Arquidiocese do Rio de Janeiro

25º 18º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 17/08/2018

17 de Agosto de 2018

O pão que eu darei é a minha carne...

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Neste 19º Domingo do Tempo Comum a Igreja nos apresenta a continuação do discurso de Jesus em Jo 6. O trecho proposto, Jo 6,41-51, nos e prepara e, de certo modo, nos introduz na parte propriamente “eucarística” do discurso de Jesus em Jo 6: os vv. 52-59.[1]

Como primeira leitura, a Igreja nos apresenta o relato de 1Rs 19,4-8. O profeta Elias, depois de enfrentar os profetas de Baal no Carmelo (cf. 1Rs 18,20ss), recebe das mãos de um “mensageiro” uma mensagem de morte, que lhe fora enviada por Jezabel: “Que os deuses me façam este mal e acrescentem este outro, se amanhã a esta hora eu não tiver feito de tua vida o que fizeste da vida deles!” (cf. 1Rs 19,2). Elias foge, então, para poder salvar a própria vida. Ele vai para o deserto e, no fim do dia, sentado embaixo de uma árvore, pede a morte: “Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais” (cf. 1Rs 19,4). O profeta exprime, desse modo, o seu cansaço diante de tantas tentativas aparentemente frustradas de fazer o povo se voltar para Deus.

O texto diz que Elias, no meio de seu cansaço, angústia e dor, conseguira dormir um pouco. É quando ele recebe a visita de um outro “mensageiro”. Embora o lecionário traduza o termo hebraico aqui como “anjo”, no texto original encontramos o mesmo termo em 1Rs 19,2 e 1Rs 19,5: o termo mala’ch, mensageiro. Em 1Rs 19,2 o mensageiro trazia uma mensagem de morte, aqui, contudo, o “mensageiro” divino traz uma palavra de vida e um alimento de vida. “Levanta-te e come!” são as palavras deste mensageiro.

Quando abre os olhos, o profeta vê um “pão assado” e uma jarra de água. O termo utilizado aqui para “pão” é um termo, de certo modo, raro no AT: aparece somente em Gn 18,6; Ex 12,39; Nm 11,8; 1Rs 17,3; 1Rs 19,6; Ez 4,12 e Os 7,8. Em Ex 12,39 é o “pão” feito às pressas, porque os judeus tinham que fugir do Egito. Agora, na sua fuga, o profeta também encontra pão e encontra, também, água, assim como Deus fez brotar água da rocha para saciar a sede do povo no deserto (cf. Nm 20,11).

O texto termina com o v. 8: depois de comer e beber, o profeta “andou na força deste alimento”. O alimento lhe deu uma força, por assim dizer, sobrenatural, pois o profeta andou quarenta dias e quarenta noites, sustentado pela força desse simples alimento, até chegar ao Monte de Deus, o Horeb.

O Salmo 33(34), particularmente os vv. 8-9, aplicam-se muito bem ao momento vivido pelo profeta: O mensageiro (anjo) do Senhor vem acampar ao redor dos que o temem, e os salva. Provai e vede quão suave é o Senhor! Feliz o homem que tem nele o seu refúgio! O mensageiro (anjo) do Senhor vem até Elias. Através de suas palavras e do alimento que este mensageiro lhe apresenta, o profeta experimenta a suavidade do Senhor que o sustenta na aflição, fazendo-o caminhar até o Horeb, onde ele se refugiará dos seus inimigos, junto de Deus, que se lhe manifestará.

Esse “ser sustentado” por um pão enviado por Deus, tema que nos remete ao deserto e ao envio do “maná”, faz com que o nosso olhar se dirija para o Evangelho que nos é apresentado neste domingo. Diante do Cristo, pão vivo descido do céu (cf. Jo 6,51), tanto o maná, quanto o pão que o mensageiro dá a Elias, tornam-se sombra, figura, do verdadeiro “alimento de vida eterna” que haveria de nos ser dado em Cristo.

O trecho de Jo 6, proclamado neste 19º Domingo do Tempo Comum, pode ser dividido em duas partes. Na primeira parte, temos os vv. 41-47, onde João nos apresenta o “murmúrio” dos judeus a respeito de Jesus e o novo discurso de Jesus sobre a fé e a incredulidade. A menção do “murmúrio” nos remete ao Êxodo, onde encontramos o murmúrio do povo de Israel contra Moisés (cf. Ex 15,26; 17,3).[2] O murmúrio se dá porque Jesus havia dito ser Ele o “pão descido do céu” (v. 41). Os judeus querem saber como Jesus pode dizer que desceu do céu se eles bem conhecem sua origem.

A resposta de Jesus ao murmúrio do povo e à sua não-compreensão a respeito de quem ele é, vem na forma de uma promessa de ressurreição: Jesus lhes respondeu: “Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu o ressuscitarei no último dia (vv. 43-44). No deserto, os que murmuraram morreram e o próprio Moisés saiu-se mal por causa deles (cf. Nm 20,12). Jesus, ao contrário, convida aos que murmuram a não repetirem o mesmo gesto dos pais no deserto. Não murmureis entre vós, lhes diz o Senhor, mas creiais, pois “quem crê, possui a vida eterna” (v. 47). Essa promessa feita ao “que crê” vem introduzida de modo solene, com um duplo “amém”, um duplo “em verdade”, como costuma acontecer em outras passagens do Evangelho de João.

Entramos, então, na segunda metade dessa perícope: os vv. 48-51. Eles nos apresentam uma nova auto-revelação de Jesus: Eu sou o pão da vida (cf. v. 48). Essa expressão “Eu sou” é muito significativa em João. Ela nos lembra Ex 3,14, quando Moisés pergunta a Deus pelo nome e Deus se auto-revela como o “Eu sou”: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou até vós! Em Jo 6 essa expressão, “Eu sou”, aparece cinco vezes: 6,20; 6,35; 6,41; 6,48; 6,51. No domingo passado, o evangelho terminava exatamente como começa este v. 48: Eu sou o pão da Vida. Esta é grande revelação de Jesus a respeito de si mesmo neste cap. 6 de João.

No v. 49 Jesus faz memória do Êxodo, afirmando que os pais comeram o maná, mas morreram. Com Jesus, ao contrário, o que se dá é algo bem diverso. Sendo ele o “Pão vivo” (v. 51), quem dele comer vai viver eternamente (v. 51). O verbo “comer” é significativo neste trecho, pois ele ocorre três vezes: vv. 49.50.51b.

O evangelho termina com a última parte do v. 51: O pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo. Jesus esclarece, definitivamente, o que está em jogo aqui: trata-se de comer a “sua carne”, que “é dada” para a vida do mundo. O verbo que fez carne (Jo 1,14), haverá de se entregar na cruz, como de fato se entregou (Jo 19,30). Contudo, ele deseja estar sempre com os seus, alimentá-los, sustentá-los, por isso Ele quis permanecer conosco na Eucaristia. Sua carne foi dada para a vida do mundo, ou seja, Ele entregou-se na cruz, ofereceu-se, para dar vida ao mundo. E agora, na Eucaristia, nós o recebemos: o pão natural torna-se “pão vivo”, “sua carne”, a fim de que tenhamos vida e vida em abundância.

A segunda leitura, particularmente os últimos versículos, encaixa-se muito bem neste contexto. Nós “comemos” a Eucaristia a fim de entrarmos em comunhão com o Cristo. Ao comermos o seu Corpo e ao bebermos o seu Sangue, entramos em comunhão com seu sacrifício e devemos também nos tornar um “sacrifício vivo”. O nosso sacrifício é “viver no amor”, como nos exorta Paulo na segunda leitura: Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor (cf. Ef 5,2). Cristo “entregou-se” ao pai em sacrifício. No sacrifício que se realiza sobre nossos altares, Cristo também se “entrega” a nós. Devemos fazer da nossa vida um “sacrifício”, uma “entrega” amorosa: isso significa “viver no amor”. Vive no amor, quem não mais vive para si mesmo, mas sim para Deus e, por amor a Deus, vive também para os irmãos.



[1] Os vv. 51-58 são previstos para o 20º Domingo do Tempo Comum. Neste ano, contudo, a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, sempre transferida, no Brasil, para o domingo seguinte, interromperá a leitura sequencial de Jo 6, que retornará no dia 26 de agosto, 21º Domingo do Tempo Comum.

[2] João utiliza o verbo grego gongydzo, o mesmo encontrado em Ex 17,3. Em Ex 15,26, por sua vez, o autor sagrado utiliza o verbo diagongydzo.

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Neste 19º Domingo do Tempo Comum a Igreja nos apresenta a continuação do discurso de Jesus em Jo 6. O trecho proposto, Jo 6,41-51, nos e prepara e, de certo modo, nos introduz na parte propriamente “eucarística” do discurso de Jesus em Jo 6: os vv. 52-59.[1]

Como primeira leitura, a Igreja nos apresenta o relato de 1Rs 19,4-8. O profeta Elias, depois de enfrentar os profetas de Baal no Carmelo (cf. 1Rs 18,20ss), recebe das mãos de um “mensageiro” uma mensagem de morte, que lhe fora enviada por Jezabel: “Que os deuses me façam este mal e acrescentem este outro, se amanhã a esta hora eu não tiver feito de tua vida o que fizeste da vida deles!” (cf. 1Rs 19,2). Elias foge, então, para poder salvar a própria vida. Ele vai para o deserto e, no fim do dia, sentado embaixo de uma árvore, pede a morte: “Agora basta, Senhor! Tira a minha vida, pois não sou melhor que meus pais” (cf. 1Rs 19,4). O profeta exprime, desse modo, o seu cansaço diante de tantas tentativas aparentemente frustradas de fazer o povo se voltar para Deus.

O texto diz que Elias, no meio de seu cansaço, angústia e dor, conseguira dormir um pouco. É quando ele recebe a visita de um outro “mensageiro”. Embora o lecionário traduza o termo hebraico aqui como “anjo”, no texto original encontramos o mesmo termo em 1Rs 19,2 e 1Rs 19,5: o termo mala’ch, mensageiro. Em 1Rs 19,2 o mensageiro trazia uma mensagem de morte, aqui, contudo, o “mensageiro” divino traz uma palavra de vida e um alimento de vida. “Levanta-te e come!” são as palavras deste mensageiro.

Quando abre os olhos, o profeta vê um “pão assado” e uma jarra de água. O termo utilizado aqui para “pão” é um termo, de certo modo, raro no AT: aparece somente em Gn 18,6; Ex 12,39; Nm 11,8; 1Rs 17,3; 1Rs 19,6; Ez 4,12 e Os 7,8. Em Ex 12,39 é o “pão” feito às pressas, porque os judeus tinham que fugir do Egito. Agora, na sua fuga, o profeta também encontra pão e encontra, também, água, assim como Deus fez brotar água da rocha para saciar a sede do povo no deserto (cf. Nm 20,11).

O texto termina com o v. 8: depois de comer e beber, o profeta “andou na força deste alimento”. O alimento lhe deu uma força, por assim dizer, sobrenatural, pois o profeta andou quarenta dias e quarenta noites, sustentado pela força desse simples alimento, até chegar ao Monte de Deus, o Horeb.

O Salmo 33(34), particularmente os vv. 8-9, aplicam-se muito bem ao momento vivido pelo profeta: O mensageiro (anjo) do Senhor vem acampar ao redor dos que o temem, e os salva. Provai e vede quão suave é o Senhor! Feliz o homem que tem nele o seu refúgio! O mensageiro (anjo) do Senhor vem até Elias. Através de suas palavras e do alimento que este mensageiro lhe apresenta, o profeta experimenta a suavidade do Senhor que o sustenta na aflição, fazendo-o caminhar até o Horeb, onde ele se refugiará dos seus inimigos, junto de Deus, que se lhe manifestará.

Esse “ser sustentado” por um pão enviado por Deus, tema que nos remete ao deserto e ao envio do “maná”, faz com que o nosso olhar se dirija para o Evangelho que nos é apresentado neste domingo. Diante do Cristo, pão vivo descido do céu (cf. Jo 6,51), tanto o maná, quanto o pão que o mensageiro dá a Elias, tornam-se sombra, figura, do verdadeiro “alimento de vida eterna” que haveria de nos ser dado em Cristo.

O trecho de Jo 6, proclamado neste 19º Domingo do Tempo Comum, pode ser dividido em duas partes. Na primeira parte, temos os vv. 41-47, onde João nos apresenta o “murmúrio” dos judeus a respeito de Jesus e o novo discurso de Jesus sobre a fé e a incredulidade. A menção do “murmúrio” nos remete ao Êxodo, onde encontramos o murmúrio do povo de Israel contra Moisés (cf. Ex 15,26; 17,3).[2] O murmúrio se dá porque Jesus havia dito ser Ele o “pão descido do céu” (v. 41). Os judeus querem saber como Jesus pode dizer que desceu do céu se eles bem conhecem sua origem.

A resposta de Jesus ao murmúrio do povo e à sua não-compreensão a respeito de quem ele é, vem na forma de uma promessa de ressurreição: Jesus lhes respondeu: “Não murmureis entre vós. Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair; e eu o ressuscitarei no último dia (vv. 43-44). No deserto, os que murmuraram morreram e o próprio Moisés saiu-se mal por causa deles (cf. Nm 20,12). Jesus, ao contrário, convida aos que murmuram a não repetirem o mesmo gesto dos pais no deserto. Não murmureis entre vós, lhes diz o Senhor, mas creiais, pois “quem crê, possui a vida eterna” (v. 47). Essa promessa feita ao “que crê” vem introduzida de modo solene, com um duplo “amém”, um duplo “em verdade”, como costuma acontecer em outras passagens do Evangelho de João.

Entramos, então, na segunda metade dessa perícope: os vv. 48-51. Eles nos apresentam uma nova auto-revelação de Jesus: Eu sou o pão da vida (cf. v. 48). Essa expressão “Eu sou” é muito significativa em João. Ela nos lembra Ex 3,14, quando Moisés pergunta a Deus pelo nome e Deus se auto-revela como o “Eu sou”: Assim dirás aos filhos de Israel: Eu Sou me enviou até vós! Em Jo 6 essa expressão, “Eu sou”, aparece cinco vezes: 6,20; 6,35; 6,41; 6,48; 6,51. No domingo passado, o evangelho terminava exatamente como começa este v. 48: Eu sou o pão da Vida. Esta é grande revelação de Jesus a respeito de si mesmo neste cap. 6 de João.

No v. 49 Jesus faz memória do Êxodo, afirmando que os pais comeram o maná, mas morreram. Com Jesus, ao contrário, o que se dá é algo bem diverso. Sendo ele o “Pão vivo” (v. 51), quem dele comer vai viver eternamente (v. 51). O verbo “comer” é significativo neste trecho, pois ele ocorre três vezes: vv. 49.50.51b.

O evangelho termina com a última parte do v. 51: O pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo. Jesus esclarece, definitivamente, o que está em jogo aqui: trata-se de comer a “sua carne”, que “é dada” para a vida do mundo. O verbo que fez carne (Jo 1,14), haverá de se entregar na cruz, como de fato se entregou (Jo 19,30). Contudo, ele deseja estar sempre com os seus, alimentá-los, sustentá-los, por isso Ele quis permanecer conosco na Eucaristia. Sua carne foi dada para a vida do mundo, ou seja, Ele entregou-se na cruz, ofereceu-se, para dar vida ao mundo. E agora, na Eucaristia, nós o recebemos: o pão natural torna-se “pão vivo”, “sua carne”, a fim de que tenhamos vida e vida em abundância.

A segunda leitura, particularmente os últimos versículos, encaixa-se muito bem neste contexto. Nós “comemos” a Eucaristia a fim de entrarmos em comunhão com o Cristo. Ao comermos o seu Corpo e ao bebermos o seu Sangue, entramos em comunhão com seu sacrifício e devemos também nos tornar um “sacrifício vivo”. O nosso sacrifício é “viver no amor”, como nos exorta Paulo na segunda leitura: Vivei no amor, como Cristo nos amou e se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor (cf. Ef 5,2). Cristo “entregou-se” ao pai em sacrifício. No sacrifício que se realiza sobre nossos altares, Cristo também se “entrega” a nós. Devemos fazer da nossa vida um “sacrifício”, uma “entrega” amorosa: isso significa “viver no amor”. Vive no amor, quem não mais vive para si mesmo, mas sim para Deus e, por amor a Deus, vive também para os irmãos.



[1] Os vv. 51-58 são previstos para o 20º Domingo do Tempo Comum. Neste ano, contudo, a Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, sempre transferida, no Brasil, para o domingo seguinte, interromperá a leitura sequencial de Jo 6, que retornará no dia 26 de agosto, 21º Domingo do Tempo Comum.

[2] João utiliza o verbo grego gongydzo, o mesmo encontrado em Ex 17,3. Em Ex 15,26, por sua vez, o autor sagrado utiliza o verbo diagongydzo.

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida