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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 18/09/2019

18 de Setembro de 2019

Livros do Antigo Testamento (102)

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18 de Setembro de 2019

Livros do Antigo Testamento (102)

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22/04/2019 12:13 - Atualizado em 22/04/2019 12:14

Livros do Antigo Testamento (102) 0

22/04/2019 12:13 - Atualizado em 22/04/2019 12:14

Neste artigo iniciamos a exposição do estupendo livro do Eclesiástico, ou Ben Sira. Completaremos assim nosso voo panorâmico sobre os sete livros Sapienciais.

INTRODUÇÃO

O livro de Ben Sira coloca ao tradutor e ao leitor vários problemas difíceis. É um livro muito usado no judaísmo; especialmente citado no Talmud1, exerceu bastante influência na liturgia judaica (festa do Grande Perdão; Oração das 18 Bênçãos).

Apesar de ser estimado e usado pelos cristãos e de fazer parte da coleção dos livros religiosos em Alexandria, os cristãos dos primeiros séculos tiveram alguma hesitação em relação a ele, provavelmente por causa da história complicada da sua transmissão e pelo fato de não ter sido integrado no Cânon judaico. É, portanto, um livro deuterocanônico2.

NOME DO LIVRO

Desde os primeiros séculos do cristianismo até há pouco tempo, o nome mais comum para designar este livro era ‘Eclesiástico’ (do latim Ecclesiasticus liber), o que significa o livro da igreja ou da assembleia, por antonomásia.

São Cipriano, falecido em 248 d. C., parece ter sido o primeiro a usar esse nome, devido ao uso que dele se fazia na Igreja antiga. Com efeito, de entre os Livros Sapienciais, é este o mais rico de ensinamentos práticos, apresentados de um modo paternal e persuasivo.

Apesar de se lhe chamar também ‘Sirácide’, derivado de uma forma alternativa de ‘Sira’, os principais manuscritos gregos usam o título de ‘Sabedoria de Jesus, filho de Sira’ (51,30), ou então, ‘Sabedoria de Sira’.

Porque o texto considerado pela Igreja como canônico é o grego, parece aceitável a adoção moderna de livro de ‘Sirácide’ ou de Ben Sira como título, apesar da longa tradição do uso de ‘Eclesiástico’.

DATAÇÃO E AUTORIA

Este o único livro do Antigo Testamento, excetuando os escritos proféticos, do qual temos a certeza de conhecer o autor: ‘Sabedoria de Jesus, filho de Sira’, como vem assinalado no fim, em jeito de assinatura (51,30; ver 50,27). Segundo muitos autores, terá assinado a sua própria obra, por influência helenística.

Jesus Ben Sira, ou Sirácide, terá vivido em Jerusalém (50,27) no início do séc. II a.C., como se pode deduzir do louvor que faz a Simão, Sumo Sacerdote (50,1-21).

Para a identificação de tal Simão com Simão II é decisiva a notícia que nos é dada pelo tradutor grego da obra, filho ou neto do autor, que escreve por volta de 132 a.C., correspondente ao ano 38 de Ptolomeu VII Evergetes.

O livro deve ter sido escrito por volta de 180 a.C. e antes da trágica situação que começa com a destituição de Onias III, filho de Simão, em 174 a.C., na ocasião da violenta perseguição de Antíoco Epifânio (175 a.C.) e da consequente sublevação dos Macabeus (167 a.C.).

O próprio Ben Sira nos fornece alguns dados sobre a sua identidade e o seu trabalho. Em 51,23 fala da própria escola e convida os ignorantes a inscreverem-se para poderem adquirir gratuitamente a sabedoria (51,25):

Quando eu era ainda jovem, antes de ter viajado, busquei abertamente a sabedoria na oração: pedi-a a Deus no templo, e a buscarei até o fim de minha vida. Ela floresceu como uma videira precoce e meu coração alegrou-se nela. Meus pés andaram por caminho reto: desde a minha juventude tenho procurado encontrá-la. Apliquei um pouco o meu ouvido e logo a recolhi. Encontrei em mim mesmo muita sabedoria, e nela fiz grande progresso. Tributarei glória àquele que a deu a mim, pois resolvi pô-la em prática; fui zeloso no bem e não serei confundido. Lutou minha alma para atingi-la, robusteci-me, pondo-a em prática (Eclo 51, 18-25).

O período em que Ben Sira compõe a sua obra e estabelece, na sua própria casa, uma escola de formação sapiencial está profundamente marcado por uma forma de civilização que se chama ‘helenismo’

É uma forma nova de vida, cuja expansão no Médio Oriente ocorreu depois de Alexandre; caracterizava-se essencialmente pela convivência de culturas, pelo sincretismo religioso, por um universalismo que tende a abolir as fronteiras de raças e de religião, pela glorificação das forças da natureza e pelo culto do homem.

Perante o dinamismo e a expansão sempre crescente do helenismo na própria Palestina, o judaísmo começou a sentir ameaçada a sua própria existência.

E Ben Sira, apesar da sua abertura de espírito em relação a certos valores do mundo grego, toma consciência de que esse novo movimento de ideias e de costumes se opõe a certas exigências fundamentais da religião judaica (2,12-14):

Pois quem foi abandonado após ter perseverado em seus mandamentos? Quem é aquele cuja oração foi desprezada? Pois Deus é cheio de bondade e de misericórdia, ele perdoa os pecados no dia da aflição. Ele é o protetor de todos os que verdadeiramente o procuram. Ai do coração fingido, dos lábios perversos, das mãos malfazejas, do pecador que leva na terra uma vida de duplicidade (Eclo 2, 12-14).

 

1 O Talmude (em hebraico: תַּלְמוּד, transl. Talmud significa estudo) é uma coletânea de livros sagrados dos judeus, um registro das discussões rabínicas que pertencem à lei, ética, costumes e história do judaísmo. É um texto central para o judaísmo rabínico. O Talmude tem dois componentes: a Mishná, o primeiro compêndio escrito da Lei Oral judaica; e o Guemará, uma discussão da Mishná e dos escritos tanaíticos que frequentemente abordam outros tópicos. O Mishná foi redigido pelos mestres tanaítas (Tannaim), termo que deriva da palavra hebraica que significa “ensinar” ou “transmitir uma tradição”. Os tanaítas viveram entre o século I e o século III d.C. A primeira codificação é atribuída ao Aquiba (50 d.C. – 130 d.C.), e uma segunda, ao Rabi Meir (entre 130 d.C. e 160 d.C.), ambas as versões tendo sido escritas no atual idioma aramaico, ainda em uso no interior da Síria. Os termos Talmud e Guemará são utilizados frequentemente de maneira intercambiável. A Guemará é a base de todos os códigos da lei rabínica, e é muito citada no resto da literatura rabínica; já o Talmude também é chamado frequentemente de Shas (hebraico: ש”ס), uma abreviação em hebraico de shisha sedarim, as “seis ordens” da Mishná. Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Talmude.

2 O termo ‘deuterocanônico’ refere-se a um conjunto de sete livros que estão presentes na Septuaginta, antiga tradução em grego do Antigo Testamento. O judaísmo, após o Sínodo de Jâmnia, concílio rabínico farisaico, realizado entre o final do Século I d.C e o início do Século II d.C, não os considerou canônicos, bem como alguns grupos cristãos, comumente os Protestantes. Foram posteriormente admitidos como autênticos pelo Concílio de Roma em 382 d.C., de Hipona em 393 d.C., III Concílio de Cartago em 397, e no Concílio de Trento, iniciado em 1546. Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Livros_deuterocan%C3%B4nicos.

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Livros do Antigo Testamento (102)

22/04/2019 12:13 - Atualizado em 22/04/2019 12:14

Neste artigo iniciamos a exposição do estupendo livro do Eclesiástico, ou Ben Sira. Completaremos assim nosso voo panorâmico sobre os sete livros Sapienciais.

INTRODUÇÃO

O livro de Ben Sira coloca ao tradutor e ao leitor vários problemas difíceis. É um livro muito usado no judaísmo; especialmente citado no Talmud1, exerceu bastante influência na liturgia judaica (festa do Grande Perdão; Oração das 18 Bênçãos).

Apesar de ser estimado e usado pelos cristãos e de fazer parte da coleção dos livros religiosos em Alexandria, os cristãos dos primeiros séculos tiveram alguma hesitação em relação a ele, provavelmente por causa da história complicada da sua transmissão e pelo fato de não ter sido integrado no Cânon judaico. É, portanto, um livro deuterocanônico2.

NOME DO LIVRO

Desde os primeiros séculos do cristianismo até há pouco tempo, o nome mais comum para designar este livro era ‘Eclesiástico’ (do latim Ecclesiasticus liber), o que significa o livro da igreja ou da assembleia, por antonomásia.

São Cipriano, falecido em 248 d. C., parece ter sido o primeiro a usar esse nome, devido ao uso que dele se fazia na Igreja antiga. Com efeito, de entre os Livros Sapienciais, é este o mais rico de ensinamentos práticos, apresentados de um modo paternal e persuasivo.

Apesar de se lhe chamar também ‘Sirácide’, derivado de uma forma alternativa de ‘Sira’, os principais manuscritos gregos usam o título de ‘Sabedoria de Jesus, filho de Sira’ (51,30), ou então, ‘Sabedoria de Sira’.

Porque o texto considerado pela Igreja como canônico é o grego, parece aceitável a adoção moderna de livro de ‘Sirácide’ ou de Ben Sira como título, apesar da longa tradição do uso de ‘Eclesiástico’.

DATAÇÃO E AUTORIA

Este o único livro do Antigo Testamento, excetuando os escritos proféticos, do qual temos a certeza de conhecer o autor: ‘Sabedoria de Jesus, filho de Sira’, como vem assinalado no fim, em jeito de assinatura (51,30; ver 50,27). Segundo muitos autores, terá assinado a sua própria obra, por influência helenística.

Jesus Ben Sira, ou Sirácide, terá vivido em Jerusalém (50,27) no início do séc. II a.C., como se pode deduzir do louvor que faz a Simão, Sumo Sacerdote (50,1-21).

Para a identificação de tal Simão com Simão II é decisiva a notícia que nos é dada pelo tradutor grego da obra, filho ou neto do autor, que escreve por volta de 132 a.C., correspondente ao ano 38 de Ptolomeu VII Evergetes.

O livro deve ter sido escrito por volta de 180 a.C. e antes da trágica situação que começa com a destituição de Onias III, filho de Simão, em 174 a.C., na ocasião da violenta perseguição de Antíoco Epifânio (175 a.C.) e da consequente sublevação dos Macabeus (167 a.C.).

O próprio Ben Sira nos fornece alguns dados sobre a sua identidade e o seu trabalho. Em 51,23 fala da própria escola e convida os ignorantes a inscreverem-se para poderem adquirir gratuitamente a sabedoria (51,25):

Quando eu era ainda jovem, antes de ter viajado, busquei abertamente a sabedoria na oração: pedi-a a Deus no templo, e a buscarei até o fim de minha vida. Ela floresceu como uma videira precoce e meu coração alegrou-se nela. Meus pés andaram por caminho reto: desde a minha juventude tenho procurado encontrá-la. Apliquei um pouco o meu ouvido e logo a recolhi. Encontrei em mim mesmo muita sabedoria, e nela fiz grande progresso. Tributarei glória àquele que a deu a mim, pois resolvi pô-la em prática; fui zeloso no bem e não serei confundido. Lutou minha alma para atingi-la, robusteci-me, pondo-a em prática (Eclo 51, 18-25).

O período em que Ben Sira compõe a sua obra e estabelece, na sua própria casa, uma escola de formação sapiencial está profundamente marcado por uma forma de civilização que se chama ‘helenismo’

É uma forma nova de vida, cuja expansão no Médio Oriente ocorreu depois de Alexandre; caracterizava-se essencialmente pela convivência de culturas, pelo sincretismo religioso, por um universalismo que tende a abolir as fronteiras de raças e de religião, pela glorificação das forças da natureza e pelo culto do homem.

Perante o dinamismo e a expansão sempre crescente do helenismo na própria Palestina, o judaísmo começou a sentir ameaçada a sua própria existência.

E Ben Sira, apesar da sua abertura de espírito em relação a certos valores do mundo grego, toma consciência de que esse novo movimento de ideias e de costumes se opõe a certas exigências fundamentais da religião judaica (2,12-14):

Pois quem foi abandonado após ter perseverado em seus mandamentos? Quem é aquele cuja oração foi desprezada? Pois Deus é cheio de bondade e de misericórdia, ele perdoa os pecados no dia da aflição. Ele é o protetor de todos os que verdadeiramente o procuram. Ai do coração fingido, dos lábios perversos, das mãos malfazejas, do pecador que leva na terra uma vida de duplicidade (Eclo 2, 12-14).

 

1 O Talmude (em hebraico: תַּלְמוּד, transl. Talmud significa estudo) é uma coletânea de livros sagrados dos judeus, um registro das discussões rabínicas que pertencem à lei, ética, costumes e história do judaísmo. É um texto central para o judaísmo rabínico. O Talmude tem dois componentes: a Mishná, o primeiro compêndio escrito da Lei Oral judaica; e o Guemará, uma discussão da Mishná e dos escritos tanaíticos que frequentemente abordam outros tópicos. O Mishná foi redigido pelos mestres tanaítas (Tannaim), termo que deriva da palavra hebraica que significa “ensinar” ou “transmitir uma tradição”. Os tanaítas viveram entre o século I e o século III d.C. A primeira codificação é atribuída ao Aquiba (50 d.C. – 130 d.C.), e uma segunda, ao Rabi Meir (entre 130 d.C. e 160 d.C.), ambas as versões tendo sido escritas no atual idioma aramaico, ainda em uso no interior da Síria. Os termos Talmud e Guemará são utilizados frequentemente de maneira intercambiável. A Guemará é a base de todos os códigos da lei rabínica, e é muito citada no resto da literatura rabínica; já o Talmude também é chamado frequentemente de Shas (hebraico: ש”ס), uma abreviação em hebraico de shisha sedarim, as “seis ordens” da Mishná. Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Talmude.

2 O termo ‘deuterocanônico’ refere-se a um conjunto de sete livros que estão presentes na Septuaginta, antiga tradução em grego do Antigo Testamento. O judaísmo, após o Sínodo de Jâmnia, concílio rabínico farisaico, realizado entre o final do Século I d.C e o início do Século II d.C, não os considerou canônicos, bem como alguns grupos cristãos, comumente os Protestantes. Foram posteriormente admitidos como autênticos pelo Concílio de Roma em 382 d.C., de Hipona em 393 d.C., III Concílio de Cartago em 397, e no Concílio de Trento, iniciado em 1546. Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Livros_deuterocan%C3%B4nicos.

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica