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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 18/12/2018

18 de Dezembro de 2018

Livros do Antigo Testamento (81)

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18 de Dezembro de 2018

Livros do Antigo Testamento (81)

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23/11/2018 11:36 - Atualizado em 23/11/2018 11:36

Livros do Antigo Testamento (81) 0

23/11/2018 11:36 - Atualizado em 23/11/2018 11:36

Neste artigo desejamos apresentar aspectos importantes do livro de Esdras e Neemias, uma etapa importante da vida e da História de Israel: o retorno da Babilônia e a reconstrução do Templo de Jerusalém.

Introdução:

Inicialmente vale a pena analisar a trajetória literária deste livro, em suas versões hebraica, grega e latina. Os livros de Esdras e de Neemias formavam um só ‘Livro de Esdras’, na Bíblia Hebraica e na versão grega dos Setenta. Como esta versão recolhia também o livro apócrifo grego de Esdras e lhe dava o primeiro lugar (1 Esdras), o livro de Esdras e Neemias era denominado “2 Esdras”. Na era cristã foi dividido em dois. A Vulgata latina adoptou essa divisão em “1 Esdras” (=Esdras) e “2 Esdras” (=Neemias), reservando ao apócrifo grego a designação de “3 Esdras”. A designação dos dois livros a partir das respectivas personagens principais, Esdras e Neemias, é mais recente, mas foi assimilada mesmo nas edições impressas da Bíblia massorética1.

AUTORIA E DATAÇÃO

Sobre o autor destes livros pouco se sabe, mas admite-se ser um só: o mesmo chamado Cronista, que redigiu e compôs a vasta síntese histórica dos dois livros das Crônicas, seguidos de Esdras e Neemias. Um dos indícios mais significativos é a identidade entre os últimos versículos de 2 Crônicas (36,22-23) e os primeiros versículos de Esdras (1,1-3), o que sugere a continuidade da narrativa. Pode, assim, situar-se esta obra nos finais do séc. IV ou início do séc. III a.C..

QUESTÃO CRONOLÓGICA

Discute-se qual dos dois deverá ser colocado em primeiro lugar. Muitos preferem a sucessão Neemias-Esdras, mas ainda não se encontrou uma solução satisfatória para estabelecer a cronologia dos acontecimentos em questão.

O texto fala da chegada de Esdras a Jerusalém, no sétimo ano do rei Artaxerxes (Esd 7,7), e indica a sua atividade reformadora (Esd 8-10); depois, vem Neemias, no vigésimo ano de Artaxerxes (Ne 2,1), e a sua preocupação pela reconstrução das muralhas (Ne 1-7); surge outra vez Esdras, para a leitura solene da Lei (Ne 8-9); e, finalmente, Neemias, por ocasião de uma segunda estadia em Jerusalém, no ano 32. de Artaxerxes (Ne 13,6-7).Teriam estado estes dois homens ao mesmo tempo em Jerusalém, a trabalhar independentemente?

A resposta mais aceitável é a seguinte: a atividade de Neemias seria toda ela anterior a Esdras (Ne 1-7 e 10-13, na qual aparece como construtor e reformador); mais tarde, talvez no ano 7 de Artaxerxes II (e não Artaxerxes I), por volta de 398-397 a.C., veio Esdras a Jerusalém: empreendeu reformas (Esd 7-10), restaurou o culto e fez a solene leitura pública da Lei (Ne 8-9). Ao aplicar a sua perspectiva teológica a este emaranhado de dados, o redator final é que terá desorganizado a cronologia real dos acontecimentos.

No entanto, não se pode negar ou diminuir o valor histórico das informações veiculadas por estes livros. Concordam perfeitamente com os dados das fontes bíblicas e profanas, como, por exemplo, os papiros das ilhas Elefantinas (Egito).

CRÍTICA LITERÁRIA

Para a composição destes dois livros, o Cronista utilizou como fontes diversos documentos antigos (entre eles, as memórias pessoais dos dois personagens em questão), que ele reproduziu e organizou, relacionando-os uns com os outros, segundo a sua visão teológica, de forma a obter um conjunto harmonioso. Assim, podem encontrar-se:

a) Documentos oficiais em hebraico (listas, estatísticas, como as de Esd 2 e Ne 7,6-68; 10,3-30; 11,3-36; 12,1-26) e em aramaico (correspondência diplomática, decretos oficiais: Esd 4,6-6,18; 7,12-26;

b) Memórias de Esdras (Esd 7-10), com partes redigidas na primeira pessoa (Esd 7,27-9,15) e outras na terceira: Esd 7,1-10; 10; Ne 8-9;

c) Memórias de Neemias: Ne 1-7; 10; 12,27-13,31.

ESTRUTURA LITERÁRIA

O livro de Esdras parece estar dividido em duas grandes partes:

I) Regresso do Exílio e reconstrução do templo: 1,1-6,22;

II) Organização da comunidade: 7,1-10,44.

O livro de Neemias consta também de duas partes:

I) Reconstrução das muralhas de Jerusalém: 1,1-7,72;

II) Proclamação da Lei e Reformas: 8,1-13,31.

 

Nestas duas partes encontram-se alguns temas dominantes que parecem seguir esta disposição:

1)Neemias passa da corte persa para governador de Jerusalém: 1-2;

2) Construção das muralhas, apesar de inúmeras dificuldades: 3-6;

3) Recenseamento do povo, celebração da Lei e renovação da aliança: 7-10;

4) Repovoamento de Jerusalém e das terras da Judeia: 11;

5) Medidas para garantir o culto e a pureza dos costumes: 12-13.

MENSAGEM:

Esdras e Neemias narram acontecimentos ocorridos logo após o édito de Ciro (538 a.C.), que permitia o regresso do cativeiro da Babilónia. Mostrando a situação difícil dos repatriados, fazem sobressair o esforço pela restauração do povo, no aspecto material e religioso.

Contêm uma admirável mensagem doutrinal, centrada em três preocupações fundamentais: o templo, a cidade de Jerusalém e a comunidade do povo de Deus. Após as provas do exílio, com as suas más consequências no aspecto religioso, o povo organiza-se numa grande unidade nacional e religiosa. Meditando na Lei, compreende como o castigo lhe foi mandado por Deus, devido à sua infidelidade, e como, apesar de tudo, a misericórdia divina se mantém para com o resto de Israel, detentor das grandes promessas em relação ao Messias. A Palavra de Deus é, assim, a base da reconstrução do povo que volta do exílio.

 

1 Texto massorético ou masorético é o texto hebraico da Bíblia utilizado com a versão universal da Tanakh para o judaísmo moderno, e também como fonte de tradução para o Antigo Testamento da Bíblia cristã, inicialmente pelos protestantes e, modernamente, também por tradutores católicos. Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Texto_massor%C3%A9tico

 

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Livros do Antigo Testamento (81)

23/11/2018 11:36 - Atualizado em 23/11/2018 11:36

Neste artigo desejamos apresentar aspectos importantes do livro de Esdras e Neemias, uma etapa importante da vida e da História de Israel: o retorno da Babilônia e a reconstrução do Templo de Jerusalém.

Introdução:

Inicialmente vale a pena analisar a trajetória literária deste livro, em suas versões hebraica, grega e latina. Os livros de Esdras e de Neemias formavam um só ‘Livro de Esdras’, na Bíblia Hebraica e na versão grega dos Setenta. Como esta versão recolhia também o livro apócrifo grego de Esdras e lhe dava o primeiro lugar (1 Esdras), o livro de Esdras e Neemias era denominado “2 Esdras”. Na era cristã foi dividido em dois. A Vulgata latina adoptou essa divisão em “1 Esdras” (=Esdras) e “2 Esdras” (=Neemias), reservando ao apócrifo grego a designação de “3 Esdras”. A designação dos dois livros a partir das respectivas personagens principais, Esdras e Neemias, é mais recente, mas foi assimilada mesmo nas edições impressas da Bíblia massorética1.

AUTORIA E DATAÇÃO

Sobre o autor destes livros pouco se sabe, mas admite-se ser um só: o mesmo chamado Cronista, que redigiu e compôs a vasta síntese histórica dos dois livros das Crônicas, seguidos de Esdras e Neemias. Um dos indícios mais significativos é a identidade entre os últimos versículos de 2 Crônicas (36,22-23) e os primeiros versículos de Esdras (1,1-3), o que sugere a continuidade da narrativa. Pode, assim, situar-se esta obra nos finais do séc. IV ou início do séc. III a.C..

QUESTÃO CRONOLÓGICA

Discute-se qual dos dois deverá ser colocado em primeiro lugar. Muitos preferem a sucessão Neemias-Esdras, mas ainda não se encontrou uma solução satisfatória para estabelecer a cronologia dos acontecimentos em questão.

O texto fala da chegada de Esdras a Jerusalém, no sétimo ano do rei Artaxerxes (Esd 7,7), e indica a sua atividade reformadora (Esd 8-10); depois, vem Neemias, no vigésimo ano de Artaxerxes (Ne 2,1), e a sua preocupação pela reconstrução das muralhas (Ne 1-7); surge outra vez Esdras, para a leitura solene da Lei (Ne 8-9); e, finalmente, Neemias, por ocasião de uma segunda estadia em Jerusalém, no ano 32. de Artaxerxes (Ne 13,6-7).Teriam estado estes dois homens ao mesmo tempo em Jerusalém, a trabalhar independentemente?

A resposta mais aceitável é a seguinte: a atividade de Neemias seria toda ela anterior a Esdras (Ne 1-7 e 10-13, na qual aparece como construtor e reformador); mais tarde, talvez no ano 7 de Artaxerxes II (e não Artaxerxes I), por volta de 398-397 a.C., veio Esdras a Jerusalém: empreendeu reformas (Esd 7-10), restaurou o culto e fez a solene leitura pública da Lei (Ne 8-9). Ao aplicar a sua perspectiva teológica a este emaranhado de dados, o redator final é que terá desorganizado a cronologia real dos acontecimentos.

No entanto, não se pode negar ou diminuir o valor histórico das informações veiculadas por estes livros. Concordam perfeitamente com os dados das fontes bíblicas e profanas, como, por exemplo, os papiros das ilhas Elefantinas (Egito).

CRÍTICA LITERÁRIA

Para a composição destes dois livros, o Cronista utilizou como fontes diversos documentos antigos (entre eles, as memórias pessoais dos dois personagens em questão), que ele reproduziu e organizou, relacionando-os uns com os outros, segundo a sua visão teológica, de forma a obter um conjunto harmonioso. Assim, podem encontrar-se:

a) Documentos oficiais em hebraico (listas, estatísticas, como as de Esd 2 e Ne 7,6-68; 10,3-30; 11,3-36; 12,1-26) e em aramaico (correspondência diplomática, decretos oficiais: Esd 4,6-6,18; 7,12-26;

b) Memórias de Esdras (Esd 7-10), com partes redigidas na primeira pessoa (Esd 7,27-9,15) e outras na terceira: Esd 7,1-10; 10; Ne 8-9;

c) Memórias de Neemias: Ne 1-7; 10; 12,27-13,31.

ESTRUTURA LITERÁRIA

O livro de Esdras parece estar dividido em duas grandes partes:

I) Regresso do Exílio e reconstrução do templo: 1,1-6,22;

II) Organização da comunidade: 7,1-10,44.

O livro de Neemias consta também de duas partes:

I) Reconstrução das muralhas de Jerusalém: 1,1-7,72;

II) Proclamação da Lei e Reformas: 8,1-13,31.

 

Nestas duas partes encontram-se alguns temas dominantes que parecem seguir esta disposição:

1)Neemias passa da corte persa para governador de Jerusalém: 1-2;

2) Construção das muralhas, apesar de inúmeras dificuldades: 3-6;

3) Recenseamento do povo, celebração da Lei e renovação da aliança: 7-10;

4) Repovoamento de Jerusalém e das terras da Judeia: 11;

5) Medidas para garantir o culto e a pureza dos costumes: 12-13.

MENSAGEM:

Esdras e Neemias narram acontecimentos ocorridos logo após o édito de Ciro (538 a.C.), que permitia o regresso do cativeiro da Babilónia. Mostrando a situação difícil dos repatriados, fazem sobressair o esforço pela restauração do povo, no aspecto material e religioso.

Contêm uma admirável mensagem doutrinal, centrada em três preocupações fundamentais: o templo, a cidade de Jerusalém e a comunidade do povo de Deus. Após as provas do exílio, com as suas más consequências no aspecto religioso, o povo organiza-se numa grande unidade nacional e religiosa. Meditando na Lei, compreende como o castigo lhe foi mandado por Deus, devido à sua infidelidade, e como, apesar de tudo, a misericórdia divina se mantém para com o resto de Israel, detentor das grandes promessas em relação ao Messias. A Palavra de Deus é, assim, a base da reconstrução do povo que volta do exílio.

 

1 Texto massorético ou masorético é o texto hebraico da Bíblia utilizado com a versão universal da Tanakh para o judaísmo moderno, e também como fonte de tradução para o Antigo Testamento da Bíblia cristã, inicialmente pelos protestantes e, modernamente, também por tradutores católicos. Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Texto_massor%C3%A9tico

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica