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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 21/09/2018

21 de Setembro de 2018

‘Pedi a São João que me desse um matrimônio’: a evangelização e as festas juninas

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21 de Setembro de 2018

‘Pedi a São João que me desse um matrimônio’: a evangelização e as festas juninas

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15/06/2018 13:25 - Atualizado em 15/06/2018 13:25

‘Pedi a São João que me desse um matrimônio’: a evangelização e as festas juninas 0

15/06/2018 13:25 - Atualizado em 15/06/2018 13:25

O mês de junho traz consigo a bonita tradição dos festejos juninos. É tempo das celebrações litúrgicas dos santos Antônio (no dia 13), João Batista (em seu nascimento ou natividade, no dia 24) e Pedro (juntamente com Paulo, no dia 29). Uma palavrinha sobre essa última: a Solenidade de São Pedro e São Paulo, apóstolos, no Brasil, tornou-se “móvel” e será celebrada no domingo seguinte ao dia 29, isto é, 1º de julho.

Para entendermos essa antiga tradição festiva, seria importante retornar ao período em que muitos povos ainda não tinham entrado em diálogo com a fé cristã. Dentre suas muitas expressões religiosas havia aquela de celebrar os solstícios de verão e de inverno. Mas o que é solstício?

Solstício é uma palavra que vem da junção de duas palavras do latim: sol e sistere. Literalmente significa ‘o sol que não se mexe’, pois é usada para expressar um fenômeno da natureza que marca o início do verão ou do inverno. Ocorrendo duas vezes por ano, durante os solstícios, o sol permanece ao máximo da Linha do Equador, fazendo com que a luz solar reflita com maior intensidade em um dos hemisférios. Em consequência, a luz é menos intensa no outro hemisfério. Esse fenômeno marca precisamente o início das estações do inverno e verão.

No Hemisfério Norte, o solstício de verão, homenageava algumas divindades vinculadas à natureza, especialmente, aquelas da fertilidade humana e dos demais seres criados. Na Idade Média, a fé cristã vai gradualmente entrando em contato com essas culturas religiosas. Os cristãos e cristãs daquele tempo entendem a força popular que tal celebração tem e iniciam um diálogo em que vinculam o solstício de verão à Natividade de João Batista e o solstício de inverno à Natividade de Jesus (Natal).

Assim, o nosso calendário litúrgico, em seu ciclo de celebrações vinculadas ao Natal, está ligado aos dois fenômenos naturais que têm como data aproximada 24 de junho e 25 de dezembro. Surgem, assim, as “festas joaninas” (de João Batista), marcadas pelo encontro entre tradições cristãs e tradições religiosas desses povos. Disso deriva, por exemplo, os costumes: acender uma fogueira (tradição popular) no Dia de São João (tradição cristã); celebração de casamentos verdadeiros ou fictícios (a ideia da fertilidade); indumentárias e acessórios vinculados às atividades do campo (louvor aos frutos da terra vindos das mãos de Deus Criador e do trabalho humano).

Em Portugal, esse período festivo torna-se gradualmente um grande momento de celebração dos “santos populares”: Antônio, João Batista, Pedro e Paulo. Tal devoção aos “santos populares” chega às colônias portuguesas.

No Brasil, principalmente nas regiões áridas, tornou-se importante ocasião anual para pedir e louvar a Deus pelas chuvas sobre a lavoura. Notemos que o relacionamento entre os devotos e os santos populares juninos, principalmente Santo Antônio e São João, é familiar, cheio de intimidades, como, por exemplo, no confiar a eles o encontro do amado/amada. Esse carácter fica bastante evidente nas diversas manifestações religiosas dedicadas a esses santos.

Valeria a pena, em nossa ação pastoral, uma maior atenção à atualidade e importância que tais festejos têm na religiosidade de nossos povos brasileiros. Felizmente, os festejos juninos estão espalhados por nossas paróquias, comunidades, seminários, movimentos e pastorais. Contudo, nem sempre eles vêm relacionados com a evangelização e/ou catequese da comunidade de fé. As festas juninas são fontes para a evangelização, e a evangelização é uma ação indispensável para iluminar, enriquecer e animar ainda mais tais celebrações populares.

As festas juninas exprimem uma concepção de Deus e da pessoa humana, bem como de suas mútuas relações. Há uma espiritualidade subjacente muito peculiar e rica. Destacamos entre seus variados conteúdos e valores a particular integração entre fé e vida, a experiência de proximidade do divino na vida, a real compreensão da presença do Espírito em seus mediadores, a disposição a assumir atitudes interiores e exteriores que modelam a própria vida pessoal à vida do santo, à espontaneidade e criatividade cultual-ritual.

Ao mesmo tempo, as festas juninas exigem criativo e positivo labor evangelizador/catequético, a fim de fundamentar todo o edifício religioso popular (marcado por elementos positivos e negativos, como crenças, manifestações, devoções, simpatias) ao alicerce do mistério da salvação cristã que é Cristo crucificado e ressuscitado, salvador e redentor do gênero humano.

É preciso celebrar um enlace afetivo e pastoral entre anúncio do Evangelho da Alegria, da Esperança, da Ressurreição com as tantas expressões populares presentes em nossos festejos juninos. Tal matrimônio, contudo, não poderá ser realizado se não houver mútua participação e envolvimento da fé cristã e da religiosidade popular, num casamento feito de animação, purificação e enriquecimento das diversas manifestações, a fim de auxiliar o povo santo de Deus a sentir-se Igreja, e a Igreja a ser sempre mais o autêntico povo de Deus.

Por isso, peçamos esse “matrimônio” a tantos Antônios, Joões, Pedros, Paulos, Marias, Ritas, bispos, presbíteros, diáconos, consagrados e consagradas, seminaristas, leigos e leigas. Nossa prece se associa aquela música eternizada nas vozes de Lamartine Babo e Carmem Miranda nos versos de “Isto é lá com Santo Antônio”: “eu pedi numa oração, ao querido São João, que me desse um matrimônio”. Que seja santo e fecundo o “casório” entre ação evangelizadora e festejos juninos. Amém! Viva Santo Antônio, São João e São Pedro!

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‘Pedi a São João que me desse um matrimônio’: a evangelização e as festas juninas

15/06/2018 13:25 - Atualizado em 15/06/2018 13:25

O mês de junho traz consigo a bonita tradição dos festejos juninos. É tempo das celebrações litúrgicas dos santos Antônio (no dia 13), João Batista (em seu nascimento ou natividade, no dia 24) e Pedro (juntamente com Paulo, no dia 29). Uma palavrinha sobre essa última: a Solenidade de São Pedro e São Paulo, apóstolos, no Brasil, tornou-se “móvel” e será celebrada no domingo seguinte ao dia 29, isto é, 1º de julho.

Para entendermos essa antiga tradição festiva, seria importante retornar ao período em que muitos povos ainda não tinham entrado em diálogo com a fé cristã. Dentre suas muitas expressões religiosas havia aquela de celebrar os solstícios de verão e de inverno. Mas o que é solstício?

Solstício é uma palavra que vem da junção de duas palavras do latim: sol e sistere. Literalmente significa ‘o sol que não se mexe’, pois é usada para expressar um fenômeno da natureza que marca o início do verão ou do inverno. Ocorrendo duas vezes por ano, durante os solstícios, o sol permanece ao máximo da Linha do Equador, fazendo com que a luz solar reflita com maior intensidade em um dos hemisférios. Em consequência, a luz é menos intensa no outro hemisfério. Esse fenômeno marca precisamente o início das estações do inverno e verão.

No Hemisfério Norte, o solstício de verão, homenageava algumas divindades vinculadas à natureza, especialmente, aquelas da fertilidade humana e dos demais seres criados. Na Idade Média, a fé cristã vai gradualmente entrando em contato com essas culturas religiosas. Os cristãos e cristãs daquele tempo entendem a força popular que tal celebração tem e iniciam um diálogo em que vinculam o solstício de verão à Natividade de João Batista e o solstício de inverno à Natividade de Jesus (Natal).

Assim, o nosso calendário litúrgico, em seu ciclo de celebrações vinculadas ao Natal, está ligado aos dois fenômenos naturais que têm como data aproximada 24 de junho e 25 de dezembro. Surgem, assim, as “festas joaninas” (de João Batista), marcadas pelo encontro entre tradições cristãs e tradições religiosas desses povos. Disso deriva, por exemplo, os costumes: acender uma fogueira (tradição popular) no Dia de São João (tradição cristã); celebração de casamentos verdadeiros ou fictícios (a ideia da fertilidade); indumentárias e acessórios vinculados às atividades do campo (louvor aos frutos da terra vindos das mãos de Deus Criador e do trabalho humano).

Em Portugal, esse período festivo torna-se gradualmente um grande momento de celebração dos “santos populares”: Antônio, João Batista, Pedro e Paulo. Tal devoção aos “santos populares” chega às colônias portuguesas.

No Brasil, principalmente nas regiões áridas, tornou-se importante ocasião anual para pedir e louvar a Deus pelas chuvas sobre a lavoura. Notemos que o relacionamento entre os devotos e os santos populares juninos, principalmente Santo Antônio e São João, é familiar, cheio de intimidades, como, por exemplo, no confiar a eles o encontro do amado/amada. Esse carácter fica bastante evidente nas diversas manifestações religiosas dedicadas a esses santos.

Valeria a pena, em nossa ação pastoral, uma maior atenção à atualidade e importância que tais festejos têm na religiosidade de nossos povos brasileiros. Felizmente, os festejos juninos estão espalhados por nossas paróquias, comunidades, seminários, movimentos e pastorais. Contudo, nem sempre eles vêm relacionados com a evangelização e/ou catequese da comunidade de fé. As festas juninas são fontes para a evangelização, e a evangelização é uma ação indispensável para iluminar, enriquecer e animar ainda mais tais celebrações populares.

As festas juninas exprimem uma concepção de Deus e da pessoa humana, bem como de suas mútuas relações. Há uma espiritualidade subjacente muito peculiar e rica. Destacamos entre seus variados conteúdos e valores a particular integração entre fé e vida, a experiência de proximidade do divino na vida, a real compreensão da presença do Espírito em seus mediadores, a disposição a assumir atitudes interiores e exteriores que modelam a própria vida pessoal à vida do santo, à espontaneidade e criatividade cultual-ritual.

Ao mesmo tempo, as festas juninas exigem criativo e positivo labor evangelizador/catequético, a fim de fundamentar todo o edifício religioso popular (marcado por elementos positivos e negativos, como crenças, manifestações, devoções, simpatias) ao alicerce do mistério da salvação cristã que é Cristo crucificado e ressuscitado, salvador e redentor do gênero humano.

É preciso celebrar um enlace afetivo e pastoral entre anúncio do Evangelho da Alegria, da Esperança, da Ressurreição com as tantas expressões populares presentes em nossos festejos juninos. Tal matrimônio, contudo, não poderá ser realizado se não houver mútua participação e envolvimento da fé cristã e da religiosidade popular, num casamento feito de animação, purificação e enriquecimento das diversas manifestações, a fim de auxiliar o povo santo de Deus a sentir-se Igreja, e a Igreja a ser sempre mais o autêntico povo de Deus.

Por isso, peçamos esse “matrimônio” a tantos Antônios, Joões, Pedros, Paulos, Marias, Ritas, bispos, presbíteros, diáconos, consagrados e consagradas, seminaristas, leigos e leigas. Nossa prece se associa aquela música eternizada nas vozes de Lamartine Babo e Carmem Miranda nos versos de “Isto é lá com Santo Antônio”: “eu pedi numa oração, ao querido São João, que me desse um matrimônio”. Que seja santo e fecundo o “casório” entre ação evangelizadora e festejos juninos. Amém! Viva Santo Antônio, São João e São Pedro!

Padre Abimar Oliveira de Moraes
Autor

Padre Abimar Oliveira de Moraes

Professor do Departamento de Teologia da PUC-Rio e vigário paroquial da Paróquia de Santa Rita (Centro)