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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 16/06/2019

16 de Junho de 2019

Livros do Antigo Testamento (90)

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16 de Junho de 2019

Livros do Antigo Testamento (90)

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25/01/2019 10:24 - Atualizado em 25/01/2019 10:24

Livros do Antigo Testamento (90) 0

25/01/2019 10:24 - Atualizado em 25/01/2019 10:24

Neste artigo concluiremos a exposição propedêutica aos grandes temas e linhas da sabedoria judaica, recolhida nos sete livros Sapiênciais e Poéticos, ao longo do séculos. O cristianismo soube recolher e desfrutar destes textos.

A SABEDORIA PERSONIFICADA?

Na fase do desenvolvimento sapiencial anterior ao Exílio da Babilônia, o âmbito da sabedoria parece limitar-se aos aspectos da experiência histórica e religiosa de Israel.

Mas, depois do Exílio verifica-se uma grande evolução: a partir daí, a sabedoria tende a ser considerada como uma realidade autônoma, distinta de Deus e do homem. Quer dizer: começa a surgir um processo da personificação da sabedoria.

Para além de uma sabedoria proverbial, que regula com sucesso a vida do homem, os sábios começam a desvendar e a admirar uma sabedoria observável a partir da ordem, harmonia e movimento do Universo.

É o que o livro do Gênesis no Capítulo 1 apresenta em linguagem catequética, e os Salmos 8,19 e 104 apresentam em forma de oração:

O próprio livro do Deuteronômio fala de "leis tão sábias" dadas a Israel, que provocam a admiração dos outros povos vizinhos (Dt 4,5-8).

Ben Sira chega mesmo a identificar a sabedoria com a Lei do Altíssimo (24,22-23), e diz que a sabedoria estabelece a sua morada em Israel sob a forma de lei (24,8).

Também o Livro dos Provérbios fala da sabedoria, presidindo a obra da criação (Pr 8,25-36).

Trata-se sempre da mesma sabedoria que leva o homem ao encontro com o universo de Deus e ao encontro com o Deus do Universo.

A apresentação da sabedoria como um ser distinto de Deus e do homem, que age por si, ou seja, como uma pessoa - mais do que qualquer outra coisa ou aspectos, quer, sobretudo, realçar a preciosidade e autenticidade dessa mesma sabedoria. 

Temos aqui algo que ultrapassará os limites da simples personificação literária, mas que ainda não chega verdadeiramente ao conceito de "hipóstases"[1], guardando o seu mistério, que o Novo Testamento virá, em parte, desvendar.

No prólogo dos Provérbios, vemos a sabedoria a convidar para a sua mesa (9,1-6); a ameaçar quem a rejeita, porque a vida ou a morte do homem depende da sua capacidade de acolher ou de rejeitar a sabedoria (Pr 8,25-36).

Ela pertence à esfera de Deus: só Ele a possui verdadeiramente e pode enviá-la como companheira e amiga do homem.

É por isso que Ben Sira e o autor do Livro da Sabedoria se dirigem a Deus em atitude de oração, pedindo o dom da sabedoria (Sb 8,21; Sir 39,5-6).

HERMENÊUTICA CRISTÃ

Por meio dos sábios, e num ambiente de mentalidade sapiencial, Israel faz uma leitura do seu passado histórico, perscrutando a sabedoria de Deus em ação na vida das grandes personagens do passado (Sir 44-50), conduzindo o povo no período mais significativo da sua História: o Êxodo (Sb 10-12; 16-19).

Em suma, mediante a aplicação da inteligência e da reflexão, a sabedoria acaba por constituir a mentalidade dominante no judaísmo do pós-exílio, recuperando e atualizando, tanto o patrimônio peculiar de Israel enquanto povo da aliança, como a sua experiência humana mais vasta, comum a outros povos da região do Médio Oriente.

Esta teologia sobre a sabedoria prepara já o ambiente para o NT, onde Jesus aparece como aqu’Ele que é "mais sábio do que Salomão" (Mt 12,42), a "sabedoria de Deus" (1 Cor 1,24.30), o único meio de salvação para todos (Jo 14,6), porque Ele é a sabedoria incriada que incarnou no seio da Humanidade.



[1] Hipóstase (em grego antigo: ὑπόστᾰσις - hypostasis, "substância"[1]) é um termo grego que pode se referir à natureza de algo, ou a uma instância em particular daquela natureza. Durante as controvérsias cristológicas e trinitárias nos séculos III e IV, o segundo significado prevaleceu no uso da doutrina. O termo passou a ser um sinônimo da palavra latina ‘persona’, o indivíduo de uma natureza racional.[2] A partir do século IV passou a ser contrastado com o termo ‘ousia’ como significando 'realidade individual' nos contextos cristológicos e trinitários.O termo ainda é utilizado em grego moderno com o significado de "existência", juntamente com o termo ὕπαρξις (hýparxis) e τρόπος ὑπάρξεως (tropos hypárxeos), este último significando "existência individual". Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%B3stase

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Livros do Antigo Testamento (90)

25/01/2019 10:24 - Atualizado em 25/01/2019 10:24

Neste artigo concluiremos a exposição propedêutica aos grandes temas e linhas da sabedoria judaica, recolhida nos sete livros Sapiênciais e Poéticos, ao longo do séculos. O cristianismo soube recolher e desfrutar destes textos.

A SABEDORIA PERSONIFICADA?

Na fase do desenvolvimento sapiencial anterior ao Exílio da Babilônia, o âmbito da sabedoria parece limitar-se aos aspectos da experiência histórica e religiosa de Israel.

Mas, depois do Exílio verifica-se uma grande evolução: a partir daí, a sabedoria tende a ser considerada como uma realidade autônoma, distinta de Deus e do homem. Quer dizer: começa a surgir um processo da personificação da sabedoria.

Para além de uma sabedoria proverbial, que regula com sucesso a vida do homem, os sábios começam a desvendar e a admirar uma sabedoria observável a partir da ordem, harmonia e movimento do Universo.

É o que o livro do Gênesis no Capítulo 1 apresenta em linguagem catequética, e os Salmos 8,19 e 104 apresentam em forma de oração:

O próprio livro do Deuteronômio fala de "leis tão sábias" dadas a Israel, que provocam a admiração dos outros povos vizinhos (Dt 4,5-8).

Ben Sira chega mesmo a identificar a sabedoria com a Lei do Altíssimo (24,22-23), e diz que a sabedoria estabelece a sua morada em Israel sob a forma de lei (24,8).

Também o Livro dos Provérbios fala da sabedoria, presidindo a obra da criação (Pr 8,25-36).

Trata-se sempre da mesma sabedoria que leva o homem ao encontro com o universo de Deus e ao encontro com o Deus do Universo.

A apresentação da sabedoria como um ser distinto de Deus e do homem, que age por si, ou seja, como uma pessoa - mais do que qualquer outra coisa ou aspectos, quer, sobretudo, realçar a preciosidade e autenticidade dessa mesma sabedoria. 

Temos aqui algo que ultrapassará os limites da simples personificação literária, mas que ainda não chega verdadeiramente ao conceito de "hipóstases"[1], guardando o seu mistério, que o Novo Testamento virá, em parte, desvendar.

No prólogo dos Provérbios, vemos a sabedoria a convidar para a sua mesa (9,1-6); a ameaçar quem a rejeita, porque a vida ou a morte do homem depende da sua capacidade de acolher ou de rejeitar a sabedoria (Pr 8,25-36).

Ela pertence à esfera de Deus: só Ele a possui verdadeiramente e pode enviá-la como companheira e amiga do homem.

É por isso que Ben Sira e o autor do Livro da Sabedoria se dirigem a Deus em atitude de oração, pedindo o dom da sabedoria (Sb 8,21; Sir 39,5-6).

HERMENÊUTICA CRISTÃ

Por meio dos sábios, e num ambiente de mentalidade sapiencial, Israel faz uma leitura do seu passado histórico, perscrutando a sabedoria de Deus em ação na vida das grandes personagens do passado (Sir 44-50), conduzindo o povo no período mais significativo da sua História: o Êxodo (Sb 10-12; 16-19).

Em suma, mediante a aplicação da inteligência e da reflexão, a sabedoria acaba por constituir a mentalidade dominante no judaísmo do pós-exílio, recuperando e atualizando, tanto o patrimônio peculiar de Israel enquanto povo da aliança, como a sua experiência humana mais vasta, comum a outros povos da região do Médio Oriente.

Esta teologia sobre a sabedoria prepara já o ambiente para o NT, onde Jesus aparece como aqu’Ele que é "mais sábio do que Salomão" (Mt 12,42), a "sabedoria de Deus" (1 Cor 1,24.30), o único meio de salvação para todos (Jo 14,6), porque Ele é a sabedoria incriada que incarnou no seio da Humanidade.



[1] Hipóstase (em grego antigo: ὑπόστᾰσις - hypostasis, "substância"[1]) é um termo grego que pode se referir à natureza de algo, ou a uma instância em particular daquela natureza. Durante as controvérsias cristológicas e trinitárias nos séculos III e IV, o segundo significado prevaleceu no uso da doutrina. O termo passou a ser um sinônimo da palavra latina ‘persona’, o indivíduo de uma natureza racional.[2] A partir do século IV passou a ser contrastado com o termo ‘ousia’ como significando 'realidade individual' nos contextos cristológicos e trinitários.O termo ainda é utilizado em grego moderno com o significado de "existência", juntamente com o termo ὕπαρξις (hýparxis) e τρόπος ὑπάρξεως (tropos hypárxeos), este último significando "existência individual". Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%B3stase

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica