Arquidiocese do Rio de Janeiro

27º 18º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 21/10/2019

21 de Outubro de 2019

Livros do Antigo Testamento (101)

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21 de Outubro de 2019

Livros do Antigo Testamento (101)

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12/04/2019 21:07 - Atualizado em 12/04/2019 21:08

Livros do Antigo Testamento (101) 0

12/04/2019 21:07 - Atualizado em 12/04/2019 21:08

Neste artigo concluímos nosso estudo panorâmico sobre um dos livros mais fascinantes da literatura bíblica mais recente ao cristianismo e ao próprio Novo Testamento, que usufruirá de suas páginas inspiradoras.

ESTRUTURA LITERÁRIA E DISPOSIÇÃO DO CONTEÚDO:

Esta proposta de vida assente na revelação de Deus, manifestada na História e no mundo criado, é desenvolvida em três partes:

1. A Sabedoria e o destino do homem (1,1-5,23): descreve-se a sorte diversa dos justos e dos ímpios, à luz da fé; sendo a justiça imortal (1,16), Deus reserva a imortalidade aos justos:

Amai a justiça, vós que governais a terra, tende para com o Senhor sentimentos perfeitos, e procurai-O na simplicidade do coração, porque Ele é encontrado pelos que não o tentam, e se revela aos que não Lhe recusam sua confiança; com efeito, os pensamentos tortuosos afastam de Deus, e o seu poder, posto à prova, triunfa dos insensatos. A sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado; o Espírito Santo educador das almas fugirá da perfídia, se afastará dos pensamentos insensatos, e a iniquidade que sobrevém o repelirá (Sb 1,1-5).

2. Elogio da Sabedoria (6,1-9,18): origem, natureza, propriedades e dons que acompanham a sabedoria (7,22-8,1), como personificação de Deus (ver Pr 8; Sir 24); elogio da sabedoria, elevando-a acima dos valores mais apreciados neste mundo:

Ansiai, pois, pelas minhas palavras, reclamai-as ardentemente e sereis instruídos. Resplandecente é a sabedoria, e sua beleza é inalterável: os que a amam descobrem-na facilmente. Os que a procuram encontram-na. Ela antecipa-se aos que a desejam. Quem, para possuí-la, levanta-se de madrugada não terá trabalho, porque a encontrará sentada à sua porta. Fazê-la objeto de seus pensamentos é a prudência perfeita, e quem por ela vigia, em breve não terá mais cuidado. Ela mesma vai à procura dos que são dignos dela; ela lhes aparece nos caminhos cheia de benevolência, e vai ao encontro deles em todos os seus pensamentos, porque, verdadeiramente, desde o começo, seu desejo é instruir, e desejar instruir-se é amá-la. Mas amá-la é obedecer às suas leis, e obedecer às suas leis é a garantia da imortalidade. Ora, a imortalidade faz habitar junto de Deus (Sb 6, 11-19).

3. A Sabedoria na História de Israel (10,1-19,22): descreve-se a presença e a atividade da sabedoria em toda a História do povo de Israel com especial incidência sobre o Êxodo (11,1-19,17), em forma de midash1 e de contrastes, que caracterizam o estilo desta terceira parte (11,4-15,19; 16,1-4; 16,5-14; 16,15-29; 17,1-18,4; 18,5-25; 19,1-21).

Mas o autor também manifesta conhecimentos profundos de outros livros: Génesis, Provérbios, Ben Sira e Isaías. Merece um relevo especial a brilhante polêmica contra a idolatria.

O estilo geral da obra inclui recursos estilísticos hebraicos (paralelismo, comentário midráxico, alusões a motivos do AT) e gregos (abundância de sinônimos, adjetivação rebuscada, aliterações, rimas e jogos de palavras). Tudo isto faz do Livro da Sabedoria um modelo do grego da Bíblia dos Setenta.

LEITURA TEOLÓGICA CRISTÃ

Muitos judeus seriam tentados a seguir o caminho dos “ímpios” e a renegar a sua fé, tanto pela perseguição ou pelo ridículo a que eram sujeitos por causa das práticas dessa fé, como pela vida moral fácil que os alexandrinos levavam, em contraste com as exigências apontadas pela Lei (2,1-20).

Mais que uma categoria ou classe de pessoas, os “ímpios” - que são o contraponto dos “justos” ao longo de todo o livro - personificam um estilo de vida oposto e hostil, por vezes, ao que deveria constituir o do judeu crente.

Esta temática pode caracterizar-se pela ideia de justiça, nos seus três sentidos bíblicos: como virtude da equidade, isto é, dar a cada um o que lhe pertence; como cumprimento perfeito da vontade de Deus; e, finalmente, como força ou ação de Deus, que nos livra de toda a espécie de mal.

O autor resolve o problema da felicidade dos justos e infelicidade dos ímpios pela retribuição ultraterrena para os justos.

Em face de um ambiente religioso, filosófico e cultural, que apresentava um estilo de vida material e formalmente atraente, era imperioso dar razões fortes da fé, mesmo em termos racionais e vitais, para que ela não aparecesse inferiorizada como proposta ou estilo de vida. Por isso o autor mostra excepcionais conhecimentos de toda a Bíblia e da vida cultural helenística.

Uma segunda ideia teológica fundamental deste livro é a personificação da Sabedoria divina.

Enquanto, para os gregos, a sabedoria era um meio para chegar ao conhecimento e contemplação divina, para o autor, ela é uma proposta de vida, um alguém que está presente em toda a vida e que preside a vida toda; que fala, estimula e argumenta.

A sabedoria é assim porque é o reflexo da vontade e dos desígnios de Deus (9,13.17):

Que homem, pois, pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor? E quem conhece vossas intenções, se vós não lhe dais a sabedoria, e se do mais alto dos céus vós não lhe enviais vosso Espírito Santo? (Sb 9, 13.17).

Porque partilha da própria vida de Deus, está associada a todas as suas obras (8,3-4) e tem a ver com o espírito de Deus (1,6; 7,7.22-23; 9,17); é ela que torna a religião judaica muito superior às religiões idólatras (cap. 13-15).

Numa palavra, a sabedoria é outro modo da revelação de Deus; isto é, o próprio Deus atua na História de Israel (cap. 11-12; 16-19) e no mundo criado por meio da sua sabedoria.

Ela prefigura o amor e a sabedoria de Deus que culmina em Jesus Cristo, também chamado “Sabedoria de Deus” (Cf. I Cor 1, 24.30):

Mas, para os eleitos – quer judeus quer gregos –, força de Deus e sabedoria de Deus. É por sua graça que estais em Jesus Cristo, que, da parte de Deus, se tornou para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção.

 

1  (Judaísmo) um antigo comentário por parte das escrituras hebraicas, que é baseado em métodos judaicos de interpretação e anexadas ao texto bíblico. Midrash (מדרש;. Midrashim plural, iluminado “para investigar” ou “estudo”) é um método homilético de exegese bíblica. A palavra hebraica significa investigação ou pesquisa.

 

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Livros do Antigo Testamento (101)

12/04/2019 21:07 - Atualizado em 12/04/2019 21:08

Neste artigo concluímos nosso estudo panorâmico sobre um dos livros mais fascinantes da literatura bíblica mais recente ao cristianismo e ao próprio Novo Testamento, que usufruirá de suas páginas inspiradoras.

ESTRUTURA LITERÁRIA E DISPOSIÇÃO DO CONTEÚDO:

Esta proposta de vida assente na revelação de Deus, manifestada na História e no mundo criado, é desenvolvida em três partes:

1. A Sabedoria e o destino do homem (1,1-5,23): descreve-se a sorte diversa dos justos e dos ímpios, à luz da fé; sendo a justiça imortal (1,16), Deus reserva a imortalidade aos justos:

Amai a justiça, vós que governais a terra, tende para com o Senhor sentimentos perfeitos, e procurai-O na simplicidade do coração, porque Ele é encontrado pelos que não o tentam, e se revela aos que não Lhe recusam sua confiança; com efeito, os pensamentos tortuosos afastam de Deus, e o seu poder, posto à prova, triunfa dos insensatos. A sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado; o Espírito Santo educador das almas fugirá da perfídia, se afastará dos pensamentos insensatos, e a iniquidade que sobrevém o repelirá (Sb 1,1-5).

2. Elogio da Sabedoria (6,1-9,18): origem, natureza, propriedades e dons que acompanham a sabedoria (7,22-8,1), como personificação de Deus (ver Pr 8; Sir 24); elogio da sabedoria, elevando-a acima dos valores mais apreciados neste mundo:

Ansiai, pois, pelas minhas palavras, reclamai-as ardentemente e sereis instruídos. Resplandecente é a sabedoria, e sua beleza é inalterável: os que a amam descobrem-na facilmente. Os que a procuram encontram-na. Ela antecipa-se aos que a desejam. Quem, para possuí-la, levanta-se de madrugada não terá trabalho, porque a encontrará sentada à sua porta. Fazê-la objeto de seus pensamentos é a prudência perfeita, e quem por ela vigia, em breve não terá mais cuidado. Ela mesma vai à procura dos que são dignos dela; ela lhes aparece nos caminhos cheia de benevolência, e vai ao encontro deles em todos os seus pensamentos, porque, verdadeiramente, desde o começo, seu desejo é instruir, e desejar instruir-se é amá-la. Mas amá-la é obedecer às suas leis, e obedecer às suas leis é a garantia da imortalidade. Ora, a imortalidade faz habitar junto de Deus (Sb 6, 11-19).

3. A Sabedoria na História de Israel (10,1-19,22): descreve-se a presença e a atividade da sabedoria em toda a História do povo de Israel com especial incidência sobre o Êxodo (11,1-19,17), em forma de midash1 e de contrastes, que caracterizam o estilo desta terceira parte (11,4-15,19; 16,1-4; 16,5-14; 16,15-29; 17,1-18,4; 18,5-25; 19,1-21).

Mas o autor também manifesta conhecimentos profundos de outros livros: Génesis, Provérbios, Ben Sira e Isaías. Merece um relevo especial a brilhante polêmica contra a idolatria.

O estilo geral da obra inclui recursos estilísticos hebraicos (paralelismo, comentário midráxico, alusões a motivos do AT) e gregos (abundância de sinônimos, adjetivação rebuscada, aliterações, rimas e jogos de palavras). Tudo isto faz do Livro da Sabedoria um modelo do grego da Bíblia dos Setenta.

LEITURA TEOLÓGICA CRISTÃ

Muitos judeus seriam tentados a seguir o caminho dos “ímpios” e a renegar a sua fé, tanto pela perseguição ou pelo ridículo a que eram sujeitos por causa das práticas dessa fé, como pela vida moral fácil que os alexandrinos levavam, em contraste com as exigências apontadas pela Lei (2,1-20).

Mais que uma categoria ou classe de pessoas, os “ímpios” - que são o contraponto dos “justos” ao longo de todo o livro - personificam um estilo de vida oposto e hostil, por vezes, ao que deveria constituir o do judeu crente.

Esta temática pode caracterizar-se pela ideia de justiça, nos seus três sentidos bíblicos: como virtude da equidade, isto é, dar a cada um o que lhe pertence; como cumprimento perfeito da vontade de Deus; e, finalmente, como força ou ação de Deus, que nos livra de toda a espécie de mal.

O autor resolve o problema da felicidade dos justos e infelicidade dos ímpios pela retribuição ultraterrena para os justos.

Em face de um ambiente religioso, filosófico e cultural, que apresentava um estilo de vida material e formalmente atraente, era imperioso dar razões fortes da fé, mesmo em termos racionais e vitais, para que ela não aparecesse inferiorizada como proposta ou estilo de vida. Por isso o autor mostra excepcionais conhecimentos de toda a Bíblia e da vida cultural helenística.

Uma segunda ideia teológica fundamental deste livro é a personificação da Sabedoria divina.

Enquanto, para os gregos, a sabedoria era um meio para chegar ao conhecimento e contemplação divina, para o autor, ela é uma proposta de vida, um alguém que está presente em toda a vida e que preside a vida toda; que fala, estimula e argumenta.

A sabedoria é assim porque é o reflexo da vontade e dos desígnios de Deus (9,13.17):

Que homem, pois, pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor? E quem conhece vossas intenções, se vós não lhe dais a sabedoria, e se do mais alto dos céus vós não lhe enviais vosso Espírito Santo? (Sb 9, 13.17).

Porque partilha da própria vida de Deus, está associada a todas as suas obras (8,3-4) e tem a ver com o espírito de Deus (1,6; 7,7.22-23; 9,17); é ela que torna a religião judaica muito superior às religiões idólatras (cap. 13-15).

Numa palavra, a sabedoria é outro modo da revelação de Deus; isto é, o próprio Deus atua na História de Israel (cap. 11-12; 16-19) e no mundo criado por meio da sua sabedoria.

Ela prefigura o amor e a sabedoria de Deus que culmina em Jesus Cristo, também chamado “Sabedoria de Deus” (Cf. I Cor 1, 24.30):

Mas, para os eleitos – quer judeus quer gregos –, força de Deus e sabedoria de Deus. É por sua graça que estais em Jesus Cristo, que, da parte de Deus, se tornou para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção.

 

1  (Judaísmo) um antigo comentário por parte das escrituras hebraicas, que é baseado em métodos judaicos de interpretação e anexadas ao texto bíblico. Midrash (מדרש;. Midrashim plural, iluminado “para investigar” ou “estudo”) é um método homilético de exegese bíblica. A palavra hebraica significa investigação ou pesquisa.

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica