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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/10/2017

20 de Outubro de 2017

Sentido de viver

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01/11/2013 17:15 - Atualizado em 01/11/2013 17:17

Sentido de viver 0

01/11/2013 17:15 - Atualizado em 01/11/2013 17:17

A Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos favorece a meditação sobre o sentido da vida, aquém e além da morte. Alan Ball, no seriado “A sete palmos”, enfrentou a temática, de modo interessante e inovador, servindo-se da morte como artifício para expor sentidos e rumos dados à existência, através das histórias dos personagens. Tudo se passa no ambiente cultural do ideal de felicidade americano com leveza, até porque é obra de entretenimento, e morte não diverte.

Uma família vive da morte. É proprietária de uma funerária que funciona dentro da própria casa, o que não deixa de causar estranheza, mesmo para uma cultura marcada pelo pragmatismo. O casal e os filhos sobrevivem da empresa. Após a morte do proprietário, a funerária continuaria nas mãos da família, mas problemas de administração logo acarretariam crise financeira. Para evitar a falência, foi preciso fazer sociedade com um funcionário capaz e ambicioso. Nunca faltou freguesia, dado que morto é negócio vivo. Defunto dá lucro.

Na trama, tipos de pessoas escolhem um bonito funeral para seus mortos. Sinal de amor e ternura ou de prestígio e vaidade. Pagam bem pelo caixão e para que corpos sejam recauchutados e embelezados. São dois rituais. O ritual do maquiador que atenua a feiura cadavérica pela perfeição da plástica. O ritual do memorialista a enaltecer a biografia do morto, suas ações virtuosas e relevantes. Compõe a celebração da vida com hinos, salmos e testemunhos sobre o finado. É o memorial protestante às vezes influenciado pelo ambiente secularizado. Encontro ora autêntico ora convencional de despedida.

O seriado expõe modos de viver e de morrer. Projeta o morto vivo na simples recordação ou na fantasiosa materialização do espírito. Há realismo e surrealismo. Aborda a vida dos membros da família e de outros, com suas carências e frustrações, medos e inseguranças, contradições e desregramentos. Apresenta diferentes profissões. Desnuda as vivências: o usuário de drogas, o velho cortejador, a adolescente insegura, o casal gay inter-racial, os cônjuges em crise. Enfoca situações extremadas: a fatalidade da doença, o desastre de morte, o assalto fatídico, o mal súbito. A finitude não permite o final feliz. Apenas o ato de enfeitar defunto. A festa dos vivos segue como se não existisse até breve. Se tudo for metáfora do ideal americano de viver, é fina crítica social. Se não, é a dura ironia da vida: drama e comédia.

Mudando para o polo extremo, vamos a Jesus. Entre seus muitos ensinamentos, insiste que Deus é Pai. Deu-nos a vida como dom de amor. Nele existimos e somos. Daí, a indagação em tom sapiencial: “Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que a roupa?” (Mt 6,25). A vida é sempre e muito mais; é de valor inestimável. Merece respeito e empenho.

Continua o Mestre: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal” (v. 33). Desafia viver a dureza do momento presente com a confiança da fé e a esperança daí decorrente. Porém, no responsável amor pelo semelhante e sob o olhar do Juiz: “me deste de comer e me vestiste” (Mt 25,35-36). Assim sendo, o cuidado amoroso de si e solícito pela vida boa do outro é fonte de sentido do próprio viver bem. Atrai e irradia felicidade. Assim sendo, a existência vazia pode se tornar plena na fé operosa pela caridade (Gl 5,6) e no dom magnânimo de si. A vida é transfigurada.

 

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01/11/2013 17:15 - Atualizado em 01/11/2013 17:17

A Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos favorece a meditação sobre o sentido da vida, aquém e além da morte. Alan Ball, no seriado “A sete palmos”, enfrentou a temática, de modo interessante e inovador, servindo-se da morte como artifício para expor sentidos e rumos dados à existência, através das histórias dos personagens. Tudo se passa no ambiente cultural do ideal de felicidade americano com leveza, até porque é obra de entretenimento, e morte não diverte.

Uma família vive da morte. É proprietária de uma funerária que funciona dentro da própria casa, o que não deixa de causar estranheza, mesmo para uma cultura marcada pelo pragmatismo. O casal e os filhos sobrevivem da empresa. Após a morte do proprietário, a funerária continuaria nas mãos da família, mas problemas de administração logo acarretariam crise financeira. Para evitar a falência, foi preciso fazer sociedade com um funcionário capaz e ambicioso. Nunca faltou freguesia, dado que morto é negócio vivo. Defunto dá lucro.

Na trama, tipos de pessoas escolhem um bonito funeral para seus mortos. Sinal de amor e ternura ou de prestígio e vaidade. Pagam bem pelo caixão e para que corpos sejam recauchutados e embelezados. São dois rituais. O ritual do maquiador que atenua a feiura cadavérica pela perfeição da plástica. O ritual do memorialista a enaltecer a biografia do morto, suas ações virtuosas e relevantes. Compõe a celebração da vida com hinos, salmos e testemunhos sobre o finado. É o memorial protestante às vezes influenciado pelo ambiente secularizado. Encontro ora autêntico ora convencional de despedida.

O seriado expõe modos de viver e de morrer. Projeta o morto vivo na simples recordação ou na fantasiosa materialização do espírito. Há realismo e surrealismo. Aborda a vida dos membros da família e de outros, com suas carências e frustrações, medos e inseguranças, contradições e desregramentos. Apresenta diferentes profissões. Desnuda as vivências: o usuário de drogas, o velho cortejador, a adolescente insegura, o casal gay inter-racial, os cônjuges em crise. Enfoca situações extremadas: a fatalidade da doença, o desastre de morte, o assalto fatídico, o mal súbito. A finitude não permite o final feliz. Apenas o ato de enfeitar defunto. A festa dos vivos segue como se não existisse até breve. Se tudo for metáfora do ideal americano de viver, é fina crítica social. Se não, é a dura ironia da vida: drama e comédia.

Mudando para o polo extremo, vamos a Jesus. Entre seus muitos ensinamentos, insiste que Deus é Pai. Deu-nos a vida como dom de amor. Nele existimos e somos. Daí, a indagação em tom sapiencial: “Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que a roupa?” (Mt 6,25). A vida é sempre e muito mais; é de valor inestimável. Merece respeito e empenho.

Continua o Mestre: “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal” (v. 33). Desafia viver a dureza do momento presente com a confiança da fé e a esperança daí decorrente. Porém, no responsável amor pelo semelhante e sob o olhar do Juiz: “me deste de comer e me vestiste” (Mt 25,35-36). Assim sendo, o cuidado amoroso de si e solícito pela vida boa do outro é fonte de sentido do próprio viver bem. Atrai e irradia felicidade. Assim sendo, a existência vazia pode se tornar plena na fé operosa pela caridade (Gl 5,6) e no dom magnânimo de si. A vida é transfigurada.

 

Dom Edson de Castro Homem
Autor

Dom Edson de Castro Homem

Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro