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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/07/2019

19 de Julho de 2019

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06/03/2019 13:00 - Atualizado em 06/03/2019 13:00

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Com a Quarta-Feira de Cinzas, começa oficialmente o tempo da Quaresma e o Ciclo Pascal. É Quaresma mais uma vez, porém nova como nunca, pois não se repete a liturgia que nos atinge em novas circunstâncias. Ela é um tempo forte na caminhada do ano eclesiástico. Convite e apelo para o silêncio, para a prece e para a conversão. A espiritualidade quaresma é de uma riqueza imensa! As cinzas (os ramos bentos do ano passado agora transformados em pó) no recordam a entrada nesse tempo favorável para a conversão e reviver a nossa vida batismal (cujas promessas renovaremos na vigília pascal).

Ao iniciar a quaresma, aqui no Brasil, também fazemos a abertura da Campanha da Fraternidade, neste ano com o tema das Políticas Públicas iluminado pelo profeta Isaias (1,27) lembrando que “serás libertado pelo direito e pela justiça”. O Papa Francisco em sua mensagem para esta ocasião lembra que “os cristãos... devem buscar uma participação mais ativa na sociedade como forma concreta de amor ao próximo, que permita a construção de uma cultura fraterna baseada no direito e na justiça”

Nesta quarta-feira de cinzas, depois deste carnaval tão cheio de blasfêmias contra os valores cristãos e mesmo vilipêndios da figura de Cristo, após a Liturgia da Palavra, em que se proclama o trecho do Evangelho em que Cristo recomenda a oração, o jejum e a esmola como exercícios de conversão (cf. Mt 6,1-18), realiza-se o rito da imposição das cinzas. Elas são sinal de que aceitamos entrar neste tempo de penitência, no sentido de conversão. Também nós temos desfigurado em nossas vidas a imagem de Deus, e somos chamados e refazer o rosto de Cristo, o Filho de Deus, em nossas vidas. Essa conversão consiste, sobretudo, no reconhecimento de nossa condição de criaturas limitadas, mortais e pecadoras conscientes, porém, da misericórdia do Senhor nosso Deus, que “não se cansa de perdoar”.

No gesto de imposição das cinzas sobre a cabeça das pessoas, o sacerdote ou o ministro diz: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. A conversão consiste em crer no Evangelho. Crer é aderir a ele, viver segundo os ensinamentos do Senhor Jesus. Pode-se usar também outra fórmula: “Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar”. Numa das opções de orações de bênção das cinzas se diz: “Reconhecendo que somos pó e que ao pó voltaremos, consigamos, pela observância da Quaresma, obter o perdão dos pecados e viver uma vida nova, à semelhança do Cristo Ressuscitado”.

A Cinzas tem um significado bíblico. A Bíblia (Jt 4, 11-14) nos conta que o general Holofernes, com um grande exército, marchou contra a cidade de Betúlia (Jt 4,6). O povo da cidade reuniu-se para rezar a Deus. E todos cobriram de cinzas as suas cabeças, pedindo o perdão e a misericórdia de Deus. Assim como nesse episódio temos dezenas de outras situações em que aparece nas Escrituras as “cinzas” como sinal de penitência e conversão como, inclusive sugere Jesus (Mt 11,21).

A cinza, por sua leveza, é figura das coisas que se acabam e desaparecem. É usada como um sinal de penitência e de luto. Nós a usamos hoje, nesta Quarta-feira de cinzas, o primeiro dia da quaresma, reconhecendo que somos pecadores e pedindo perdão de Deus, desejosos de mudarmos de vida. Com o mesmo espírito contrito e com os corações arrependidos de nossos pecados assim nos colocamos neste dia de iniciarmos a grande renovação de nossas vidas cristãs a caminho da Páscoa da Ressurreição.

As cinzas são preparadas pela queima dos ramos bentos usados no domingo de procissão de Ramos do ano passado. Naquele dia aclamamos Cristo como Senhor, e levamos os ramos abençoados como um sinal para colocarmos em nossas casas identificando-nos como cristãos, seguidores de Cristo. Esses ramos fazem memória, portanto, da aclamação ao Cristo vitorioso sobre a morte. A palma nas mãos das imagens dos mártires é símbolo de vitória e de triunfo. Assim, se os cristãos aceitam reconhecer sua condição de criaturas mortais, e transformar-se em pó, ou seja, passar pela experiência da morte, a exemplo de Cristo, pela renúncia de si mesmos, participarão também da vida que ressurge das cinzas.

A imposição das cinzas não pode ser um mero rito a ser repetido a cada ano. É a celebração do nosso compromisso de acolher a misericórdia de Deus experimentando a transformação de nossas vidas dando passos no caminho de conversão que iremos visibilizar com nossa vida coerentes e com a celebração do sacramento da confissão. É, portanto, a constatação da vocação do ser humano, chamado à imortalidade feliz, contanto que realize o mistério pascal de morte e vida em sua vida fraterna.

O tempo da Quaresma é o momento oportuno para contemplarmos mais profundamente o Mistério da Cruz: olhar para a Cruz, contemplar esse Mistério é ir ao porquê de tudo aquilo que nós faremos durante a Quaresma. As orações, os jejuns e esmolas têm sentido porque nos põem em contato com a Cruz do Senhor. Além do mais, nós recebemos do Mistério da Cruz a força para unir-nos à mesma Cruz, ou seja, aquilo que Deus nos pede, ele nos concede: Deus pede que rezemos? Ele nos dá a graça da oração. Deus nos pede que façamos penitência? Ele nos dá a graça para realizá-la? Deus pede que partilhemos e que não sejamos egoístas? Ele nos dá a graça da generosidade e da esmola. O Papa Francisco em sua mensagem para a quaresma desse ano nos recorda esse aspecto: “Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade. ” O que está por detrás de tudo isso é a primazia da graça de Deus em nossa vida. Quando dirigimos o nosso olhar contemplativo ao mistério da Cruz do Senhor surge em nós o desejo de fazer aquilo que São Paulo fazia: “o que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24).

Queremos estar sempre com o Senhor, a nossa vida só encontra sentido nele. Que nada nos separe de Deus! E, se por acaso, estamos longe, aproximemo-nos da Misericórdia. Com a celebração desta quarta-feira de cinzas, inicia-se o Tempo da Quaresma, um espaço que a Igreja nos concede para que nos convertamos através da oração, jejum e esmola, no clima de penitência mais intensa. Um tempo precioso para aproveitarmos a graça da reconciliação que o Senhor derrama sobre toda a Igreja e, para isso, vamos começar de uma maneira bem concreta: com o jejum e a abstinência.

Que Deus nos ilumine neste tempo de quaresma que se inicia, que possamos fazer e cumprir com os nossos propósitos para assim termos um coração cada dia mais preparado para o Senhor e para ser fermento neste mundo que tanto necessita do amor e da misericórdia de Deus.

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06/03/2019 13:00 - Atualizado em 06/03/2019 13:00

Com a Quarta-Feira de Cinzas, começa oficialmente o tempo da Quaresma e o Ciclo Pascal. É Quaresma mais uma vez, porém nova como nunca, pois não se repete a liturgia que nos atinge em novas circunstâncias. Ela é um tempo forte na caminhada do ano eclesiástico. Convite e apelo para o silêncio, para a prece e para a conversão. A espiritualidade quaresma é de uma riqueza imensa! As cinzas (os ramos bentos do ano passado agora transformados em pó) no recordam a entrada nesse tempo favorável para a conversão e reviver a nossa vida batismal (cujas promessas renovaremos na vigília pascal).

Ao iniciar a quaresma, aqui no Brasil, também fazemos a abertura da Campanha da Fraternidade, neste ano com o tema das Políticas Públicas iluminado pelo profeta Isaias (1,27) lembrando que “serás libertado pelo direito e pela justiça”. O Papa Francisco em sua mensagem para esta ocasião lembra que “os cristãos... devem buscar uma participação mais ativa na sociedade como forma concreta de amor ao próximo, que permita a construção de uma cultura fraterna baseada no direito e na justiça”

Nesta quarta-feira de cinzas, depois deste carnaval tão cheio de blasfêmias contra os valores cristãos e mesmo vilipêndios da figura de Cristo, após a Liturgia da Palavra, em que se proclama o trecho do Evangelho em que Cristo recomenda a oração, o jejum e a esmola como exercícios de conversão (cf. Mt 6,1-18), realiza-se o rito da imposição das cinzas. Elas são sinal de que aceitamos entrar neste tempo de penitência, no sentido de conversão. Também nós temos desfigurado em nossas vidas a imagem de Deus, e somos chamados e refazer o rosto de Cristo, o Filho de Deus, em nossas vidas. Essa conversão consiste, sobretudo, no reconhecimento de nossa condição de criaturas limitadas, mortais e pecadoras conscientes, porém, da misericórdia do Senhor nosso Deus, que “não se cansa de perdoar”.

No gesto de imposição das cinzas sobre a cabeça das pessoas, o sacerdote ou o ministro diz: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. A conversão consiste em crer no Evangelho. Crer é aderir a ele, viver segundo os ensinamentos do Senhor Jesus. Pode-se usar também outra fórmula: “Lembra-te que és pó e ao pó hás de voltar”. Numa das opções de orações de bênção das cinzas se diz: “Reconhecendo que somos pó e que ao pó voltaremos, consigamos, pela observância da Quaresma, obter o perdão dos pecados e viver uma vida nova, à semelhança do Cristo Ressuscitado”.

A Cinzas tem um significado bíblico. A Bíblia (Jt 4, 11-14) nos conta que o general Holofernes, com um grande exército, marchou contra a cidade de Betúlia (Jt 4,6). O povo da cidade reuniu-se para rezar a Deus. E todos cobriram de cinzas as suas cabeças, pedindo o perdão e a misericórdia de Deus. Assim como nesse episódio temos dezenas de outras situações em que aparece nas Escrituras as “cinzas” como sinal de penitência e conversão como, inclusive sugere Jesus (Mt 11,21).

A cinza, por sua leveza, é figura das coisas que se acabam e desaparecem. É usada como um sinal de penitência e de luto. Nós a usamos hoje, nesta Quarta-feira de cinzas, o primeiro dia da quaresma, reconhecendo que somos pecadores e pedindo perdão de Deus, desejosos de mudarmos de vida. Com o mesmo espírito contrito e com os corações arrependidos de nossos pecados assim nos colocamos neste dia de iniciarmos a grande renovação de nossas vidas cristãs a caminho da Páscoa da Ressurreição.

As cinzas são preparadas pela queima dos ramos bentos usados no domingo de procissão de Ramos do ano passado. Naquele dia aclamamos Cristo como Senhor, e levamos os ramos abençoados como um sinal para colocarmos em nossas casas identificando-nos como cristãos, seguidores de Cristo. Esses ramos fazem memória, portanto, da aclamação ao Cristo vitorioso sobre a morte. A palma nas mãos das imagens dos mártires é símbolo de vitória e de triunfo. Assim, se os cristãos aceitam reconhecer sua condição de criaturas mortais, e transformar-se em pó, ou seja, passar pela experiência da morte, a exemplo de Cristo, pela renúncia de si mesmos, participarão também da vida que ressurge das cinzas.

A imposição das cinzas não pode ser um mero rito a ser repetido a cada ano. É a celebração do nosso compromisso de acolher a misericórdia de Deus experimentando a transformação de nossas vidas dando passos no caminho de conversão que iremos visibilizar com nossa vida coerentes e com a celebração do sacramento da confissão. É, portanto, a constatação da vocação do ser humano, chamado à imortalidade feliz, contanto que realize o mistério pascal de morte e vida em sua vida fraterna.

O tempo da Quaresma é o momento oportuno para contemplarmos mais profundamente o Mistério da Cruz: olhar para a Cruz, contemplar esse Mistério é ir ao porquê de tudo aquilo que nós faremos durante a Quaresma. As orações, os jejuns e esmolas têm sentido porque nos põem em contato com a Cruz do Senhor. Além do mais, nós recebemos do Mistério da Cruz a força para unir-nos à mesma Cruz, ou seja, aquilo que Deus nos pede, ele nos concede: Deus pede que rezemos? Ele nos dá a graça da oração. Deus nos pede que façamos penitência? Ele nos dá a graça para realizá-la? Deus pede que partilhemos e que não sejamos egoístas? Ele nos dá a graça da generosidade e da esmola. O Papa Francisco em sua mensagem para a quaresma desse ano nos recorda esse aspecto: “Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade. ” O que está por detrás de tudo isso é a primazia da graça de Deus em nossa vida. Quando dirigimos o nosso olhar contemplativo ao mistério da Cruz do Senhor surge em nós o desejo de fazer aquilo que São Paulo fazia: “o que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja” (Cl 1,24).

Queremos estar sempre com o Senhor, a nossa vida só encontra sentido nele. Que nada nos separe de Deus! E, se por acaso, estamos longe, aproximemo-nos da Misericórdia. Com a celebração desta quarta-feira de cinzas, inicia-se o Tempo da Quaresma, um espaço que a Igreja nos concede para que nos convertamos através da oração, jejum e esmola, no clima de penitência mais intensa. Um tempo precioso para aproveitarmos a graça da reconciliação que o Senhor derrama sobre toda a Igreja e, para isso, vamos começar de uma maneira bem concreta: com o jejum e a abstinência.

Que Deus nos ilumine neste tempo de quaresma que se inicia, que possamos fazer e cumprir com os nossos propósitos para assim termos um coração cada dia mais preparado para o Senhor e para ser fermento neste mundo que tanto necessita do amor e da misericórdia de Deus.

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro