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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/08/2019

22 de Agosto de 2019

Livros do Antigo Testamento (89)

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22 de Agosto de 2019

Livros do Antigo Testamento (89)

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18/01/2019 10:51 - Atualizado em 18/01/2019 10:51

Livros do Antigo Testamento (89) 0

18/01/2019 10:51 - Atualizado em 18/01/2019 10:51

Neste artigo prosseguimos com uma introdução às questões propedêuticas à compreensão dos Livros Sapienciais. A saber, os sete livros que compõem a coleção da sabedoria e da poesia de Israel, a partir do estabelecimento do Reinado de Salomão.

OS LIVROS

Os livros resultantes da compilação dos antigos provérbios e das novas reflexões sapienciais recebem o nome de Sapienciais porque ensinam a sabedoria como arte de viver. Jo, Salmos, Provérbios, Eclesiastes (ou Qohélet), Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Ben Sira (ou Eclesiástico) constituem esse conjunto. Os Salmos são um livro de características especiais, embora integrado neste conjunto.

Ao analisar o conjunto dos Livros Sapienciais do AT, verifica-se uma diferença formal, que acabará por conduzir a uma particularização no próprio conteúdo. Trata-se da distinção entre a sabedoria proverbial e a tratadística ou intelectual.

SABEDORIA PROVERBIAL

A primeira exprime, em frases breves, verdades universais ou condicionadas por determinadas situações. Geralmente são máximas compostas de um só versículo em duas partes ou dísticos (existem, por vezes, unidades maiores) e encontram-se mais nos livros dos Provérbios, de Ben Sira e em parte do Eclesiastes e da Sabedoria.

O seu objetivo é oferecer observações sobre a vida concreta. Seguindo tais instruções, o homem adapta-se à ordem social, que é o reflexo da ordem cósmica.

Esta forma de sabedoria não se ocupa das coisas últimas da existência humana, mas assume o pragmatismo e a crítica face à sociedade em que se desenvolve. A sociedade é considerada como um fato consumado que o sábio não pretende mudar, mas apenas adaptar-se a ela, descobrindo as suas regras do jogo.

É uma atitude que difere profundamente da posição assumida pelos profetas da época anterior ao Exílio; mas não se trata de uma atitude alheia à fé.

SABEDORIA TRATADÍSTICA

Diferente é o conteúdo da sabedoria tratadística, que, por vezes, como em Jo, assume a forma de diálogo, ou a de um monólogo-confissão, como no Eclesiastes. Ocupa-se essencialmente de problemas fundamentais da existência humana.

E a solução que ambos propõem - submeter-se aos planos de Deus - é tipicamente israelita, mesmo se desligada de qualquer enquadramento histórico.

Assim, vemos semelhanças entre Provérbios e Ben Sira. Também Jo e Eclesiastes se assemelham no seu temperamento inconformista. A Sabedoria, por seu lado, é uma espécie de enclave tardio, do âmbito cultural grego.

O mundo que o sábio procura conhecer é o mesmo que foi criado por Deus: um mundo que não é fundamentalmente hostil, porque foi criado bom desde o princípio (Gn 1); um mundo que se submete a Deus e do qual o próprio homem é constituído senhor (Gn 1,3-31).

A principal preocupação dos Sábios é o destino pessoal dos indivíduos. Daí a importância dada ao problema da retribuição.

Mas os Sábios, que tanto apelam à experiência, têm que enfrentar situações de contradição na própria esfera da experiência. É o confronto dramático entre Jo e os seus amigos, com estes a defenderem a tese tradicional de que a justiça ou sabedoria leva automaticamente à felicidade, ao passo que a injustiça conduz à ruína.

Perante o problema do justo infeliz, não há resposta que satisfaça a compreensão humana. Contudo, o livro sugere que, apesar de tudo, é preciso aderir a Deus pela fé.

ECLESIÁSTICO (BEN SIRA)

Também o livro do Eclesiastes, embora com uma perspectiva diferente de Jo, realça a insuficiência das respostas tradicionais ao problema do justo infeliz, dentro da perspectiva terrena; mas não admite que a felicidade possa ser exigida como algo devido necessariamente ao homem, pois não se pode pedir contas a Deus.

Ben Sira assume plenamente a doutrina tradicional dos Provérbios e exalta a felicidade do sábio (14,20-15,10); mas sente-se perturbado perante a ideia da morte e intui que, afinal, tudo depende dessa última hora (11,26).

SABEDORIA

Foi o livro da Sabedoria, originário do ambiente cultural grego - onde a filosofia platônica proporcionava a ideia da imortalidade espiritual, sem a necessária ligação com o elemento material - que veio afirmar pela primeira vez e de um modo explícito: “Deus criou o homem para a imortalidade” (2,23).

Um novo caminho se abre à reflexão sapiencial sobre o destino do justo infeliz: depois da morte, a alma fiel gozará de uma felicidade eterna junto de Deus, enquanto os ímpios receberão o devido castigo (3,1-12).

É sintomática a insistência dos sábios de Israel na ideia do temor de Deus, sobretudo no período mais tardio: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria.” (Pr 1,7) É que, sem o temor de Deus, qualquer tipo de sabedoria perde o seu próprio fundamento e, por isso, a sua validade para uma reta condução da vida.

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Livros do Antigo Testamento (89)

18/01/2019 10:51 - Atualizado em 18/01/2019 10:51

Neste artigo prosseguimos com uma introdução às questões propedêuticas à compreensão dos Livros Sapienciais. A saber, os sete livros que compõem a coleção da sabedoria e da poesia de Israel, a partir do estabelecimento do Reinado de Salomão.

OS LIVROS

Os livros resultantes da compilação dos antigos provérbios e das novas reflexões sapienciais recebem o nome de Sapienciais porque ensinam a sabedoria como arte de viver. Jo, Salmos, Provérbios, Eclesiastes (ou Qohélet), Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Ben Sira (ou Eclesiástico) constituem esse conjunto. Os Salmos são um livro de características especiais, embora integrado neste conjunto.

Ao analisar o conjunto dos Livros Sapienciais do AT, verifica-se uma diferença formal, que acabará por conduzir a uma particularização no próprio conteúdo. Trata-se da distinção entre a sabedoria proverbial e a tratadística ou intelectual.

SABEDORIA PROVERBIAL

A primeira exprime, em frases breves, verdades universais ou condicionadas por determinadas situações. Geralmente são máximas compostas de um só versículo em duas partes ou dísticos (existem, por vezes, unidades maiores) e encontram-se mais nos livros dos Provérbios, de Ben Sira e em parte do Eclesiastes e da Sabedoria.

O seu objetivo é oferecer observações sobre a vida concreta. Seguindo tais instruções, o homem adapta-se à ordem social, que é o reflexo da ordem cósmica.

Esta forma de sabedoria não se ocupa das coisas últimas da existência humana, mas assume o pragmatismo e a crítica face à sociedade em que se desenvolve. A sociedade é considerada como um fato consumado que o sábio não pretende mudar, mas apenas adaptar-se a ela, descobrindo as suas regras do jogo.

É uma atitude que difere profundamente da posição assumida pelos profetas da época anterior ao Exílio; mas não se trata de uma atitude alheia à fé.

SABEDORIA TRATADÍSTICA

Diferente é o conteúdo da sabedoria tratadística, que, por vezes, como em Jo, assume a forma de diálogo, ou a de um monólogo-confissão, como no Eclesiastes. Ocupa-se essencialmente de problemas fundamentais da existência humana.

E a solução que ambos propõem - submeter-se aos planos de Deus - é tipicamente israelita, mesmo se desligada de qualquer enquadramento histórico.

Assim, vemos semelhanças entre Provérbios e Ben Sira. Também Jo e Eclesiastes se assemelham no seu temperamento inconformista. A Sabedoria, por seu lado, é uma espécie de enclave tardio, do âmbito cultural grego.

O mundo que o sábio procura conhecer é o mesmo que foi criado por Deus: um mundo que não é fundamentalmente hostil, porque foi criado bom desde o princípio (Gn 1); um mundo que se submete a Deus e do qual o próprio homem é constituído senhor (Gn 1,3-31).

A principal preocupação dos Sábios é o destino pessoal dos indivíduos. Daí a importância dada ao problema da retribuição.

Mas os Sábios, que tanto apelam à experiência, têm que enfrentar situações de contradição na própria esfera da experiência. É o confronto dramático entre Jo e os seus amigos, com estes a defenderem a tese tradicional de que a justiça ou sabedoria leva automaticamente à felicidade, ao passo que a injustiça conduz à ruína.

Perante o problema do justo infeliz, não há resposta que satisfaça a compreensão humana. Contudo, o livro sugere que, apesar de tudo, é preciso aderir a Deus pela fé.

ECLESIÁSTICO (BEN SIRA)

Também o livro do Eclesiastes, embora com uma perspectiva diferente de Jo, realça a insuficiência das respostas tradicionais ao problema do justo infeliz, dentro da perspectiva terrena; mas não admite que a felicidade possa ser exigida como algo devido necessariamente ao homem, pois não se pode pedir contas a Deus.

Ben Sira assume plenamente a doutrina tradicional dos Provérbios e exalta a felicidade do sábio (14,20-15,10); mas sente-se perturbado perante a ideia da morte e intui que, afinal, tudo depende dessa última hora (11,26).

SABEDORIA

Foi o livro da Sabedoria, originário do ambiente cultural grego - onde a filosofia platônica proporcionava a ideia da imortalidade espiritual, sem a necessária ligação com o elemento material - que veio afirmar pela primeira vez e de um modo explícito: “Deus criou o homem para a imortalidade” (2,23).

Um novo caminho se abre à reflexão sapiencial sobre o destino do justo infeliz: depois da morte, a alma fiel gozará de uma felicidade eterna junto de Deus, enquanto os ímpios receberão o devido castigo (3,1-12).

É sintomática a insistência dos sábios de Israel na ideia do temor de Deus, sobretudo no período mais tardio: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria.” (Pr 1,7) É que, sem o temor de Deus, qualquer tipo de sabedoria perde o seu próprio fundamento e, por isso, a sua validade para uma reta condução da vida.

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica