Arquidiocese do Rio de Janeiro

22º 18º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/09/2019

22 de Setembro de 2019

Os frutos do encontro inter-religioso de Assis

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Os frutos do encontro inter-religioso de Assis

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22/02/2019 10:56 - Atualizado em 22/02/2019 10:56

Os frutos do encontro inter-religioso de Assis 0

22/02/2019 10:56 - Atualizado em 22/02/2019 10:56

No dia 27 de outubro de 1986, representantes das mais significativas tradições religiosas do mundo reuniram-se na cidade de Assis, na Itália, numa Jornada Mundial de Oração pela Paz. Esta jornada foi uma iniciativa do Papa São João Paulo II no contexto de 1986 ter sido declarado como Ano Internacional da Paz pelas Nações Unidas. A reunião dos líderes religiosos para rezarem pela paz foi um acontecimento inédito. Com o passar dos anos, esta jornada foi assumindo um lugar de destaque no percurso do diálogo entre a Igreja Católica e as outras religiões. A sua importância advém-lhe, sobretudo, do seu valor simbólico, associado ao lugar onde se realizou, e também às iniciativas a que serviu de inspiração.

O Encontro de Assis teve três momentos distintos. Num primeiro momento, os representantes das religiões presentes foram acolhidos pelo Papa na Basílica de Santa Maria dos Anjos. No discurso de boas-vindas então proferido, João Paulo II deu o mote para a jornada. Após recordar que não tinham vindo a Assis para discutir, conferenciar ou procurar planos de ação à escala mundial em favor de uma causa comum, o Papa afirmou que estavam ali para rezar e que a reunião de tantos líderes religiosos para rezar era, em si, um convite ao mundo para se tornar mais consciente de que existe uma outra dimensão da paz e um outro caminho para a sua promoção que não resulta das negociações nem dos compromissos políticos ou econômicos. Nas suas palavras, a paz é fruto da oração, que, na diversidade das religiões, exprime a relação com um poder supremo que ultrapassa as nossas capacidades humanas.

Num segundo momento, os vários grupos religiosos dirigiram-se separadamente para diversos locais da cidade de Assis onde puderam rezar na fidelidade às suas próprias crenças.

Num terceiro momento reuniram-se todos numa praça central da cidade, onde formaram um único cortejo, e seguiram em peregrinação rumo à praça inferior situada em frente da Basílica de São Francisco, onde decorreu a oração pela paz. Cada grupo teve oportunidade de rezar e ser escutado pelos outros.

O Concílio Vaticano II foi, de fato, o inspirador do “Espírito de Assis”. A declaração conciliar “Nostra aetate”, sobre a Igreja e as religiões não cristãs, reconhece o valor positivo das outras religiões. Propõe-se, pela primeira vez, um diálogo fraternal com elas. O texto começa por afirmar a unidade do gênero humano. Criados por Deus, todos os homens procuram encontrar respostas para o mistério da sua presença sobre a Terra. Essas respostas para os enigmas da condição humana encontram-nas nas diversas religiões. E, seguidamente, diz que:

“A Igreja Católica não rejeita absolutamente nada daquilo que há de verdadeiro e santo nestas religiões. Considera, com sincero respeito, esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora, em muitos pontos estejam em discordância com aquilo que ela afirma e ensina, muitas vezes refletem um raio daquela Verdade que ilumina todos os homens” (NA 2).

Assis em 2006

Por ocasião do 20° Encontro Inter-religioso de Oração pela Paz, que aconteceu em Assis, de 4 a 5 de setembro de 2006, o então Papa Bento XVI enviou uma mensagem aos participantes.

Na sua mensagem, Bento XVI lembrou que o convite feito por João Paulo II aos representantes das religiões mundiais, em 1986, foi “para que testemunhassem, unanimemente, a paz. Serve para deixar claro, sem que houvesse lugar a dúvidas, que a religião não pode ser senão anunciadora de paz”. Neste sentido, destacou que “a ninguém é lícito assumir o motivo da diferença religiosa como pressuposto ou pretexto de uma atitude belicosa para outros seres humanos”.

Bento XVI recordou ainda que João Paulo II, em 1986, se fez insistência no valor da oração na construção da paz, mas advertiu que, “entretanto, a paz se constrói acima de tudo no coração”, que é “o lugar das intervenções de Deus”.

Bento XVI: 25 anos depois

No dia 27 de outubro de 2011, por ocasião do 25º aniversário do Dia Mundial de Oração pela Paz, o então Papa Bento XVI foi a Assis, na Itália. Na presença de lideres religiosos do mundo inteiro e também de ateus – chamado de terceiro grupo –, fez um sermão na Basílica de Santa Maria dos Anjos, participou de um almoço, e concluiu o evento com uma cerimônia na Praça São Francisco de Assis.

No seu discurso, Bento XVI disse: “Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos, juntos, a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito”. Ao concluir, afirmou: “Assegura-vos de que a Igreja Católica não desistirá da luta contra a violência, do seu compromisso pela paz no mundo. Vivemos animados pelo desejo comum de ser «peregrinos da verdade, peregrinos da paz”.

Papa Francisco: 30 anos

Quando a Jornada de Oração pela paz completou 30 anos, em 2016, o Papa Francisco esteve em Assis, e repetiu os gestos de seus dois antecessores, junto com líderes de outras confissões religiosas para pedir a paz no mundo.

“Não nos cansamos de repetir que o nome de Deus nunca pode justificar a violência. Só a paz é santa; não a guerra!”, disse o Santo Padre, e acrescentou: “a oração e a vontade de colaborar comprometem a uma paz verdadeira, não ilusória. Viemos a Assis como peregrinos à procura de paz. Trazemos conosco e colocamos diante de Deus os anseios e as angústias de muitos povos e pessoas. Temos sede de paz, temos o desejo de testemunhar a paz, temos, sobretudo, necessidade de rezar pela paz, porque a paz é dom de Deus e cabe a nós invocá-la, acolhê-la e construí-la cada dia com a sua ajuda”, afirmou o Papa Francisco.

Rio de Janeiro

No seguimento do Encontro de Assis realizaram-se inúmeros contatos, encontros e iniciativas entre as religiões, a nível local, nacional e internacional, seja de forma bilateral, seja multilateral. A exemplo, tivemos na nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro o  ato inter-religioso “Unidos na esperança”, realizado na Igreja da Candelária, no centro do Rio, com a presença de 25 representantes de diversas denominações religiosas. O que o nosso Cardeal Tempesta fez, na vivência de seu lema episcopal: “Que todos sejam um”, tem seu fundamento e sua voz nos três últimos pontífices, inclusive um já santo, o idealizador, São João Paulo II.

Monsenhor André Sampaio de Oliveira

Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Misericórdia, em Botafogo

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22/02/2019 10:56 - Atualizado em 22/02/2019 10:56

No dia 27 de outubro de 1986, representantes das mais significativas tradições religiosas do mundo reuniram-se na cidade de Assis, na Itália, numa Jornada Mundial de Oração pela Paz. Esta jornada foi uma iniciativa do Papa São João Paulo II no contexto de 1986 ter sido declarado como Ano Internacional da Paz pelas Nações Unidas. A reunião dos líderes religiosos para rezarem pela paz foi um acontecimento inédito. Com o passar dos anos, esta jornada foi assumindo um lugar de destaque no percurso do diálogo entre a Igreja Católica e as outras religiões. A sua importância advém-lhe, sobretudo, do seu valor simbólico, associado ao lugar onde se realizou, e também às iniciativas a que serviu de inspiração.

O Encontro de Assis teve três momentos distintos. Num primeiro momento, os representantes das religiões presentes foram acolhidos pelo Papa na Basílica de Santa Maria dos Anjos. No discurso de boas-vindas então proferido, João Paulo II deu o mote para a jornada. Após recordar que não tinham vindo a Assis para discutir, conferenciar ou procurar planos de ação à escala mundial em favor de uma causa comum, o Papa afirmou que estavam ali para rezar e que a reunião de tantos líderes religiosos para rezar era, em si, um convite ao mundo para se tornar mais consciente de que existe uma outra dimensão da paz e um outro caminho para a sua promoção que não resulta das negociações nem dos compromissos políticos ou econômicos. Nas suas palavras, a paz é fruto da oração, que, na diversidade das religiões, exprime a relação com um poder supremo que ultrapassa as nossas capacidades humanas.

Num segundo momento, os vários grupos religiosos dirigiram-se separadamente para diversos locais da cidade de Assis onde puderam rezar na fidelidade às suas próprias crenças.

Num terceiro momento reuniram-se todos numa praça central da cidade, onde formaram um único cortejo, e seguiram em peregrinação rumo à praça inferior situada em frente da Basílica de São Francisco, onde decorreu a oração pela paz. Cada grupo teve oportunidade de rezar e ser escutado pelos outros.

O Concílio Vaticano II foi, de fato, o inspirador do “Espírito de Assis”. A declaração conciliar “Nostra aetate”, sobre a Igreja e as religiões não cristãs, reconhece o valor positivo das outras religiões. Propõe-se, pela primeira vez, um diálogo fraternal com elas. O texto começa por afirmar a unidade do gênero humano. Criados por Deus, todos os homens procuram encontrar respostas para o mistério da sua presença sobre a Terra. Essas respostas para os enigmas da condição humana encontram-nas nas diversas religiões. E, seguidamente, diz que:

“A Igreja Católica não rejeita absolutamente nada daquilo que há de verdadeiro e santo nestas religiões. Considera, com sincero respeito, esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora, em muitos pontos estejam em discordância com aquilo que ela afirma e ensina, muitas vezes refletem um raio daquela Verdade que ilumina todos os homens” (NA 2).

Assis em 2006

Por ocasião do 20° Encontro Inter-religioso de Oração pela Paz, que aconteceu em Assis, de 4 a 5 de setembro de 2006, o então Papa Bento XVI enviou uma mensagem aos participantes.

Na sua mensagem, Bento XVI lembrou que o convite feito por João Paulo II aos representantes das religiões mundiais, em 1986, foi “para que testemunhassem, unanimemente, a paz. Serve para deixar claro, sem que houvesse lugar a dúvidas, que a religião não pode ser senão anunciadora de paz”. Neste sentido, destacou que “a ninguém é lícito assumir o motivo da diferença religiosa como pressuposto ou pretexto de uma atitude belicosa para outros seres humanos”.

Bento XVI recordou ainda que João Paulo II, em 1986, se fez insistência no valor da oração na construção da paz, mas advertiu que, “entretanto, a paz se constrói acima de tudo no coração”, que é “o lugar das intervenções de Deus”.

Bento XVI: 25 anos depois

No dia 27 de outubro de 2011, por ocasião do 25º aniversário do Dia Mundial de Oração pela Paz, o então Papa Bento XVI foi a Assis, na Itália. Na presença de lideres religiosos do mundo inteiro e também de ateus – chamado de terceiro grupo –, fez um sermão na Basílica de Santa Maria dos Anjos, participou de um almoço, e concluiu o evento com uma cerimônia na Praça São Francisco de Assis.

No seu discurso, Bento XVI disse: “Trata-se de nos sentirmos juntos neste caminhar para a verdade, de nos comprometermos decisivamente pela dignidade do homem e de assumirmos, juntos, a causa da paz contra toda a espécie de violência que destrói o direito”. Ao concluir, afirmou: “Assegura-vos de que a Igreja Católica não desistirá da luta contra a violência, do seu compromisso pela paz no mundo. Vivemos animados pelo desejo comum de ser «peregrinos da verdade, peregrinos da paz”.

Papa Francisco: 30 anos

Quando a Jornada de Oração pela paz completou 30 anos, em 2016, o Papa Francisco esteve em Assis, e repetiu os gestos de seus dois antecessores, junto com líderes de outras confissões religiosas para pedir a paz no mundo.

“Não nos cansamos de repetir que o nome de Deus nunca pode justificar a violência. Só a paz é santa; não a guerra!”, disse o Santo Padre, e acrescentou: “a oração e a vontade de colaborar comprometem a uma paz verdadeira, não ilusória. Viemos a Assis como peregrinos à procura de paz. Trazemos conosco e colocamos diante de Deus os anseios e as angústias de muitos povos e pessoas. Temos sede de paz, temos o desejo de testemunhar a paz, temos, sobretudo, necessidade de rezar pela paz, porque a paz é dom de Deus e cabe a nós invocá-la, acolhê-la e construí-la cada dia com a sua ajuda”, afirmou o Papa Francisco.

Rio de Janeiro

No seguimento do Encontro de Assis realizaram-se inúmeros contatos, encontros e iniciativas entre as religiões, a nível local, nacional e internacional, seja de forma bilateral, seja multilateral. A exemplo, tivemos na nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro o  ato inter-religioso “Unidos na esperança”, realizado na Igreja da Candelária, no centro do Rio, com a presença de 25 representantes de diversas denominações religiosas. O que o nosso Cardeal Tempesta fez, na vivência de seu lema episcopal: “Que todos sejam um”, tem seu fundamento e sua voz nos três últimos pontífices, inclusive um já santo, o idealizador, São João Paulo II.

Monsenhor André Sampaio de Oliveira

Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Misericórdia, em Botafogo