de comunidades [7], “capazes de se articular e conseguir que seus membros se sintam realmente discípulos missionários de Jesus Cristo em comunhão” [8].

Nosso empenho missionário por formar comunidades de comunidades tem sua raiz mais profunda na certeza de que precisamos fazer todos os esforços para que a Igreja se torne cada vez mais próxima de cada pessoa, lá onde esta pessoa se encontra. E, estando próxima, colocar cada uma e todas as pessoas em contato com Jesus Cristo, convidando-as a segui-lo, sem o que, lembra-nos Aparecida, nós não estaremos cumprindo nossa missão evangelizadora [9]. Completaremos, pois, os processos missionários com as redes de comunidades e com o forte investimento na iniciação cristã dos adultos, sejam os batizados, mas não suficientemente evangelizados [10], sejam os que, chegando à juventude ou à idade adulta, não tiveram contato suficiente com Jesus Cristo e sua Igreja, não sendo sequer batizados.

2.3. Desafio do diálogo com o mundo atual.

O fundamento do diálogo com o mundo atual deve ser considerado a partir das luzes do documento conciliar Gaudium et Spes, 1, que diz “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e atribulados, são também alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo”.

Para poder dialogar com o mundo atual o Santo Padre Francisco nos lembra que: “a resposta às questões existenciais do homem de hoje, especialmente das novas gerações, atendendo à sua linguagem, entranha uma mudança fecunda que devemos realizar com a ajuda do Evangelho, do Magistério e da Doutrina Social da Igreja”.

Pode-se descobrir no pensamento do Papa Francisco a consciência de que diante dos cenários mais variados do nosso tempo é necessário abrir-se ao Espírito Santo e saber descobrir Deus em toda parte. Porque só descobrindo-O poderemos anunciá-lO a todas as culturas e realidades segundo cada idioma e ritmos próprios.

2.4. Desafio de superar algumas tentações contra o discipulado missionário.

Uma Igreja que opta pela missionariedade, estará sempre exposta a algumas tentações. O Santo Padre nos alenta a ter lucidez e prudência para saber discernir e ver por onde entra o espírito do mal e assim identificar algumas propostas que na dinâmica do discípulo e missionário, poderiam deter, até fazer fracassar o processo da Conversão Pastoral. O Papa lembra a todo o Povo de Deus, através destas palavras dirigidas aos Bispos, três tentações contra o discípulo missionário: A ideologização da mensagem evangélica, o funcionalismo e o clericalismo. Ele considera que estas são as mais fortes e importantes tentações neste momento da América Latina e do Caribe.

2.4.1. A ideologização da mensagem evangélica.

O Santo Padre diz que: “É uma tentação que se verificou na Igreja desde o início: procurar uma hermenêutica de interpretação evangélica fora da própria mensagem do Evangelho e fora da Igreja”.

Isto acontece, diz o Santo Padre, “quando se pretende usar uma hermenêutica asséptica. Que não enxerga a realidade com o olhar de discípulo”. O Papa mencionou algumas maneiras de ideologização da mensagem que aparecem na América Latina e no Caribe.

a) O reducionismo socializante: Trata-se de uma pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo com as ciências sociais. Engloba desde o liberalismo de mercado até a categorização marxista.

b) A ideologização psicológica: Trata-se de uma hermenêutica elitista que, reduz o "encontro com Jesus Cristo" e seu sucessivo desenvolvimento a uma dinâmica de autoconhecimento. Não tem sabor de transcendência, nem, portanto, de missionariedade.

c) A proposta gnóstica: Muito ligada à tentação anterior. Costuma ocorrer em grupos de elites com uma proposta de espiritualidade superior, bastante desencarnada.

d) A proposta pelagiana: Aparece fundamentalmente sob a forma de restauracionismo. Na América Latina, costuma verificar-se em pequenos grupos, em algumas novas Congregações Religiosas, em tendências para a "segurança" doutrinal ou disciplinar. Fundamentalmente é estática, embora possa prometer uma dinâmica para dentro, regride. Procura "recuperar" o passado perdido.

2.4.2. Uma segunda tentação é o funcionalismo burocrata. A sua ação na Igreja é paralisante. Reduz a realidade da Igreja à estrutura de uma ONG. O que vale é o resultado palpável e as estatísticas. Constitui uma espécie de "teologia da prosperidade" no organograma da pastoral.

2.4.3. A terceira tentação, o clericalismo é também um problema muito atual na América Latina. O fenômeno do clericalismo explica, em grande parte, a falta de maturidade adulta e de liberdade cristã em boa parte do laicato da América Latina.

Diante desta realidade o Santo Padre destaca algumas experiências de liberdade e autonomia que se expressam fundamentalmente na piedade popular. Também diz o Papa que o documento de Aparecida coloca como meios de superação do clericalismo e favoráveis a um crescimento da responsabilidade laical a proposta dos grupos bíblicos, das comunidades eclesiais e dos Conselhos pastorais.

2.5. Desafios para o discípulo-missionário inserido numa pastoral eclesial.

2.5.1. O discipulado-missionário, que em Aparecida se propôs às Igrejas da América Latina e do Caribe, é o caminho que Deus quer para "hoje". Toda a projeção utópica (para o futuro) ou restauracionista (para o passado) não é do espírito bom. Deus é real e se manifesta no "hoje".

2.5.2. O discipulado missionário é vocação: chamado e convite. Acontece em um "hoje", mas "em tensão". Não existe o discipulado missionário estático.

2.5.3. O discípulo missionário não pode possuir-se a si mesmo. Não admite a auto-referencialidade: ou refere-se a Jesus Cristo ou refere-se às pessoas a quem deve levar o anúncio dele. É sujeito que se transcende; sujeito projetado para o encontro: encontro com o Mestre (que nos unge discípulos) e encontro com os homens que esperam o anúncio. A posição do discípulo missionário não é uma posição de centro, mas de periferias. No anúncio evangélico, falar de "periferias existenciais" descentraliza e, habitualmente, temos medo de sair do centro. O discípulo-missionário é um descentrado no sentido de que o centro é Jesus Cristo, que convoca e envia. Assim o discípulo se experimenta enviado para as periferias existenciais, neste sentido o essencial deste anuncio deve ser a pessoa do Senhor Jesus.

2.5.4.  O discípulo missionário deve realizar sua ação pastoral na Igreja. Assim, descobrindo que a Igreja é instituição, deve sempre se esforçar por superar a tentação do centralismo e funcionalismo. Senão, afirma o Papa Francisco que a Igreja “pouco a pouco, se transforma em uma ONG. Torna-se cada vez mais auto-referencial, e se enfraquece a sua necessidade de ser missionária”. O Papa Francisco nos alerta do perigo de se transformar de "Instituição" em "Obra" e como consequência disso deixar de ser Esposa, para acabar sendo Administradora; deixar de ser Servidora para se transformar em "Controladora”. O Papa diz que Aparecida quer “uma Igreja Esposa, Mãe, Servidora, facilitadora da Fé e não controladora da Fé”.

2.5.5. O discípulo missionário deve viver a realidade do encontro e proximidade.  O Papa nos chama a pensar como em Aparecida. Verificam-se duas categorias pastorais, que também podem servir de orientação para avaliarmos o modo como vivemos eclesialmente este discipulado missionário: a proximidade e a cultura do encontro. Encontro com Jesus Cristo e encontro com os irmãos. A proximidade cria comunhão e pertença, dá lugar ao encontro. A proximidade toma forma de diálogo e cria uma cultura do encontro, da solidariedade e da reconciliação.

2.5.6. O discípulo missionário deve ser um promotor de comunhão eclesial. Neste esforço por realizar a pastoral eclesial da Nova Evangelização através da Missão Continental, é fundamental revisar a relação dos Bispos com o Povo de Deus. Já tendo falado nos tópicos anteriores das atitudes que todo batizado deve ter em relação à sua missão na Igreja e no mundo, o Santo Padre aprofunda na missão e no papel fundamental que o Bispo deve ter. Ele afirma que “quem guia a pastoral, a Missão Continental (seja programática seja paradigmática), é o Bispo”.

A seguir passa a descrever uma série de características e atitudes pastorais, que poderíamos chamar de virtudes, que todos os Bispos devem procurar viver: “ser Pastores, próximos das pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão: pacientes e misericordiosos. Homens que amem a pobreza, quer a pobreza interior como liberdade diante do Senhor, quer a pobreza exterior como simplicidade e austeridade de vida. Homens que não tenham "psicologia de príncipes". Homens que não sejam ambiciosos e que sejam esposos de uma Igreja sem viver na expectativa de outra. Homens capazes de vigiar sobre o rebanho que lhes foi confiado e cuidando de tudo aquilo que o mantém unido: vigiar sobre o seu povo, atento a eventuais perigos que o ameacem, mas sobretudo para cuidar da esperança: que haja sol e luz nos corações. Homens capazes de sustentar com amor e paciência os passos de Deus em seu povo. E o lugar onde o Bispo pode estar com o seu povo é triplo: ou à frente para indicar o caminho, ou no meio para mantê-lo unido e neutralizar as debandadas, ou então atrás para evitar que alguém se desgarre mas também, e fundamentalmente, porque o próprio rebanho tem o seu olfato para encontrar novos caminhos”.

Com tudo isto, o Santo Padre alenta o Povo de Deus a viver em comunhão com o Episcopado e nos diz que “convém que nos ajudemos um pouco mais a dar os passos que o Senhor quer que cumpramos neste "hoje" da América Latina e do Caribe”.

2.6. Os desafios da Nova Evangelização

Na Assembléia plenária do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização, realizada no 14 de Outubro, o Papa Francisco apontou três linhas de orientação que o desafio da Nova Evangelização deveria ter: Primado do testemunho, urgência de ir ao encontro, projeto pastoral centrado no essencial

O Santo Padre diz nessa ocasião que a “Nova Evangelização significa despertar no coração e na mente dos nossos contemporâneos a vida da Fé. A Fé é um dom de Deus, mas é importante que nós, cristãos mostremos que vivemos concretamente a Fé, através do amor, da concórdia, da alegria, do sofrimento”. Ele olhando para o mundo diz que muitas pessoas se afastaram da Igreja e diante desta situação: “como filhos da Igreja, devemos prosseguir o caminho do Concílio Vaticano II, despojando-nos de coisas inúteis e prejudiciais, de falsas seguranças mundanas que pesam na Igreja e desfiguram o seu rosto. São precisos cristãos que tornem visível aos homens de hoje a misericórdia de Deus, a sua ternura por cada criatura”.

Passando ao segundo ponto programático – ir ao encontro dos outros – o Papa Francisco sublinhou que “a Nova Evangelização é um movimento renovado em relação a quem perdeu a Fé e o sentido profundo da vida”. É “um dinamismo que faz parte da grande missão de Cristo de trazer a vida ao mundo, o amor do Pai à humanidade”. Também a Igreja se encontra no interior desde movimento. Cada cristão está chamado a ir ao encontro dos outros, a dialogar com quem não pensa como nós, com os que têm outra idéia da Fé, ou outra Fé. E isso sem renunciar à nossa própria pertença.

Finalmente, o Papa Francisco insistiu que se requer “um projeto pastoral bem centrado no essencial, isto é, em Jesus Cristo”. Coloca o desafio de não“dispersarmos em tantas coisas secundárias ou supérfluas, mas concentrando-nos sobre a realidade fundamental que é o encontro com Cristo, com a sua misericórdia, com o seu amor e com o amar os irmãos como Ele nos amou. Um projeto animado da criatividade e da fantasia do Espírito Santo, que nos leva a percorrer também caminhos novos, com coragem, sem nos fossilizarmos”.

  1. ALGUNS OUTROS TEMAS RELEVANTES DO MAGISTÉRIO DO PAPA FRANCISCO FRENTE À MISSÃO CONTINENTAL.

O Magistério do Santo Padre Francisco, tanto nas suas homilias diárias, ângelus e audiências está se apresentando muito rico. Com um estilo humilde, sincero, sereno e direto, ele vem tocando diversos temas fundamentais para a vida da Igreja e de toda a sociedade que são muito importantes para realizar uma verdadeira e contínua renovação.

3.1. O Papa da esperança na Juventude

A missão Continental tem como desafio assumir a “opção preferencial pelos jovens”, que embora não exclusiva nem excludente, se propus a Igreja em America Latina, e que foi reafirmada em Santo Domingo e em Aparecida[11]. Em Santo Domingo, apresenta se Jesus como a vida para os jovens com anseios de vida[12]. Em Aparecida retoma se a expressão bíblica “sentinelas do amanhã”, reforçando que “como discípulos missionários, as novas gerações estão chamadas a transmitir aos irmãos jovens (...) a correnteza de vida que vem de Cristo” [13]. De diversas formas, vemos sinais que permitem reconhecer o dinamismo de “renovação em continuidade” tão característico da Igreja.

O Papa coloca o desafio da formação dos jovens na Missão e diz na Missa aos bispos e sacerdotes durante a Jornada, que “ajudemos os jovens. Estejam os nossos ouvidos atentos para escutar as suas ilusões – tem necessidade de ser escutadas –, para ouvir os seus sucessos, para ouvir as suas dificuldades. É preciso sentar-se, talvez escutando o mesmo relatório, mas com uma música diversa, com identidades diferentes. A paciência de escutar: isto lhes peço com todo o coração. No confessionário, na direção espiritual, no acompanhamento. Saibamos perder tempo com eles. Semear custa e cansa; cansa muitíssimo! É muito mais gratificante alegrar-se com a colheita! Vejam a nossa esperteza! Todos nos alegramos mais com a colheita, e todavia Jesus nos pede para semear, e semear com seriedade. Não poupemos forças na formação da juventude! São Paulo usa uma expressão, que se tornou realidade na sua vida, dirigindo-se aos seus cristãos: «Meus filhos, por vós sinto de novo as dores do parto até Cristo ser formado em vós» (Gal 4, 19). Também nós façamos que isso se torne realidade no nosso ministério! Ajudemos os nossos jovens a descobrir a coragem e a alegria da fé, a alegria de ser pessoalmente amados por Deus.Isto é muito difícil, mas quando um jovem o compreende, quando um jovem o ouve com a unção que lhe dá o Espírito Santo, este «ser pessoalmente amados por Deus» acompanha-o depois durante toda a vida; ajudemo-los a descobrir a alegria de saber que Deus deu o seu Filho Jesus para nossa salvação. Eduquemo-los para a missão, para sair, para partir, para ser “caixeiros-viajantes” da fé. Assim fez Jesus com os seus discípulos: não os manteve colados a si, como uma galinha com os seus pintinhos; Ele os enviou! Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades, na nossa instituição paroquial ou na nossa instituição diocesana, quando há tanta gente esperando o Evangelho! Mas sair…enviados. Não se trata simplesmente de abrir a porta para que venham, para acolher, mas de sair pela porta fora para procurar e encontrar. Incitemos os jovens para sair. Vão certamente fazer asneiras... não tenhamos medo! Os Apóstolos fizeram-nas antes de nós. Incitemo-los para sair. Decididamente pensemos a pastoral a partir da periferia, daqueles que estão mais afastados, daqueles que habitualmente não freqüentam a paróquia. Eles são os convidados VIPS. Saiamos à sua procura nos cruzamentos das estradas[14].

O Santo Padre, na Jornada Mundial da Juventude, falou com muita clareza sobre como a Igreja Jovem deve estar atenta para ser a resposta e um sinal para todos os demais jovens desta América Latina que precisa de testemunhas, pessoas comprometidas com um mundo novo.  Ele afirma que devemos encontrar os jovens, mas nunca permitir que sejam isolados de sua vida. O Papa Francisco quer encontrar a juventude inserida precisamente no tecido social, em sociedade. Porque, quando isolamos os jovens, praticamos uma injustiça: despojamo-los da sua pertença. Os jovens têm uma pertença: pertença a uma família, a uma pátria, a uma cultura, a uma Fé.

A Missão Continental deve abrir espaço para eles, pois sabemos que energia alguma pode ser mais potente que aquela que se desprende do coração dos jovens quando, conquistados pela experiência da amizade com Cristo, assumem a missão que Ele próprio lhes confia: “Ide, fazei discípulos”. Esse “Ide” exige ir para além das fronteiras do que é humanamente possível e criar um mundo de irmãos. Os jovens também são alentados pelo Santo Padre a botar Fé em Cristo. Eles não devem ter medo de arriscar a única vida que possuem porque sabem que não serão desiludidos.

O desafio da Missão Continental contempla os jovens dentro da sociedade e, nela, sendo verdadeiras testemunhas. Eles são verdadeiramente o futuro de um povo. Certamente isto é verdade; mas o Santo Padre nos diz que não o são somente eles. Eles são o futuro, porque têm a força, são jovens e continuarão para diante. Mas também, no outro extremo da vida, os idosos são o futuro de um povo. Um povo tem futuro se vai em frente com ambos os pontos: com os jovens, com a força, porque o levam para diante; e com os idosos, porque são eles que oferecem a sabedoria da vida. Desta forma os jovens são convocados pelo Santo Padre não só para ir às periferias existenciais da sociedade, mas também para contribuir com sua vida e coragem numa autêntica transformação social.

Na Jornada Mundial da Juventude, a Igreja na América Latina conseguiu mostrar ao mundo seu rosto jovem. De fato a maior parte dos jovens presentes eram latinos americanos. Creio que talvez tenha sido a oportunidade onde mais jovens da América Latina se encontraram em tão grande numero e manifestaram sua diversidade, nos mais de 180 países diferentes. Por isso neste Ano da Fé, estamos experimentando, unidos ao Santo Padre Francisco, a importância de o jovem se tornar apóstolo, discípulo e missionário do próprio jovem. Neste Ano da Fé também surge à necessidade dos jovens serem acompanhados espiritualmente para que assim sua Fé tenha cada vez mais raízes.  A juventude deve experimentar-se sempre caminhando, sendo protagonista na tarefa de evangelizar.

Certamente a experiência vivida pela juventude neste Ano da Fé e as luzes do Magistério do Papa Francisco devem alegrar o nosso coração, já que contemplamos a Igreja toda que continua a refletir sobre a importância da juventude. Vemos surgir uma primavera missionária que nos leva a considerar como fundamental na Igreja uma juventude que é a principal protagonista da missão por todos os recantos do mundo. 

Os jovens são convocados pela Igreja para serem missionários, para levarem adiante a caminhada missionária no mundo como um todo e não apenas em nossas estruturas paroquiais e diocesanas. Aliás, essa tem sido a insistência do Papa Francisco na questão da missionariedade. 

Um anseio profundo do coração do Papa é ver como os jovens são capazes de sair das estruturas paroquiais e manifestar a nossa vocação missionária. Por isso, particularmente contando com o entusiasmo dos jovens em idade e dos jovens de espírito, devemos levar a Boa-Nova de Jesus aos que vivem indiferentes à nossa Fé, ofertando-lhes este grande tesouro que não podemos guardar somente para nós.

3.2  . O chamado do Papa Francisco a “Cultura do Encontro”

 

Entre as reflexões e gestos do Papa Francisco na XXXVIII Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, convém deter ser na “cultura do encontro”. Foi uma expressão que pronunciou nove vezes durante sua viagem e em dezenas de ocasiões referiu se com termos semelhantes a esta expressão. Propus esta “cultura do encontro”, como resposta a “cultura do descartável” que afeta os anciãos e aos mesmos jovens. Nesta linha, frisou que um dos dinamismos da “cultura do encontro” é, precisamente, o dialogo inter geracional[15], pois os jovens não podem ser compreendidos isolados do tecido social, isto é da cultura[16].

 

Na missa com os bispos e sacerdotes durante a Jornada, o Papa expressou estas ideais:

“Em muitos ambientes, abriu-se passagem para uma cultura da exclusão, “uma cultura do descarte” (...) Vocês tenham a coragem de ir contra a corrente dessa cultura eficientista, dessa cultura do descarte. O encontro e o acolhimento de todos, a solidariedade– uma palavra que se está escondendo nesta cultura, como se fosse um palavrão –, a solidariedade e a fraternidade são elementos que tornam a nossa civilização verdadeiramente humana. Temos de ser servidores da comunhão e da cultura do encontro. Quero vocêsquase obsessivos neste aspecto! (...) Queridos irmãos e irmãs, somos chamados por Deus,cada um de nós, por nome e apelido; chamados para anunciar o Evangelho e promover com alegria a cultura do encontro. A Virgem Maria é nosso modelo. Na sua vida, Ela deu «exemplo daquele afeto maternal de que devem estar animados todos quantos cooperam na missão apostólica que a Igreja tem de regenerar os homens» (Conc. Ecum. Vat. II, Cost. dogm. Lumen gentium, 65)”[17].

 

Também no Discurso aos dirigentes da sociedade, voltou sobre este tema: “Um processo que faz crescer a humanização integral e a cultura do encontro e do relacionamento; este é o modo cristão de promover o bem comum considero fundamental para enfrentar o presente: o diálogo construtivo (…), o diálogo entre as gerações, o diálogo no povo, porque todos somos povo, a capacidade de dar e receber, permanecendo abertos à verdade. Um país cresce, quando dialogam de modo construtivo as suas diversas riquezas culturais: a cultura popular, a cultura universitária, a cultura juvenil, acultura artística e acult