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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/11/2018

19 de Novembro de 2018

Livros do Antigo Testamento (77)

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19 de Novembro de 2018

Livros do Antigo Testamento (77)

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24/10/2018 15:27 - Atualizado em 24/10/2018 15:29

Livros do Antigo Testamento (77) 0

24/10/2018 15:27 - Atualizado em 24/10/2018 15:29

Projeto ‘Estudo Bíblico’

Livros do Antigo Testamento (77)

            Neste artigo prosseguimos na exposição destes livros, de uma parte sobre o último juiz de Israel e de outra em relação à realeza que Samuel unge em nome de Deus.

 
1. FONTES

A crítica literária detectou a existência de fontes documentais e tradicionais diversas, as quais, unidas a elementos redacionais de origem deuteronomista[1], seriam os materiais dos livros de Samuel.

Relativamente à sua antiguidade, há concordância quanto a reconhecer-lhes uma aproximação aos fatos, embora no estado atual já sejam resultado de diversos retoques sofridos na época salomônica e, inclusive, exílica.

Entre as unidades mais importantes e antigas estariam os relatos da sucessão de David (2 Sm 9-20) e da sua ascensão ao trono (1 Sm 16,1-13; 2 Sm 5,5; 8,1-18), ainda que este apresente maiores problemas: há duas versões da entrada de David ao serviço de Saul (1 Sm 16,14-23; 17,55-58), e dos relatos do atentado falhado de Saul contra David (1 Sm 18,10-11; 19,9-10), da intervenção de Jónatas a favor de David (1 Sm 19,4-7; 20,1-42), da chegada de David à terra filisteia (1 Sm 21,11-16; 27,1-12), do perdão de David a Saul (1 Sm 24 e 26) e das denúncias dos habitantes de Zif (1 Sm 23,19; 26,1).

Na mesma linha, poderiam situar-se as tradições favoráveis a Saul (1 Sm 9-11; 13-14; 31), a história da Arca (1 Sm 4-6; 2 Sm 6) e o núcleo inicial da profecia de Natan (2 Sm 7).

Pode também considerar-se como fontes a documentação oficial da corte, de que seriam reflexo às listas dos filhos de David (2 Sm 3,2-5; 5,13-16), dos oficiais de David (2 Sm 8,16-18; 20,23-26), dos heróis de David (2 Sm 23,8-39) e dos gigantes filisteus, a quem venceram (2 Sm 21,15-22), os resumos das campanhas de David e Saul (1 Sm 14,47-52; 2 Sm 5,17-25; 8,1-14), o recenseamento do povo e a compra da eira de Arauna (2 Sm 24,16-23).

A estas unidades se teriam juntado, por volta do séc. VIII, novos materiais aparecidos em círculos proféticos. Podem colocar-se neste período as tradições sobre a infância de Samuel (1 Sm 1-3), a rejeição de Saul (1 Sm 13,7b-15a; 15), a unção de David (1 Sm 16,1-13), o combate entre David e Golias (1 Sm 17) e o relato da vidente de En-Dor (1 Sm 28,3-25).

Outras unidades menores isoladas, como dois salmos (1 Sm 2,1-10; 2 Sm 22), duas lamentações de David (2 Sm 1,19-27; 3,33-34) e um oráculo (2 Sm 23,1-7) foram sendo integradas na obra, ao longo do seu processo de formação.

 
2. MENSAGEM TEOLÓGICA

Os livros de Samuel fazem parte de um grande projeto teológico, conhecido como "História Deuteronomista".

Designa-se assim o trabalho de reflexão histórico-teológico realizado cerca do ano 550 a.C. por um grupo de teólogos, guiados ideologicamente pelos princípios da teologia do Deuteronômio, a partir de fontes plurais e heterogêneas preexistentes, orais e escritas.

O seu propósito não era apresentar uma "exposição técnica’ da História, mas afirmar a sua ‘importância teológica’ a partir da dolorosa experiência do desterro na Babilônia (586 a.C.)”.

Esta história está estruturada em quatro grandes etapas:

  1. A conquista da terra (Josué);
  2. A confederação tribal (Juízes);
  3. A instituição da monarquia (Samuel);
  4. O desenvolvimento e final dramático da monarquia (Reis).
Trata-se de uma "releitura histórica" destes acontecimentos.

Os elementos redacionais, ainda que mais perceptíveis em juízes e reis, não estão ausentes nos livros de Samuel (1 Sm 2,22-36; 4,18; 7; 8; 10,17-27; 2 Sm 2,10-11; 5,4-5; 7).

Dentro deste projeto teológico, os livros de Samuel sublinham três aspectos:

  1. a origem, a natureza e as exigências da monarquia em Israel,
  2. a importância do profeta, como intérprete e mediador de Deus,
  3. e a centralidade política e religiosa de Jerusalém.
 
1. Origem, natureza e exigências da monarquia israelita:

A introdução da monarquia em Israel, como forma de governo, não esteve isenta de reticências e ambiguidades: podia supor um afastamento de Javé, o único e verdadeiro Senhor.

Além disso, os modelos monárquicos existentes em redor de Israel implicavam certa divinização do rei, e adotá-los supunha um risco acrescentado por causa das estruturas da religião javista. O equívoco desfaz-se porque o próprio Senhor dá a sua aprovação.

No entanto, permanece claro que a monarquia israelita não é democrática nem autocrática, mas teocrática. Tanto Saul como David (e Salomão) são "ungidos" de Deus e "obrigados" a manterem-se submissos à sua vontade, pois Deus é o verdadeiro rei do povo.

2. Importância do profeta:

O profeta aparece como contraponto do poder monárquico; é a memória constante do senhorio de Deus. Face à tendência institucional (2 Sm 7), significa o elemento carismático; e, perante a pretensão absolutista do poder, assegura a consciência crítica (2 Sm 12). Samuel e Natan encarnam, de maneira especial, essas funções. A História, em todas as suas instâncias (políticas, sociais, religiosas), deve estar aberta ao juízo de Deus; e o profeta é o instrumento de que Deus se serve para isso.

 
 
3. Centralidade de Jerusalém: 

Convertida por Deus em capital política e religiosa, Jerusalém passa a ser um dos sinais de identidade mais importantes do judaísmo.

Embora a sua importância política tenha decaído, a sua estrutura religiosa adquiriu grande desenvolvimento.

A teologia de Sião, expressa nos chamados "Cantos de Sião" (Sl 46; 48; 76; 87) e em grande parte da pregação de Isaías, é uma prova disso.

Os livros de Samuel sublinham intencionalmente estes aspectos (2 Sm 5; 6; 24,18-25).

Por isso, Jerusalém será também o centro de todas as instituições teológicas de Israel até ao Apocalipse (Ap 21-22).


[1] O Deuteronomista, ou simplesmente D, é uma das fontes subjacentes da Bíblia Hebraica (Tanack ou Antigo Testamento), juntamente com as fontes sacerdotais, a Javista e a Eloísta. Pode ser encontrado no livro de Deuteronômio, nos livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis, e também no livro de Jeremias. O material deuteronomístico é encontrado nos livros de Deuteronômio, Josué, Juízes, Samuel e Reis (a chamada história deuteronomista, ou DtrH). Os adjetivos deuteronômicos e Deuteronomisticos são essencialmente permutáveis: se eles são distinguidos, então o primeiro refere-se ao Deuteronômio em si, e o segundo se refere a história deuteronomista. Cf. http://histriadasreligies.blogspot.com/2013/08/a-fonte-deuteronomista-hipotese.html


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Projeto ‘Estudo Bíblico’

Livros do Antigo Testamento (77)

            Neste artigo prosseguimos na exposição destes livros, de uma parte sobre o último juiz de Israel e de outra em relação à realeza que Samuel unge em nome de Deus.

 
1. FONTES

A crítica literária detectou a existência de fontes documentais e tradicionais diversas, as quais, unidas a elementos redacionais de origem deuteronomista[1], seriam os materiais dos livros de Samuel.

Relativamente à sua antiguidade, há concordância quanto a reconhecer-lhes uma aproximação aos fatos, embora no estado atual já sejam resultado de diversos retoques sofridos na época salomônica e, inclusive, exílica.

Entre as unidades mais importantes e antigas estariam os relatos da sucessão de David (2 Sm 9-20) e da sua ascensão ao trono (1 Sm 16,1-13; 2 Sm 5,5; 8,1-18), ainda que este apresente maiores problemas: há duas versões da entrada de David ao serviço de Saul (1 Sm 16,14-23; 17,55-58), e dos relatos do atentado falhado de Saul contra David (1 Sm 18,10-11; 19,9-10), da intervenção de Jónatas a favor de David (1 Sm 19,4-7; 20,1-42), da chegada de David à terra filisteia (1 Sm 21,11-16; 27,1-12), do perdão de David a Saul (1 Sm 24 e 26) e das denúncias dos habitantes de Zif (1 Sm 23,19; 26,1).

Na mesma linha, poderiam situar-se as tradições favoráveis a Saul (1 Sm 9-11; 13-14; 31), a história da Arca (1 Sm 4-6; 2 Sm 6) e o núcleo inicial da profecia de Natan (2 Sm 7).

Pode também considerar-se como fontes a documentação oficial da corte, de que seriam reflexo às listas dos filhos de David (2 Sm 3,2-5; 5,13-16), dos oficiais de David (2 Sm 8,16-18; 20,23-26), dos heróis de David (2 Sm 23,8-39) e dos gigantes filisteus, a quem venceram (2 Sm 21,15-22), os resumos das campanhas de David e Saul (1 Sm 14,47-52; 2 Sm 5,17-25; 8,1-14), o recenseamento do povo e a compra da eira de Arauna (2 Sm 24,16-23).

A estas unidades se teriam juntado, por volta do séc. VIII, novos materiais aparecidos em círculos proféticos. Podem colocar-se neste período as tradições sobre a infância de Samuel (1 Sm 1-3), a rejeição de Saul (1 Sm 13,7b-15a; 15), a unção de David (1 Sm 16,1-13), o combate entre David e Golias (1 Sm 17) e o relato da vidente de En-Dor (1 Sm 28,3-25).

Outras unidades menores isoladas, como dois salmos (1 Sm 2,1-10; 2 Sm 22), duas lamentações de David (2 Sm 1,19-27; 3,33-34) e um oráculo (2 Sm 23,1-7) foram sendo integradas na obra, ao longo do seu processo de formação.

 
2. MENSAGEM TEOLÓGICA

Os livros de Samuel fazem parte de um grande projeto teológico, conhecido como "História Deuteronomista".

Designa-se assim o trabalho de reflexão histórico-teológico realizado cerca do ano 550 a.C. por um grupo de teólogos, guiados ideologicamente pelos princípios da teologia do Deuteronômio, a partir de fontes plurais e heterogêneas preexistentes, orais e escritas.

O seu propósito não era apresentar uma "exposição técnica’ da História, mas afirmar a sua ‘importância teológica’ a partir da dolorosa experiência do desterro na Babilônia (586 a.C.)”.

Esta história está estruturada em quatro grandes etapas:

  1. A conquista da terra (Josué);
  2. A confederação tribal (Juízes);
  3. A instituição da monarquia (Samuel);
  4. O desenvolvimento e final dramático da monarquia (Reis).
Trata-se de uma "releitura histórica" destes acontecimentos.

Os elementos redacionais, ainda que mais perceptíveis em juízes e reis, não estão ausentes nos livros de Samuel (1 Sm 2,22-36; 4,18; 7; 8; 10,17-27; 2 Sm 2,10-11; 5,4-5; 7).

Dentro deste projeto teológico, os livros de Samuel sublinham três aspectos:

  1. a origem, a natureza e as exigências da monarquia em Israel,
  2. a importância do profeta, como intérprete e mediador de Deus,
  3. e a centralidade política e religiosa de Jerusalém.
 
1. Origem, natureza e exigências da monarquia israelita:

A introdução da monarquia em Israel, como forma de governo, não esteve isenta de reticências e ambiguidades: podia supor um afastamento de Javé, o único e verdadeiro Senhor.

Além disso, os modelos monárquicos existentes em redor de Israel implicavam certa divinização do rei, e adotá-los supunha um risco acrescentado por causa das estruturas da religião javista. O equívoco desfaz-se porque o próprio Senhor dá a sua aprovação.

No entanto, permanece claro que a monarquia israelita não é democrática nem autocrática, mas teocrática. Tanto Saul como David (e Salomão) são "ungidos" de Deus e "obrigados" a manterem-se submissos à sua vontade, pois Deus é o verdadeiro rei do povo.

2. Importância do profeta:

O profeta aparece como contraponto do poder monárquico; é a memória constante do senhorio de Deus. Face à tendência institucional (2 Sm 7), significa o elemento carismático; e, perante a pretensão absolutista do poder, assegura a consciência crítica (2 Sm 12). Samuel e Natan encarnam, de maneira especial, essas funções. A História, em todas as suas instâncias (políticas, sociais, religiosas), deve estar aberta ao juízo de Deus; e o profeta é o instrumento de que Deus se serve para isso.

 
 
3. Centralidade de Jerusalém: 

Convertida por Deus em capital política e religiosa, Jerusalém passa a ser um dos sinais de identidade mais importantes do judaísmo.

Embora a sua importância política tenha decaído, a sua estrutura religiosa adquiriu grande desenvolvimento.

A teologia de Sião, expressa nos chamados "Cantos de Sião" (Sl 46; 48; 76; 87) e em grande parte da pregação de Isaías, é uma prova disso.

Os livros de Samuel sublinham intencionalmente estes aspectos (2 Sm 5; 6; 24,18-25).

Por isso, Jerusalém será também o centro de todas as instituições teológicas de Israel até ao Apocalipse (Ap 21-22).


[1] O Deuteronomista, ou simplesmente D, é uma das fontes subjacentes da Bíblia Hebraica (Tanack ou Antigo Testamento), juntamente com as fontes sacerdotais, a Javista e a Eloísta. Pode ser encontrado no livro de Deuteronômio, nos livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis, e também no livro de Jeremias. O material deuteronomístico é encontrado nos livros de Deuteronômio, Josué, Juízes, Samuel e Reis (a chamada história deuteronomista, ou DtrH). Os adjetivos deuteronômicos e Deuteronomisticos são essencialmente permutáveis: se eles são distinguidos, então o primeiro refere-se ao Deuteronômio em si, e o segundo se refere a história deuteronomista. Cf. http://histriadasreligies.blogspot.com/2013/08/a-fonte-deuteronomista-hipotese.html


Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica