Arquidiocese do Rio de Janeiro

26º 19º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/05/2019

19 de Maio de 2019

‘Lavo minhas mãos’ (Mt 27,24)

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19 de Maio de 2019

‘Lavo minhas mãos’ (Mt 27,24)

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08/03/2019 11:48 - Atualizado em 08/03/2019 11:49

‘Lavo minhas mãos’ (Mt 27,24) 0

08/03/2019 11:48 - Atualizado em 08/03/2019 11:49

Meditando o segundo Mistério Doloroso, ao recitar o Santo Rosário, pensei no conflito moral de Pôncio Pilatos. Refleti sobre a tensão que muitas vezes ocorre entre o cumprimento estrito da lei e a consciência moral/religiosa do indivíduo. Há 25 anos servindo como padre capelão da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), esse é um tema que vejo sempre retornar nas conversas entre o capelão e os fiéis militares.

No texto evangélico transparece o desconforto psicológico que Pôncio Pilatos sente diante da aplicação da pena. Ele parece duvidar entre obedecer a lei, agindo, portanto, como se esperaria de um governante do Império Romano e o vislumbre que tem da injustiça da acusação feita a Nosso Senhor. Quantas vezes, em meu ministério de capelão da PMERJ, não escutei o relato desse mesmo dilema moral dos agentes de Segurança Pública. As consciências dos nossos policiais militares são turvadas por variadas causas: notícias diuturnas de um verdadeiro ‘abate’ de seus irmãos de farda (em 2018 foram 96 policiais militares assassinados e em 2017, 163); uma aparente impunidade para com os mais ricos e poderosos; uma mídia e, consequentemente a opinião pública, beligerantes e rápidas para condenar as ações policiais; a burocracia excessiva... Isso tudo, como lembrou o Papa, traz consequências e exigências específicas para o capelão militar:

“Por conseguinte, é necessário questionar-se sobre as modalidades adequadas para curar as feridas espirituais dos militares que, tendo vivido a experiência da guerra, assistiram a crimes atrozes. Estas pessoas e as suas famílias exigem uma atenção pastoral específica, uma solicitude que lhes faça sentir a proximidade materna da Igreja. O papel do capelão militar consiste em acompanhá-los e apoiá-los no seu caminho, sendo para todos presença consoladora e fraterna. Sobre as feridas destas pessoas vós podeis derramar o bálsamo da Palavra de Deus que alivia as dores e infunde esperança; e podeis oferecer-lhes a graça da Eucaristia e da Reconciliação, que nutre e regenera a alma aflita.” (Discurso do Papa Francisco  aos capelães militares - Sala Clementina -Segunda-feira, 26 de outubro de 2015). Alguém duvida que a realidade dos policiais no Rio de Janeiro seja como se estivessem em uma guerra ininterrupta?

Ultimamente, muito se tem falado sobre o ”excludente de ilicitude”, termo jurídico que ampliaria o conceito da ação de legítima defesa no exercício da função policial. É um desses assuntos controversos, pouco claros para a grande parte dos fiéis cristãos. Muitos questionam: “Deus não ordenou: ‘Não matarás!’ Ex 20,13), e ‘Ofereça a outra face!’” (MT 5,39)? Disso devemos concluir que todos nós deveríamos deixar que subtraiam nossos pertences e nossas vidas sem esboçar qualquer reação aos meliantes? Muitos policiais militares compartilham desse questionamento moral. E sentem um desconforto diante dessas questões. Vejamos, então, o que a Igreja Católica diz sobre isso? Peçamos ajuda à tradição dos que nos precederam:

A Igreja sempre ensinou que mais do que um direito, defender a vida do inocente é um dever. O cristão deve dar a própria vida por um bem maior, assim como Jesus e os mártires da Igreja fizeram:

“A legítima defesa pode ser não somente um direito, mas um grave dever para o responsável pela vida de outrem. A defesa do bem comum exige que um injusto agressor seja impedido de causar danos. Por esta razão, aqueles que legitimamente detêm autoridade também têm o direito de usar de armas para repelir os agressores da comunidade civil confiada à sua responsabilidade” (Catecismo da Igreja Católica, 2265).

Também à família este número do Catecismo deve ser aplicado. A esposa e/ou os filhos expostos a uma situação iminente de grave perigo, o marido/pai tem o direito e o dever de realizar o que estiver ao seu alcance para cessar a ação do agressor, ainda que isto seja matá-lo.

Aprende-se na moral que a virtude/bondade está no equilíbrio e jamais nos extremos/exageros. Ocorre, todavia, que a rotina de um policial militar no confronto contra as milícias/tráfico o situa quase diariamente em uma situação de extremos. É difícil, no meio de um confronto urbano, agir com todo esse controle desejado.  Por isso essa deve ser sempre a preocupação pastoral central de um capelão da PMERJ: Como o serviço de assistência religiosa aos militares, previsto na Constituição brasileira, pode auxiliar o efetivo /estrito cumprimento do dever, salvaguardando a boa consciência de seus assistidos?

Listo alguns argumentos religiosos que costumo repetir aos que me procuram, tentando assim apaziguar suas consciências:

Deus é chamado várias vezes na Bíblia como o “Senhor dos Exércitos” (Is 1,24).

A paz, perfeita e perene, experimentaremos no céu. Aqui somos chamados a ser instrumentos/promotores da paz. Marcados pela queda/pecado dos nossos primeiros pais, vivemos em uma sociedade beligerante, conflituosa e até mesmo homicida. Fazer o que é certo às vezes exige o uso da força contra o injusto agressor. Não aceitar isso é uma atitude infantil de negação da realidade como ela é;

“Se vis pacem para bellum” (‘Se queres a paz, prepara-te para a guerra!’) - antigo provérbio latino.  No livro “A Arte da Guerra”, escrito pelo chinês Sun Tzu há mais de 2.000 anos, são expostas as relações complexas entre os exércitos que travam uma batalha, mas que vão manifestando os princípios do sucesso na luta em prol da vida do homem. Seria maravilhoso que nunca houvesse a necessidade de ocorrer guerras entre as nações, porém a realidade não é dessa forma. Para Sun Tzu, o objetivo principal da guerra é a paz. A guerra entre povos pode ser considerada justa, ética e nobre. Se não pela sua prática, ao menos pelos fins almejados e conseguidos. Isso vale também para os conflitos urbanos entre os policiais e os marginais.

“Combati o bom combate!” (2Tm 4,7). Ao contrário da vergonhosa omissão que se revela na expressão de Pôncio Pilatos: “Lavo minhas mãos” (Mt 27, 24), um policial militar que retorna para a sua família sabendo que cooperou para manter a ordem e garantir a paz na sociedade, pode agradecer de coração sincero ao Senhor durante seu exame de consciência diário, por ter feito a sua parte na construção do Reino de Deus, Reino de paz e de Justiça (Rm 14,17). Como disse Nosso Senhor: “Felizes os que promovem a paz, pois serão chamados de filhos de Deus” (Mt 5,9).

Padre Marcelo de Assis Paiva

Coronel e capelão da PMERJ, e vigário episcopal para as PMS do Brasil pela Arquidiocese Militar

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08/03/2019 11:48 - Atualizado em 08/03/2019 11:49

Meditando o segundo Mistério Doloroso, ao recitar o Santo Rosário, pensei no conflito moral de Pôncio Pilatos. Refleti sobre a tensão que muitas vezes ocorre entre o cumprimento estrito da lei e a consciência moral/religiosa do indivíduo. Há 25 anos servindo como padre capelão da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), esse é um tema que vejo sempre retornar nas conversas entre o capelão e os fiéis militares.

No texto evangélico transparece o desconforto psicológico que Pôncio Pilatos sente diante da aplicação da pena. Ele parece duvidar entre obedecer a lei, agindo, portanto, como se esperaria de um governante do Império Romano e o vislumbre que tem da injustiça da acusação feita a Nosso Senhor. Quantas vezes, em meu ministério de capelão da PMERJ, não escutei o relato desse mesmo dilema moral dos agentes de Segurança Pública. As consciências dos nossos policiais militares são turvadas por variadas causas: notícias diuturnas de um verdadeiro ‘abate’ de seus irmãos de farda (em 2018 foram 96 policiais militares assassinados e em 2017, 163); uma aparente impunidade para com os mais ricos e poderosos; uma mídia e, consequentemente a opinião pública, beligerantes e rápidas para condenar as ações policiais; a burocracia excessiva... Isso tudo, como lembrou o Papa, traz consequências e exigências específicas para o capelão militar:

“Por conseguinte, é necessário questionar-se sobre as modalidades adequadas para curar as feridas espirituais dos militares que, tendo vivido a experiência da guerra, assistiram a crimes atrozes. Estas pessoas e as suas famílias exigem uma atenção pastoral específica, uma solicitude que lhes faça sentir a proximidade materna da Igreja. O papel do capelão militar consiste em acompanhá-los e apoiá-los no seu caminho, sendo para todos presença consoladora e fraterna. Sobre as feridas destas pessoas vós podeis derramar o bálsamo da Palavra de Deus que alivia as dores e infunde esperança; e podeis oferecer-lhes a graça da Eucaristia e da Reconciliação, que nutre e regenera a alma aflita.” (Discurso do Papa Francisco  aos capelães militares - Sala Clementina -Segunda-feira, 26 de outubro de 2015). Alguém duvida que a realidade dos policiais no Rio de Janeiro seja como se estivessem em uma guerra ininterrupta?

Ultimamente, muito se tem falado sobre o ”excludente de ilicitude”, termo jurídico que ampliaria o conceito da ação de legítima defesa no exercício da função policial. É um desses assuntos controversos, pouco claros para a grande parte dos fiéis cristãos. Muitos questionam: “Deus não ordenou: ‘Não matarás!’ Ex 20,13), e ‘Ofereça a outra face!’” (MT 5,39)? Disso devemos concluir que todos nós deveríamos deixar que subtraiam nossos pertences e nossas vidas sem esboçar qualquer reação aos meliantes? Muitos policiais militares compartilham desse questionamento moral. E sentem um desconforto diante dessas questões. Vejamos, então, o que a Igreja Católica diz sobre isso? Peçamos ajuda à tradição dos que nos precederam:

A Igreja sempre ensinou que mais do que um direito, defender a vida do inocente é um dever. O cristão deve dar a própria vida por um bem maior, assim como Jesus e os mártires da Igreja fizeram:

“A legítima defesa pode ser não somente um direito, mas um grave dever para o responsável pela vida de outrem. A defesa do bem comum exige que um injusto agressor seja impedido de causar danos. Por esta razão, aqueles que legitimamente detêm autoridade também têm o direito de usar de armas para repelir os agressores da comunidade civil confiada à sua responsabilidade” (Catecismo da Igreja Católica, 2265).

Também à família este número do Catecismo deve ser aplicado. A esposa e/ou os filhos expostos a uma situação iminente de grave perigo, o marido/pai tem o direito e o dever de realizar o que estiver ao seu alcance para cessar a ação do agressor, ainda que isto seja matá-lo.

Aprende-se na moral que a virtude/bondade está no equilíbrio e jamais nos extremos/exageros. Ocorre, todavia, que a rotina de um policial militar no confronto contra as milícias/tráfico o situa quase diariamente em uma situação de extremos. É difícil, no meio de um confronto urbano, agir com todo esse controle desejado.  Por isso essa deve ser sempre a preocupação pastoral central de um capelão da PMERJ: Como o serviço de assistência religiosa aos militares, previsto na Constituição brasileira, pode auxiliar o efetivo /estrito cumprimento do dever, salvaguardando a boa consciência de seus assistidos?

Listo alguns argumentos religiosos que costumo repetir aos que me procuram, tentando assim apaziguar suas consciências:

Deus é chamado várias vezes na Bíblia como o “Senhor dos Exércitos” (Is 1,24).

A paz, perfeita e perene, experimentaremos no céu. Aqui somos chamados a ser instrumentos/promotores da paz. Marcados pela queda/pecado dos nossos primeiros pais, vivemos em uma sociedade beligerante, conflituosa e até mesmo homicida. Fazer o que é certo às vezes exige o uso da força contra o injusto agressor. Não aceitar isso é uma atitude infantil de negação da realidade como ela é;

“Se vis pacem para bellum” (‘Se queres a paz, prepara-te para a guerra!’) - antigo provérbio latino.  No livro “A Arte da Guerra”, escrito pelo chinês Sun Tzu há mais de 2.000 anos, são expostas as relações complexas entre os exércitos que travam uma batalha, mas que vão manifestando os princípios do sucesso na luta em prol da vida do homem. Seria maravilhoso que nunca houvesse a necessidade de ocorrer guerras entre as nações, porém a realidade não é dessa forma. Para Sun Tzu, o objetivo principal da guerra é a paz. A guerra entre povos pode ser considerada justa, ética e nobre. Se não pela sua prática, ao menos pelos fins almejados e conseguidos. Isso vale também para os conflitos urbanos entre os policiais e os marginais.

“Combati o bom combate!” (2Tm 4,7). Ao contrário da vergonhosa omissão que se revela na expressão de Pôncio Pilatos: “Lavo minhas mãos” (Mt 27, 24), um policial militar que retorna para a sua família sabendo que cooperou para manter a ordem e garantir a paz na sociedade, pode agradecer de coração sincero ao Senhor durante seu exame de consciência diário, por ter feito a sua parte na construção do Reino de Deus, Reino de paz e de Justiça (Rm 14,17). Como disse Nosso Senhor: “Felizes os que promovem a paz, pois serão chamados de filhos de Deus” (Mt 5,9).

Padre Marcelo de Assis Paiva

Coronel e capelão da PMERJ, e vigário episcopal para as PMS do Brasil pela Arquidiocese Militar