Arquidiocese do Rio de Janeiro

25º 18º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 17/08/2018

17 de Agosto de 2018

“Tudo para a maior glória de Deus” (+ AMDG)

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“Tudo para a maior glória de Deus” (+ AMDG)

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31/07/2018 11:08 - Atualizado em 31/07/2018 11:10

“Tudo para a maior glória de Deus” (+ AMDG) 0

31/07/2018 11:08 - Atualizado em 31/07/2018 11:10

Neste dia 31 de julho celebramos com a Igreja a memória de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (dos irmãos e padres jesuítas). Ainda mais especial é celebração desta festa litúrgica pelo fato que é precisamente da Companhia de Jesus que proveio toda a formação, na Argentina, do Papa Francisco, (Jorge Mário Bergoglio).

“Em tudo amar e servir” eis a vocação de Santo Inácio e o carisma que a Companhia de Jesus, em mais de 470 anos de história, com, aproximadamente, 16 mil jesuítas, vem seguindo, em cerca, de 100 países e um incansável e contínuo espírito missionário.

Santo Inácio de Loyola é muito conhecido como o “santo da contrarreforma católica”, devido à missão que foi confiada à Companhia de Jesus. Entretanto, faz-se importante ressaltar que Santo Inácio, sua vida, sua missão, sua obra e sua importância para a Igreja perpassam em muito a questão da “Contrarreforma católica”.

Sua vida e conversão demonstram o caminho empreendido conforme consta das suas biografias divulgadas: ambicioso das altas cortes de então, desde jovem, Inácio parecia saber o que queria, assim como se pode perceber pelo seu relato na sua autobiografia. Desta forma, em 1506, quando tinha, aproximadamente, 15 anos, colocou-se a serviço de Juan Velázquez de Cuéelar, ministro do Tesouro Real, durante o reinado de Fernando de Aragão. Aos cuidados de seu protetor, Inácio recebeu esmerada formação, aprimorou sua cultura e tornou-se exímio cavaleiro, mostrando inclinação pelas aventuras militares.

Mas, para melhor descrevê-lo nessa época, vale recorrer à sua autobiografia, na qual ele relata que, até os 26 anos de idade, “tinha sido um homem entregue às vaidades do mundo”. Isso nos remete a 1517, quando Juan Velázquez cai em desgraça e Inácio passa a servir ao duque de Nájera e vice-rei de Navarra, Antônio Marinque, participando de vários combates militares.

Em 20 de maio de 1521, ao tentar, sem sucesso, proteger Pamplona (capital de Navarra) dos invasores franceses, Inácio é ferido por uma bala de canhão que, além de partir sua perna direita, deixa a esquerda com lesões. O ferimento foi, certamente, um momento e uma condição para que Inácio desse um salto qualitativo em sua vida. O fato foi causado pelos homens, mas a força interior foi a graça que o iluminou e o fortaleceu radicalmente o rumo de sua vida. Devemos lembrar que Inácio era uma pessoa de fé, que foi recebida no seio de sua família e de sua época.

Desse modo, o ponto fundamental para a conversão de Inácio foi a leitura da Vida de Jesus Cristo, escrito por Ludolfo da Saxônia, e de uma coletânea da vida dos Santos. Como no castelo de Loyola não havia livro de cavalarias, para ocupar-se, Inácio lia o que lhe ofereciam. Foi após o contato com esses livros religioso que ele começou a perceber, com atenção e paciência as diferentes ressonâncias em seu interior. Por meio de auto-observação, ele passou a notar que as ambições mundanas lhe causavam alegrias efêmeras, menos prazeres, ao passo que a entrega a Jesus Cristo lhe enchia o coração de uma alegria duradoura. Essa consolação – linguagem usada na espiritualidade inaciana – foi, para Inácio, um sinal de Deus.

Já recuperado e com forte desejo de mudanças em sal vida, Inácio decidiu partir rumo a Jerusalém. Saindo de Loyola, ele seguiu em peregrinação para Montserrat. No caminho, doou suas roupas de fidalgo a um pobre, passando a usar trajes mais rústicos. A espada também foi deixada no altar da Igreja de Nossa Senhora de Montserrat, após passar toda uma noite em vigília de oração. Com isto, Inácio punha-se como cavaleiro do Divino Rei, é o conhecido trecho da deposição de suas armas.

Em Manresa, Inácio abrigou-se numa cova. Vivendo como eremita e mendigo, passou as mais duras e exigentes necessidades. Mas seu objetivo era maior: queria ter tranquilidade para fazer anotações num caderno que, mais tarde, transformar-se-ia no livro dos Exercícios Espirituais, o mais importante da espiritualidade inaciana e que até hoje é aplicado pelos jesuítas padres, irmãos e leigos que seguem a senda iniciada por Inácio.

Inácio foi aprendendo as novas lições de vida. Constava e registrava com muita lealdade o que estava vivenciando. Foi um processo de honesto discernimento espiritual. Com generosidade, assumiu todas as consequências de sua vida.

Após deixar sua vida de eremita em Manresa, Inácio seguiu em sua longa peregrinação até Jerusalém, onde permaneceu por um tempo. De volta à Europa, sofreu perseguições e incompreensões. Essas experiências fazem-no perceber que era necessário estudar para melhor ajudar os outros. A cidade escolhida para dedicar-se aos estudos de Filosofia e Teologia foi Paris (França), onde conseguiu agrupar colegas a quem passou a chamar de “companheiros” ou “amigos no Senhor”.

Esse foi o primeiro esboço do que, mais tarde, seria a Companhia de Jesus. Pode-se afirmar que, mais do que força interna, o que mobilizou Inácio convertido a procurar e ir às pessoas de seu entorno foi a graça própria daquela sua mudança: sair de um egoísmo arraigado, cheio de vaidades, para um desejo que crescia de dentro para fora de “ser para os outros”, ou seja” ajudar as almas”, em linguagem bem cara aos jesuítas.

Em 14 de agosto de 1534, na Capela de Montemartre, Inácio e seis companheiros (Francisco Xavier, Pedro Fabro, Afonso Bobadilha, Diogo Laínez, Afonso Salmeirão e Simão Rodrigues) fazem voto de dedicarem-se ao bem dos homens, imitando Cristo, peregrinar a Jerusalém e, caso não fosse possível, ir apresentar-se ao Papa, com o objetivo de colocarem-se à disposição do Pontífice. Um ano depois, os votos são renovados por eles e mais três outros companheiros (Claudio Jaio, João Codure, Pascásio Broet). Nasceu ali o que viria a ser a Companhia de Jesus, também conhecida como Jesuítas.

Por meio da bula Regimini militantes Ecclesiae, a Companhia de Jesus foi aprovada oficialmente pelo Papa Paulo III, em 27 de setembro de 1540. O maior e mais eficaz do legado dos Exercícios Espirituais, que ele soube passar tão bem ao grupo dos primeiros jesuítas. Inácio chegou coloca-los como experiência necessária para todo candidato que quisesse entrar na Ordem. Até hoje os Exercícios Espirituais fazem parte do longo processo de formação dos jovens antes de serem aceitos definitivamente na Ordem. Essa experiência foi e continua sendo o que marca a vida de todo jesuíta e que dá a identidade como religioso na Igreja de todos os tempos.

“Entende-se, por Exercícios Espirituais, qualquer modo de examinar a consciência, meditar, contemplar, orar vocal ou mentalmente e outras atividades espirituais” (Inácio de Loyola). Trata-se, pois, de uma metodologia de desenvolvimento espiritual, proposta por Santo Inácio de Loyola. A sua primeira redação, pelo próprio Inácio, se deu no ano de 1522, refletindo sua experiência espiritual. Mais tarde, foi enriquecida com sua experiência apostólica e sua formação intelectual.

A finalidade dos EEs pode ser resumida em três grandes metas:

a) ser uma “escola de oração”, promovendo uma profunda união com Deus;

b) desenvolver as condições humanas e espirituais para que o exercitante possa tomar uma decisão importante na sua vida;

c) ser uma ajuda para a pessoa alcançar a liberdade de espírito, através da consciência do significado de sua existência, discernindo o que mais a conduz para a vida em plenitude.

Nos exercícios, não vai ser encontrado um tratado nem uma teoria, mas, sim, um roteiro de exercícios. Como um roteiro de exercícios físicos, a matéria é desenvolvida pela própria pessoa, ao praticar os exercícios. Comparando-se a exercícios musicais, ou seja, um roteiro de exercícios para aprender a tocar um instrumento musical, a beleza da matéria está no resultado que a prática dos exercícios produzirem. Com o passar do tempo, a execução da música torna-se espontânea e resulta na beleza da música, na sua afinação e na sintonia com a orquestra toda.

Em 1541, Inácio foi eleito o primeiro Superior Geral da Ordem, passando a viver em Roma (Itália). Dedicou-se à função preparando e enviando os jesuítas ao mundo todo, servindo à Igreja e escrevendo as Constituições da Companhia de Jesus. Em 31 de julho de 1556, muito debilitado, Inácio morre em Roma.

Como consequência da forma deixados disso tudo, temos a maneira de amar e de sentir a Igreja, como “esposa de Cristo Nosso Senhor e nossa mãe, a Igreja Hierárquica” (Exercícios Espirituais, 353), é outra herança deixada por Inácio.

Hoje, temos um dos filhos de Santo Inácio como Sumo Pontífice Romano, o qual por sua maneira inconfundível percebemos claramente um jesuíta. Ainda mais pela diversidade de temas atuais aos quais se propõe a levar a mensagem do Evangelho, em especial, ao tema dos refugiados que é uma grande dificuldade no mundo moderno. Com uma sólida formação espiritual, humana, afetiva, comunitária, intelectual, vemos o Papa Francisco enfrentar de forma corajoso as chagas de nossa época e convidar a todos para procurarmos solução.

Com este seu modo particular, reconhece-se no Papa Francisco um modo original de expressar a sua teologia, tanto na linguagem quanto no modo de argumentar. O lugar privilegiado da teologia bergogliana é o núcleo essencial do anúncio evangélico. Continua sendo central a figura de Jesus, que assumiu na Sua carne todo o humano. Por isso, o Papa Francisco gosta particularmente do mistério da encarnação do Filho de Deus, muito bem apreendido dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola.

Ao lado desse, os outros dois pilares da teologia do Papa Bergoglio são o mistério da cruz e o mistério trinitário. Neste último, dá-se uma ênfase especial à pessoa do Pai como fonte de toda a ternura e misericórdia, e ao Espírito Santo como artífice de imaginação e de novidade na vida da Igreja.

A teologia do Papa Francisco é uma teologia robusta, fortemente ancorada na tradição e ligada ao contexto latino-americano, mais interessada na ação pastoral do que na especulação teórica.

Ênfases características do pontífice são a Igreja “em saída” e a Igreja que responde às urgências da sociedade de hoje, não se refugiando do mundo, mas encarnando, em particular nas “periferias existenciais”, o amor de Deus pelo ser humano.

Ao mundo da economia, o Papa Bergoglio pede para não buscar a segurança no dinheiro e a lógica implacável do mercado, que geram exclusão e “desigualdade”. E, à política, ele pede a proteção dos direitos humanos, a busca do bem comum e a atenção a uma ecologia integral.

Não podia faltar a discussão sobre os temas da família e da sexualidade, incluindo as “situações irregulares”. Aqui o pontífice mostra trazer no coração a beleza do ideal evangélico, conjugado, porém, de forma realista, sobre as diversidades subjetivas e situacionais.

O Pontífice ama o estilo homilético e a linguagem simbólica. O primeiro lhe permite aquela abordagem dialógica e imediata que cria uma relação envolvente com o ouvinte. A segunda (pensemos em algumas expressões como “Igreja hospital de campanha”, “cheiro das ovelhas”, “a máfia fede”...) permite-lhe esculpir em imagens bastante eficazes o conceito que pretende transmitir.

Finalizando, amadas irmãs e amados irmãos, como nossas últimas palavras, trazemos a “Oração de Santo Inácio”, a qual é até hoje recitada por todos aqueles que seguem a espiritualidade inaciana e que se encontra no livro dos Exercícios Espirituais. Nesta inspiradíssima oração, basicamente, entregamos tudo o que somos, tudo o que temos, todas nossas experiências, todas nossas memórias, em síntese, todo nosso ser, como obra da graça divina. Peçamos à Nossa Senhora que nos coloque junto com o Filho dela, para que possamos, no mesmo amor de entrega e doação, unidos à toda Igreja, levar a mensagem do Evangelho.

Tomai, Senhor, e recebei

Toda a minha liberdade, a minha memória também.

O meu entendimento e toda a minha vontade

Tudo o que tenho e possuo, vós me destes com amor.

Todos os dons que me destes, com gratidão vos devolvo

Disponde deles, Senhor, segundo a vossa vontade.

Dai-me somente, o vosso amor, vossa graça

Isto me basta, nada mais quero pedir.

 

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31/07/2018 11:08 - Atualizado em 31/07/2018 11:10

Neste dia 31 de julho celebramos com a Igreja a memória de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus (dos irmãos e padres jesuítas). Ainda mais especial é celebração desta festa litúrgica pelo fato que é precisamente da Companhia de Jesus que proveio toda a formação, na Argentina, do Papa Francisco, (Jorge Mário Bergoglio).

“Em tudo amar e servir” eis a vocação de Santo Inácio e o carisma que a Companhia de Jesus, em mais de 470 anos de história, com, aproximadamente, 16 mil jesuítas, vem seguindo, em cerca, de 100 países e um incansável e contínuo espírito missionário.

Santo Inácio de Loyola é muito conhecido como o “santo da contrarreforma católica”, devido à missão que foi confiada à Companhia de Jesus. Entretanto, faz-se importante ressaltar que Santo Inácio, sua vida, sua missão, sua obra e sua importância para a Igreja perpassam em muito a questão da “Contrarreforma católica”.

Sua vida e conversão demonstram o caminho empreendido conforme consta das suas biografias divulgadas: ambicioso das altas cortes de então, desde jovem, Inácio parecia saber o que queria, assim como se pode perceber pelo seu relato na sua autobiografia. Desta forma, em 1506, quando tinha, aproximadamente, 15 anos, colocou-se a serviço de Juan Velázquez de Cuéelar, ministro do Tesouro Real, durante o reinado de Fernando de Aragão. Aos cuidados de seu protetor, Inácio recebeu esmerada formação, aprimorou sua cultura e tornou-se exímio cavaleiro, mostrando inclinação pelas aventuras militares.

Mas, para melhor descrevê-lo nessa época, vale recorrer à sua autobiografia, na qual ele relata que, até os 26 anos de idade, “tinha sido um homem entregue às vaidades do mundo”. Isso nos remete a 1517, quando Juan Velázquez cai em desgraça e Inácio passa a servir ao duque de Nájera e vice-rei de Navarra, Antônio Marinque, participando de vários combates militares.

Em 20 de maio de 1521, ao tentar, sem sucesso, proteger Pamplona (capital de Navarra) dos invasores franceses, Inácio é ferido por uma bala de canhão que, além de partir sua perna direita, deixa a esquerda com lesões. O ferimento foi, certamente, um momento e uma condição para que Inácio desse um salto qualitativo em sua vida. O fato foi causado pelos homens, mas a força interior foi a graça que o iluminou e o fortaleceu radicalmente o rumo de sua vida. Devemos lembrar que Inácio era uma pessoa de fé, que foi recebida no seio de sua família e de sua época.

Desse modo, o ponto fundamental para a conversão de Inácio foi a leitura da Vida de Jesus Cristo, escrito por Ludolfo da Saxônia, e de uma coletânea da vida dos Santos. Como no castelo de Loyola não havia livro de cavalarias, para ocupar-se, Inácio lia o que lhe ofereciam. Foi após o contato com esses livros religioso que ele começou a perceber, com atenção e paciência as diferentes ressonâncias em seu interior. Por meio de auto-observação, ele passou a notar que as ambições mundanas lhe causavam alegrias efêmeras, menos prazeres, ao passo que a entrega a Jesus Cristo lhe enchia o coração de uma alegria duradoura. Essa consolação – linguagem usada na espiritualidade inaciana – foi, para Inácio, um sinal de Deus.

Já recuperado e com forte desejo de mudanças em sal vida, Inácio decidiu partir rumo a Jerusalém. Saindo de Loyola, ele seguiu em peregrinação para Montserrat. No caminho, doou suas roupas de fidalgo a um pobre, passando a usar trajes mais rústicos. A espada também foi deixada no altar da Igreja de Nossa Senhora de Montserrat, após passar toda uma noite em vigília de oração. Com isto, Inácio punha-se como cavaleiro do Divino Rei, é o conhecido trecho da deposição de suas armas.

Em Manresa, Inácio abrigou-se numa cova. Vivendo como eremita e mendigo, passou as mais duras e exigentes necessidades. Mas seu objetivo era maior: queria ter tranquilidade para fazer anotações num caderno que, mais tarde, transformar-se-ia no livro dos Exercícios Espirituais, o mais importante da espiritualidade inaciana e que até hoje é aplicado pelos jesuítas padres, irmãos e leigos que seguem a senda iniciada por Inácio.

Inácio foi aprendendo as novas lições de vida. Constava e registrava com muita lealdade o que estava vivenciando. Foi um processo de honesto discernimento espiritual. Com generosidade, assumiu todas as consequências de sua vida.

Após deixar sua vida de eremita em Manresa, Inácio seguiu em sua longa peregrinação até Jerusalém, onde permaneceu por um tempo. De volta à Europa, sofreu perseguições e incompreensões. Essas experiências fazem-no perceber que era necessário estudar para melhor ajudar os outros. A cidade escolhida para dedicar-se aos estudos de Filosofia e Teologia foi Paris (França), onde conseguiu agrupar colegas a quem passou a chamar de “companheiros” ou “amigos no Senhor”.

Esse foi o primeiro esboço do que, mais tarde, seria a Companhia de Jesus. Pode-se afirmar que, mais do que força interna, o que mobilizou Inácio convertido a procurar e ir às pessoas de seu entorno foi a graça própria daquela sua mudança: sair de um egoísmo arraigado, cheio de vaidades, para um desejo que crescia de dentro para fora de “ser para os outros”, ou seja” ajudar as almas”, em linguagem bem cara aos jesuítas.

Em 14 de agosto de 1534, na Capela de Montemartre, Inácio e seis companheiros (Francisco Xavier, Pedro Fabro, Afonso Bobadilha, Diogo Laínez, Afonso Salmeirão e Simão Rodrigues) fazem voto de dedicarem-se ao bem dos homens, imitando Cristo, peregrinar a Jerusalém e, caso não fosse possível, ir apresentar-se ao Papa, com o objetivo de colocarem-se à disposição do Pontífice. Um ano depois, os votos são renovados por eles e mais três outros companheiros (Claudio Jaio, João Codure, Pascásio Broet). Nasceu ali o que viria a ser a Companhia de Jesus, também conhecida como Jesuítas.

Por meio da bula Regimini militantes Ecclesiae, a Companhia de Jesus foi aprovada oficialmente pelo Papa Paulo III, em 27 de setembro de 1540. O maior e mais eficaz do legado dos Exercícios Espirituais, que ele soube passar tão bem ao grupo dos primeiros jesuítas. Inácio chegou coloca-los como experiência necessária para todo candidato que quisesse entrar na Ordem. Até hoje os Exercícios Espirituais fazem parte do longo processo de formação dos jovens antes de serem aceitos definitivamente na Ordem. Essa experiência foi e continua sendo o que marca a vida de todo jesuíta e que dá a identidade como religioso na Igreja de todos os tempos.

“Entende-se, por Exercícios Espirituais, qualquer modo de examinar a consciência, meditar, contemplar, orar vocal ou mentalmente e outras atividades espirituais” (Inácio de Loyola). Trata-se, pois, de uma metodologia de desenvolvimento espiritual, proposta por Santo Inácio de Loyola. A sua primeira redação, pelo próprio Inácio, se deu no ano de 1522, refletindo sua experiência espiritual. Mais tarde, foi enriquecida com sua experiência apostólica e sua formação intelectual.

A finalidade dos EEs pode ser resumida em três grandes metas:

a) ser uma “escola de oração”, promovendo uma profunda união com Deus;

b) desenvolver as condições humanas e espirituais para que o exercitante possa tomar uma decisão importante na sua vida;

c) ser uma ajuda para a pessoa alcançar a liberdade de espírito, através da consciência do significado de sua existência, discernindo o que mais a conduz para a vida em plenitude.

Nos exercícios, não vai ser encontrado um tratado nem uma teoria, mas, sim, um roteiro de exercícios. Como um roteiro de exercícios físicos, a matéria é desenvolvida pela própria pessoa, ao praticar os exercícios. Comparando-se a exercícios musicais, ou seja, um roteiro de exercícios para aprender a tocar um instrumento musical, a beleza da matéria está no resultado que a prática dos exercícios produzirem. Com o passar do tempo, a execução da música torna-se espontânea e resulta na beleza da música, na sua afinação e na sintonia com a orquestra toda.

Em 1541, Inácio foi eleito o primeiro Superior Geral da Ordem, passando a viver em Roma (Itália). Dedicou-se à função preparando e enviando os jesuítas ao mundo todo, servindo à Igreja e escrevendo as Constituições da Companhia de Jesus. Em 31 de julho de 1556, muito debilitado, Inácio morre em Roma.

Como consequência da forma deixados disso tudo, temos a maneira de amar e de sentir a Igreja, como “esposa de Cristo Nosso Senhor e nossa mãe, a Igreja Hierárquica” (Exercícios Espirituais, 353), é outra herança deixada por Inácio.

Hoje, temos um dos filhos de Santo Inácio como Sumo Pontífice Romano, o qual por sua maneira inconfundível percebemos claramente um jesuíta. Ainda mais pela diversidade de temas atuais aos quais se propõe a levar a mensagem do Evangelho, em especial, ao tema dos refugiados que é uma grande dificuldade no mundo moderno. Com uma sólida formação espiritual, humana, afetiva, comunitária, intelectual, vemos o Papa Francisco enfrentar de forma corajoso as chagas de nossa época e convidar a todos para procurarmos solução.

Com este seu modo particular, reconhece-se no Papa Francisco um modo original de expressar a sua teologia, tanto na linguagem quanto no modo de argumentar. O lugar privilegiado da teologia bergogliana é o núcleo essencial do anúncio evangélico. Continua sendo central a figura de Jesus, que assumiu na Sua carne todo o humano. Por isso, o Papa Francisco gosta particularmente do mistério da encarnação do Filho de Deus, muito bem apreendido dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola.

Ao lado desse, os outros dois pilares da teologia do Papa Bergoglio são o mistério da cruz e o mistério trinitário. Neste último, dá-se uma ênfase especial à pessoa do Pai como fonte de toda a ternura e misericórdia, e ao Espírito Santo como artífice de imaginação e de novidade na vida da Igreja.

A teologia do Papa Francisco é uma teologia robusta, fortemente ancorada na tradição e ligada ao contexto latino-americano, mais interessada na ação pastoral do que na especulação teórica.

Ênfases características do pontífice são a Igreja “em saída” e a Igreja que responde às urgências da sociedade de hoje, não se refugiando do mundo, mas encarnando, em particular nas “periferias existenciais”, o amor de Deus pelo ser humano.

Ao mundo da economia, o Papa Bergoglio pede para não buscar a segurança no dinheiro e a lógica implacável do mercado, que geram exclusão e “desigualdade”. E, à política, ele pede a proteção dos direitos humanos, a busca do bem comum e a atenção a uma ecologia integral.

Não podia faltar a discussão sobre os temas da família e da sexualidade, incluindo as “situações irregulares”. Aqui o pontífice mostra trazer no coração a beleza do ideal evangélico, conjugado, porém, de forma realista, sobre as diversidades subjetivas e situacionais.

O Pontífice ama o estilo homilético e a linguagem simbólica. O primeiro lhe permite aquela abordagem dialógica e imediata que cria uma relação envolvente com o ouvinte. A segunda (pensemos em algumas expressões como “Igreja hospital de campanha”, “cheiro das ovelhas”, “a máfia fede”...) permite-lhe esculpir em imagens bastante eficazes o conceito que pretende transmitir.

Finalizando, amadas irmãs e amados irmãos, como nossas últimas palavras, trazemos a “Oração de Santo Inácio”, a qual é até hoje recitada por todos aqueles que seguem a espiritualidade inaciana e que se encontra no livro dos Exercícios Espirituais. Nesta inspiradíssima oração, basicamente, entregamos tudo o que somos, tudo o que temos, todas nossas experiências, todas nossas memórias, em síntese, todo nosso ser, como obra da graça divina. Peçamos à Nossa Senhora que nos coloque junto com o Filho dela, para que possamos, no mesmo amor de entrega e doação, unidos à toda Igreja, levar a mensagem do Evangelho.

Tomai, Senhor, e recebei

Toda a minha liberdade, a minha memória também.

O meu entendimento e toda a minha vontade

Tudo o que tenho e possuo, vós me destes com amor.

Todos os dons que me destes, com gratidão vos devolvo

Disponde deles, Senhor, segundo a vossa vontade.

Dai-me somente, o vosso amor, vossa graça

Isto me basta, nada mais quero pedir.

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro