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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 21/09/2018

21 de Setembro de 2018

Eu sou o Pão da Vida

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Eu sou o Pão da Vida

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14/08/2018 00:00 - Atualizado em 15/08/2018 09:49

Eu sou o Pão da Vida 0

14/08/2018 00:00 - Atualizado em 15/08/2018 09:49

Estamos chegando ao final da leitura dominical do capítulo VI do Evangelho de São João. Caminhando para essa conclusão importante continuemos um pouco a refletir sobre as verdades contidas na perícope anterior. Domingo passado (19º do tempo comum) a liturgia, continuando a questão do pão surgida com a multiplicação dos pães, esclarece com toda a autoridade que Jesus é o pão da vida. Jesus reclama porque os judeus não quiseram compreender o sinal da multiplicação. Claramente, ele afirma: "Eu sou o pão que desceu do céu! Quem dele comer, nunca morrerá!".

Eis aqui a grande revelação do Senhor! Os judeus só conseguem ver a superfície, somente compreendem que Ele é o filho de José; não percebem, não creem que ele vem do Pai, como alimento de nossa existência: Ele é o sustento, o alimento da nossa vida. Afinal, que é viver? Será simplesmente existir, respirar, sobreviver, de qualquer modo, sem rumo, sem sentido, sem uma finalidade para a existência? Que vida seria essa? Não uma existência assim, miserável, que vemos tantos e tanto hoje vivendo? Pois bem, Jesus afirma que Ele dá o sustento verdadeiro à nossa vida; com Ele, a vida tem sentido, tem rumo, tem razão de ser; com Ele, descobriremos porque vivemos, descobrimos de onde vimos e para onde vamos, descobrimos que somos amados e somos fruto de um sonho de amor; com Ele, finalmente, temos a paz! "Eu sou o pão da vossa vida! Precisais mais de mim que vosso corpo do pão de cada dia. Quem come desse pão que sou eu, isto é, quem se alimenta de meu amor, de minhas palavras, de meu caminho, nunca viverá uma vida de mentira, de ilusão, de morte; antes, viverá de verdade.

Basta pensarmos na situação de Elias (1Rs 19,4-8). Ele tinha vencido os profetas de Baal no monte Carmelo. Jezabel, a rainha idólatra, tinha prometido vingança e queria eliminá-lo. O profeta diante da ameaça fugiu, procurando esconder-se no deserto do Sinai para encontrar inspiração e consolo no monte Horeb (outro nome para o monte Sinai), o Monte de Deus. E lá vai Elias: o caminho longo, os dias quentes do deserto, a solidão, a tensão da fuga, tudo isso traz desânimo e depressão ao profeta.

A vida lhe parece dura, amarga, sem sentido. Cansado, ele se rende e pede a morte: "Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais... Sou igual a todo mundo, não sou à palmatória do mundo... Cansei! Quero morrer!"  Quantas vezes somos como Elias, quantas vezes a existência nos pesa, o sentido da vida parece se nos esconder, quantas vezes parece que apenas sobrevivemos, mas não temos idéia para onde vai o caminho... O desengano do profeta é tão profundo que ele, deprimido, cai no sono. E o Senhor envia-lhe um anjo: “Levanta-te e come!' E ele viu junto à sua cabeça um pão assado... 'Ainda tens um longo caminho a percorrer'. Elias levantou-se, comeu e bebeu e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus”Caríssimos, também nós estamos a caminho, também nós precisamos de um pão como o de Elias.

Esse pão o Senhor nos dá, esse pão é o próprio Cristo, que hoje nos diz: "Eu sou o pão da vossa vida!" Infelizmente para nós, caríssimos, nos iludimos, procurando saciar nossa fome de vida com coisas que não alimentam o coração. É aquela antiga queixa de Deus, pela boca do profeta Isaías: "Ah! Todos que tendes sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite. Por que gastais dinheiro com aquilo que não é pão, e o produto do vosso trabalho com aquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me com toda atenção e comei o que é bom. Escutai e vinde a mim, ouvi-me e havereis de viver!" (Is 55,1-3).

O Senhor revela: "O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo!"É demais, caríssimos! É surpreendente, é inesperado! Aqui, o Senhor está falando claramente da Eucaristia: "Eu sou o pão da vossa vida, eu vos alimento de vida e de sentido de viver; e eu fico entre vós, fico convosco, alimento-vos de um modo que não esperáveis: minha união convosco é total, absoluta: eu vos dou verdadeiramente minha carne, meu corpo morto e ressuscitado, como vida da vossa vida!" Meus irmãos, não pode haver maior dom, maior intimidade, mais revigorante alimento! Os judeus murmuravam, os protestantes murmuram, mas Cristo nosso Deus, que tem palavras de vida eterna e para quem nada é impossível, nos garante: "O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo!".

A Eucaristia, comunhão no santíssimo Corpo do Senhor, não somente é alimento para o nosso caminho, não somente a sustento da nossa vida, não somente é penhor de vida eterna, como também nos dá a graça do Santo Espírito, que nos faz ser um só corpo em Cristo. Eis, que mistério tão profundo: comungando do Corpo do Senhor na Eucaristia, nós nos tornamos cada vez mais unidos no corpo do Senhor, que é a Igreja! Comunguemos, pois, e teremos força para viver o belo caminho que a o apóstolo Paulo (Ef 4,30-5,2) nos aponta: "Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmoa Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor". Eis aqui: a nossa participação no sacrifício eucarístico de Cristo, a nossa comunhão no seu corpo sacrificado e entregue amorosamente, devem nos levar a um novo modo de viver, um modo que consiste na docilidade ao Espírito do Senhor morto e ressuscitado, que significa comunhão com Deus e com os irmãos: "Sede bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo". 

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Eu sou o Pão da Vida

14/08/2018 00:00 - Atualizado em 15/08/2018 09:49

Estamos chegando ao final da leitura dominical do capítulo VI do Evangelho de São João. Caminhando para essa conclusão importante continuemos um pouco a refletir sobre as verdades contidas na perícope anterior. Domingo passado (19º do tempo comum) a liturgia, continuando a questão do pão surgida com a multiplicação dos pães, esclarece com toda a autoridade que Jesus é o pão da vida. Jesus reclama porque os judeus não quiseram compreender o sinal da multiplicação. Claramente, ele afirma: "Eu sou o pão que desceu do céu! Quem dele comer, nunca morrerá!".

Eis aqui a grande revelação do Senhor! Os judeus só conseguem ver a superfície, somente compreendem que Ele é o filho de José; não percebem, não creem que ele vem do Pai, como alimento de nossa existência: Ele é o sustento, o alimento da nossa vida. Afinal, que é viver? Será simplesmente existir, respirar, sobreviver, de qualquer modo, sem rumo, sem sentido, sem uma finalidade para a existência? Que vida seria essa? Não uma existência assim, miserável, que vemos tantos e tanto hoje vivendo? Pois bem, Jesus afirma que Ele dá o sustento verdadeiro à nossa vida; com Ele, a vida tem sentido, tem rumo, tem razão de ser; com Ele, descobriremos porque vivemos, descobrimos de onde vimos e para onde vamos, descobrimos que somos amados e somos fruto de um sonho de amor; com Ele, finalmente, temos a paz! "Eu sou o pão da vossa vida! Precisais mais de mim que vosso corpo do pão de cada dia. Quem come desse pão que sou eu, isto é, quem se alimenta de meu amor, de minhas palavras, de meu caminho, nunca viverá uma vida de mentira, de ilusão, de morte; antes, viverá de verdade.

Basta pensarmos na situação de Elias (1Rs 19,4-8). Ele tinha vencido os profetas de Baal no monte Carmelo. Jezabel, a rainha idólatra, tinha prometido vingança e queria eliminá-lo. O profeta diante da ameaça fugiu, procurando esconder-se no deserto do Sinai para encontrar inspiração e consolo no monte Horeb (outro nome para o monte Sinai), o Monte de Deus. E lá vai Elias: o caminho longo, os dias quentes do deserto, a solidão, a tensão da fuga, tudo isso traz desânimo e depressão ao profeta.

A vida lhe parece dura, amarga, sem sentido. Cansado, ele se rende e pede a morte: "Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais... Sou igual a todo mundo, não sou à palmatória do mundo... Cansei! Quero morrer!"  Quantas vezes somos como Elias, quantas vezes a existência nos pesa, o sentido da vida parece se nos esconder, quantas vezes parece que apenas sobrevivemos, mas não temos idéia para onde vai o caminho... O desengano do profeta é tão profundo que ele, deprimido, cai no sono. E o Senhor envia-lhe um anjo: “Levanta-te e come!' E ele viu junto à sua cabeça um pão assado... 'Ainda tens um longo caminho a percorrer'. Elias levantou-se, comeu e bebeu e, com a força desse alimento, andou quarenta dias e quarenta noites, até chegar ao Horeb, o monte de Deus”Caríssimos, também nós estamos a caminho, também nós precisamos de um pão como o de Elias.

Esse pão o Senhor nos dá, esse pão é o próprio Cristo, que hoje nos diz: "Eu sou o pão da vossa vida!" Infelizmente para nós, caríssimos, nos iludimos, procurando saciar nossa fome de vida com coisas que não alimentam o coração. É aquela antiga queixa de Deus, pela boca do profeta Isaías: "Ah! Todos que tendes sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite. Por que gastais dinheiro com aquilo que não é pão, e o produto do vosso trabalho com aquilo que não pode satisfazer? Ouvi-me com toda atenção e comei o que é bom. Escutai e vinde a mim, ouvi-me e havereis de viver!" (Is 55,1-3).

O Senhor revela: "O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo!"É demais, caríssimos! É surpreendente, é inesperado! Aqui, o Senhor está falando claramente da Eucaristia: "Eu sou o pão da vossa vida, eu vos alimento de vida e de sentido de viver; e eu fico entre vós, fico convosco, alimento-vos de um modo que não esperáveis: minha união convosco é total, absoluta: eu vos dou verdadeiramente minha carne, meu corpo morto e ressuscitado, como vida da vossa vida!" Meus irmãos, não pode haver maior dom, maior intimidade, mais revigorante alimento! Os judeus murmuravam, os protestantes murmuram, mas Cristo nosso Deus, que tem palavras de vida eterna e para quem nada é impossível, nos garante: "O pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo!".

A Eucaristia, comunhão no santíssimo Corpo do Senhor, não somente é alimento para o nosso caminho, não somente a sustento da nossa vida, não somente é penhor de vida eterna, como também nos dá a graça do Santo Espírito, que nos faz ser um só corpo em Cristo. Eis, que mistério tão profundo: comungando do Corpo do Senhor na Eucaristia, nós nos tornamos cada vez mais unidos no corpo do Senhor, que é a Igreja! Comunguemos, pois, e teremos força para viver o belo caminho que a o apóstolo Paulo (Ef 4,30-5,2) nos aponta: "Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmoa Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor". Eis aqui: a nossa participação no sacrifício eucarístico de Cristo, a nossa comunhão no seu corpo sacrificado e entregue amorosamente, devem nos levar a um novo modo de viver, um modo que consiste na docilidade ao Espírito do Senhor morto e ressuscitado, que significa comunhão com Deus e com os irmãos: "Sede bons uns para com os outros, sede compassivos; perdoai-vos mutuamente, como Deus vos perdoou por meio de Cristo". 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro