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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 21/10/2019

21 de Outubro de 2019

Livros do Antigo Testamento (92)

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21 de Outubro de 2019

Livros do Antigo Testamento (92)

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08/02/2019 11:53 - Atualizado em 08/02/2019 11:53

Livros do Antigo Testamento (92) 0

08/02/2019 11:53 - Atualizado em 08/02/2019 11:53

Neste artigo concluímos nosso panorâmico trajeto sobre os diversos e interessantíssimos temas e questões teológico-literárias do Livro de Jó. A leitura cristã do livro o tornará um texto obrigatório na espiritualidade da Paixão de Cristo.

ESTRUTURA LITERÁRIA

Do ponto de vista literário, o livro de Jó apresenta-se dividido em duas secções principais, que se notam bem pela forma, pelo estilo e pelas ideias.

A seção inicial e a final, ambas escritas em prosa, apresentam-nos a personagem central do livro, a figura de Jó. É o que, no esquema proposto mais adiante, se chama prólogo e epílogo biográficos.

No prólogo, Jó aparece bem situado numa vida honesta e simultaneamente feliz, mas, depois, passa por experiências de desgraça que levantam a questão de saber se ele era, de fato, ou se continuou ou não a ser honesto; no epílogo, a sua situação aparece, por fim, inteiramente restaurada.

Esta evolução na ação dá importância à segunda seção do livro, que constitui a sua maior parte. Toda ela é uma discussão acesa sobre os problemas suscitados pelo aparecimento do sofrimento e de grandes desgraças na vida de um homem que não tinha culpa nem pecado.

Esta parte em poesia é o essencial do livro, embora assente na situação de vida descrita pelo texto em prosa. O modelo literário é inspirado, possivelmente, nas discussões que se faziam nos ambientes culturais da época.

Cada amigo apresenta um tipo de argumentação, e a discussão decorre, sem que Jó, apesar do seu estado de sofrimento, se mostre desfalecido. Até para esclarecer as relações com Deus é utilizado o mesmo esquema.

Numa intervenção final, Deus responde a todas as discussões anteriores.

O livro apresenta-se, assim, como um autêntico tribunal de consciência, para o qual o próprio Deus é citado e onde toma assento.

Muitos estudiosos pensam que estas duas seções podem não ser da mesma época nem ter sido escritas pelo mesmo autor.

A primeira é mais popular; a segunda é claramente mais complexa e profunda.

Além disso, a parte designada como “Discurso de Eliú” (32-37) apresenta claros indícios de ter sido acrescentada posteriormente, quanto mais não seja porque ele não aparece na lista dos amigos que, segundo a narrativa inicial, foram ter com Jó para o consolar.

Estes aspectos da formação e da estrutura do livro são indícios de que a sua redação pode ter tido uma história.

DIVISÃO E CONTEÚDO

Propomos o seguinte esquema:

I. Prólogo biográfico: 1,1-2,13;

II. Primeiro debate: 3,1-14,22;

III. Segundo debate: 15,1-21,34;

IV. Terceiro debate: 22,1-27,23;

V. Elogio da sabedoria: 28,1-28;

VI. Monólogo de Job: 29,1-31,40;

VII. Discurso de Eliú: 32,1-37,24;

VIII. Intervenção de Deus: 38,1-42,6;

IX. Epílogo biográfico: 42,7-17.

Os números VI, VII e VIII podiam constituir uma roda dialogal final, mas dotada de um espírito razoavelmente diferente dos três primeiros debates.

Por isso, o elogio da sabedoria (28) poderia estar a servir de separador e transição:

De onde vem, pois, a sabedoria? Qual é o lugar da inteligência? Um véu a oculta de todos os viventes e até das aves do céu ela se esconde. Declaram o inferno e a morte: Apenas ouvimos falar dela. Deus conhece o caminho para encontrá-la e é Ele quem sabe o seu lugar, porque Ele vê até os confins da terra e vê tudo o que há debaixo do céu. Quando ele fixou um peso ao vento e regulou a medida das águas, quando decretou as leis para a chuva, e traçou uma rota aos relâmpagos, então a viu e a descreveu, penetrou-a e escrutou-a. Depois, disse ao homem: ‘O temor do Senhor, eis a sabedoria! Fugir do mal, eis a inteligência (Jo 28, 21-28).

TEOLOGIA

O livro de Jó é essencialmente uma obra de reflexão e meditação; é mesmo um espaço para levantar questões ainda hoje dramáticas. Chamar teologia ao seu pensamento pode até fazer crer que ali se apresenta uma catequese ortodoxa e tranquila. E não é o caso. No entanto, podemos servir-nos da palavra ‘teologia’, enquanto aqui é focado um conjunto de problemas, cuja solução acaba por ir desembocar, em última análise, na concepção que se tem sobre Deus.

Por um lado, em Jó rejeita-se um sistema de pensamento religioso: as posições moralistas e tradicionais da equivalência entre o sofrimento de uma pessoa e algum pecado por ela cometido. É o pensamento maioritariamente defendido pelos amigos de Jó, com alguns matizes de diferença entre cada um deles.

Por outro lado, o pensamento religioso do livro parece aproximar-se da nova consciência de Jó, de onde emergem verdades já bastante evidentes para ele, mas que o deixam ainda muito inseguro e mesmo escandalizado. Mas nem todas as suas ideias são confirmadas, após a contemplação da sabedoria (28), o discurso de Eliú (32-37) e a intervenção final de Deus.

Se as teses da religiosidade tradicional e popular sofrem uma forte contestação, também as novas sensações iniciais de Jó chegam ao fim bem combalidas. Jó empreendeu uma reflexão amadurecida e profunda.

Em suma, neste livro recusa-se que a causalidade de todo o sofrimento deva ser atribuída, seja ao homem, seja a Deus.

A ética e o ciclo da vida com os seus percursos naturais de sofrimento e morte são dois processos coexistentes, mas autônomos. Pretender misturá-los é simplista e inútil. A justiça e a ação de Deus não se podem medir com as regras de equivalência que são normais em justiça distributiva.

Eis um dos mais marcantes contributos do Livro de Jó para esta importante questão do humanismo e da experiência religiosa. A sua atitude básica perante o sofrimento não é de moral legalista, nem é pietista, e nem se baseia na mera expiação.

É uma atitude de corajoso acolhimento do real; é contemplativa e verificadora; é um caminho de sabedoria. É, por conseguinte, um espaço de transformação de si mesmo e dos fatos. É ainda acolhimento do Deus invisível nas experiências humanas de paraíso e de deserto (19,25-26; 1 Cor 13,12).

 

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Livros do Antigo Testamento (92)

08/02/2019 11:53 - Atualizado em 08/02/2019 11:53

Neste artigo concluímos nosso panorâmico trajeto sobre os diversos e interessantíssimos temas e questões teológico-literárias do Livro de Jó. A leitura cristã do livro o tornará um texto obrigatório na espiritualidade da Paixão de Cristo.

ESTRUTURA LITERÁRIA

Do ponto de vista literário, o livro de Jó apresenta-se dividido em duas secções principais, que se notam bem pela forma, pelo estilo e pelas ideias.

A seção inicial e a final, ambas escritas em prosa, apresentam-nos a personagem central do livro, a figura de Jó. É o que, no esquema proposto mais adiante, se chama prólogo e epílogo biográficos.

No prólogo, Jó aparece bem situado numa vida honesta e simultaneamente feliz, mas, depois, passa por experiências de desgraça que levantam a questão de saber se ele era, de fato, ou se continuou ou não a ser honesto; no epílogo, a sua situação aparece, por fim, inteiramente restaurada.

Esta evolução na ação dá importância à segunda seção do livro, que constitui a sua maior parte. Toda ela é uma discussão acesa sobre os problemas suscitados pelo aparecimento do sofrimento e de grandes desgraças na vida de um homem que não tinha culpa nem pecado.

Esta parte em poesia é o essencial do livro, embora assente na situação de vida descrita pelo texto em prosa. O modelo literário é inspirado, possivelmente, nas discussões que se faziam nos ambientes culturais da época.

Cada amigo apresenta um tipo de argumentação, e a discussão decorre, sem que Jó, apesar do seu estado de sofrimento, se mostre desfalecido. Até para esclarecer as relações com Deus é utilizado o mesmo esquema.

Numa intervenção final, Deus responde a todas as discussões anteriores.

O livro apresenta-se, assim, como um autêntico tribunal de consciência, para o qual o próprio Deus é citado e onde toma assento.

Muitos estudiosos pensam que estas duas seções podem não ser da mesma época nem ter sido escritas pelo mesmo autor.

A primeira é mais popular; a segunda é claramente mais complexa e profunda.

Além disso, a parte designada como “Discurso de Eliú” (32-37) apresenta claros indícios de ter sido acrescentada posteriormente, quanto mais não seja porque ele não aparece na lista dos amigos que, segundo a narrativa inicial, foram ter com Jó para o consolar.

Estes aspectos da formação e da estrutura do livro são indícios de que a sua redação pode ter tido uma história.

DIVISÃO E CONTEÚDO

Propomos o seguinte esquema:

I. Prólogo biográfico: 1,1-2,13;

II. Primeiro debate: 3,1-14,22;

III. Segundo debate: 15,1-21,34;

IV. Terceiro debate: 22,1-27,23;

V. Elogio da sabedoria: 28,1-28;

VI. Monólogo de Job: 29,1-31,40;

VII. Discurso de Eliú: 32,1-37,24;

VIII. Intervenção de Deus: 38,1-42,6;

IX. Epílogo biográfico: 42,7-17.

Os números VI, VII e VIII podiam constituir uma roda dialogal final, mas dotada de um espírito razoavelmente diferente dos três primeiros debates.

Por isso, o elogio da sabedoria (28) poderia estar a servir de separador e transição:

De onde vem, pois, a sabedoria? Qual é o lugar da inteligência? Um véu a oculta de todos os viventes e até das aves do céu ela se esconde. Declaram o inferno e a morte: Apenas ouvimos falar dela. Deus conhece o caminho para encontrá-la e é Ele quem sabe o seu lugar, porque Ele vê até os confins da terra e vê tudo o que há debaixo do céu. Quando ele fixou um peso ao vento e regulou a medida das águas, quando decretou as leis para a chuva, e traçou uma rota aos relâmpagos, então a viu e a descreveu, penetrou-a e escrutou-a. Depois, disse ao homem: ‘O temor do Senhor, eis a sabedoria! Fugir do mal, eis a inteligência (Jo 28, 21-28).

TEOLOGIA

O livro de Jó é essencialmente uma obra de reflexão e meditação; é mesmo um espaço para levantar questões ainda hoje dramáticas. Chamar teologia ao seu pensamento pode até fazer crer que ali se apresenta uma catequese ortodoxa e tranquila. E não é o caso. No entanto, podemos servir-nos da palavra ‘teologia’, enquanto aqui é focado um conjunto de problemas, cuja solução acaba por ir desembocar, em última análise, na concepção que se tem sobre Deus.

Por um lado, em Jó rejeita-se um sistema de pensamento religioso: as posições moralistas e tradicionais da equivalência entre o sofrimento de uma pessoa e algum pecado por ela cometido. É o pensamento maioritariamente defendido pelos amigos de Jó, com alguns matizes de diferença entre cada um deles.

Por outro lado, o pensamento religioso do livro parece aproximar-se da nova consciência de Jó, de onde emergem verdades já bastante evidentes para ele, mas que o deixam ainda muito inseguro e mesmo escandalizado. Mas nem todas as suas ideias são confirmadas, após a contemplação da sabedoria (28), o discurso de Eliú (32-37) e a intervenção final de Deus.

Se as teses da religiosidade tradicional e popular sofrem uma forte contestação, também as novas sensações iniciais de Jó chegam ao fim bem combalidas. Jó empreendeu uma reflexão amadurecida e profunda.

Em suma, neste livro recusa-se que a causalidade de todo o sofrimento deva ser atribuída, seja ao homem, seja a Deus.

A ética e o ciclo da vida com os seus percursos naturais de sofrimento e morte são dois processos coexistentes, mas autônomos. Pretender misturá-los é simplista e inútil. A justiça e a ação de Deus não se podem medir com as regras de equivalência que são normais em justiça distributiva.

Eis um dos mais marcantes contributos do Livro de Jó para esta importante questão do humanismo e da experiência religiosa. A sua atitude básica perante o sofrimento não é de moral legalista, nem é pietista, e nem se baseia na mera expiação.

É uma atitude de corajoso acolhimento do real; é contemplativa e verificadora; é um caminho de sabedoria. É, por conseguinte, um espaço de transformação de si mesmo e dos fatos. É ainda acolhimento do Deus invisível nas experiências humanas de paraíso e de deserto (19,25-26; 1 Cor 13,12).

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica