Arquidiocese do Rio de Janeiro

32º 21º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/11/2019

22 de Novembro de 2019

Eu também não te condeno

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06/04/2019 18:50 - Atualizado em 06/04/2019 18:50

Eu também não te condeno 0

06/04/2019 18:50 - Atualizado em 06/04/2019 18:50

Estamos caminhando para o final do tempo da Quaresma. Na próxima semana entraremos na Semana Santa, com a celebração do Domingo de Ramos. Com as celebrações do tríduo Pascal, vamos acompanhar os passos de Jesus que dá sua vida por nós e ressuscita, está vivo e no meio de nós. Teremos também, no próximo domingo, a oportunidade de concluir Campanha da Fraternidade, o que não significa concluir o tema, já que este há de nos acompanhar, através de ações concretas, ao longo de todo o ano. Já nos preparamos também para a coleta da solidariedade, quando as ofertas recebidas irão ser destinadas para fins sociais do Fundo Diocesano ou Nacional de Solidariedade a partir das necessidades determinadas de cada Diocese, Arquidiocese ou de pedidos que chegam para o Fundo Nacional. Sinal de partilha, comunhão e busca no Senhor cada vez mais.

A palavra de Deus que vai nos acompanhando a cada dia e de forma mais generosa no domingo, vai nos fazendo aprofundar a nossa caminhada para a Páscoa. Recordamos, inclusive, as palavras do Santo Padre, que ao falar em sua mensagem para a quaresma, nos recorda que: Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais. Neste Quinto Domingo da Quaresma somos convidados a refletir sobre como podemos ajudar esse mundo a ser melhor, a ser diferente.

A primeira leitura (Is 43, 16-21), nos anuncia um novo Êxodo. Tal anúncio se faz no contexto da caminhada quaresmal, onde somos chamados a refazer o caminho do Êxodo. Mesmo sendo o episódio do Êxodo um dos mais importantes da história da salvação, a Palavra de Deus apresentada na profecia faz um convite ousado para esquecerem as coisas passadas, pois o que há de vir é muito melhor do que tudo aquilo que já se havia vivido na história de Israel. Esta palavra de Isaías vai se cumprir em Jesus: aquele que traz uma vida nova para todos. Os elementos da caminhada quaresmal servem exatamente para nos fazerem experimentar de maneira plena os frutos desta vida nova. Ele abre o caminho para fazer tudo novo.

O salmo de resposta (Sl 125), é o cântico de reconhecimento alegre e jubiloso a todas as maravilhas que Deus havia realizado em meio a seu povo, ao mesmo tempo que se faz um pedido: Mudai a nossa sorte, ó Senhor, / como torrentes, no deserto. Um pedido a que o Senhor continue a realizar maravilhas no hoje da história de cada um daqueles que suplicam e esperam.

É Dentro desta perspectiva de vida nova que há de trazer o Senhor que a segunda leitura (Fl 3, 8-14), Paulo, de maneira enfática, considera todas as coisas como perda, como lixo, ante o bem incomparável do conhecimento de Cristo e o experimentar a força, a eficácia de sua Ressurreição. Pelo fato de ter encontrado Cristo tudo o mais é vencido. O bem maior da existência humana é estar unido ao nosso sentido maior, que é Cristo. Já fomos conquistados por Ele. Agora é hora de fazermos nossa parte: ir cada vez mais ao encontro dele.

O Evangelho deste Domingo (Jo 8, 1-11), nos traz Jesus e sua atitude ante a iminente aplicação da pena de apedrejamento de uma mulher que havia sido surpreendida em flagrante adultério, questão que lhe é trazida pelos fariseus e mestres da Lei que tinham como objetivo de ter algum motivo para acusar Jesus. Ele vê ali exatamente uma provocação a tudo aquilo que era seu ensinamento: misericórdia, perdão, compreensão. Quem dentre vós estiver sem pecado que atire a primeira pedra.

O episódio vem confirmar como é o juízo de Jesus: sendo ele justo, não condena. Ao contrário, aqueles que são os pecadores, ditam a sentença de morte. Frei Luis de Granada comenta: Que ao considerarmos a misericórdia de Deus, não nos esqueçamos de sua justiça nem olhemos para a justiça que não nos lembremos da misericórdia, pois no temor deve haver a esperança e na esperança deve haver o amor. Na passagem, a questão que é colocada a partir do ponto de vista legal, é elevada por Jesus ao plano moral, interrogando a consciência de cada um. Não viola a Lei nem quer que se perca o que ele estava buscando, pois Jesus veio salvar o que estava perdido. Santo Agostinho, comentando esta passagem, afirma: Que cada um se observe a si mesmo, entre em seu interior e ponha-se na presença do tribunal do seu coração e de sua consciência, e se verá obrigado a se reconhecer pecador.

Com muita facilidade julgamos os outros e apedrejamos as pessoas com nossos preconceitos ou juízos imediatos, quando somos mais repetidores de padrões do que verdadeiramente autênticos em nossas concepções. De forma especial na era digital, onde abriu-se um espaço de imediatismo anônimo, são tantas pedras lançadas sobre os outros, em situações ambíguas, complexas e que não são captadas em sua totalidade. Esquecemos que todos somos chamados à reconciliação e ao perdão. O evangelho mostra claramente a celebração penitencial: reconhecimento, perdão e a vida nova. Essa vida nova é a grande alegria do anúncio da Páscoa: a pessoa que reconhece seu erro e o tem acolhido na misericórdia infinita do Senhor, aquele que vem salvar e cuidar do que está machucado e ferido. O mundo de hoje anda machucado de muitas maneiras e não percebemos na sociedade um lugar para o arrependimento e para o perdão. São muitos os que acreditam que é na vingança e na maldade que teremos a verdadeira justiça e reparação dos erros, enquanto a palavra de Jesus é uma palavra de misericórdia e alegria de uma vida nova.

A Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor, que perdoa a mulher adúltera e continua a nos perdoar, indica-nos o caminho a seguir. Que o Espírito Santo nos guie na realização do verdadeiro caminho de conversão, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irmãos que são apedrejados pela falta de misericórdia. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil, ao necessitado e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa.


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06/04/2019 18:50 - Atualizado em 06/04/2019 18:50

Estamos caminhando para o final do tempo da Quaresma. Na próxima semana entraremos na Semana Santa, com a celebração do Domingo de Ramos. Com as celebrações do tríduo Pascal, vamos acompanhar os passos de Jesus que dá sua vida por nós e ressuscita, está vivo e no meio de nós. Teremos também, no próximo domingo, a oportunidade de concluir Campanha da Fraternidade, o que não significa concluir o tema, já que este há de nos acompanhar, através de ações concretas, ao longo de todo o ano. Já nos preparamos também para a coleta da solidariedade, quando as ofertas recebidas irão ser destinadas para fins sociais do Fundo Diocesano ou Nacional de Solidariedade a partir das necessidades determinadas de cada Diocese, Arquidiocese ou de pedidos que chegam para o Fundo Nacional. Sinal de partilha, comunhão e busca no Senhor cada vez mais.

A palavra de Deus que vai nos acompanhando a cada dia e de forma mais generosa no domingo, vai nos fazendo aprofundar a nossa caminhada para a Páscoa. Recordamos, inclusive, as palavras do Santo Padre, que ao falar em sua mensagem para a quaresma, nos recorda que: Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais. Neste Quinto Domingo da Quaresma somos convidados a refletir sobre como podemos ajudar esse mundo a ser melhor, a ser diferente.

A primeira leitura (Is 43, 16-21), nos anuncia um novo Êxodo. Tal anúncio se faz no contexto da caminhada quaresmal, onde somos chamados a refazer o caminho do Êxodo. Mesmo sendo o episódio do Êxodo um dos mais importantes da história da salvação, a Palavra de Deus apresentada na profecia faz um convite ousado para esquecerem as coisas passadas, pois o que há de vir é muito melhor do que tudo aquilo que já se havia vivido na história de Israel. Esta palavra de Isaías vai se cumprir em Jesus: aquele que traz uma vida nova para todos. Os elementos da caminhada quaresmal servem exatamente para nos fazerem experimentar de maneira plena os frutos desta vida nova. Ele abre o caminho para fazer tudo novo.

O salmo de resposta (Sl 125), é o cântico de reconhecimento alegre e jubiloso a todas as maravilhas que Deus havia realizado em meio a seu povo, ao mesmo tempo que se faz um pedido: Mudai a nossa sorte, ó Senhor, / como torrentes, no deserto. Um pedido a que o Senhor continue a realizar maravilhas no hoje da história de cada um daqueles que suplicam e esperam.

É Dentro desta perspectiva de vida nova que há de trazer o Senhor que a segunda leitura (Fl 3, 8-14), Paulo, de maneira enfática, considera todas as coisas como perda, como lixo, ante o bem incomparável do conhecimento de Cristo e o experimentar a força, a eficácia de sua Ressurreição. Pelo fato de ter encontrado Cristo tudo o mais é vencido. O bem maior da existência humana é estar unido ao nosso sentido maior, que é Cristo. Já fomos conquistados por Ele. Agora é hora de fazermos nossa parte: ir cada vez mais ao encontro dele.

O Evangelho deste Domingo (Jo 8, 1-11), nos traz Jesus e sua atitude ante a iminente aplicação da pena de apedrejamento de uma mulher que havia sido surpreendida em flagrante adultério, questão que lhe é trazida pelos fariseus e mestres da Lei que tinham como objetivo de ter algum motivo para acusar Jesus. Ele vê ali exatamente uma provocação a tudo aquilo que era seu ensinamento: misericórdia, perdão, compreensão. Quem dentre vós estiver sem pecado que atire a primeira pedra.

O episódio vem confirmar como é o juízo de Jesus: sendo ele justo, não condena. Ao contrário, aqueles que são os pecadores, ditam a sentença de morte. Frei Luis de Granada comenta: Que ao considerarmos a misericórdia de Deus, não nos esqueçamos de sua justiça nem olhemos para a justiça que não nos lembremos da misericórdia, pois no temor deve haver a esperança e na esperança deve haver o amor. Na passagem, a questão que é colocada a partir do ponto de vista legal, é elevada por Jesus ao plano moral, interrogando a consciência de cada um. Não viola a Lei nem quer que se perca o que ele estava buscando, pois Jesus veio salvar o que estava perdido. Santo Agostinho, comentando esta passagem, afirma: Que cada um se observe a si mesmo, entre em seu interior e ponha-se na presença do tribunal do seu coração e de sua consciência, e se verá obrigado a se reconhecer pecador.

Com muita facilidade julgamos os outros e apedrejamos as pessoas com nossos preconceitos ou juízos imediatos, quando somos mais repetidores de padrões do que verdadeiramente autênticos em nossas concepções. De forma especial na era digital, onde abriu-se um espaço de imediatismo anônimo, são tantas pedras lançadas sobre os outros, em situações ambíguas, complexas e que não são captadas em sua totalidade. Esquecemos que todos somos chamados à reconciliação e ao perdão. O evangelho mostra claramente a celebração penitencial: reconhecimento, perdão e a vida nova. Essa vida nova é a grande alegria do anúncio da Páscoa: a pessoa que reconhece seu erro e o tem acolhido na misericórdia infinita do Senhor, aquele que vem salvar e cuidar do que está machucado e ferido. O mundo de hoje anda machucado de muitas maneiras e não percebemos na sociedade um lugar para o arrependimento e para o perdão. São muitos os que acreditam que é na vingança e na maldade que teremos a verdadeira justiça e reparação dos erros, enquanto a palavra de Jesus é uma palavra de misericórdia e alegria de uma vida nova.

A Quaresma é o tempo favorável para nos renovarmos, encontrando Cristo vivo na sua Palavra, nos Sacramentos e no próximo. O Senhor, que perdoa a mulher adúltera e continua a nos perdoar, indica-nos o caminho a seguir. Que o Espírito Santo nos guie na realização do verdadeiro caminho de conversão, para redescobrirmos o dom da Palavra de Deus, sermos purificados do pecado que nos cega e servirmos Cristo presente nos irmãos que são apedrejados pela falta de misericórdia. Rezemos uns pelos outros para que, participando na vitória de Cristo, saibamos abrir as nossas portas ao frágil, ao necessitado e ao pobre. Então poderemos viver e testemunhar em plenitude a alegria da Páscoa.


Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro