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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/07/2019

22 de Julho de 2019

Livros do Antigo Testamento (84)

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22 de Julho de 2019

Livros do Antigo Testamento (84)

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14/12/2018 12:14 - Atualizado em 14/12/2018 12:14

Livros do Antigo Testamento (84) 0

14/12/2018 12:14 - Atualizado em 14/12/2018 12:14

Neste artigo, como aludimos no anterior, dedicado a Judite, apresentaremos a ‘biografia’ de outra grande heroína das Escrituras do Antigo Testamento. Ela, como Judite e tantas outras, edificam Israel, ao mostrar o Deus dos pequenos e dos pobres, e a como vencer gigantes.

INTRODUÇÃO

Trata-se de uma apaixonada descrição das experiências dramáticas por que passou a comunidade hebraica de Susa, quando esta cidade era capital do império persa.

O texto sugere que esses acontecimentos afetariam a vida de todos os judeus residentes dentro das fronteiras daquele imenso império, que se estendia desde a Índia até a Etiópia. Quer dizer que os episódios narrados atingiam todos os judeus do mundo, e as consequências diziam respeito à sua sobrevivência.

As figuras centrais são um judeu de nome babilônico, Mardoqueu, e uma parente sua e protegida chamada Ester, nome de ressonâncias simultaneamente babilônicas e persas. Mardoqueu surge como chefe da comunidade judaica; Ester é a personagem decisiva no desenrolar dos acontecimentos.

O livro descreve uma ameaça de morte que se transformou numa afirmação de triunfo. Semelhante sucesso merece ser celebrado e recordado.

E, de fato, o livro de Ester culmina numa festa anual, ainda hoje celebrada entre os judeus: a festa de "Purim", ou das "sortes" lançadas e transformadas.

O LIVRO

Esta multiplicidade de experiências tem a sua expressão no próprio estado do texto chegado até nós, com dois estratos bem distintos: algumas seções, que constituem a parte mais longa e mais antiga estão em hebraico e parecem representar o fio condutor da história; outras se encontram só em grego e são suplementos, ampliações e reformulações do mesmo assunto, mas com um espírito e um horizonte algo diferentes, tentando recriar e reformular novas perspectivas. Estas novidades do texto grego vão sendo inseridas ao longo de toda a história descrita.

São Jerônimo, ao preparar a edição da Bíblia em latim, chamada Vulgata[1], para que estas interrupções não cortassem a sequência do texto hebraico, decidiu colocar em primeiro lugar a tradução contínua do hebraico e acrescenta-lhe os suplementos em grego, numerados dos capítulos 11 a 16.

E assim se apresentava o livro de Ester nas traduções que dependiam diretamente da Vulgata. No entanto, esta solução tornava mais difícil a leitura dos suplementos, que não representavam uma sequência completa.

Por isso, é hoje mais habitual manter as interpolações do texto grego no seu lugar correspondente na narrativa, distinguindo-as do texto hebraico por um tipo de letra e por uma numeração diferentes.

Nesta edição, o texto hebraico aparece em caracteres redondos, como no resto da Bíblia; os suplementos gregos estão em itálico e são numerados por uma letra de A a F, representando cada uma como que um capítulo suplementar; e, em cada uma dessas letras ou capítulos, os versículos são numerados a partir do n.° 1.

Outras edições contam os suplementos gregos como continuação do texto hebraico e numeram os novos versículos por letras acrescentadas ao número do versículo hebraico, a partir do qual se fez a interrupção e começou o suplemento.

NARRATIVA HISTÓRICA

Literariamente, esta narrativa apresenta-se como descrição histórica.

Aliás, em 9,32 e 10,2 existem alusões explícitas ao fato de ter sido escrito aquilo que acontecera com Ester e com Mardoqueu.

Esse modo, a ordem de Ester confirmou a instituição dos Purim e tudo isso foi consignado num livro (Est 9,32).

Tudo o que concerne a seu poder e suas façanhas e os detalhes sobre a elevação de Mardoqueu pelo rei estão escritos no Livro das Crônicas dos reis dos medos e dos persas (Est 10,2).

Esta fisionomia literária condiz bem com o caráter mais ou menos histórico do seu conteúdo. A descrição dos ambientes e dos costumes tem alguma exatidão.

No entanto, numerosos indícios levam-nos a pensar que os muitos elementos de figuras e experiências históricas podem ter sido elaborados nesta obra, que é construída segundo o modelo literário de um romance histórico.

Os nomes de Mardoqueu e de Ester dão aos seus heróis certa verossimilhança histórica. O nome de Assuero, dado ao rei, é a versão bíblica normal para o bem conhecido nome de Xerxes. E isto constitui mais uma razão de verossimilhança histórica.

A vida da corte, aqui descrita, corresponde igualmente bem à imagem histórica; pelo contrário, o fato de Mardoqueu ter sido exilado de Jerusalém no tempo de Nabucodonosor e estar ainda, mais de cem anos depois, a dirigir estes acontecimentos coloca fortes dúvidas.

Além disso, os conflitos religiosos e culturais descritos, e mesmo os nomes da rainha rejeitada e da nova rainha escolhida por Assuero, ou Xerxes, são inteiramente desconhecidos na corte persa.

É possível, por conseguinte, que tenham sido acumuladas aqui, numa única história, muitas experiências dramáticas de comunidades judaicas em contextos sociais adversos; e também muitas esperanças que, entretanto, as foram reanimando, garantindo-lhes a sobrevivência.

De tudo isso poderá ter resultado este livro, como memória exultante e como razão de esperança.

Em Ester condensam-se experiências de rejeição e de ameaça, que punham em causa a sobrevivência do judaísmo e, por antítese, descreve-se a forma como todos os perigos se transformaram em retumbante afirmação dos seus ideais.

Tão entusiasta quiseram os judeus tornar a sua vitória, que não conseguiram evitar excessos: da pura autodefesa, passaram a gestos exagerados de vingança.

 



[1] Vulgata é a forma latina abreviada de vulgata editio ou vulgata versio ou vulgata lectio, respectivamente "edição, tradução ou leitura de divulgação popular" - a versão mais difundida (ou mais aceita como autêntica) de um texto. No sentido corrente, Vulgata é a tradução para o latim da Bíblia, escrita entre fins do século IV início do século V, por São Jerônimo, a pedido do Papa Dâmaso I, que foi usada pela Igreja Cristã e ainda é muito respeitada. Nos seus primeiros séculos, a Igreja serviu-se, sobretudo, da língua grega. Foi nesta língua que foi escrito todo o Novo Testamento, incluindo a Carta aos Romanos, de São Paulo, bem como muitos escritos cristãos de séculos seguintes. https://pt.wikipedia.org/wiki/Vulgata

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Livros do Antigo Testamento (84)

14/12/2018 12:14 - Atualizado em 14/12/2018 12:14

Neste artigo, como aludimos no anterior, dedicado a Judite, apresentaremos a ‘biografia’ de outra grande heroína das Escrituras do Antigo Testamento. Ela, como Judite e tantas outras, edificam Israel, ao mostrar o Deus dos pequenos e dos pobres, e a como vencer gigantes.

INTRODUÇÃO

Trata-se de uma apaixonada descrição das experiências dramáticas por que passou a comunidade hebraica de Susa, quando esta cidade era capital do império persa.

O texto sugere que esses acontecimentos afetariam a vida de todos os judeus residentes dentro das fronteiras daquele imenso império, que se estendia desde a Índia até a Etiópia. Quer dizer que os episódios narrados atingiam todos os judeus do mundo, e as consequências diziam respeito à sua sobrevivência.

As figuras centrais são um judeu de nome babilônico, Mardoqueu, e uma parente sua e protegida chamada Ester, nome de ressonâncias simultaneamente babilônicas e persas. Mardoqueu surge como chefe da comunidade judaica; Ester é a personagem decisiva no desenrolar dos acontecimentos.

O livro descreve uma ameaça de morte que se transformou numa afirmação de triunfo. Semelhante sucesso merece ser celebrado e recordado.

E, de fato, o livro de Ester culmina numa festa anual, ainda hoje celebrada entre os judeus: a festa de "Purim", ou das "sortes" lançadas e transformadas.

O LIVRO

Esta multiplicidade de experiências tem a sua expressão no próprio estado do texto chegado até nós, com dois estratos bem distintos: algumas seções, que constituem a parte mais longa e mais antiga estão em hebraico e parecem representar o fio condutor da história; outras se encontram só em grego e são suplementos, ampliações e reformulações do mesmo assunto, mas com um espírito e um horizonte algo diferentes, tentando recriar e reformular novas perspectivas. Estas novidades do texto grego vão sendo inseridas ao longo de toda a história descrita.

São Jerônimo, ao preparar a edição da Bíblia em latim, chamada Vulgata[1], para que estas interrupções não cortassem a sequência do texto hebraico, decidiu colocar em primeiro lugar a tradução contínua do hebraico e acrescenta-lhe os suplementos em grego, numerados dos capítulos 11 a 16.

E assim se apresentava o livro de Ester nas traduções que dependiam diretamente da Vulgata. No entanto, esta solução tornava mais difícil a leitura dos suplementos, que não representavam uma sequência completa.

Por isso, é hoje mais habitual manter as interpolações do texto grego no seu lugar correspondente na narrativa, distinguindo-as do texto hebraico por um tipo de letra e por uma numeração diferentes.

Nesta edição, o texto hebraico aparece em caracteres redondos, como no resto da Bíblia; os suplementos gregos estão em itálico e são numerados por uma letra de A a F, representando cada uma como que um capítulo suplementar; e, em cada uma dessas letras ou capítulos, os versículos são numerados a partir do n.° 1.

Outras edições contam os suplementos gregos como continuação do texto hebraico e numeram os novos versículos por letras acrescentadas ao número do versículo hebraico, a partir do qual se fez a interrupção e começou o suplemento.

NARRATIVA HISTÓRICA

Literariamente, esta narrativa apresenta-se como descrição histórica.

Aliás, em 9,32 e 10,2 existem alusões explícitas ao fato de ter sido escrito aquilo que acontecera com Ester e com Mardoqueu.

Esse modo, a ordem de Ester confirmou a instituição dos Purim e tudo isso foi consignado num livro (Est 9,32).

Tudo o que concerne a seu poder e suas façanhas e os detalhes sobre a elevação de Mardoqueu pelo rei estão escritos no Livro das Crônicas dos reis dos medos e dos persas (Est 10,2).

Esta fisionomia literária condiz bem com o caráter mais ou menos histórico do seu conteúdo. A descrição dos ambientes e dos costumes tem alguma exatidão.

No entanto, numerosos indícios levam-nos a pensar que os muitos elementos de figuras e experiências históricas podem ter sido elaborados nesta obra, que é construída segundo o modelo literário de um romance histórico.

Os nomes de Mardoqueu e de Ester dão aos seus heróis certa verossimilhança histórica. O nome de Assuero, dado ao rei, é a versão bíblica normal para o bem conhecido nome de Xerxes. E isto constitui mais uma razão de verossimilhança histórica.

A vida da corte, aqui descrita, corresponde igualmente bem à imagem histórica; pelo contrário, o fato de Mardoqueu ter sido exilado de Jerusalém no tempo de Nabucodonosor e estar ainda, mais de cem anos depois, a dirigir estes acontecimentos coloca fortes dúvidas.

Além disso, os conflitos religiosos e culturais descritos, e mesmo os nomes da rainha rejeitada e da nova rainha escolhida por Assuero, ou Xerxes, são inteiramente desconhecidos na corte persa.

É possível, por conseguinte, que tenham sido acumuladas aqui, numa única história, muitas experiências dramáticas de comunidades judaicas em contextos sociais adversos; e também muitas esperanças que, entretanto, as foram reanimando, garantindo-lhes a sobrevivência.

De tudo isso poderá ter resultado este livro, como memória exultante e como razão de esperança.

Em Ester condensam-se experiências de rejeição e de ameaça, que punham em causa a sobrevivência do judaísmo e, por antítese, descreve-se a forma como todos os perigos se transformaram em retumbante afirmação dos seus ideais.

Tão entusiasta quiseram os judeus tornar a sua vitória, que não conseguiram evitar excessos: da pura autodefesa, passaram a gestos exagerados de vingança.

 



[1] Vulgata é a forma latina abreviada de vulgata editio ou vulgata versio ou vulgata lectio, respectivamente "edição, tradução ou leitura de divulgação popular" - a versão mais difundida (ou mais aceita como autêntica) de um texto. No sentido corrente, Vulgata é a tradução para o latim da Bíblia, escrita entre fins do século IV início do século V, por São Jerônimo, a pedido do Papa Dâmaso I, que foi usada pela Igreja Cristã e ainda é muito respeitada. Nos seus primeiros séculos, a Igreja serviu-se, sobretudo, da língua grega. Foi nesta língua que foi escrito todo o Novo Testamento, incluindo a Carta aos Romanos, de São Paulo, bem como muitos escritos cristãos de séculos seguintes. https://pt.wikipedia.org/wiki/Vulgata

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica