Arquidiocese do Rio de Janeiro

24º 21º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 20/10/2018

20 de Outubro de 2018

Quem vem a mim nunca mais terá mais fome!

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do e-mail.
E-mail enviado com sucesso.

20 de Outubro de 2018

Quem vem a mim nunca mais terá mais fome!

Se você encontrou erro neste texto ou nesta página, por favor preencha os campos abaixo. O link da página será enviado automaticamente a ArqRio.

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do erro.
Erro relatado com sucesso, obrigado.

05/08/2018 00:00

Quem vem a mim nunca mais terá mais fome! 0

05/08/2018 00:00

Nestes domingos do ciclo de leituras dominicais B, a Igreja nos apresenta, como dissemos em nosso último artigo, publicado domingo passado, trechos de Jo 6: a multiplicação dos pães de Jo 6,1-15 (17º domingo do tempo comum) e a continuação do capítulo com o discurso de Jesus onde, pouco a pouco, Ele vai se revelando como o “pão da vida” (cf. Jo 6,35.48).

Poderíamos dividir a perícope deste domingo, Jo 6,24-35, em dois momentos. Depois de um versículo que apresenta a transição da multidão para Cafarnaum (v. 24), o texto se divide em duas partes:

a) Jo 6,25-31: Jesus exige da multidão uma compreensão mais profunda e eles lhe pedem um sinal.

b) Jo 6,32-35: Jesus interpreta a Escritura, revelando-se como o verdadeiro “pão do céu” (v. 32); “pão de Deus” (v. 33); “Pão da Vida” (v.35).

Na primeira parte, quando a multidão encontra Jesus do outro lado do mar e o interroga a respeito do modo como chegou ali, a resposta de Jesus é introduzida em tom solene com um duplo “Amén”, traduzido como “Em verdade”: “Em verdade, em verdade eu vos digo: vós me procurais não porque vistes sinais, mas porque comeste dos pães e vos saciastes” (v. 26).

Como afirma Schnackenburg, o “olhar de Jesus penetra o comportamento exterior dos homens e o desmascara” (p. 72). Eles “vêem os sinais” que Jesus realiza, mas não compreendem o seu sentido mais profundo. Seu entendimento permanece fechado. A multidão vem somente por causa do pão que comeu, ou seja, ela permanece na superficialidade, na mera exterioridade do dom material recebido, não consegue penetrar o sentido profundo da ação de Jesus.

Jesus incita a multidão a “trabalhar” não pelo alimento meramente material, que perece, mas pelo alimento que dura “para a vida eterna”. É interessante notar que Jesus lhes convida a “trabalhar” por este alimento, mas, logo em seguida, no mesmo v. 27, Jesus afirma que este alimento lhes será “dado” pelo Filho Homem, aquele que foi marcado por Deus, o Pai, com seu selo.

Ainda segundo Schnackenburg (p. 72), o uso do verbo “trabalhar” aqui é intencional. Tem em vista provocar o equívoco dos interlocutores de Jesus, que, logo em seguida, como sem ter percebido que o “alimento que dura para a vida” é um dom do Filho, vão questionar a Jesus a respeito desse “trabalho”, desse “agir” em vista desse alimento: Que faremos para trabalhar nas obras de Deus? (v. 28). Essa pergunta dá a Jesus a ocasião propícia para afirmar que a “única obra” que o Pai deseja é a “fé”: A obra de Deus é que creiais naquele que Ele enviou. Parece que, intencionalmente, o autor passa o termo “obra” do plural para o singular: a multidão quer saber sobre as “obras de Deus” e Jesus fala da “obra de Deus”; esta é a verdadeira e única obra que o Pai espera: a fé naquele que Ele enviou para dar vida ao mundo.

No final, contudo, parece que os interlocutores de Jesus retornam à incredulidade. Se, a princípio, eles parecem interessados em descobrir o caminho pelo qual devem realizar a “obra de Deus”, agora eles pedem, mais uma vez, sinais (v. 30) e apontam para o sinal do maná, recordado hoje na primeira leitura e no Salmo 77, como o sinal que os pais receberam no deserto.

Ora, na época de Jesus havia muitos que se apresentavam como pretensos Messias. Alguns autores, como Flávio Josefo, falam de tais figuras e do modo como eles prometiam realizar sinais. A multidão pede a Jesus um “sinal”, que seja tão ou mais grandioso que aquele realizado no deserto. Eles querem um sinal “do céu”, porque recordam diretamente o Salmo 77(78),24: Deu-lhes pão do céu a comer.

A multidão vê os sinais, não acredita ou não se abre para entender o sentido profundo desses mesmos sinais, mas agora pede mais sinais. São insaciáveis. Seu pedido só reforça o seu patente endurecimento de coração. Por mais que Jesus realize sinais, eles não crerão. Por isso Jesus se opõe a realizar tal pedido.

Na segunda parte do evangelho, Jesus parte da afirmação dos judeus e lhes mostra quem é o verdadeiro pão do céu. Introduzindo, de novo, seu discurso, de modo solene, com um duplo “Amém”, Jesus afirma que não foi Moisés quem lhes deu o pão do Céu. O “Meu Pai” afirma Jesus, é quem dá o “verdadeiro pão do céu”. O “maná” do deserto era, ainda, uma realidade natural. O “verdadeiro pão de Deus” é o Cristo, aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. Este é o alimento sobrenatural: Ele, o Cristo, é que realmente vem do céu (Jo 3,13).

Diante dessa afirmação de Jesus, os seus interlocutores vão repetir uma frase muito semelhante à da samaritana em Jo 4,15: Senhor, dá-nos sempre deste pão (Jo 6,34). Eles pensam, como pensou a samaritana, que se trate de algo material. A samaritana pensou numa água duradoura, e não compreendeu que Jesus falava do dom que Ele haveria de der aos que creem. Os judeus pensam que se trate de pão material, e não perceberam que Jesus falava de si mesmo.

A cena chega, então, ao seu ápice no v. 35, com a auto-revelação de Jesus como “Pão da Vida”. A frase é introduzida de modo muito particular com a expressão “Eu sou”, muito recorrente em João (cerca de 19x), que aparece aqui pela primeira vez. Tal formulação, que no AT se aplica de modo exclusivo a YHWH, ao ser aplicada a Jesus, faz com que se ressalte o seu caráter de “revelador escatológico de Deus” (Schnackenburg, p. 100), aquele que veio trazer a salvação. Jesus afirma, então, que Ele é o “Pão da Vida”. Vemos um crescendo nessa segunda parte da perícope: pão do céu, pão de Deus, pão da vida. Ao se revelar como “pão da Vida” Jesus se revela como aquele pelo qual se deve “trabalhar”: Ele mesmo é o pão que dura para a vida eterna, o pão que concede a vida eterna a todos aqueles que dele se aproximam na fé.

O texto termina com um duplo convite na forma de um paralelismo: Quem vem a mim não terá mais fome; quem crê em mim não terá mais sede. A “sede” da samaritana e a “fome” da multidão são saciados pelo Cristo. Não mais “sede” de água ou fome de “pão” comum, mas fome e sede de Deus. Essa “fome e sede de Deus” só Cristo pode saciar e, de fato sacia, dando a si mesmo a todo aquele que dele se aproxima na fé.

Nós que fomos “revestidos do homem novo”, segundo nos afirma a segunda leitura, devemos viver, também, de modo novo. Esse “modo novo” de viver é o “viver na perspectiva da fé”. Cristo se dá a nós. Aproximemo-nos d’Ele não para pedir sinais, mais para recebermos Ele mesmo, o Senhor da Vida, que sacia nossa fome. Que se faz Palavra, que se faz Pão, e Pão da Vida, para nos saciar aqui na terra e nos conduzir à vida eterna no céu!

Leia os comentários

Deixe seu comentário

Resposta ao comentário de:

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do comentário.
Comentário enviado para aprovação.

Quem vem a mim nunca mais terá mais fome!

05/08/2018 00:00

Nestes domingos do ciclo de leituras dominicais B, a Igreja nos apresenta, como dissemos em nosso último artigo, publicado domingo passado, trechos de Jo 6: a multiplicação dos pães de Jo 6,1-15 (17º domingo do tempo comum) e a continuação do capítulo com o discurso de Jesus onde, pouco a pouco, Ele vai se revelando como o “pão da vida” (cf. Jo 6,35.48).

Poderíamos dividir a perícope deste domingo, Jo 6,24-35, em dois momentos. Depois de um versículo que apresenta a transição da multidão para Cafarnaum (v. 24), o texto se divide em duas partes:

a) Jo 6,25-31: Jesus exige da multidão uma compreensão mais profunda e eles lhe pedem um sinal.

b) Jo 6,32-35: Jesus interpreta a Escritura, revelando-se como o verdadeiro “pão do céu” (v. 32); “pão de Deus” (v. 33); “Pão da Vida” (v.35).

Na primeira parte, quando a multidão encontra Jesus do outro lado do mar e o interroga a respeito do modo como chegou ali, a resposta de Jesus é introduzida em tom solene com um duplo “Amén”, traduzido como “Em verdade”: “Em verdade, em verdade eu vos digo: vós me procurais não porque vistes sinais, mas porque comeste dos pães e vos saciastes” (v. 26).

Como afirma Schnackenburg, o “olhar de Jesus penetra o comportamento exterior dos homens e o desmascara” (p. 72). Eles “vêem os sinais” que Jesus realiza, mas não compreendem o seu sentido mais profundo. Seu entendimento permanece fechado. A multidão vem somente por causa do pão que comeu, ou seja, ela permanece na superficialidade, na mera exterioridade do dom material recebido, não consegue penetrar o sentido profundo da ação de Jesus.

Jesus incita a multidão a “trabalhar” não pelo alimento meramente material, que perece, mas pelo alimento que dura “para a vida eterna”. É interessante notar que Jesus lhes convida a “trabalhar” por este alimento, mas, logo em seguida, no mesmo v. 27, Jesus afirma que este alimento lhes será “dado” pelo Filho Homem, aquele que foi marcado por Deus, o Pai, com seu selo.

Ainda segundo Schnackenburg (p. 72), o uso do verbo “trabalhar” aqui é intencional. Tem em vista provocar o equívoco dos interlocutores de Jesus, que, logo em seguida, como sem ter percebido que o “alimento que dura para a vida” é um dom do Filho, vão questionar a Jesus a respeito desse “trabalho”, desse “agir” em vista desse alimento: Que faremos para trabalhar nas obras de Deus? (v. 28). Essa pergunta dá a Jesus a ocasião propícia para afirmar que a “única obra” que o Pai deseja é a “fé”: A obra de Deus é que creiais naquele que Ele enviou. Parece que, intencionalmente, o autor passa o termo “obra” do plural para o singular: a multidão quer saber sobre as “obras de Deus” e Jesus fala da “obra de Deus”; esta é a verdadeira e única obra que o Pai espera: a fé naquele que Ele enviou para dar vida ao mundo.

No final, contudo, parece que os interlocutores de Jesus retornam à incredulidade. Se, a princípio, eles parecem interessados em descobrir o caminho pelo qual devem realizar a “obra de Deus”, agora eles pedem, mais uma vez, sinais (v. 30) e apontam para o sinal do maná, recordado hoje na primeira leitura e no Salmo 77, como o sinal que os pais receberam no deserto.

Ora, na época de Jesus havia muitos que se apresentavam como pretensos Messias. Alguns autores, como Flávio Josefo, falam de tais figuras e do modo como eles prometiam realizar sinais. A multidão pede a Jesus um “sinal”, que seja tão ou mais grandioso que aquele realizado no deserto. Eles querem um sinal “do céu”, porque recordam diretamente o Salmo 77(78),24: Deu-lhes pão do céu a comer.

A multidão vê os sinais, não acredita ou não se abre para entender o sentido profundo desses mesmos sinais, mas agora pede mais sinais. São insaciáveis. Seu pedido só reforça o seu patente endurecimento de coração. Por mais que Jesus realize sinais, eles não crerão. Por isso Jesus se opõe a realizar tal pedido.

Na segunda parte do evangelho, Jesus parte da afirmação dos judeus e lhes mostra quem é o verdadeiro pão do céu. Introduzindo, de novo, seu discurso, de modo solene, com um duplo “Amém”, Jesus afirma que não foi Moisés quem lhes deu o pão do Céu. O “Meu Pai” afirma Jesus, é quem dá o “verdadeiro pão do céu”. O “maná” do deserto era, ainda, uma realidade natural. O “verdadeiro pão de Deus” é o Cristo, aquele que desce do céu e dá vida ao mundo. Este é o alimento sobrenatural: Ele, o Cristo, é que realmente vem do céu (Jo 3,13).

Diante dessa afirmação de Jesus, os seus interlocutores vão repetir uma frase muito semelhante à da samaritana em Jo 4,15: Senhor, dá-nos sempre deste pão (Jo 6,34). Eles pensam, como pensou a samaritana, que se trate de algo material. A samaritana pensou numa água duradoura, e não compreendeu que Jesus falava do dom que Ele haveria de der aos que creem. Os judeus pensam que se trate de pão material, e não perceberam que Jesus falava de si mesmo.

A cena chega, então, ao seu ápice no v. 35, com a auto-revelação de Jesus como “Pão da Vida”. A frase é introduzida de modo muito particular com a expressão “Eu sou”, muito recorrente em João (cerca de 19x), que aparece aqui pela primeira vez. Tal formulação, que no AT se aplica de modo exclusivo a YHWH, ao ser aplicada a Jesus, faz com que se ressalte o seu caráter de “revelador escatológico de Deus” (Schnackenburg, p. 100), aquele que veio trazer a salvação. Jesus afirma, então, que Ele é o “Pão da Vida”. Vemos um crescendo nessa segunda parte da perícope: pão do céu, pão de Deus, pão da vida. Ao se revelar como “pão da Vida” Jesus se revela como aquele pelo qual se deve “trabalhar”: Ele mesmo é o pão que dura para a vida eterna, o pão que concede a vida eterna a todos aqueles que dele se aproximam na fé.

O texto termina com um duplo convite na forma de um paralelismo: Quem vem a mim não terá mais fome; quem crê em mim não terá mais sede. A “sede” da samaritana e a “fome” da multidão são saciados pelo Cristo. Não mais “sede” de água ou fome de “pão” comum, mas fome e sede de Deus. Essa “fome e sede de Deus” só Cristo pode saciar e, de fato sacia, dando a si mesmo a todo aquele que dele se aproxima na fé.

Nós que fomos “revestidos do homem novo”, segundo nos afirma a segunda leitura, devemos viver, também, de modo novo. Esse “modo novo” de viver é o “viver na perspectiva da fé”. Cristo se dá a nós. Aproximemo-nos d’Ele não para pedir sinais, mais para recebermos Ele mesmo, o Senhor da Vida, que sacia nossa fome. Que se faz Palavra, que se faz Pão, e Pão da Vida, para nos saciar aqui na terra e nos conduzir à vida eterna no céu!

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida