Arquidiocese do Rio de Janeiro

36º 23º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 14/12/2018

14 de Dezembro de 2018

A dedicação de uma Igreja

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14 de Dezembro de 2018

A dedicação de uma Igreja

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12/11/2018 06:23 - Atualizado em 12/11/2018 06:23

A dedicação de uma Igreja 0

12/11/2018 06:23 - Atualizado em 12/11/2018 06:23

Nas primícias do meu ministério episcopal como Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro tive a graça de dar início à construção da nova Igreja Matriz da Paróquia de Santa Luzia, na Gardênia Azul. Pude abrir o primeiro buraco onde seria uma das colunas e colocar um pouco de concreto iniciando assim essa obra em 2010. No dia 09 de novembro, sábado passado tive a alegria de presidir a dedicação desta Igreja. Deus seja louvado por esta graça. Deus abençoe os trabalhos do pároco, Côn. Robert Józef Chrzaszcz e de seus vigários paroquiais, diáconos e de todos os fiéis da comunidade que muito trabalharam para este dia tão importante para a vida comunitária e para a santificação do povo de Deus. É primeira igreja de nossa arquidiocese que pude iniciar e agora concluir com a solene dedicação.

Desde os primórdios, Deus se comunicou com o homem de diversas maneiras. Podemos ler, no Antigo Testamento, o Senhor que se revela a Abrão por intermédio de um anjo (Gn 18,2ss). No livro do Êxodo, Deus se manifestou a Moisés na sarça ardente (3,2) e o tornou libertador do povo de Israel.

O ato de dedicar algo ao Senhor possui suas raízes mais profundas no Antigo Testamento. Já ali encontramos a dedicação de alguns altares (Nm 7, 10-11. 84. 88), de casas (Dt 20,5) e sobretudo, as diversas e sucessivas dedicações do Templo do Senhor realizadas por Salomão (1Rs 8, 1-66), Esdras (Esd 6, 15-18) e Judas Macabeus (1Mc 4, 36-59). Esta festa tinha sua grande importância para o povo judeu, pois lhes recordava que o Templo onde realizavam suas orações era a casa do Senhor, a morada de Deus no meio deles. Esta festa também os recordava a sua dignidade de povo escolhido pelo Senhor e o seu dever de ser-lhe fiel.

Com toda razão, desde a antiguidade, dá-se o nome de “igreja” aos edifícios construídos nos quais a comunidade cristã (a igreja) se reúne para celebrar os sacramentos, ouvir a Palavra de Deus e fazer suas orações pessoais. Estas igrejas (templos), sinais visíveis da Igreja peregrina na terra e da Igreja celeste, tornam-se a casa de Deus, pois são destinadas unicamente e de modo estável a reunir o Povo do Senhor e a realizar os atos sagrados. Por isso, de acordo com antiquíssimo costume dos cristãos, convém que suas igrejas sejam dedicadas ao Senhor mediante rito solene.

No fim do século I, eram edifícios denominados “Casa de Assembleia”; no século II, “Casa de Deus”, estes últimos normalmente foram edifícios de poderosos, que se convertiam e doavam esses edifícios para a Igreja. Isso é bem identificado por volta do ano 300 d.C., quando Constantino recebeu a evangelização de sua mãe Santa Helena. Esses espaços e outros construídos passaram a ser oficialmente os locais de oração, do culto eucarístico, da pregação da Palavra, local onde se cultivava a fé. Esse local é a igreja; ela era e é o local de encontro.

Com a vinda de Jesus Cristo, a ideia de casa de Deus, de templo, não diz respeito apenas a um edifício, mas as pessoas que formam uma comunidade, uma ecclesia, uma assembleia. Jesus havia escolhido Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). O apóstolo Paulo faz a comparação e apresenta a imagem da Igreja como um corpo, que tem como cabeça Jesus Cristo (1Cor 12). O apóstolo Pedro, em sua carta pastoral, dizia à comunidade: “Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual, um sacerdócio santo” (1Pd 2,5). Pode-se verificar que não havia uma preocupação de construir um templo, aliás, no próprio discurso de Estevão ele diz que Deus não mora em casa feita por mãos humanas (At 7,48). De qualquer forma, também no início da Igreja, os apóstolos se reuniam nas casas para rezar. Paulo estava provavelmente numa casa, estavam reunidos para a fração do pão; e como se delongou na pregação, um jovem caiu da janela (cf. Atos 20,9).

Por sua morte e ressurreição, Jesus Cristo, Nosso Senhor, tornou-se o verdadeiro e perfeito templo da Nova Aliança e com isso congregou aqueles que se tornaram o povo de Deus. Este povo santo, reunido na unidade que procede da unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, é a Igreja, o templo de Deus edificado de pedras vivas, no qual o Pai é adorado em Espírito e em verdade.

Um rito muito belo que manifesta a dignidade desta igreja de construção e nos mostra o mistério do Povo de Deus que é a Igreja.

É ao Bispo, que tem a seu cargo a cura pastoral da Igreja particular, que compete dedicar a Deus as novas Igrejas construídas dentro da sua diocese, ou aquelas nas quais já se celebram o culto. Esta celebração presidida por ele traz consigo diversos elementos que nos revelam o mistério da Igreja.

Um destes elementos é a aspersão, simultaneamente do povo e das paredes da igreja, com a água benta que o Presidente faz logo no início da celebração. Esta como lembrança do batismo um dia recebido, nos recorda que como cristãos também nós somos consagrados ao Senhor. Outro elemento é a própria oração de dedicação e unções do altar e das paredes. Neste rito, após a oração da ladainha dos santos, são depositadas as relíquias (rito opcional) de um ou alguns santos sob o altar. Em seguida o Bispo recita a oração de dedicação, oração que desenvolve amplamente a teologia sobre a Igreja, da qual este edifício é sinal. Terminada esta oração ele procede ungindo o altar e as paredes da igreja com o óleo do crisma. Unção que, na tradição judaico-cristã, é o sinal mais claro da consagração de algo para Deus. A seguir se procede com o rito da incensação do altar, do povo e das paredes. O incenso que simboliza as nossas orações que sobem ao céu. Por último, após arrumar o altar como de costume para a Santa Missa, procede-se com a iluminação da igreja, onde se acendem as velas do altar e as velas que foram colocadas nas paredes da igreja onde o bispo assinalou com a unção. Daí a missa prossegue como de costume.

Esta celebração possui uma importância muito grande para a nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e para esta Paróquia de Santa Luzia. Queremos agradecer a Deus, fonte e origem de toda bênção. Agradeçamos nossas pastorais, movimentos e comunidades. Rezemos também por aqueles (as) que nos precederam e com amor lançaram sementes de fé e de amor, muitos dos frutos, hoje nós estamos colhendo. Durante esses anos, o jovem padre Robert que ali chegou caminhou com seu povo que, ao construir o templo visível, também foi sendo edificada a igreja povo de Deus que agora tem as cortinas abertas para um horizonte ainda mais amplo de missão naquela região.

Ao dedicar uma igreja penso em tantos outros locais que necessitam de templos visíveis em nossa cidade. É muito importante que estejamos unidos nestes tempos tão difíceis apoiando os nossos irmãos que não tem espaço para se encontrarem e celebrarem o culto. Por fim, que esta dedicação da Igreja de Santa Luzia, da Gardênia Azul, possa ser vivida por todos com muita piedade e atenção e nos recordem a grande dignidade deste local onde frequentemente entramos para viver o encontro com o Pai, por Jesus Cristo no Espírito Santo através da liturgia celebrada, onde ouvimos a sua Palavra que nos impulsiona a uma vida nova e experimentamos o seu amor misericordioso.

 

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A dedicação de uma Igreja

12/11/2018 06:23 - Atualizado em 12/11/2018 06:23

Nas primícias do meu ministério episcopal como Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro tive a graça de dar início à construção da nova Igreja Matriz da Paróquia de Santa Luzia, na Gardênia Azul. Pude abrir o primeiro buraco onde seria uma das colunas e colocar um pouco de concreto iniciando assim essa obra em 2010. No dia 09 de novembro, sábado passado tive a alegria de presidir a dedicação desta Igreja. Deus seja louvado por esta graça. Deus abençoe os trabalhos do pároco, Côn. Robert Józef Chrzaszcz e de seus vigários paroquiais, diáconos e de todos os fiéis da comunidade que muito trabalharam para este dia tão importante para a vida comunitária e para a santificação do povo de Deus. É primeira igreja de nossa arquidiocese que pude iniciar e agora concluir com a solene dedicação.

Desde os primórdios, Deus se comunicou com o homem de diversas maneiras. Podemos ler, no Antigo Testamento, o Senhor que se revela a Abrão por intermédio de um anjo (Gn 18,2ss). No livro do Êxodo, Deus se manifestou a Moisés na sarça ardente (3,2) e o tornou libertador do povo de Israel.

O ato de dedicar algo ao Senhor possui suas raízes mais profundas no Antigo Testamento. Já ali encontramos a dedicação de alguns altares (Nm 7, 10-11. 84. 88), de casas (Dt 20,5) e sobretudo, as diversas e sucessivas dedicações do Templo do Senhor realizadas por Salomão (1Rs 8, 1-66), Esdras (Esd 6, 15-18) e Judas Macabeus (1Mc 4, 36-59). Esta festa tinha sua grande importância para o povo judeu, pois lhes recordava que o Templo onde realizavam suas orações era a casa do Senhor, a morada de Deus no meio deles. Esta festa também os recordava a sua dignidade de povo escolhido pelo Senhor e o seu dever de ser-lhe fiel.

Com toda razão, desde a antiguidade, dá-se o nome de “igreja” aos edifícios construídos nos quais a comunidade cristã (a igreja) se reúne para celebrar os sacramentos, ouvir a Palavra de Deus e fazer suas orações pessoais. Estas igrejas (templos), sinais visíveis da Igreja peregrina na terra e da Igreja celeste, tornam-se a casa de Deus, pois são destinadas unicamente e de modo estável a reunir o Povo do Senhor e a realizar os atos sagrados. Por isso, de acordo com antiquíssimo costume dos cristãos, convém que suas igrejas sejam dedicadas ao Senhor mediante rito solene.

No fim do século I, eram edifícios denominados “Casa de Assembleia”; no século II, “Casa de Deus”, estes últimos normalmente foram edifícios de poderosos, que se convertiam e doavam esses edifícios para a Igreja. Isso é bem identificado por volta do ano 300 d.C., quando Constantino recebeu a evangelização de sua mãe Santa Helena. Esses espaços e outros construídos passaram a ser oficialmente os locais de oração, do culto eucarístico, da pregação da Palavra, local onde se cultivava a fé. Esse local é a igreja; ela era e é o local de encontro.

Com a vinda de Jesus Cristo, a ideia de casa de Deus, de templo, não diz respeito apenas a um edifício, mas as pessoas que formam uma comunidade, uma ecclesia, uma assembleia. Jesus havia escolhido Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). O apóstolo Paulo faz a comparação e apresenta a imagem da Igreja como um corpo, que tem como cabeça Jesus Cristo (1Cor 12). O apóstolo Pedro, em sua carta pastoral, dizia à comunidade: “Do mesmo modo, também vós, como pedras vivas, formai um edifício espiritual, um sacerdócio santo” (1Pd 2,5). Pode-se verificar que não havia uma preocupação de construir um templo, aliás, no próprio discurso de Estevão ele diz que Deus não mora em casa feita por mãos humanas (At 7,48). De qualquer forma, também no início da Igreja, os apóstolos se reuniam nas casas para rezar. Paulo estava provavelmente numa casa, estavam reunidos para a fração do pão; e como se delongou na pregação, um jovem caiu da janela (cf. Atos 20,9).

Por sua morte e ressurreição, Jesus Cristo, Nosso Senhor, tornou-se o verdadeiro e perfeito templo da Nova Aliança e com isso congregou aqueles que se tornaram o povo de Deus. Este povo santo, reunido na unidade que procede da unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo, é a Igreja, o templo de Deus edificado de pedras vivas, no qual o Pai é adorado em Espírito e em verdade.

Um rito muito belo que manifesta a dignidade desta igreja de construção e nos mostra o mistério do Povo de Deus que é a Igreja.

É ao Bispo, que tem a seu cargo a cura pastoral da Igreja particular, que compete dedicar a Deus as novas Igrejas construídas dentro da sua diocese, ou aquelas nas quais já se celebram o culto. Esta celebração presidida por ele traz consigo diversos elementos que nos revelam o mistério da Igreja.

Um destes elementos é a aspersão, simultaneamente do povo e das paredes da igreja, com a água benta que o Presidente faz logo no início da celebração. Esta como lembrança do batismo um dia recebido, nos recorda que como cristãos também nós somos consagrados ao Senhor. Outro elemento é a própria oração de dedicação e unções do altar e das paredes. Neste rito, após a oração da ladainha dos santos, são depositadas as relíquias (rito opcional) de um ou alguns santos sob o altar. Em seguida o Bispo recita a oração de dedicação, oração que desenvolve amplamente a teologia sobre a Igreja, da qual este edifício é sinal. Terminada esta oração ele procede ungindo o altar e as paredes da igreja com o óleo do crisma. Unção que, na tradição judaico-cristã, é o sinal mais claro da consagração de algo para Deus. A seguir se procede com o rito da incensação do altar, do povo e das paredes. O incenso que simboliza as nossas orações que sobem ao céu. Por último, após arrumar o altar como de costume para a Santa Missa, procede-se com a iluminação da igreja, onde se acendem as velas do altar e as velas que foram colocadas nas paredes da igreja onde o bispo assinalou com a unção. Daí a missa prossegue como de costume.

Esta celebração possui uma importância muito grande para a nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e para esta Paróquia de Santa Luzia. Queremos agradecer a Deus, fonte e origem de toda bênção. Agradeçamos nossas pastorais, movimentos e comunidades. Rezemos também por aqueles (as) que nos precederam e com amor lançaram sementes de fé e de amor, muitos dos frutos, hoje nós estamos colhendo. Durante esses anos, o jovem padre Robert que ali chegou caminhou com seu povo que, ao construir o templo visível, também foi sendo edificada a igreja povo de Deus que agora tem as cortinas abertas para um horizonte ainda mais amplo de missão naquela região.

Ao dedicar uma igreja penso em tantos outros locais que necessitam de templos visíveis em nossa cidade. É muito importante que estejamos unidos nestes tempos tão difíceis apoiando os nossos irmãos que não tem espaço para se encontrarem e celebrarem o culto. Por fim, que esta dedicação da Igreja de Santa Luzia, da Gardênia Azul, possa ser vivida por todos com muita piedade e atenção e nos recordem a grande dignidade deste local onde frequentemente entramos para viver o encontro com o Pai, por Jesus Cristo no Espírito Santo através da liturgia celebrada, onde ouvimos a sua Palavra que nos impulsiona a uma vida nova e experimentamos o seu amor misericordioso.

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro