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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 21/09/2018

21 de Setembro de 2018

Saberão que um profeta esteve entre eles

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08/07/2018 00:00

Saberão que um profeta esteve entre eles 0

08/07/2018 00:00

Estas palavras encerram o final do trecho do livro do profeta Ezequiel que ouvimos este domingo, como primeira leitura da celebração da Eucaristia. Logo depois de uma visão inicial (cf. Ez 1), o profeta recebe de Deus a sua vocação. Depois de ter ouvido “a voz” que lhe “falava”, o profeta recebe o “Espírito” que vem até ele e o coloca de pé, em posição de prontidão, de escuta. Nessa passagem, o uso da raiz hebraica dbr (donde o substantivo dabar e o verbo diber) é muito importante. Esse verbo, traduzido em nossos lecionários como “falar” se refere quase sempre a um conteúdo concreto[1], sendo muitas vezes utilizado para comunicar o “pensamento e a vontade de Deus”.[2]

O profeta se coloca de pé, em atitude de prontidão e escuta, para “ouvir” a Palavra de Deus, a expressão da sua vontade. E a Palavra de Deus que vem até o profeta é o seu envio a uma “nação de rebeldes”, ou “casa de rebeldes” como diz o texto. O profeta é enviado ao povo de Israel que se “rebelou” contra Deus, que tem “faces duras” e “coração empedernido”. “Faces duras/coração empedernido” ou “cabeça dura/coração de pedra”, como prefere traduzir nosso lecionário, são imagens para demonstrar o quanto o povo de Israel estava obstinado no seu pecado. Obstinados no pecado, eles fecharam o coração à Palavra de Deus. Ou melhor seria dizer, talvez, que o próprio fechamento à Palavra Divina foi seu pecado mais terrível, pois assim a conversão tornava-se cada vez mais difícil.

Deus, contudo, não desiste do seu povo. O profeta é enviado para proclamar ao povo a Palavra Divina. “Quer escutem, quer não – pois são uma casa de rebeldes – ficarão sabendo que houve entre eles um profeta” (cf. Ez 2,5). Mesmo sabendo que o povo pode não dar ouvidos à sua Palavra, Deus envia o seu profeta, porque ele não se deixa vencer em misericórdia e generosidade. Deus espera sempre que o homem ouça a sua Palavra e se volte para Ele de todo o coração. Mesmo quando a Palavra do profeta é dura e fere, o objetivo de Deus nunca é deixar o homem ferido. Ao contrário, o objetivo de Deus é sempre curar o homem e trazê-lo de volta à amizade com Ele. A ferida aberta pela Palavra Divina, ajuda a curar a ferida que o distanciamento de Deus produz.

O Salmo 122(123), salmo responsorial dessa liturgia da Palavra, se encaixa muito bem com essa leitura. Se a leitura mostra a misericórdia de Deus que envia seu profeta, mesmo sabendo que sua Palavra será rejeitada, o Salmo, por sua vez, manifesta a confiança do israelita fiel, que suplica a misericórdia do Senhor diante da humilhação que o povo está sofrendo. O Salmista proclama a sua esperança na misericórdia de Deus que virá em seu socorro. Ele “levanta os olhos” para Deus, que “habita nos céus” e suplica: “tende piedade de nós, ó Senhor, tende piedade”.

O grito do salmista e de gerações inteiras foi, sem dúvida, ouvido por Deus. Deus não somente teve misericórdia de nós, mas nos enviou seu Filho, nosso Salvador. O Filho que veio até nós não somente nos manifesta a misericórdia de Deus, mas “Ele é a misericórdia de Deus”.

No trecho do evangelho que ouvimos hoje, Jesus aparece numa situação semelhante à do profeta Ezequiel na primeira leitura. Assim como o profeta foi enviado aos seus conterrâneos, uma “casa de rebeldes”, Jesus também vai a Nazaré, a cidade onde havia crescido. Ali também o Senhor encontrará um povo de “cabeça dura” e “coração de pedra”.

Jesus entra na sinagoga e prega a Palavra. Diante da sua pregação as pessoas ficam admiradas. Mas a admiração não leva à conversão. Ao contrário, eles começam a “questionar”: De onde recebeu ele tudo isso? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses milagres que são realizados por suas mãos? Este não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? (cf. Mc 6,2-3).

No seu Evangelho Marcos destaca um aspecto muito particular a respeito de Jesus: Jesus é o Messias incompreendido. Na primeira parte do seu Evangelho (Mc 1,14 – 8,26), Marcos mostra três momentos fortes onde Jesus não é compreendido: primeiro, em Mc 3,1-6, onde os fariseus não o compreendem e começam a “conspirar” contra ele; depois, no trecho que ouvimos hoje, Mc 6,1-6, onde são os conterrâneos de Jesus que não o compreendem; essa “incompreensão” atingirá seu ápice em Mc 8,14-21, onde são os seus discípulos que não conseguem compreender quem, de fato, ele é.

A incompreensão dos conterrâneos de Jesus faz com que eles se “escandalizem”. O termo utilizado por Marcos significa, literalmente, “tropeçar”. Eles “tropeçam” na sua incredulidade e, por causa da mesma “incredulidade” - denunciada por Jesus em Mc 6,6, onde o Mestre se admira da sua “falta de fé” - ali não é feito nenhum milagre, apenas alguns doentes são curados, porque Jesus é cheio de misericórdia e não podia deixar de atender a estes grandes sofredores. Os sinais, contudo, que poderiam confirmar a fé dos habitantes de Nazaré não acontecem, porque nem adiantaria realizá-los. Afinal, a “incredulidade”, a “apistia” ou seja, a completa ausência de fé, já havia tomado o coração deles.

A Palavra de Deus, proclamada no Evangelho e na Primeira Leitura nos serve em dois sentidos. Em primeiro lugar, como Ezequiel e como o próprio Cristo, somos também enviados a anunciar a Palavra de Deus. Muitas vezes aqueles a quem somos enviados são uma “casa de rebeldes”; um povo “sem fé”. Mas, não devemos desistir. Devemos anunciar a boa nova do Evangelho, porque Deus nos constituiu também como “profetas”, desde o dia do nosso Batismo. Afinal, quando o óleo do Crisma foi aplicado à nossa testa, o sacerdote/diácono fez a seguinte oração: Que ele [o Senhor] te consagre com o óleo santo para que, inserido(a) em Cristo, sacerdote, profeta e rei, continues no seu povo até a vida eterna. Não devemos desanimar diante da possibilidade de não sermos ouvidos. Se fosse assim, Ezequiel não teria dito uma Palavra e Cristo também não. Ao contrário, confiando que o Senhor está conosco, que nos envia e, também, nos acompanha em nossa missão, anunciemos com destemor sua Palavra, certos de que Ele a fará produzir frutos no tempo devido, no coração de quem a ela se abrir com generosidade.

A Palavra proclamada hoje pode, também, nos servir num segundo sentido. Muitas vezes somos nós que temos a “cabeça dura” e o “coração de pedra”. Deus nos fala sempre, mas se nosso coração está fechado, se nos enclausuramos nas nossas próprias certezas, a Palavra de Deus não produzirá efeito nenhum em nós. Por isso, a Palavra de hoje pode também nos servir como um sério exame de consciência. De que modo temos ouvido a Deus que nos fala por meio da sua Palavra? Não será o nosso coração empedernido e a nossa cabeça demasiado dura?

Se constatarmos em nós essa triste realidade, a saber, a dureza de coração, não devemos desanimar. Façamos nossa a oração do salmista e supliquemos “Tende misericórdia, ó Senhor, tende misericórdia!” Basta que isso seja dito com sinceridade! Como diz São Paulo, que também constatou sua fraqueza: Basta-nos a graça de Deus (cf. Segunda leitura). Com certeza, do mesmo modo como Deus enviou o seu Espírito sobre Ezequiel e esse o colocou de pé para ouvir o que Ele tinha a lhe dizer, também Deus não resistirá às nossas súplicas: Ele enviará sobre nós seu Espírito, que também nos colocará de pé, a fim de sermos verdadeiros ouvintes e praticantes da sua Palavra.



[1] F. GERLEMAN, G. Dabar. In: Diccionario Teologico Manual del Antiguo Testamento. Vol. I, p. 619.

[2] F. GERLEMAN, G. Dabar. In: Diccionario Teologico Manual del Antiguo Testamento. Vol. I, p. 625.

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Estas palavras encerram o final do trecho do livro do profeta Ezequiel que ouvimos este domingo, como primeira leitura da celebração da Eucaristia. Logo depois de uma visão inicial (cf. Ez 1), o profeta recebe de Deus a sua vocação. Depois de ter ouvido “a voz” que lhe “falava”, o profeta recebe o “Espírito” que vem até ele e o coloca de pé, em posição de prontidão, de escuta. Nessa passagem, o uso da raiz hebraica dbr (donde o substantivo dabar e o verbo diber) é muito importante. Esse verbo, traduzido em nossos lecionários como “falar” se refere quase sempre a um conteúdo concreto[1], sendo muitas vezes utilizado para comunicar o “pensamento e a vontade de Deus”.[2]

O profeta se coloca de pé, em atitude de prontidão e escuta, para “ouvir” a Palavra de Deus, a expressão da sua vontade. E a Palavra de Deus que vem até o profeta é o seu envio a uma “nação de rebeldes”, ou “casa de rebeldes” como diz o texto. O profeta é enviado ao povo de Israel que se “rebelou” contra Deus, que tem “faces duras” e “coração empedernido”. “Faces duras/coração empedernido” ou “cabeça dura/coração de pedra”, como prefere traduzir nosso lecionário, são imagens para demonstrar o quanto o povo de Israel estava obstinado no seu pecado. Obstinados no pecado, eles fecharam o coração à Palavra de Deus. Ou melhor seria dizer, talvez, que o próprio fechamento à Palavra Divina foi seu pecado mais terrível, pois assim a conversão tornava-se cada vez mais difícil.

Deus, contudo, não desiste do seu povo. O profeta é enviado para proclamar ao povo a Palavra Divina. “Quer escutem, quer não – pois são uma casa de rebeldes – ficarão sabendo que houve entre eles um profeta” (cf. Ez 2,5). Mesmo sabendo que o povo pode não dar ouvidos à sua Palavra, Deus envia o seu profeta, porque ele não se deixa vencer em misericórdia e generosidade. Deus espera sempre que o homem ouça a sua Palavra e se volte para Ele de todo o coração. Mesmo quando a Palavra do profeta é dura e fere, o objetivo de Deus nunca é deixar o homem ferido. Ao contrário, o objetivo de Deus é sempre curar o homem e trazê-lo de volta à amizade com Ele. A ferida aberta pela Palavra Divina, ajuda a curar a ferida que o distanciamento de Deus produz.

O Salmo 122(123), salmo responsorial dessa liturgia da Palavra, se encaixa muito bem com essa leitura. Se a leitura mostra a misericórdia de Deus que envia seu profeta, mesmo sabendo que sua Palavra será rejeitada, o Salmo, por sua vez, manifesta a confiança do israelita fiel, que suplica a misericórdia do Senhor diante da humilhação que o povo está sofrendo. O Salmista proclama a sua esperança na misericórdia de Deus que virá em seu socorro. Ele “levanta os olhos” para Deus, que “habita nos céus” e suplica: “tende piedade de nós, ó Senhor, tende piedade”.

O grito do salmista e de gerações inteiras foi, sem dúvida, ouvido por Deus. Deus não somente teve misericórdia de nós, mas nos enviou seu Filho, nosso Salvador. O Filho que veio até nós não somente nos manifesta a misericórdia de Deus, mas “Ele é a misericórdia de Deus”.

No trecho do evangelho que ouvimos hoje, Jesus aparece numa situação semelhante à do profeta Ezequiel na primeira leitura. Assim como o profeta foi enviado aos seus conterrâneos, uma “casa de rebeldes”, Jesus também vai a Nazaré, a cidade onde havia crescido. Ali também o Senhor encontrará um povo de “cabeça dura” e “coração de pedra”.

Jesus entra na sinagoga e prega a Palavra. Diante da sua pregação as pessoas ficam admiradas. Mas a admiração não leva à conversão. Ao contrário, eles começam a “questionar”: De onde recebeu ele tudo isso? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses milagres que são realizados por suas mãos? Este não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? (cf. Mc 6,2-3).

No seu Evangelho Marcos destaca um aspecto muito particular a respeito de Jesus: Jesus é o Messias incompreendido. Na primeira parte do seu Evangelho (Mc 1,14 – 8,26), Marcos mostra três momentos fortes onde Jesus não é compreendido: primeiro, em Mc 3,1-6, onde os fariseus não o compreendem e começam a “conspirar” contra ele; depois, no trecho que ouvimos hoje, Mc 6,1-6, onde são os conterrâneos de Jesus que não o compreendem; essa “incompreensão” atingirá seu ápice em Mc 8,14-21, onde são os seus discípulos que não conseguem compreender quem, de fato, ele é.

A incompreensão dos conterrâneos de Jesus faz com que eles se “escandalizem”. O termo utilizado por Marcos significa, literalmente, “tropeçar”. Eles “tropeçam” na sua incredulidade e, por causa da mesma “incredulidade” - denunciada por Jesus em Mc 6,6, onde o Mestre se admira da sua “falta de fé” - ali não é feito nenhum milagre, apenas alguns doentes são curados, porque Jesus é cheio de misericórdia e não podia deixar de atender a estes grandes sofredores. Os sinais, contudo, que poderiam confirmar a fé dos habitantes de Nazaré não acontecem, porque nem adiantaria realizá-los. Afinal, a “incredulidade”, a “apistia” ou seja, a completa ausência de fé, já havia tomado o coração deles.

A Palavra de Deus, proclamada no Evangelho e na Primeira Leitura nos serve em dois sentidos. Em primeiro lugar, como Ezequiel e como o próprio Cristo, somos também enviados a anunciar a Palavra de Deus. Muitas vezes aqueles a quem somos enviados são uma “casa de rebeldes”; um povo “sem fé”. Mas, não devemos desistir. Devemos anunciar a boa nova do Evangelho, porque Deus nos constituiu também como “profetas”, desde o dia do nosso Batismo. Afinal, quando o óleo do Crisma foi aplicado à nossa testa, o sacerdote/diácono fez a seguinte oração: Que ele [o Senhor] te consagre com o óleo santo para que, inserido(a) em Cristo, sacerdote, profeta e rei, continues no seu povo até a vida eterna. Não devemos desanimar diante da possibilidade de não sermos ouvidos. Se fosse assim, Ezequiel não teria dito uma Palavra e Cristo também não. Ao contrário, confiando que o Senhor está conosco, que nos envia e, também, nos acompanha em nossa missão, anunciemos com destemor sua Palavra, certos de que Ele a fará produzir frutos no tempo devido, no coração de quem a ela se abrir com generosidade.

A Palavra proclamada hoje pode, também, nos servir num segundo sentido. Muitas vezes somos nós que temos a “cabeça dura” e o “coração de pedra”. Deus nos fala sempre, mas se nosso coração está fechado, se nos enclausuramos nas nossas próprias certezas, a Palavra de Deus não produzirá efeito nenhum em nós. Por isso, a Palavra de hoje pode também nos servir como um sério exame de consciência. De que modo temos ouvido a Deus que nos fala por meio da sua Palavra? Não será o nosso coração empedernido e a nossa cabeça demasiado dura?

Se constatarmos em nós essa triste realidade, a saber, a dureza de coração, não devemos desanimar. Façamos nossa a oração do salmista e supliquemos “Tende misericórdia, ó Senhor, tende misericórdia!” Basta que isso seja dito com sinceridade! Como diz São Paulo, que também constatou sua fraqueza: Basta-nos a graça de Deus (cf. Segunda leitura). Com certeza, do mesmo modo como Deus enviou o seu Espírito sobre Ezequiel e esse o colocou de pé para ouvir o que Ele tinha a lhe dizer, também Deus não resistirá às nossas súplicas: Ele enviará sobre nós seu Espírito, que também nos colocará de pé, a fim de sermos verdadeiros ouvintes e praticantes da sua Palavra.



[1] F. GERLEMAN, G. Dabar. In: Diccionario Teologico Manual del Antiguo Testamento. Vol. I, p. 619.

[2] F. GERLEMAN, G. Dabar. In: Diccionario Teologico Manual del Antiguo Testamento. Vol. I, p. 625.

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida