Arquidiocese do Rio de Janeiro

25º 20º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 15/10/2018

15 de Outubro de 2018

Maria Madalena: Apóstola sim - Prostituta não

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15 de Outubro de 2018

Maria Madalena: Apóstola sim - Prostituta não

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19/07/2018 13:42 - Atualizado em 19/07/2018 13:44

Maria Madalena: Apóstola sim - Prostituta não 0

19/07/2018 13:42 - Atualizado em 19/07/2018 13:44

Este artigo nasce do desejo de compartilhar algumas sínteses, a partir de uma série de conferências organizadas pela Cátedra da Reitoria da PUC-Rio para Estudos Arquidiocesanos (CREAR), da qual nós quatro, que o assinamos, somos partícipes enquanto membros efetivos da Câmara de Colaboradores desta mesma Cátedra.

Pois bem, entre os vários estudos de figuras femininas que estamos realizando – exercício preliminar para, a partir do próximo ano de 2019, iniciar estudos sobre mulheres importantes, desde santas afamadas nos altares, passando por lideranças religiosas e pastorais, incluindo importantes participações laicas, destacadas no cenário de nossa Arquidiocese do Rio – chamou-nos muito a atenção, em primeiro lugar, a figura bíblica de Maria Madalena e o quanto subsiste nos meios eclesiásticos, do clero ao laicato, uma mentalidade diversa da maneira atual com a qual o Magistério da Igreja tem proposto sua veneração; diametralmente oposta a todos os apelos hodiernos, que vão desde a literatura romanceada, até a cultura cinematográfica que nos envolve, baseadas sem critérios – em lendas, apócrifos, heresias e interpretações estapafúrdias, como a sua presença na última ceia de Leonardo Da Vinci.

Portanto, o objetivo deste artigo sobre Santa Maria Madalena é chamar a atenção para a mudança na compreensão ocidental desta personagem bíblica, o seu protagonismo no anúncio da Ressurreição e a sua colaboração junto a Santa Suzana e Santa Joana, para o sustento da missão de Jesus em sua vida pública.

Sobre Maria Madalena, convencionalmente acredita-se ser oriunda de alguma localidade às margens do Lago Tiberíades, perto de Cafarnaum, provavelmente Magdala, hoje ao norte do Estado de Israel. Contudo, há estudos históricos embasados em indícios arqueológicos, que chegam a lançar hipóteses como a de ter sido proveniente de uma destacada família, possivelmente proprietária de uma ‘Torre’, dedução essa feita a partir do que significa ‘magdal’ em aramaico, apesar das citações que falam de lugar nos textos, até o século IV (Códice Sinaítico e Códice Vaticano) falarem somente de ‘Magadan’.

Superados esses infindáveis estudos auxiliares, podemos afirmar que a sua importância bíblica deriva não só dos acontecimentos que contam com sua presença, mas também do fato de que 12 vezes nos Evangelhos é citado o seu nome completo: Maria Madalena, não pairando qualquer dúvida nestes textos sobre de quem se trata.

Segundo São Lucas, ela acompanhou Jesus a partir da ocasião em que Ele a livrou de sete demônios. Segundo os outros evangelistas, esteve sobretudo presente com grande proximidade no período da crucificação, exercendo presença ativa no sepultamento e seus rituais fúnebres, e por fim, foi a primeira testemunha da ressurreição de Jesus Cristo.

Assim sendo, se nos ativermos aos sinais mais concretos dos testemunhos que fundamentam a nossa fé no Ressuscitado, não será errado colocá-la no cerne da fundação do cristianismo, ou na origem da revelação do que há de mais importante para ser anunciado em nossa fé: a Ressurreição. De fato, foi Maria Madalena quem presenciou a primeira aparição do Ressuscitado, a primeira a proclamar o principal dogma de nossa fé.

Além desta reflexão, nos mesmos Evangelhos canônicos, Maria Madalena aparece em várias passagens entre as mulheres chamadas Maria (nome muito comum entre os hebreus desde o protagonismo protetor da irmã de Moisés). No entanto, é preciso acompanhar a maioria dos estudos exegéticos atuais, ao deixarem claro que:

            1o A mulher adúltera que Jesus salva do apedrejamento:

            Não era Maria Madalena!

            2o A mulher que unge com perfume os pés de Jesus e os enxuga com seus cabelos:

            Não era Maria Madalena!

            3o Maria de Betânia, irmã de Lázaro:

            Não era Maria Madalena!

            4o Maria irmã de Marta:

            Não era Maria Madalena!

Colaborou com a errônea compreensão bíblica de Maria Madalena no Ocidente o fato de, no ano de 591, o Papa Gregório Magno, com a intenção de falar sobre a grandeza do perdão e da misericórdia cristã, ter feito uma homilia pastoral na qual acabou por associar o conceito de pecadora ou prostituta, à figura de Maria Madalena. E essa interpretação ganhou bastante popularidade no Ocidente desde a Idade Média, tendo inclusive constituído um tema frequente em muitas representações iconográficas e artísticas, sendo totalmente adotada pelo imaginário popular, não tardando, nesse ciclo vicioso, a criação de devoções como a ‘Madalena Penitente’ e outras mais.

Até o pequeno vasilhame, atributo diante da ressurreição que sempre aparece ao lado de Maria Madalena, não é o vaso de perfume da pecadora que lava os pés de Jesus, mas sim aquele no qual ela levava os óleos para perfumar seu corpo descido da cruz e sepultado, em cumprimento ao ritual judaico. Dito isso, quem seria capaz de esclarecer esses enganos disseminados na devoção popular? A resposta é o Magistério da Igreja, que nos últimos 50 anos tem dado passos importantes, sem escandalizar os pequeninos que muitas vezes somos cada um de nós.

Há mudanças que ocorrem paulatinamente na comunidade cristã. Uma delas, por exemplo, foi o fato de Moisés ter sido representado com chifres por mais de um milênio, devido a um erro de tradução de S. Jerônimo para o latim. Só a partir de uma revisão dessa interpretação bíblica, Moisés passou a ser representado sem chifres. Esclarecido o erro, por mais de 200 anos havia quem ainda o representasse com chifres, ou defendesse a existência de chifres até em sermões. Quanta paciência e sabedoria a Igreja precisa ter, para lidar com a mudança de uma tradição estabelecida...

Igualmente, após tantos séculos, vemos o descortinar diante de nós, de uma Santa Maria Madalena como mulher de grande força e coragem para a sua época, uma mulher destemida e independente, até por ter deixado pai e irmãos para seguir a Jesus. Nenhuma mulher, sem ser casada ou viúva, inclusive sem ter parentesco algum com Jesus, naqueles tempos de profunda discriminação, foi capaz de tão audaciosa atitude no discipulado do Senhor.

Destaca-se ainda, que o fato de ser citada no Evangelho em primeiro lugar entre outras distintas discípulas com proeminência social como Suzana e Joana, oferece-nos indício de sua liderança e influência exercida sobre as mulheres da sua época e autoridade de seu testemunho entre as discípulas.

Ademais dos escritos apócrifos, objeto também de nossos estudos, ou de tantas lendas sobre sua vida em Éfeso, passando pelos cruzados e até a hipótese de seus restos mortais terem chegado ao sul da França, faz-se mister afirmar, em contrapartida a este mar de lendas, que poucas vezes, nestes 2 mil anos no Oriente Ortodoxo, houve interpretação que aproximasse Santa Maria Madalena da mulher adúltera, da mulher que ungiu os pés de Jesus, de Maria irmã de Lázaro ou de Maria irmã de Marta; pois, em geral, sempre houve distinção dessas figuras no culto litúrgico a Santa Maria Madalena, ‘a Iluminada’. Também as tradições evangélicas, unanimemente, não confundem Maria Madalena com essas outras figuras dos Evangelhos. Jamais aproximam o conceito de pecadora ou prostituta da exemplar Maria Madalena.

Dito isso, resta-nos compartilhar a guinada do Magistério nos últimos 50 anos, especialmente no ambiente litúrgico:

Em 1969, sob o pontificado do Papa Paulo VI, foi trocado o texto do Evangelho que era lido no dia 22 de julho. Lia-se o texto do capítulo 7 de São Lucas, que não trata de Maria Madalena e sim narra o achegar-se de uma pecadora com perfumes, banhando os pés de Jesus com lágrimas, enxugando-os com os cabelos, beijando-os e ungindo-os com unguentos, obtendo do Senhor a sentença: “Teus pecados estão perdoados”. Esse texto foi substituído pelo emocionante capítulo 20 de São João, onde Jesus aparece Ressuscitado e pergunta a Maria Madalena: “Por que choras”, e em seguida ela o reconhece ao ser chamada pelo nome e então chama Jesus de ‘Mestre – Rabuni’.

Em 1988, o Papa João Paulo II, na carta Mulieris Dignitatem, muito em concordância com o pulmão oriental da Igreja, nomeou Santa Maria Madalena ‘Apóstola dos Apóstolos’. E afirmou que “na prova mais difícil da fé e fidelidade dos cristãos – a crucificação – as mulheres demonstraram serem mais fortes que os homens!”.

Em 3 de junho de 2016, por expresso desejo do Papa Francisco, a celebração litúrgica em honra a Santa Maria Madalena em 22 de julho, que até então tinha o grau de Memória, foi elevada ao mesmo grau solene de Festa dos Apóstolos, no Calendário Romano Geral, ressaltando a especial missão de Maria Madalena, como uma mulher que é exemplo e modelo para todas as mulheres na Igreja.

Diz o Decreto: “Na atualidade, quando a Igreja é chamada a refletir mais profundamente sobre a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina, pareceu conveniente que o exemplo de Santa Maria Madalena fosse também proposto aos fiéis de uma forma mais adequada. Com efeito, esta mulher conhecida por ter amado Cristo e por ter sido muito amada por Cristo, chamada por São Gregório Magno ‘testemunha da divina misericórdia’ e por São Tomás de Aquino ‘a apóstola dos apóstolos’, pode ser hoje proposta aos fiéis como paradigma do serviço das mulheres na Igreja”.

E nós, neste ano do laicato, com esta síntese de nossos estudos, escolhemos compartilhar este tema com você que nos dá a honra de sua leitura, por acreditar humildemente que é urgente chamar atenção para uma purificação da memória bíblica de Maria Madalena. Acompanhamos o ritmo que podemos observar estar ocorrendo, por decisão dos papas, desde o Concílio Vaticano II, tendo a maturidade de nos afastar das aulas ingênuas e tradicionalmente cheias de boas intenções, que tanto nos ajudaram em nossa formação cristã nos colégios católicos, cursos paroquiais e até homilias. Desejamos, assim, com alguma coragem diante de quem se surpreender com este artigo, partilhar também esta surpresa feliz para cada uma de nós e assim colaborarmos com a memória renovada desta santa corajosa e destemida. Insistimos que nosso propósito maior aqui, inspiradas pelos passos do Magistério a partir de estudos bíblicos atualizados e amplamente aceitos, é o de ajudar a extirpar da memória de Santa Maria Madalena as quatro errôneas associações bíblicas analisadas, concluindo com a síntese que intitula este artigo: nunca foi prostituta nem pecadora arrependida. E, sim, podemos honrá-la especialmente a cada 22 de julho, como a Apóstola dos Apóstolos, a primeira testemunha da Ressurreição.

Magali Monzo Rennó, Mariana Lanari Prado, Mary Galvão e Teresa Cristina Quintella

 

1) O objetivo deste artigo sobre Santa Maria Madalena é chamar a atenção para a mudança na compreensão ocidental desta personagem bíblica.

2) Foi Maria Madalena quem presenciou a primeira aparição do Ressuscitado, a primeira a proclamar o principal dogma de nossa fé.

3) Há mudanças que ocorrem paulatinamente na comunidade cristã. Quanta paciência e sabedoria a Igreja precisa ter, para lidar com a mudança de uma tradição estabelecida.

4) Resta-nos compartilhar a guinada do Magistério nos últimos 50 anos, especialmente no ambiente litúrgico.

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19/07/2018 13:42 - Atualizado em 19/07/2018 13:44

Este artigo nasce do desejo de compartilhar algumas sínteses, a partir de uma série de conferências organizadas pela Cátedra da Reitoria da PUC-Rio para Estudos Arquidiocesanos (CREAR), da qual nós quatro, que o assinamos, somos partícipes enquanto membros efetivos da Câmara de Colaboradores desta mesma Cátedra.

Pois bem, entre os vários estudos de figuras femininas que estamos realizando – exercício preliminar para, a partir do próximo ano de 2019, iniciar estudos sobre mulheres importantes, desde santas afamadas nos altares, passando por lideranças religiosas e pastorais, incluindo importantes participações laicas, destacadas no cenário de nossa Arquidiocese do Rio – chamou-nos muito a atenção, em primeiro lugar, a figura bíblica de Maria Madalena e o quanto subsiste nos meios eclesiásticos, do clero ao laicato, uma mentalidade diversa da maneira atual com a qual o Magistério da Igreja tem proposto sua veneração; diametralmente oposta a todos os apelos hodiernos, que vão desde a literatura romanceada, até a cultura cinematográfica que nos envolve, baseadas sem critérios – em lendas, apócrifos, heresias e interpretações estapafúrdias, como a sua presença na última ceia de Leonardo Da Vinci.

Portanto, o objetivo deste artigo sobre Santa Maria Madalena é chamar a atenção para a mudança na compreensão ocidental desta personagem bíblica, o seu protagonismo no anúncio da Ressurreição e a sua colaboração junto a Santa Suzana e Santa Joana, para o sustento da missão de Jesus em sua vida pública.

Sobre Maria Madalena, convencionalmente acredita-se ser oriunda de alguma localidade às margens do Lago Tiberíades, perto de Cafarnaum, provavelmente Magdala, hoje ao norte do Estado de Israel. Contudo, há estudos históricos embasados em indícios arqueológicos, que chegam a lançar hipóteses como a de ter sido proveniente de uma destacada família, possivelmente proprietária de uma ‘Torre’, dedução essa feita a partir do que significa ‘magdal’ em aramaico, apesar das citações que falam de lugar nos textos, até o século IV (Códice Sinaítico e Códice Vaticano) falarem somente de ‘Magadan’.

Superados esses infindáveis estudos auxiliares, podemos afirmar que a sua importância bíblica deriva não só dos acontecimentos que contam com sua presença, mas também do fato de que 12 vezes nos Evangelhos é citado o seu nome completo: Maria Madalena, não pairando qualquer dúvida nestes textos sobre de quem se trata.

Segundo São Lucas, ela acompanhou Jesus a partir da ocasião em que Ele a livrou de sete demônios. Segundo os outros evangelistas, esteve sobretudo presente com grande proximidade no período da crucificação, exercendo presença ativa no sepultamento e seus rituais fúnebres, e por fim, foi a primeira testemunha da ressurreição de Jesus Cristo.

Assim sendo, se nos ativermos aos sinais mais concretos dos testemunhos que fundamentam a nossa fé no Ressuscitado, não será errado colocá-la no cerne da fundação do cristianismo, ou na origem da revelação do que há de mais importante para ser anunciado em nossa fé: a Ressurreição. De fato, foi Maria Madalena quem presenciou a primeira aparição do Ressuscitado, a primeira a proclamar o principal dogma de nossa fé.

Além desta reflexão, nos mesmos Evangelhos canônicos, Maria Madalena aparece em várias passagens entre as mulheres chamadas Maria (nome muito comum entre os hebreus desde o protagonismo protetor da irmã de Moisés). No entanto, é preciso acompanhar a maioria dos estudos exegéticos atuais, ao deixarem claro que:

            1o A mulher adúltera que Jesus salva do apedrejamento:

            Não era Maria Madalena!

            2o A mulher que unge com perfume os pés de Jesus e os enxuga com seus cabelos:

            Não era Maria Madalena!

            3o Maria de Betânia, irmã de Lázaro:

            Não era Maria Madalena!

            4o Maria irmã de Marta:

            Não era Maria Madalena!

Colaborou com a errônea compreensão bíblica de Maria Madalena no Ocidente o fato de, no ano de 591, o Papa Gregório Magno, com a intenção de falar sobre a grandeza do perdão e da misericórdia cristã, ter feito uma homilia pastoral na qual acabou por associar o conceito de pecadora ou prostituta, à figura de Maria Madalena. E essa interpretação ganhou bastante popularidade no Ocidente desde a Idade Média, tendo inclusive constituído um tema frequente em muitas representações iconográficas e artísticas, sendo totalmente adotada pelo imaginário popular, não tardando, nesse ciclo vicioso, a criação de devoções como a ‘Madalena Penitente’ e outras mais.

Até o pequeno vasilhame, atributo diante da ressurreição que sempre aparece ao lado de Maria Madalena, não é o vaso de perfume da pecadora que lava os pés de Jesus, mas sim aquele no qual ela levava os óleos para perfumar seu corpo descido da cruz e sepultado, em cumprimento ao ritual judaico. Dito isso, quem seria capaz de esclarecer esses enganos disseminados na devoção popular? A resposta é o Magistério da Igreja, que nos últimos 50 anos tem dado passos importantes, sem escandalizar os pequeninos que muitas vezes somos cada um de nós.

Há mudanças que ocorrem paulatinamente na comunidade cristã. Uma delas, por exemplo, foi o fato de Moisés ter sido representado com chifres por mais de um milênio, devido a um erro de tradução de S. Jerônimo para o latim. Só a partir de uma revisão dessa interpretação bíblica, Moisés passou a ser representado sem chifres. Esclarecido o erro, por mais de 200 anos havia quem ainda o representasse com chifres, ou defendesse a existência de chifres até em sermões. Quanta paciência e sabedoria a Igreja precisa ter, para lidar com a mudança de uma tradição estabelecida...

Igualmente, após tantos séculos, vemos o descortinar diante de nós, de uma Santa Maria Madalena como mulher de grande força e coragem para a sua época, uma mulher destemida e independente, até por ter deixado pai e irmãos para seguir a Jesus. Nenhuma mulher, sem ser casada ou viúva, inclusive sem ter parentesco algum com Jesus, naqueles tempos de profunda discriminação, foi capaz de tão audaciosa atitude no discipulado do Senhor.

Destaca-se ainda, que o fato de ser citada no Evangelho em primeiro lugar entre outras distintas discípulas com proeminência social como Suzana e Joana, oferece-nos indício de sua liderança e influência exercida sobre as mulheres da sua época e autoridade de seu testemunho entre as discípulas.

Ademais dos escritos apócrifos, objeto também de nossos estudos, ou de tantas lendas sobre sua vida em Éfeso, passando pelos cruzados e até a hipótese de seus restos mortais terem chegado ao sul da França, faz-se mister afirmar, em contrapartida a este mar de lendas, que poucas vezes, nestes 2 mil anos no Oriente Ortodoxo, houve interpretação que aproximasse Santa Maria Madalena da mulher adúltera, da mulher que ungiu os pés de Jesus, de Maria irmã de Lázaro ou de Maria irmã de Marta; pois, em geral, sempre houve distinção dessas figuras no culto litúrgico a Santa Maria Madalena, ‘a Iluminada’. Também as tradições evangélicas, unanimemente, não confundem Maria Madalena com essas outras figuras dos Evangelhos. Jamais aproximam o conceito de pecadora ou prostituta da exemplar Maria Madalena.

Dito isso, resta-nos compartilhar a guinada do Magistério nos últimos 50 anos, especialmente no ambiente litúrgico:

Em 1969, sob o pontificado do Papa Paulo VI, foi trocado o texto do Evangelho que era lido no dia 22 de julho. Lia-se o texto do capítulo 7 de São Lucas, que não trata de Maria Madalena e sim narra o achegar-se de uma pecadora com perfumes, banhando os pés de Jesus com lágrimas, enxugando-os com os cabelos, beijando-os e ungindo-os com unguentos, obtendo do Senhor a sentença: “Teus pecados estão perdoados”. Esse texto foi substituído pelo emocionante capítulo 20 de São João, onde Jesus aparece Ressuscitado e pergunta a Maria Madalena: “Por que choras”, e em seguida ela o reconhece ao ser chamada pelo nome e então chama Jesus de ‘Mestre – Rabuni’.

Em 1988, o Papa João Paulo II, na carta Mulieris Dignitatem, muito em concordância com o pulmão oriental da Igreja, nomeou Santa Maria Madalena ‘Apóstola dos Apóstolos’. E afirmou que “na prova mais difícil da fé e fidelidade dos cristãos – a crucificação – as mulheres demonstraram serem mais fortes que os homens!”.

Em 3 de junho de 2016, por expresso desejo do Papa Francisco, a celebração litúrgica em honra a Santa Maria Madalena em 22 de julho, que até então tinha o grau de Memória, foi elevada ao mesmo grau solene de Festa dos Apóstolos, no Calendário Romano Geral, ressaltando a especial missão de Maria Madalena, como uma mulher que é exemplo e modelo para todas as mulheres na Igreja.

Diz o Decreto: “Na atualidade, quando a Igreja é chamada a refletir mais profundamente sobre a dignidade da mulher, a nova evangelização e a grandeza do mistério da misericórdia divina, pareceu conveniente que o exemplo de Santa Maria Madalena fosse também proposto aos fiéis de uma forma mais adequada. Com efeito, esta mulher conhecida por ter amado Cristo e por ter sido muito amada por Cristo, chamada por São Gregório Magno ‘testemunha da divina misericórdia’ e por São Tomás de Aquino ‘a apóstola dos apóstolos’, pode ser hoje proposta aos fiéis como paradigma do serviço das mulheres na Igreja”.

E nós, neste ano do laicato, com esta síntese de nossos estudos, escolhemos compartilhar este tema com você que nos dá a honra de sua leitura, por acreditar humildemente que é urgente chamar atenção para uma purificação da memória bíblica de Maria Madalena. Acompanhamos o ritmo que podemos observar estar ocorrendo, por decisão dos papas, desde o Concílio Vaticano II, tendo a maturidade de nos afastar das aulas ingênuas e tradicionalmente cheias de boas intenções, que tanto nos ajudaram em nossa formação cristã nos colégios católicos, cursos paroquiais e até homilias. Desejamos, assim, com alguma coragem diante de quem se surpreender com este artigo, partilhar também esta surpresa feliz para cada uma de nós e assim colaborarmos com a memória renovada desta santa corajosa e destemida. Insistimos que nosso propósito maior aqui, inspiradas pelos passos do Magistério a partir de estudos bíblicos atualizados e amplamente aceitos, é o de ajudar a extirpar da memória de Santa Maria Madalena as quatro errôneas associações bíblicas analisadas, concluindo com a síntese que intitula este artigo: nunca foi prostituta nem pecadora arrependida. E, sim, podemos honrá-la especialmente a cada 22 de julho, como a Apóstola dos Apóstolos, a primeira testemunha da Ressurreição.

Magali Monzo Rennó, Mariana Lanari Prado, Mary Galvão e Teresa Cristina Quintella

 

1) O objetivo deste artigo sobre Santa Maria Madalena é chamar a atenção para a mudança na compreensão ocidental desta personagem bíblica.

2) Foi Maria Madalena quem presenciou a primeira aparição do Ressuscitado, a primeira a proclamar o principal dogma de nossa fé.

3) Há mudanças que ocorrem paulatinamente na comunidade cristã. Quanta paciência e sabedoria a Igreja precisa ter, para lidar com a mudança de uma tradição estabelecida.

4) Resta-nos compartilhar a guinada do Magistério nos últimos 50 anos, especialmente no ambiente litúrgico.

Autor

Padre Edvino Alexandre Steckel

Sacerdote da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro