Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/07/2018

22 de Julho de 2018

Livros do Antigo Testamento (62)

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22 de Julho de 2018

Livros do Antigo Testamento (62)

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13/07/2018 14:11 - Atualizado em 13/07/2018 14:13

Livros do Antigo Testamento (62) 0

13/07/2018 14:11 - Atualizado em 13/07/2018 14:13

Neste artigo concluímos as nossas reflexões teológicas sobre o peculiar Livro dos Números. Um livro das trajetórias de Israel, e que reorientava o caminho longo desse povo. No pós-exílio serviu para assegurar que mesmo os dias difíceis na Babilônia não deveriam desorientar aqueles que um dia peregrinaram pelo deserto.

1. Na região de Moab (22,1-36,13)

Partiram os filhos de Israel e acamparam nas planícies de Moab, além do Jordão, defronte de Jericó. Balac, filho de Sefor, tinha visto tudo o que Israel fizera aos amorreus. Moab teve um grande medo desse povo, porque era muito numeroso, e ficou aterrorizado diante dos israelitas. E disseram aos anciãos de Madiã: “Essa multidão vai devorar todos os nossos arredores como os bois devoram a erva do campo”. Balac, filho de Sefor, reinava então em Moab. Mandou, pois, mensageiros a Balaão, filho de Beor, em Petor, sobre o rio, na terra dos filhos de Amon, para que o chamassem e lhe dissessem: “Há aqui um povo que saiu do Egito, o qual cobre a face da terra, e estabeleceu-se diante de mim” (Nm 22, 1-5).

Começando com a bênção de Balaão, as narrativas desta terceira parte apresentam um novo recenseamento dos israelitas, descrevem a nomeação de Josué para substituir Moisés, contêm algumas prescrições de caráter cultual, narram a luta contra os madianitas e a partilha de Canaã com a instalação das tribos de Ruben, Gad e parte de Manassés em Guilead, na Transjordânia, e a recapitulação das etapas do Êxodo.

2. A Bênção de Balaão

Melquisedeque era um rei de uma cidade chamada Salém, que provavelmente foi a Jerusalém primitiva, e sacerdote do Deus Altíssimo, no hebraico El Elyon (Gn 14. 18; Hb 7, 1). O nome Melquisedeque significa rei de justiça, do hebraico ‘malki-tsedeq’, enquanto que o nome de sua cidade, Salém, significa paz, segurança ou pacífico. Logo, Melquisedeque também é ‘rei de paz’ (Hb 7, 2). Por conta de seu aparecimento repentino e seu desaparecimento misterioso, muitas especulações se formaram sobre quem foi Melquisedeque (cf. Hb 7, 3). Alguns estudiosos consideram que Melquisedeque teria sido Enoque (Calmet), um anjo (Orígenes), Sem (Targuns, Jerônimo, Lutero), o Espírito Santo (Epifânio) ou até mesmo uma aparição de Cristo pré-encarnado (Ambrósio)1.

Balaão, assim como diversos personagens que vimos no Gênesis, entrou na história de Israel para glorificar a Deus. Ele ocupará dois capítulos desta narrativa para testemunhar como o Espírito de Deus atua em favor de Israel para além de suas fronteiras.

Sua obediência a Deus equivale àquela que encontramos no relato abraâmico, do também misterioso rei Melquisedeque. O mais interessante, para reafirmar o caráter extraordinário, foi a intervenção quase fabulística da mula falante de Balaão:

Balaão levantou-se de manhã, selou sua jumenta, e partiu com os chefes de Moab. O Senhor irritou-se com sua partida, e o anjo do Senhor pôs-se-lhe no caminho como obstáculo. Balaão cavalgava em sua jumenta, acompanhado de seus dois servos. A jumenta, vendo o anjo do Senhor postado no caminho, com uma espada desembainhada na mão, desviou-se e seguiu pelo campo; o adivinho a fustigava para fazê-la voltar ao caminho. Então o anjo do Senhor pôs-se num caminho estreito que passava por entre as vinhas, com um muro de cada lado. Vendo-o, a jumenta coseu-se com o muro, ferindo contra ele o pé de Balaão, que a fustigou de novo. O anjo do Senhor deteve-se de novo mais adiante em uma passagem estreita, onde não havia espaço para se desviar nem para a direita nem para a esquerda. A jumenta, ao vê-lo, deitou-se debaixo de Balaão, o qual, encolerizado, a fustigava mais fortemente com seu bastão. Então o Senhor abriu a boca da jumenta, que disse a Balaão: “Que te fiz eu? Por que me bateste já três vezes?” Porque zombaste de mim, respondeu ele. Ah, se eu tivesse uma espada na mão! Ter-te-ia já matado!”(Nm 22, 21-29).

A mula representa a obra da criação através da qual o Deus de Abraão se comunica com toda a humanidade. Sua fala traduz aquilo que o Salmo 18 afirma sobre a abrangência da auto-comunicação divina aos homens:

Narram os céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos. O dia ao outro transmite essa mensagem, e uma noite à outra a repete. Não é uma língua nem são palavras, cujo sentido não se perceba, porque por toda a terra se espalha o seu ruído, e até os confins do mundo a sua voz; aí armou Deus para o sol uma tenda(Sl 18, 2-5).

3. A nomeação de Josué para substituir Moisés

O Senhor disse a Moisés: “Sobe a esse monte Abarim, e contempla a terra que eu hei de dar aos israelitas. Depois de a teres visto, serás reunido aos teus, como o teu irmão Aarão, porque, no deserto de Sin, na contenda da assembleia, fostes rebeldes à minha ordem, não manifestando a minha santidade diante deles na questão das águas.” (Trata-se das águas de Meribá, em Cades, no deserto de Sin.) Moisés disse ao Senhor: “O Senhor Deus dos espíritos e de toda a carne escolha um homem que chefie a assembléia, que marche à sua frente e guie os seus passos, para que a assembleia do Senhor não seja como um rebanho sem pastor”. O Senhor respondeu a Moisés: “Toma Josué, filho de Nun, no qual reside o Espírito, e impõe-lhe a mão. Apresentá-lo-ás ao sacerdote Eleazar e a toda a assembleia, e o empossarás sob os seus olhos. Tu o investirás de tua autoridade, a fim de que toda a assembleia dos israelitas lhe obedeça. Ele se apresentará ao sacerdote Eleazar, que consultará por ele o oráculo de Urim diante do Senhor; é segundo essa ordem que se conduzirão, ele e toda a assembleia dos israelitas”. Moisés fez como o Senhor tinha ordenado. Tomou Josué e apresentou-o ao sacerdote Eleazar, bem como a toda a assembleia. Impôs-lhe as mãos e empossou-o assim como o Senhor tinha ordenado pela boca de Moisés (Nm 27, 12-23).

No próximo artigo falaremos um pouco mais acerca da substituição de Moisés e daquele que guiará Israel terra prometida adentro!

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13/07/2018 14:11 - Atualizado em 13/07/2018 14:13

Neste artigo concluímos as nossas reflexões teológicas sobre o peculiar Livro dos Números. Um livro das trajetórias de Israel, e que reorientava o caminho longo desse povo. No pós-exílio serviu para assegurar que mesmo os dias difíceis na Babilônia não deveriam desorientar aqueles que um dia peregrinaram pelo deserto.

1. Na região de Moab (22,1-36,13)

Partiram os filhos de Israel e acamparam nas planícies de Moab, além do Jordão, defronte de Jericó. Balac, filho de Sefor, tinha visto tudo o que Israel fizera aos amorreus. Moab teve um grande medo desse povo, porque era muito numeroso, e ficou aterrorizado diante dos israelitas. E disseram aos anciãos de Madiã: “Essa multidão vai devorar todos os nossos arredores como os bois devoram a erva do campo”. Balac, filho de Sefor, reinava então em Moab. Mandou, pois, mensageiros a Balaão, filho de Beor, em Petor, sobre o rio, na terra dos filhos de Amon, para que o chamassem e lhe dissessem: “Há aqui um povo que saiu do Egito, o qual cobre a face da terra, e estabeleceu-se diante de mim” (Nm 22, 1-5).

Começando com a bênção de Balaão, as narrativas desta terceira parte apresentam um novo recenseamento dos israelitas, descrevem a nomeação de Josué para substituir Moisés, contêm algumas prescrições de caráter cultual, narram a luta contra os madianitas e a partilha de Canaã com a instalação das tribos de Ruben, Gad e parte de Manassés em Guilead, na Transjordânia, e a recapitulação das etapas do Êxodo.

2. A Bênção de Balaão

Melquisedeque era um rei de uma cidade chamada Salém, que provavelmente foi a Jerusalém primitiva, e sacerdote do Deus Altíssimo, no hebraico El Elyon (Gn 14. 18; Hb 7, 1). O nome Melquisedeque significa rei de justiça, do hebraico ‘malki-tsedeq’, enquanto que o nome de sua cidade, Salém, significa paz, segurança ou pacífico. Logo, Melquisedeque também é ‘rei de paz’ (Hb 7, 2). Por conta de seu aparecimento repentino e seu desaparecimento misterioso, muitas especulações se formaram sobre quem foi Melquisedeque (cf. Hb 7, 3). Alguns estudiosos consideram que Melquisedeque teria sido Enoque (Calmet), um anjo (Orígenes), Sem (Targuns, Jerônimo, Lutero), o Espírito Santo (Epifânio) ou até mesmo uma aparição de Cristo pré-encarnado (Ambrósio)1.

Balaão, assim como diversos personagens que vimos no Gênesis, entrou na história de Israel para glorificar a Deus. Ele ocupará dois capítulos desta narrativa para testemunhar como o Espírito de Deus atua em favor de Israel para além de suas fronteiras.

Sua obediência a Deus equivale àquela que encontramos no relato abraâmico, do também misterioso rei Melquisedeque. O mais interessante, para reafirmar o caráter extraordinário, foi a intervenção quase fabulística da mula falante de Balaão:

Balaão levantou-se de manhã, selou sua jumenta, e partiu com os chefes de Moab. O Senhor irritou-se com sua partida, e o anjo do Senhor pôs-se-lhe no caminho como obstáculo. Balaão cavalgava em sua jumenta, acompanhado de seus dois servos. A jumenta, vendo o anjo do Senhor postado no caminho, com uma espada desembainhada na mão, desviou-se e seguiu pelo campo; o adivinho a fustigava para fazê-la voltar ao caminho. Então o anjo do Senhor pôs-se num caminho estreito que passava por entre as vinhas, com um muro de cada lado. Vendo-o, a jumenta coseu-se com o muro, ferindo contra ele o pé de Balaão, que a fustigou de novo. O anjo do Senhor deteve-se de novo mais adiante em uma passagem estreita, onde não havia espaço para se desviar nem para a direita nem para a esquerda. A jumenta, ao vê-lo, deitou-se debaixo de Balaão, o qual, encolerizado, a fustigava mais fortemente com seu bastão. Então o Senhor abriu a boca da jumenta, que disse a Balaão: “Que te fiz eu? Por que me bateste já três vezes?” Porque zombaste de mim, respondeu ele. Ah, se eu tivesse uma espada na mão! Ter-te-ia já matado!”(Nm 22, 21-29).

A mula representa a obra da criação através da qual o Deus de Abraão se comunica com toda a humanidade. Sua fala traduz aquilo que o Salmo 18 afirma sobre a abrangência da auto-comunicação divina aos homens:

Narram os céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos. O dia ao outro transmite essa mensagem, e uma noite à outra a repete. Não é uma língua nem são palavras, cujo sentido não se perceba, porque por toda a terra se espalha o seu ruído, e até os confins do mundo a sua voz; aí armou Deus para o sol uma tenda(Sl 18, 2-5).

3. A nomeação de Josué para substituir Moisés

O Senhor disse a Moisés: “Sobe a esse monte Abarim, e contempla a terra que eu hei de dar aos israelitas. Depois de a teres visto, serás reunido aos teus, como o teu irmão Aarão, porque, no deserto de Sin, na contenda da assembleia, fostes rebeldes à minha ordem, não manifestando a minha santidade diante deles na questão das águas.” (Trata-se das águas de Meribá, em Cades, no deserto de Sin.) Moisés disse ao Senhor: “O Senhor Deus dos espíritos e de toda a carne escolha um homem que chefie a assembléia, que marche à sua frente e guie os seus passos, para que a assembleia do Senhor não seja como um rebanho sem pastor”. O Senhor respondeu a Moisés: “Toma Josué, filho de Nun, no qual reside o Espírito, e impõe-lhe a mão. Apresentá-lo-ás ao sacerdote Eleazar e a toda a assembleia, e o empossarás sob os seus olhos. Tu o investirás de tua autoridade, a fim de que toda a assembleia dos israelitas lhe obedeça. Ele se apresentará ao sacerdote Eleazar, que consultará por ele o oráculo de Urim diante do Senhor; é segundo essa ordem que se conduzirão, ele e toda a assembleia dos israelitas”. Moisés fez como o Senhor tinha ordenado. Tomou Josué e apresentou-o ao sacerdote Eleazar, bem como a toda a assembleia. Impôs-lhe as mãos e empossou-o assim como o Senhor tinha ordenado pela boca de Moisés (Nm 27, 12-23).

No próximo artigo falaremos um pouco mais acerca da substituição de Moisés e daquele que guiará Israel terra prometida adentro!

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica