Arquidiocese do Rio de Janeiro

25º 17º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/07/2018

22 de Julho de 2018

Pressupostos para elaborações contemporâneas da memória de Santa Maria Madalena: historiografias da interpretação bíblico-sócio-teológica

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22 de Julho de 2018

Pressupostos para elaborações contemporâneas da memória de Santa Maria Madalena: historiografias da interpretação bíblico-sócio-teológica

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Pressupostos para elaborações contemporâneas da memória de Santa Maria Madalena: historiografias da interpretação bíblico-sócio-teológica 0

13/07/2018 14:01 - Atualizado em 13/07/2018 14:06

Pressupostos2

1. Em todo o mundo crescem manifestações artísticas em torno da memória de Santa Maria Madalena. No cinema3, no teatro, na literatura.

Inclusive, o Papa Francisco também se manifestou sobre essa memória, nomeando-a ‘apóstola’.

O Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos no Vaticano, emitiu hoje um decreto no qual, seguindo a vontade do Papa Francisco, estabelece que a memória litúrgica de Santa Maria Madalena, celebrada em 22 de julho, se eleve à categoria de festa. Na Missa e no ofício divino que se celebrarão a partir de agora neste dia, serão utilizados os textos habituais do Missal Romano e a Liturgia das Horas, mas a celebração da Missa contará com um prefácio próprio intitulado “apostolorum apostola” (apóstola dos apóstolos). A decisão de elevar a festa a celebração de Santa Maria Madalena servirá para refletir de maneira “mais profunda sobre a dignidade da mulher, sobre a nova evangelização e sobre a grandeza do mistério da misericórdia divina”, explica Dom Artur Roche, Secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos4.

O século tem sido marcado, entre outras muitas coisas, por novas concepções de gênero, mudanças copernicanas no papel e na representação coletiva de mulheres e homens.

É central nas legislações modernas a igualdade de gênero no trabalho, na política, na cultura. Avanços e desacertos em torno da silhueta da mulher moderna. O doméstico, lugar tradicional do feminino, mudou. O lado de fora de casa pertence efetivamente às mulheres, com suas benesses e desafios (nem tudo são flores).

Não seria neste cenário que se percebe a pressão pela elaboração de uma nova silhueta de Maria Madalena? Emergem exigências de que também a religião se explique e entre na dança destes novos papéis?

Porém, memórias não são produtos naturais. Não são depósitos límpidos, espelhos do passado à nossa disposição. Memórias misturam diversos planos: fatos (dados, testemunhas, objetos), imaginação (ativações do passado a partir de novos lugares), construções sociais (que em cada tempo podem-se refazer, acrescentar elementos à memória), negações (podemos esquecer ou eliminar dados)... Enfim, a memória constitui aquilo que Michel de Certeau denominou ‘uma operação historiográfica’:

Para Certeau, a história é a arte de encenação que compreende a relação entre o lugar do discurso, os procedimentos de análise e a construção de um texto. Portanto, a ‘combinação de um lugar social, de práticas científicas e de uma escrita5.

A pergunta pela identidade de um personagem no passado implicaria provavelmente na consideração de perguntas do presente que nela se veem representadas?

Madalena, a santa e a mulher bíblica, a prostituta e pecadora pública, a seguidora, a pretensa esposa do mestre ressurgem de quando em quando, em sua desafiadora multiplicidade de abordagens.

Por que queremos falar de Madalena, em pleno século XXI? O que está em jogo?

Este personagem possui um longo trajeto de interpretações, identidades, juízos de valor, até mesmo teorias da conspiração (código da Vinci) foram criadas em torno de sua existência no interior da igreja apostólica, pela ficção renascentista e contemporânea, na arte e na literatura e no cinema6.

2. Partindo do pressuposto que não existiria pensamento, comportamento, arte, religião ou quaisquer outras expressões humanas profundas que fossem alienígenas de um contexto histórico – isto é, de um centro de gravitação complexo, no qual a cultura, a sociedade, a política e a economia, a religião, estejam implicadas – não se poderia falar de identidade desta mulher bíblica, sem imaginar ao menos a gama de ingredientes envolvidos neste percurso produtivo7.

Não se está diante de uma tarefa neutra de percalços e adversa ao pensamento ‘naïf’.

3. A personagem em questão, Maria Madalena, reside sua primeira camada enclaustrada nos diversos textos bíblicos que a evocam. Digo isso diante do fato que se deva percorrer, na busca de reconstrução do perfil, como aquele de uma personagem como Maria Madalena, múltiplos filões biográficos, dentro e fora do mundo antigo, na representação plástica (afrescos e pinturas), na literatura (evangelhos apócrifos, romances, peças de teatro). Para alcançá-la, pela reconstrução da memória, serão precisas muitas operações por vias complexas!

Diante de textos bíblicos temos diversas questões. Primeiramente, eles não estão à disposição da simples leitura pessoal. Eles representam uma coletividade. São produtos de uma ação social, exprimem o assentimento de uma comunidade. São textos eclesiais.

É bem verdade que, desde Lutero, no universo protestante (século XVI), a Bíblia foi dissecada à luz da grande ideologia então moderna: o individualismo8. ‘Sola Scriptura’ foi também uma estratégia moderna que fundava no leitor, em sua individualidade, a tarefa e o método de ler a Bíblia.

Além disso, textos bíblicos são de natureza normativa, por isso, giram em torno da validade de comportamentos, identidades e conflitos de uma comunidade que orbita em torno da Bíblia ou do Livro Sagrado.

O mundo cristão sempre entendeu a Bíblia à luz da esfera dos apóstolos, como um produto eclesial (Epílogos de João, 1Pd sobre as profecias) que designa as silhuetas de uma comunidade.

A primeira consequência disso são as regras de interpretação. Não há leitor, leitura nem textos sem a instância da interpretação. Seja na fase antiga, ou mesmo aquela moderna, do século XIX, que consagrará a expressão ‘histórico-crítica’, a exegese bíblica representa o estágio prévio à hermenêutica.

A exegese9 é entendida, assim, como aquele exercício racional, científico, que prepara e configura um texto e o coloca em condições para a apropriação semântica dos textos bíblicos. Primeiramente, exegese; depois, interpretação válida de um texto.

Tudo seria simples se não se tratasse de um processo histórico. Tanto a exegese como a hermenêutica bíblica não estão isentas do passar dos tempos, das mudanças de perguntas dirigidas a textos bíblicos, de novos métodos, de ‘aggiornamenti’ do próprio magistério da Igreja.

Em suma, para construirmos uma memória de Maria Madalena, a partir daquilo que emerge destas camadas bíblicas (os textos dos Evangelhos), ter-se-ia que, de um lado, enfrentar o exercício bíblico exigente e racional da exegese (em particular aquela do texto joanino); do outro, precisaremos estabelecer diálogos intrincados e multidisciplinares com a sociologia, a história antiga e dos gêneros, e por fim, ao magistério, que representa uma forma de guardião de memórias válidas (heresias não são memórias e interpretações também?).

E por fim a irresistível vontade de falar dela!

4. O desejo de trazer Maria Madalena, tão distante de nosso tempo, para o presente, para satisfazer diversos desígnios, exigências e expectativas que queremos lhe atribuir, exige que a exegese bíblica tenha em conta ao menos dois conceitos nascidos na epistemologia da historiografia do século XX: a história das mentalidades e do imaginário10.

4.1 (Nova) História das Mentalidades

Depois da morte de Lucien Fèbvre, vários historiadores, seguindo seus passos, esforçam-se em praticar e definir a nova história das mentalidades: George Duby, Robert Mandrou e Jacques Le Goff (...). As mentalidades deram oxigênio à história11.

Lucien Fèbvre e Marc Bloch, atraídos pela psicologia coletiva e pelos fenômenos espirituais na história, abriram os enfoques de uma história nova, a das mentalidades. Seguimos alguns dos passos de Philippe Ariès, ao assumir algumas pressuposições acerca do sujeito ‘mentalidade’ na composição de novos discursos historiográficos referentes à História Medieval. Pois, afinal de contas, o que é mentalidade e quais são as relações com o imaginário na construção de sujeitos históricos?

Coisa curiosa, pode-se chamar atenção para o ‘Sitz im Leben’ da historiografia das mentalidades a partir da maturação das crises de diversas atividades intelectuais clássicas dos anos 60. Pode-se falar de uma história no apagar das luzes, um projeto historiográfico marcado pela descrença nos valores da modernidade. Esta cultura da técnica e do projeto científico iluminista passa por um mal-estar irreversível, o fim da religião do progresso.

O arcabouço social baseado sob o selvagem mecanismo de pós-industrialização, que se apresenta como uma forma de renovação dos projetos da primeira Revolução Industrial, cai por terra com a fragilidade das opções de mercados globais, radicando uma permanente crise das mobilidades (antinacionalistas) e fundando a sensação de um progresso etéreo e perambulante.

As novas gerações de historiadores, segundo Dubby, abandonando estes projetos, abrem as portas para as concepções da nova escola. Para Ariès, trata-se do esgotamento de um paradigma historiográfico que se revela como improdutivo para a ação de escrever a história no presente: acredito (é uma hipótese) que exista uma relação entre a nova reticência dos anos 1960 em relação ao desenvolvimento, ao progresso, à modernidade, e a paixão trazida pelos jovens historiadores ao estudo das sociedades pré-industriais e de sua mentalidade.

Estes novos projetos historiográficos não atribuem mais à história um sentido, isto é, uma direção. Não querem mais fazer das sociedades antigas etapas de uma evolução programada, a ponto de desconfiar da diacronia e da pesquisa sistemática das influências sofridas ou exercidas. A cultura que estudam é, então, quase tirada fora da história e apreciada da maneira como os etnólogos estruturalistas consideram a sociedade que escolheram.

Quase irônico que, enquanto os historiadores são tentados pela sincronia, as ciências humanas, ao contrário, abandonam-na com mais frequência e procuram situar-se ao longo do tempo. É por isso que as margens entre a história e as outras ciências começam a se atenuar, acontecimento mais recente do que se poderia imaginar, após cinquenta anos de uma interdisciplinaridade proclamada, porém nunca vivida.

O grande paradigma deste período, sem dúvida alguma, é Michel Foucault que, nascido filósofo, para permanecer filósofo, ele se tornou historiador, pelo movimento de seu pensamento, por motivos bastante diferentes dos que hoje asseguram a popularidade da história das mentalidades.

Assume, assim, que a história das mentalidades equivale à demanda de leitores de uma determinada história, na qual a literatura articula os lugares da construção de teorias do evento comunicativo em seus diversos sistemas culturais, pelos quais a filosofia pôde oferecer uma rede de conceitos e explicitações.

Começamos, então, a adivinhar que o homem de hoje pede a determinada história o que sempre pediu à metafísica e somente ontem às ciências humanas: uma história que assuma os temas da reflexão filosófica, mas situando-os na duração e no obstinado recomeçar das empresas humanas.

4. 2 O Conceito de Mentalidades

De modo geral, não obstante as seduções recentes da sincronia e a desconfiança em relação a ‘unidimensão’ (Edgar Morin)12, a história das mentalidades deixa transparecer uma constante preocupação em compreender melhor a passagem à modernidade.

A história das mentalidades se apoia na hipótese da chamada atitude mental, como uma forma de referência para a análise de documentos, na verdade, para a compreensão do movimento histórico. Sedimentada sobre a contribuição dos geógrafos franceses do início do século XX, a história torna-se, de fato, mais sensível às diferenças regionais do que às diferenças sociais. A região, legada à história da geografia humana, serviu de contexto necessário para uma pesquisa inovadora durante três gerações dos Annales.

Portanto, na base da abordagem das mentalidades empreende um esforço de compreensão das diferenças. Como critério, serve lembrar que a percepção da diferença de mentalidade funciona equivalente à noção de paradigma:

A principal função do historiador é identificar, definir e explicar a mudança, é essencial que ele analise os períodos de importantes mutações de valores. Essas mutações me parecem as características essenciais de qualquer periodização da história (LE GOFF, 1997, p. 23).

Para Le Goff (1997), uma sociedade não pode viver sem uma meta, nem sem sonhos. A história dos sonhos é a história do imaginário.

A história das metas é aquela dos valores, incluindo o aspecto qualitativo na história dos indivíduos e das sociedades. A noção de valor substitui a noção de ideias de força, elaboradas pela filosofia no fim do século XIX, e estreitamente relacionada à ciência da época, a uma concepção de força no campo da força, hoje já superado.

A noção de valor, dentro da perspectiva de uma história das mentalidades, conserva a preocupação de introduzir na história uma dinâmica, que permita inserir as noções de desejo e de medo, que ela restitui às sociedades do passado e à sua ética.

Inspirando-se largamente na história das representações, ela ajuda a estruturar uma história que mede o impacto sobre a evolução das sociedades. Assim como também dos aspectos econômicos, filosóficos, culturais e políticos, por ser intermediária dos valores tais como o gosto ou o desprezo dos juros, a tração do racional ou do irracional, a pesquisa do belo ou do útil.

Para os historiadores atuais, é preciso, seja qual a for a abordagem utilizada, gerar uma forma de ficcionalidade, isto é, formular uma certa plasticidade, variabilidade, nivelação em série que componham a história, assim como a aceleração que comporta, na tomada de consciência de seu papel de observador: Le Goff se interroga se é possível compreender as Cruzadas sem estudar um determinado tipo de mentalidade religiosa.

A história das mentalidades dirige a atenção exclusiva para o não conscientizado, o cotidiano, os automatismos do comportamento, os aspectos extrapessoais da consciência individual, estabelecendo, com todas as reservas críticas, um vínculo produtivo entre as mentalidades e as estruturas sociais, um vínculo complexo, mas estreito.

Portanto, pode-se dizer que, mesmo sendo um conceito de difícil redução simplista, ele permitiu ampliar o chamado território do historiador. Os conceitos de imaginário e de mentalidade provocam ou implicam uma extraordinária dilatação de repertório, de metodologia, de postura científica; pois tudo que é perceptível pelo observador social está ao alcance da análise histórica.

A ampliação da história além de suas antigas margens e, ao mesmo tempo, o retorno a seu antigo domínio, que se imagina bem explorado. Ele relê documentos utilizados por seus predecessores, mas com um novo olhar. A produção desta história das mentalidades se acha nas zonas de fronteiras do biológico e do mental, da natureza e da cultura.

Por que, então, uma história das mentalidades? A história das mentalidades é, portanto, muito mais a história das mentalidades de outrora, das mentalidades não atuais. O fascínio que essa história parece exercer, hoje em dia e desde há não muito tempo, talvez se explique por um grave acidente da nossa mentalidade atual.

Além disso, como já vimos, se a história é mais intencionada à diferença, às convicções modernas de superioridade que se debilitaram, então a história das mentalidades, sobretudo em relação aos estudos medievais, representa uma postura antropológica diversa daquela do Romantismo e do Idealismo dos séculos XVIII e XIX:

É por isso que a transformação da historiografia, de origem medieval e modernista, marcou o passo, durante algum tempo, no limiar da história contemporânea: esta era, de fato, uma reflexão do homem sobre o tempo em que ele vivia, um tempo de demasiada similitude e insuficiente diferença. Ora, a espessura desta fatia de história diminui: o momento em que o passado aparece como diferente do meu tempo torna-se cada vez mais próximo — formidável desforra da historicidade! (LE GOFF, 1997, p. 40).

Esta constatação por parte dos historiadores da escola dos anais nos possibilitou perceber a oportunidade que os estudos historiográficos atuais geraram para a emersão dos estudos literários que exibem a interação entre a obra, o autor e o leitor, num sistema literário, como evento comunicativo.

Em outras palavras, o passado de diferença aproxima-se de nós, tornando-se cada vez mais difícil ignorá-lo, do mesmo modo que não nos é mais possível ignorar a arte negra, indígena ou pré-colombiana.

As diferenças de todas as idades nos assediam. Contudo, nossa percepção ingênua, imediata, continua sempre sendo de nosso próprio presente, único ponto de ancoragem no tempo. A recente aproximação entre presente e passado não seria a razão da história das mentalidades?

A história das mentalidades segue as confluências e divergências daqueles que justamente afirmam que nossa cultura é mestiça, oral e escrita. Ela nos faz descobrir, então, o que subsiste das antigas oralidades reprimidas, de modo oculto, não consciente, seja sob a forma de sobrevivências camufladas, seja sob a forma de vazios, de enormes lacunas, em nossa cultura hodierna, em que triunfam as racionalidades das escritas.

4. 3 O Conceito de Imaginário

A partir da experiência das mentalidades é possível avaliar o valor da proposta de uma história do imaginário. O domínio do imaginário é constituído por um conjunto de representações que transbordam os limites postos pela constatação de experiências e encadeamentos dedutivos que daí se autorize.

O imaginário dos homens, incluindo esferas irracionais como os sonhos e devaneios, é alimentado pela realidade, mas o principal consiste em que a realidade do pensamento dos homens imprime sua marca poderosa e indelével em todas as suas obras, na atividade e no comportamento social.

A história ganha uma nova sensibilidade para a necessidade do estudo de duas realidades: da realidade em si e das representações que dela se formam nos homens que vivem na época. Como separá-las ou dividi-las?

Porventura a produção, os costumes e o cotidiano não estão inteiramente penetrados de representações humanas, por um sistema de valores e crenças, e, por acaso, não é unicamente nesse aspecto humanizado que eles ganham sentido, para aqueles que estavam ocupados com a produção e viviam nesse cotidiano?

O historiador, por consequência, deve se dar conta de que os mitos e fantasias dos homens, as suas construções mentais, que a consciência racionalista dos homens da Idade Moderna tende a qualificar como preconceitos e incluir na lista de falsa consciência, determinaram grandemente o conteúdo, que são fontes para o historiador, e que a primeira coisa que o pesquisador encontra é a estrutura da consciência humana produzida em monumentos.

Decorre, por isso, que antes de emitir um juízo sobre a falsidade ou a veracidade da informação neles contida, é necessário compreender a natureza das fontes históricas, seu condicionamento sociocultural e sua função no contexto da época que os gerou:

(...) o historiador, ciente do papel do imaginário na formação de qualquer texto, de sua natureza semiótica, não pode enfocá-lo como ‘fonte de dados’ do qual seria capaz de haurir a informação sem nenhum obstáculo (…) as informações sobre eles passaram pelos complexos filtros da consciência dos autores ou compositores de textos e trazem a marca da consciência, indelével, mas nunca identificável facilmente (LE GOFF, 1997.p. 26).

Le Goff distingue o imaginário de outras instâncias consentâneas e que, muitas vezes, aparecem citadas como conceitos sinônimos: a representação, o simbólico, o ideológico.

O imaginário humano, sobre o qual ele escreve, determina não só a estrutura e o conteúdo do monumento histórico. Ele é um componente essencial e inalienável da própria realidade histórica.

O historiador é levado a operar não com o modelo universal e unificador da base/superestrutura, no qual, como se costume pensar, a superestrutura determina a base e serve a ela, mas com suas construções mentais concretas historicamente condicionadas e mutáveis, que sempre modelam a seu modo o mundo. E esses produtos do imaginário social, ao experimentarem o influxo das relações materiais e dos interesses reais que geram, contêm, ao mesmo tempo, fenômenos diversos da separação do pensamento em face à realidade.

Este esforço em incluir o aspecto da imaginação não significa somente uma ampliação quantitativa do campo de trabalho e da metodologia dos historiadores, mas, no dizer de Guriêvitch, trata-se de tomar posse das fontes medievais de uma maneira mais rica.

Os estudiosos do passado, lá onde se encontram as informações de Maria Madalena, procuram atingir camadas mais profundas da realidade histórica não atingida pela Ciência Histórica tradicional, e essas camadas mais profundas são um campo da consciência das mentalidades, nestas se revelam as molas internas do comportamento humano.

Este comportamento humano no grupo, no ‘socium’, é penetrado pela simbólica e por meio de sua decodificação, e da compreensão de sua função, na atividade vital dos grupos, consegue-se elucidar melhor a natureza do processo histórico. Este conceito introduz o historiador nas profundezas da história social.

Assim, o conceito de imaginário joga um papel decisivo na recepção de textos medievais, dadas as próprias circunstâncias da cultura religiosa. Sobretudo, caso se pense que a leitura medieval é eminentemente bíblica, assim como a arte, desta depende o texto sagrado, como fonte.

Os centros de cultura estavam baseados sobre a cópia e a conservação de manuscritos. As questões da interpretação permaneciam dentro nos muros dos mosteiros e ambientes eclesiásticos.

Pressupostos Finais

5. A complexa e excitante tarefa de iluminar, reconstruir, inventar os significados em torno de Maria Madalena:

De um lado, não se poderão ignorar as camadas fossilizadas das mentalidades passadas (a prostituta/santa?), as mentalidades e o imaginário em torno dela pesam e forçam-nos a considerar uma verdadeira atividade historiográfica que justifique um novo perfil dela.

Do outro, não poderá também, no âmbito católico, ignorar a literatura canônica que condiciona nossa leitura dela, e em particular, não somos tão modernos, pois a Escritura Sagrada, berço da primeira memória de Madalena é um campo coletivo e normativo.

Uma exegese bíblica muito precisa é sempre pressuposto de nossa irrenunciável tarefa de trazer novos rostos a Madalena, que a identifiquem melhor com as inquietações e reivindicações feministas modernas.

Sugiro uma leitura profunda sobre três elementos: “A interpretação da Bíblia na Igreja” (1993) e o estado da questão da literatura evangélica e ainda, em particular, a fascinante literatura joanina.


Referências:

1 www.salamongallery.it/dipinti_opera.php?codice=104

2 Prolegomena: amplo texto introdutório que contém as noções preliminares necessárias à compreensão de um livro; introdução, prefácio. 2. noções ou princípios básicos para o estudo de um assunto qualquer; princípios, elementos. Expressão muito utilizada por Kant em sua complexa filosofia sobre o uso adequado, isto é, limitado da razão (pura). Traduz um conjunto de condições ‘sine qua non’, isto é, indispensáveis à compreensão de um objeto complexo, sem as quais, podem-se produzir incompreensões.

3 www.youtube.com/watch?v=L8u8QkIy7es

4 https://noticias.cancaonova.com/especiais/pontificado/francisco/papa-francisco-apresentou-maria-madalena-como-apostola-da-esperanca

5 www.recantodasletras.com.br/artigos/1319232

6 http://opusdei.org/pt-br/article/a-proposito-de-o-codigo-da-vinci “A Sony-Columbia está em tempo de fazer uma contribuição à concórdia de grande importância no contexto atual: pode demonstrar que são compatíveis a liberdade de expressão e o respeito às crenças; pode confirmar que o respeito é um ato livre que nasce da sensibilidade, não uma consequência da censura nem de ameaças. Tomando uma decisão conciliadora, Sony-Columbia prestaria um grande serviço à causa do diálogo entre as culturas e honraria a respeitável tradição dessas empresas”.

7 Aldo Martin, “La Maddalena nelle testimonianze evangeliche”. In: Fogli Compostrini. Verona. 2015. Disponível em: www.fogli.centrostudicampostrini.it/index.php/FogliCampostrini/article/view/82/182.

8 “Individualismo é um conceito político, moral e social que exprime a afirmação e a liberdade do indivíduo frente a um grupo, à sociedade ou ao Estado. O homem do Renascimento passou a apoiar a competição e a desenvolver uma crença baseada em que o homem poderia tudo, desde que tivesse vontade, talento e capacidade de ação individual. O individualismo, em princípio, opõe-se a toda forma de autoridade ou controle sobre os indivíduos, e coloca-se em total oposição ao coletivismo, no que concerne à propriedade. O individualista pode permanecer dentro da sociedade e de organizações que tenham o indivíduo como valor básico – embora as organizações e as sociedades, contraditoriamente, carreguem outros valores, não necessariamente individualistas, o que cria um estado de permanente tensão entre o indivíduo e essas instâncias de vida social”. Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Individualismo

9 “Na Bíblia, a exegese é o estudo da interpretação gramatical e sistemática das Escrituras Sagradas. Para que uma pessoa possa estar apta a fazer uma exegese bíblica, esta deve ser especialista nos idiomas originais bíblicos, como o grego e o hebraico. O oposto da exegese bíblica é a ‘eisegese’, quando a interpretação é feita exclusivamente baseada em teorias subjetivas, sem uma pesquisa ou análise profunda e real do texto”. Cf. www.significados.com.br/exegese.

10 MALERBA, Jurandir (org.). “História Escrita. Teoria e história da historiografia” São Paulo: Contexto, 2006.

11 Sobre a compreensão de conjunto da Escola dos Annales, a Escola Nova, em português: GURIÊVITCH, A. “A Síntese histórica e a Escola dos Anais”. São Paulo: Perspectiva, 2003.

12 MORIN, E. “Os sete saberes necessários à educação do futuro”. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/EdgarMorin.pdf.


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13/07/2018 14:01 - Atualizado em 13/07/2018 14:06

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1. Em todo o mundo crescem manifestações artísticas em torno da memória de Santa Maria Madalena. No cinema3, no teatro, na literatura.

Inclusive, o Papa Francisco também se manifestou sobre essa memória, nomeando-a ‘apóstola’.

O Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos no Vaticano, emitiu hoje um decreto no qual, seguindo a vontade do Papa Francisco, estabelece que a memória litúrgica de Santa Maria Madalena, celebrada em 22 de julho, se eleve à categoria de festa. Na Missa e no ofício divino que se celebrarão a partir de agora neste dia, serão utilizados os textos habituais do Missal Romano e a Liturgia das Horas, mas a celebração da Missa contará com um prefácio próprio intitulado “apostolorum apostola” (apóstola dos apóstolos). A decisão de elevar a festa a celebração de Santa Maria Madalena servirá para refletir de maneira “mais profunda sobre a dignidade da mulher, sobre a nova evangelização e sobre a grandeza do mistério da misericórdia divina”, explica Dom Artur Roche, Secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos4.

O século tem sido marcado, entre outras muitas coisas, por novas concepções de gênero, mudanças copernicanas no papel e na representação coletiva de mulheres e homens.

É central nas legislações modernas a igualdade de gênero no trabalho, na política, na cultura. Avanços e desacertos em torno da silhueta da mulher moderna. O doméstico, lugar tradicional do feminino, mudou. O lado de fora de casa pertence efetivamente às mulheres, com suas benesses e desafios (nem tudo são flores).

Não seria neste cenário que se percebe a pressão pela elaboração de uma nova silhueta de Maria Madalena? Emergem exigências de que também a religião se explique e entre na dança destes novos papéis?

Porém, memórias não são produtos naturais. Não são depósitos límpidos, espelhos do passado à nossa disposição. Memórias misturam diversos planos: fatos (dados, testemunhas, objetos), imaginação (ativações do passado a partir de novos lugares), construções sociais (que em cada tempo podem-se refazer, acrescentar elementos à memória), negações (podemos esquecer ou eliminar dados)... Enfim, a memória constitui aquilo que Michel de Certeau denominou ‘uma operação historiográfica’:

Para Certeau, a história é a arte de encenação que compreende a relação entre o lugar do discurso, os procedimentos de análise e a construção de um texto. Portanto, a ‘combinação de um lugar social, de práticas científicas e de uma escrita5.

A pergunta pela identidade de um personagem no passado implicaria provavelmente na consideração de perguntas do presente que nela se veem representadas?

Madalena, a santa e a mulher bíblica, a prostituta e pecadora pública, a seguidora, a pretensa esposa do mestre ressurgem de quando em quando, em sua desafiadora multiplicidade de abordagens.

Por que queremos falar de Madalena, em pleno século XXI? O que está em jogo?

Este personagem possui um longo trajeto de interpretações, identidades, juízos de valor, até mesmo teorias da conspiração (código da Vinci) foram criadas em torno de sua existência no interior da igreja apostólica, pela ficção renascentista e contemporânea, na arte e na literatura e no cinema6.

2. Partindo do pressuposto que não existiria pensamento, comportamento, arte, religião ou quaisquer outras expressões humanas profundas que fossem alienígenas de um contexto histórico – isto é, de um centro de gravitação complexo, no qual a cultura, a sociedade, a política e a economia, a religião, estejam implicadas – não se poderia falar de identidade desta mulher bíblica, sem imaginar ao menos a gama de ingredientes envolvidos neste percurso produtivo7.

Não se está diante de uma tarefa neutra de percalços e adversa ao pensamento ‘naïf’.

3. A personagem em questão, Maria Madalena, reside sua primeira camada enclaustrada nos diversos textos bíblicos que a evocam. Digo isso diante do fato que se deva percorrer, na busca de reconstrução do perfil, como aquele de uma personagem como Maria Madalena, múltiplos filões biográficos, dentro e fora do mundo antigo, na representação plástica (afrescos e pinturas), na literatura (evangelhos apócrifos, romances, peças de teatro). Para alcançá-la, pela reconstrução da memória, serão precisas muitas operações por vias complexas!

Diante de textos bíblicos temos diversas questões. Primeiramente, eles não estão à disposição da simples leitura pessoal. Eles representam uma coletividade. São produtos de uma ação social, exprimem o assentimento de uma comunidade. São textos eclesiais.

É bem verdade que, desde Lutero, no universo protestante (século XVI), a Bíblia foi dissecada à luz da grande ideologia então moderna: o individualismo8. ‘Sola Scriptura’ foi também uma estratégia moderna que fundava no leitor, em sua individualidade, a tarefa e o método de ler a Bíblia.

Além disso, textos bíblicos são de natureza normativa, por isso, giram em torno da validade de comportamentos, identidades e conflitos de uma comunidade que orbita em torno da Bíblia ou do Livro Sagrado.

O mundo cristão sempre entendeu a Bíblia à luz da esfera dos apóstolos, como um produto eclesial (Epílogos de João, 1Pd sobre as profecias) que designa as silhuetas de uma comunidade.

A primeira consequência disso são as regras de interpretação. Não há leitor, leitura nem textos sem a instância da interpretação. Seja na fase antiga, ou mesmo aquela moderna, do século XIX, que consagrará a expressão ‘histórico-crítica’, a exegese bíblica representa o estágio prévio à hermenêutica.

A exegese9 é entendida, assim, como aquele exercício racional, científico, que prepara e configura um texto e o coloca em condições para a apropriação semântica dos textos bíblicos. Primeiramente, exegese; depois, interpretação válida de um texto.

Tudo seria simples se não se tratasse de um processo histórico. Tanto a exegese como a hermenêutica bíblica não estão isentas do passar dos tempos, das mudanças de perguntas dirigidas a textos bíblicos, de novos métodos, de ‘aggiornamenti’ do próprio magistério da Igreja.

Em suma, para construirmos uma memória de Maria Madalena, a partir daquilo que emerge destas camadas bíblicas (os textos dos Evangelhos), ter-se-ia que, de um lado, enfrentar o exercício bíblico exigente e racional da exegese (em particular aquela do texto joanino); do outro, precisaremos estabelecer diálogos intrincados e multidisciplinares com a sociologia, a história antiga e dos gêneros, e por fim, ao magistério, que representa uma forma de guardião de memórias válidas (heresias não são memórias e interpretações também?).

E por fim a irresistível vontade de falar dela!

4. O desejo de trazer Maria Madalena, tão distante de nosso tempo, para o presente, para satisfazer diversos desígnios, exigências e expectativas que queremos lhe atribuir, exige que a exegese bíblica tenha em conta ao menos dois conceitos nascidos na epistemologia da historiografia do século XX: a história das mentalidades e do imaginário10.

4.1 (Nova) História das Mentalidades

Depois da morte de Lucien Fèbvre, vários historiadores, seguindo seus passos, esforçam-se em praticar e definir a nova história das mentalidades: George Duby, Robert Mandrou e Jacques Le Goff (...). As mentalidades deram oxigênio à história11.

Lucien Fèbvre e Marc Bloch, atraídos pela psicologia coletiva e pelos fenômenos espirituais na história, abriram os enfoques de uma história nova, a das mentalidades. Seguimos alguns dos passos de Philippe Ariès, ao assumir algumas pressuposições acerca do sujeito ‘mentalidade’ na composição de novos discursos historiográficos referentes à História Medieval. Pois, afinal de contas, o que é mentalidade e quais são as relações com o imaginário na construção de sujeitos históricos?

Coisa curiosa, pode-se chamar atenção para o ‘Sitz im Leben’ da historiografia das mentalidades a partir da maturação das crises de diversas atividades intelectuais clássicas dos anos 60. Pode-se falar de uma história no apagar das luzes, um projeto historiográfico marcado pela descrença nos valores da modernidade. Esta cultura da técnica e do projeto científico iluminista passa por um mal-estar irreversível, o fim da religião do progresso.

O arcabouço social baseado sob o selvagem mecanismo de pós-industrialização, que se apresenta como uma forma de renovação dos projetos da primeira Revolução Industrial, cai por terra com a fragilidade das opções de mercados globais, radicando uma permanente crise das mobilidades (antinacionalistas) e fundando a sensação de um progresso etéreo e perambulante.

As novas gerações de historiadores, segundo Dubby, abandonando estes projetos, abrem as portas para as concepções da nova escola. Para Ariès, trata-se do esgotamento de um paradigma historiográfico que se revela como improdutivo para a ação de escrever a história no presente: acredito (é uma hipótese) que exista uma relação entre a nova reticência dos anos 1960 em relação ao desenvolvimento, ao progresso, à modernidade, e a paixão trazida pelos jovens historiadores ao estudo das sociedades pré-industriais e de sua mentalidade.

Estes novos projetos historiográficos não atribuem mais à história um sentido, isto é, uma direção. Não querem mais fazer das sociedades antigas etapas de uma evolução programada, a ponto de desconfiar da diacronia e da pesquisa sistemática das influências sofridas ou exercidas. A cultura que estudam é, então, quase tirada fora da história e apreciada da maneira como os etnólogos estruturalistas consideram a sociedade que escolheram.

Quase irônico que, enquanto os historiadores são tentados pela sincronia, as ciências humanas, ao contrário, abandonam-na com mais frequência e procuram situar-se ao longo do tempo. É por isso que as margens entre a história e as outras ciências começam a se atenuar, acontecimento mais recente do que se poderia imaginar, após cinquenta anos de uma interdisciplinaridade proclamada, porém nunca vivida.

O grande paradigma deste período, sem dúvida alguma, é Michel Foucault que, nascido filósofo, para permanecer filósofo, ele se tornou historiador, pelo movimento de seu pensamento, por motivos bastante diferentes dos que hoje asseguram a popularidade da história das mentalidades.

Assume, assim, que a história das mentalidades equivale à demanda de leitores de uma determinada história, na qual a literatura articula os lugares da construção de teorias do evento comunicativo em seus diversos sistemas culturais, pelos quais a filosofia pôde oferecer uma rede de conceitos e explicitações.

Começamos, então, a adivinhar que o homem de hoje pede a determinada história o que sempre pediu à metafísica e somente ontem às ciências humanas: uma história que assuma os temas da reflexão filosófica, mas situando-os na duração e no obstinado recomeçar das empresas humanas.

4. 2 O Conceito de Mentalidades

De modo geral, não obstante as seduções recentes da sincronia e a desconfiança em relação a ‘unidimensão’ (Edgar Morin)12, a história das mentalidades deixa transparecer uma constante preocupação em compreender melhor a passagem à modernidade.

A história das mentalidades se apoia na hipótese da chamada atitude mental, como uma forma de referência para a análise de documentos, na verdade, para a compreensão do movimento histórico. Sedimentada sobre a contribuição dos geógrafos franceses do início do século XX, a história torna-se, de fato, mais sensível às diferenças regionais do que às diferenças sociais. A região, legada à história da geografia humana, serviu de contexto necessário para uma pesquisa inovadora durante três gerações dos Annales.

Portanto, na base da abordagem das mentalidades empreende um esforço de compreensão das diferenças. Como critério, serve lembrar que a percepção da diferença de mentalidade funciona equivalente à noção de paradigma:

A principal função do historiador é identificar, definir e explicar a mudança, é essencial que ele analise os períodos de importantes mutações de valores. Essas mutações me parecem as características essenciais de qualquer periodização da história (LE GOFF, 1997, p. 23).

Para Le Goff (1997), uma sociedade não pode viver sem uma meta, nem sem sonhos. A história dos sonhos é a história do imaginário.

A história das metas é aquela dos valores, incluindo o aspecto qualitativo na história dos indivíduos e das sociedades. A noção de valor substitui a noção de ideias de força, elaboradas pela filosofia no fim do século XIX, e estreitamente relacionada à ciência da época, a uma concepção de força no campo da força, hoje já superado.

A noção de valor, dentro da perspectiva de uma história das mentalidades, conserva a preocupação de introduzir na história uma dinâmica, que permita inserir as noções de desejo e de medo, que ela restitui às sociedades do passado e à sua ética.

Inspirando-se largamente na história das representações, ela ajuda a estruturar uma história que mede o impacto sobre a evolução das sociedades. Assim como também dos aspectos econômicos, filosóficos, culturais e políticos, por ser intermediária dos valores tais como o gosto ou o desprezo dos juros, a tração do racional ou do irracional, a pesquisa do belo ou do útil.

Para os historiadores atuais, é preciso, seja qual a for a abordagem utilizada, gerar uma forma de ficcionalidade, isto é, formular uma certa plasticidade, variabilidade, nivelação em série que componham a história, assim como a aceleração que comporta, na tomada de consciência de seu papel de observador: Le Goff se interroga se é possível compreender as Cruzadas sem estudar um determinado tipo de mentalidade religiosa.

A história das mentalidades dirige a atenção exclusiva para o não conscientizado, o cotidiano, os automatismos do comportamento, os aspectos extrapessoais da consciência individual, estabelecendo, com todas as reservas críticas, um vínculo produtivo entre as mentalidades e as estruturas sociais, um vínculo complexo, mas estreito.

Portanto, pode-se dizer que, mesmo sendo um conceito de difícil redução simplista, ele permitiu ampliar o chamado território do historiador. Os conceitos de imaginário e de mentalidade provocam ou implicam uma extraordinária dilatação de repertório, de metodologia, de postura científica; pois tudo que é perceptível pelo observador social está ao alcance da análise histórica.

A ampliação da história além de suas antigas margens e, ao mesmo tempo, o retorno a seu antigo domínio, que se imagina bem explorado. Ele relê documentos utilizados por seus predecessores, mas com um novo olhar. A produção desta história das mentalidades se acha nas zonas de fronteiras do biológico e do mental, da natureza e da cultura.

Por que, então, uma história das mentalidades? A história das mentalidades é, portanto, muito mais a história das mentalidades de outrora, das mentalidades não atuais. O fascínio que essa história parece exercer, hoje em dia e desde há não muito tempo, talvez se explique por um grave acidente da nossa mentalidade atual.

Além disso, como já vimos, se a história é mais intencionada à diferença, às convicções modernas de superioridade que se debilitaram, então a história das mentalidades, sobretudo em relação aos estudos medievais, representa uma postura antropológica diversa daquela do Romantismo e do Idealismo dos séculos XVIII e XIX:

É por isso que a transformação da historiografia, de origem medieval e modernista, marcou o passo, durante algum tempo, no limiar da história contemporânea: esta era, de fato, uma reflexão do homem sobre o tempo em que ele vivia, um tempo de demasiada similitude e insuficiente diferença. Ora, a espessura desta fatia de história diminui: o momento em que o passado aparece como diferente do meu tempo torna-se cada vez mais próximo — formidável desforra da historicidade! (LE GOFF, 1997, p. 40).

Esta constatação por parte dos historiadores da escola dos anais nos possibilitou perceber a oportunidade que os estudos historiográficos atuais geraram para a emersão dos estudos literários que exibem a interação entre a obra, o autor e o leitor, num sistema literário, como evento comunicativo.

Em outras palavras, o passado de diferença aproxima-se de nós, tornando-se cada vez mais difícil ignorá-lo, do mesmo modo que não nos é mais possível ignorar a arte negra, indígena ou pré-colombiana.

As diferenças de todas as idades nos assediam. Contudo, nossa percepção ingênua, imediata, continua sempre sendo de nosso próprio presente, único ponto de ancoragem no tempo. A recente aproximação entre presente e passado não seria a razão da história das mentalidades?

A história das mentalidades segue as confluências e divergências daqueles que justamente afirmam que nossa cultura é mestiça, oral e escrita. Ela nos faz descobrir, então, o que subsiste das antigas oralidades reprimidas, de modo oculto, não consciente, seja sob a forma de sobrevivências camufladas, seja sob a forma de vazios, de enormes lacunas, em nossa cultura hodierna, em que triunfam as racionalidades das escritas.

4. 3 O Conceito de Imaginário

A partir da experiência das mentalidades é possível avaliar o valor da proposta de uma história do imaginário. O domínio do imaginário é constituído por um conjunto de representações que transbordam os limites postos pela constatação de experiências e encadeamentos dedutivos que daí se autorize.

O imaginário dos homens, incluindo esferas irracionais como os sonhos e devaneios, é alimentado pela realidade, mas o principal consiste em que a realidade do pensamento dos homens imprime sua marca poderosa e indelével em todas as suas obras, na atividade e no comportamento social.

A história ganha uma nova sensibilidade para a necessidade do estudo de duas realidades: da realidade em si e das representações que dela se formam nos homens que vivem na época. Como separá-las ou dividi-las?

Porventura a produção, os costumes e o cotidiano não estão inteiramente penetrados de representações humanas, por um sistema de valores e crenças, e, por acaso, não é unicamente nesse aspecto humanizado que eles ganham sentido, para aqueles que estavam ocupados com a produção e viviam nesse cotidiano?

O historiador, por consequência, deve se dar conta de que os mitos e fantasias dos homens, as suas construções mentais, que a consciência racionalista dos homens da Idade Moderna tende a qualificar como preconceitos e incluir na lista de falsa consciência, determinaram grandemente o conteúdo, que são fontes para o historiador, e que a primeira coisa que o pesquisador encontra é a estrutura da consciência humana produzida em monumentos.

Decorre, por isso, que antes de emitir um juízo sobre a falsidade ou a veracidade da informação neles contida, é necessário compreender a natureza das fontes históricas, seu condicionamento sociocultural e sua função no contexto da época que os gerou:

(...) o historiador, ciente do papel do imaginário na formação de qualquer texto, de sua natureza semiótica, não pode enfocá-lo como ‘fonte de dados’ do qual seria capaz de haurir a informação sem nenhum obstáculo (…) as informações sobre eles passaram pelos complexos filtros da consciência dos autores ou compositores de textos e trazem a marca da consciência, indelével, mas nunca identificável facilmente (LE GOFF, 1997.p. 26).

Le Goff distingue o imaginário de outras instâncias consentâneas e que, muitas vezes, aparecem citadas como conceitos sinônimos: a representação, o simbólico, o ideológico.

O imaginário humano, sobre o qual ele escreve, determina não só a estrutura e o conteúdo do monumento histórico. Ele é um componente essencial e inalienável da própria realidade histórica.

O historiador é levado a operar não com o modelo universal e unificador da base/superestrutura, no qual, como se costume pensar, a superestrutura determina a base e serve a ela, mas com suas construções mentais concretas historicamente condicionadas e mutáveis, que sempre modelam a seu modo o mundo. E esses produtos do imaginário social, ao experimentarem o influxo das relações materiais e dos interesses reais que geram, contêm, ao mesmo tempo, fenômenos diversos da separação do pensamento em face à realidade.

Este esforço em incluir o aspecto da imaginação não significa somente uma ampliação quantitativa do campo de trabalho e da metodologia dos historiadores, mas, no dizer de Guriêvitch, trata-se de tomar posse das fontes medievais de uma maneira mais rica.

Os estudiosos do passado, lá onde se encontram as informações de Maria Madalena, procuram atingir camadas mais profundas da realidade histórica não atingida pela Ciência Histórica tradicional, e essas camadas mais profundas são um campo da consciência das mentalidades, nestas se revelam as molas internas do comportamento humano.

Este comportamento humano no grupo, no ‘socium’, é penetrado pela simbólica e por meio de sua decodificação, e da compreensão de sua função, na atividade vital dos grupos, consegue-se elucidar melhor a natureza do processo histórico. Este conceito introduz o historiador nas profundezas da história social.

Assim, o conceito de imaginário joga um papel decisivo na recepção de textos medievais, dadas as próprias circunstâncias da cultura religiosa. Sobretudo, caso se pense que a leitura medieval é eminentemente bíblica, assim como a arte, desta depende o texto sagrado, como fonte.

Os centros de cultura estavam baseados sobre a cópia e a conservação de manuscritos. As questões da interpretação permaneciam dentro nos muros dos mosteiros e ambientes eclesiásticos.

Pressupostos Finais

5. A complexa e excitante tarefa de iluminar, reconstruir, inventar os significados em torno de Maria Madalena:

De um lado, não se poderão ignorar as camadas fossilizadas das mentalidades passadas (a prostituta/santa?), as mentalidades e o imaginário em torno dela pesam e forçam-nos a considerar uma verdadeira atividade historiográfica que justifique um novo perfil dela.

Do outro, não poderá também, no âmbito católico, ignorar a literatura canônica que condiciona nossa leitura dela, e em particular, não somos tão modernos, pois a Escritura Sagrada, berço da primeira memória de Madalena é um campo coletivo e normativo.

Uma exegese bíblica muito precisa é sempre pressuposto de nossa irrenunciável tarefa de trazer novos rostos a Madalena, que a identifiquem melhor com as inquietações e reivindicações feministas modernas.

Sugiro uma leitura profunda sobre três elementos: “A interpretação da Bíblia na Igreja” (1993) e o estado da questão da literatura evangélica e ainda, em particular, a fascinante literatura joanina.


Referências:

1 www.salamongallery.it/dipinti_opera.php?codice=104

2 Prolegomena: amplo texto introdutório que contém as noções preliminares necessárias à compreensão de um livro; introdução, prefácio. 2. noções ou princípios básicos para o estudo de um assunto qualquer; princípios, elementos. Expressão muito utilizada por Kant em sua complexa filosofia sobre o uso adequado, isto é, limitado da razão (pura). Traduz um conjunto de condições ‘sine qua non’, isto é, indispensáveis à compreensão de um objeto complexo, sem as quais, podem-se produzir incompreensões.

3 www.youtube.com/watch?v=L8u8QkIy7es

4 https://noticias.cancaonova.com/especiais/pontificado/francisco/papa-francisco-apresentou-maria-madalena-como-apostola-da-esperanca

5 www.recantodasletras.com.br/artigos/1319232

6 http://opusdei.org/pt-br/article/a-proposito-de-o-codigo-da-vinci “A Sony-Columbia está em tempo de fazer uma contribuição à concórdia de grande importância no contexto atual: pode demonstrar que são compatíveis a liberdade de expressão e o respeito às crenças; pode confirmar que o respeito é um ato livre que nasce da sensibilidade, não uma consequência da censura nem de ameaças. Tomando uma decisão conciliadora, Sony-Columbia prestaria um grande serviço à causa do diálogo entre as culturas e honraria a respeitável tradição dessas empresas”.

7 Aldo Martin, “La Maddalena nelle testimonianze evangeliche”. In: Fogli Compostrini. Verona. 2015. Disponível em: www.fogli.centrostudicampostrini.it/index.php/FogliCampostrini/article/view/82/182.

8 “Individualismo é um conceito político, moral e social que exprime a afirmação e a liberdade do indivíduo frente a um grupo, à sociedade ou ao Estado. O homem do Renascimento passou a apoiar a competição e a desenvolver uma crença baseada em que o homem poderia tudo, desde que tivesse vontade, talento e capacidade de ação individual. O individualismo, em princípio, opõe-se a toda forma de autoridade ou controle sobre os indivíduos, e coloca-se em total oposição ao coletivismo, no que concerne à propriedade. O individualista pode permanecer dentro da sociedade e de organizações que tenham o indivíduo como valor básico – embora as organizações e as sociedades, contraditoriamente, carreguem outros valores, não necessariamente individualistas, o que cria um estado de permanente tensão entre o indivíduo e essas instâncias de vida social”. Cf. https://pt.wikipedia.org/wiki/Individualismo

9 “Na Bíblia, a exegese é o estudo da interpretação gramatical e sistemática das Escrituras Sagradas. Para que uma pessoa possa estar apta a fazer uma exegese bíblica, esta deve ser especialista nos idiomas originais bíblicos, como o grego e o hebraico. O oposto da exegese bíblica é a ‘eisegese’, quando a interpretação é feita exclusivamente baseada em teorias subjetivas, sem uma pesquisa ou análise profunda e real do texto”. Cf. www.significados.com.br/exegese.

10 MALERBA, Jurandir (org.). “História Escrita. Teoria e história da historiografia” São Paulo: Contexto, 2006.

11 Sobre a compreensão de conjunto da Escola dos Annales, a Escola Nova, em português: GURIÊVITCH, A. “A Síntese histórica e a Escola dos Anais”. São Paulo: Perspectiva, 2003.

12 MORIN, E. “Os sete saberes necessários à educação do futuro”. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/EdgarMorin.pdf.


Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica