Arquidiocese do Rio de Janeiro

25º 17º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 22/07/2018

22 de Julho de 2018

Liturgia: crítica sobre o antropocentrismo no culto

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do e-mail.
E-mail enviado com sucesso.

22 de Julho de 2018

Liturgia: crítica sobre o antropocentrismo no culto

Se você encontrou erro neste texto ou nesta página, por favor preencha os campos abaixo. O link da página será enviado automaticamente a ArqRio.

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do erro.
Erro relatado com sucesso, obrigado.

30/04/2018 12:33 - Atualizado em 30/04/2018 12:33

Liturgia: crítica sobre o antropocentrismo no culto 0

30/04/2018 12:33 - Atualizado em 30/04/2018 12:33

Segundo a antropologia sociocultural contemporânea baseada na epistemologia semiótica, o fenômeno religioso e a experiência religiosa desaparecem e são destruídos quando são eliminados os seus ritos. A morte do rito é a morte da religião1. A interpretação antropológica do fenômeno religioso descobre que a adulteração dos rituais é adulteração daquilo que se crê e, como consequência, não se cultua mais o dado original – segundo um dom recebido –, mas aquilo que se quer crer. Não se recebe, mas se produz.

Paulo Apóstolo exorta: “Vos transmito, o que recebi do Senhor”; o texto faz referência à fração do pão (1 Cor 11, 23ss). A clareza contida no texto e a sã inteligência admitem que o apóstolo não se exprime como o autor: “eu acho, suponho, eu quero, imponho, é contagiante” etc., não há, no texto sagrado, coerentemente nada análogo que possa dar margem implícita à adulteração de uma transmissão original de um núcleo de fé. Quando assumimos posturas que relativizam os dados revelados, concorremos explicitamente a favor da adulteração do que foi transmitido; é o prevalecimento da vontade humana sobre a fé e que refletirá sobre o culto e o culto sobre a fé.

Ninguém de correta visão e competência teológica pode negar a existência do antropocentrismo na liturgia da Igreja, afirmada por vários Papas: “Estou convencido de que a crise da Igreja, na qual hoje nos encontramos, depende, em grande parte, do desmoronamento da Liturgia2”. 

Observações fundamentadas sobre os abusos na Liturgia

Os abusos – “ambiguidades, liberdades, criatividades, adaptações, reduções e instrumentalizações”, lamentados pelo Papa São João Paulo II3, aparecem, desde o começo, tão estranhos à nova liturgia da missa, que, equivocadamente, foram atribuídos ao próprio rito da missa promulgado pela Igreja, provocando, assim, grande restrição, aliás, com relação ao próprio rito promulgado pela Igreja4.

O Papa Paulo VI exortou-nos: “Em matéria litúrgica, as próprias Conferências Episcopais vão às vezes, por sua própria conta, além dos justos limites. Acontece igualmente que se fazem experiências arbitrárias ou que se introduzam ritos que estão em oposição flagrante com as regras estabelecidas pela Igreja5.

Bento XVI explicava em matéria de Liturgia: “Não é nada que novas comissões voltem sempre a inventar. Porque assim se tornaria uma coisa feita por nós mesmos, quer as comissões estejam em Roma, quer em Trier, quer em Paris. Pelo contrário, tem que conservar sempre sua continuidade e uma última ausência de arbitrariedade, em que realmente eu me encontro com os séculos e, através deles, com o que é eterno, e sou elevado para uma comunidade de celebração que é uma coisa diferente do que imaginam os comitês ou uma comissão de festas6”.

Não se pode comparar a Liturgia a um mecanismo desmontável e reparável à vontade, mas a um organismo vivo cujas leis internas determinam as modalidades do seu futuro desenvolvimento. A criatividade não deve constituir uma categoria autêntica da Liturgia. Essa noção pertence, ademais, a uma visão marxista do mundo. Num universo desprovido de sentido e fruto da evolução cega, o homem marxista é capaz de criatividade fazendo nascer um mundo novo e melhor7.

A Liturgia não é um show, um espetáculo que necessite de diretores geniais e de atores de talento. A Liturgia não vive de surpresas “simpáticas”, de invenções “cativantes”, mas de repetições solenes – se não repetirmos não estamos fazendo o original, por isso que se repete para fazer o original, caso contrário estaremos fazendo outra coisa –. Não deve exprimir a atualidade e o seu efêmero, mas o mistério sagrado. Muitos pensaram e disseram que a Liturgia deve ser “feita” por toda a comunidade para ser realmente sua. É um modo de ver que levou a avaliar o seu sucesso em termos de eficácia espetacular, de entretenimento. Desse modo, porém, terminou por dispersar o proprium litúrgico, que não deriva daquilo que nós fizemos, mas do fato de que pertence. Algo que nós todos juntos não podemos, de algum modo, fazer. Na Liturgia age uma força, um poder que nem mesmo a Igreja inteira pode atribuir-se: o que nela se manifesta é o absolutamente outro que, através da comunidade, chega até nós. Para o católico, a Liturgia é a pátria comum, é a fonte mesma da sua identidade. Por isso deve ser “predeterminada”, “imperturbável”, porque através do rito se manifesta a santidade de Deus. “Ao contrário, a revolta contra aquilo que foi chamado “velha rigidez rubricista”, acusada de inibir a “criatividade”, arrastou também a Liturgia ao vórtice do “faça-você-mesmo”, banalizando-a, porque a reduziu à nossa medíocre medida”.

O Papa emérito Bento XVI, quando cardeal prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, dizia: “em nossa reforma litúrgica há uma tendência, a meu ver errada, que visa à inculturação total da Liturgia ao mundo moderno: fazê-lo mais curta, fazer desaparecer o que considera incompreensível, traduzi-la em uma linguagem ainda mais simples, mais vulgar”. Desse modo, a essência da Liturgia e a própria celebração ficam completamente desvirtuadas; porque em Liturgia não se tem que entender as coisas só de forma racional, como se entende uma conferência, mas de modo mais completo, participando com todos os sentidos e deixando-se compenetrar por uma celebração que não foi inventada por uma comissão, mas que nos chega desde a profundidade dos séculos e, definitivamente, desde a eternidade8.

Em certas circunstâncias, se dá ao sacerdote, à pessoa do sacerdote, uma importância desmedida, quer dizer, se espera dele que faça tudo perfeito. Porque, com essa mentalidade, o centro da celebração é realmente o sacerdote. Em consequência, cabe perguntar-se: “por que só algumas pessoas o podem fazer”? Quando, ao contrário, o sacerdote sabe desaparecer pessoalmente,  reconhece-se só como mero “representante” e se limita a cumprir com fé o que lhe pede a Igreja, então o que sucede não gira em torno dele, sua pessoa não é o centro, mas se põe de lado e aparece algo maior. Julgo que se deve ver mais o poder e a força da tradição que não pode ser manipulada.

Bento VI já observava: “o sacerdote não é um showman ou showmaster que hoje inventa qualquer coisa e a transmite com habilidade. Pelo contrário, ele pode não ter talento nenhum como showman, porque ele está representando algo completamente diferente e que não depende absolutamente dele mesmo9.

Liturgia, fé e oração da Igreja – a volta ao mistério

A Liturgia pertence à Igreja inteira; é o que temos de mais santo, mais semelhante à Liturgia celeste; seus ritos devem exprimir dignidade, respeito, adoração, enfim, sacralidade. O sentido misterioso da Liturgia, que se desvela diante de nós sobre o altar, exprime as ações de Deus crescente no curso dos séculos da fé da Igreja. Leva em si todo o peso da história da Salvação e da história humana. Nem tudo desde o inicio era lógico, muitas coisas eram complicadas e não era sempre fácil se orientar.

A percepção do mistério envolve a globalidade do homem, provoca sua realidade existencial-interior, desperta as mais profundas e radicais reflexões, gera no homem um dos estados da natureza humana de mais difícil alcance: a contemplação. O sagrado está no inteiro corpo do homem, e o sentido do mistério o aborda conduzindo-o a pensar e a encontrar o mistério que está presente em si mesmo. Para a antropologia do Novo Testamento, o homem é Templo do Espírito Santo, e não o barro e nem o pó, segundo a antropologia do Antigo Testamento.

A Liturgia precisa redescobrir a sua dimensão divina, se abrir a epifania do mistério de Cristo e a assembleia cristã orientada a entender que quando fazemos Liturgia estamos diante do Sagrado, do Santíssimo. Porque a graça redentora nos é dada somente por esta via da ação divina e não pela via da cultura ou da ação do homem.

O primeiro juízo a ser formulado é aquele que demonstra disposições normais para compreender o que não podemos deixar de chamar de ignorância teológica. Provavelmente, no largo da constante expansão dos abusos litúrgicos, entendemos que umas das grandes verdades que causam esses abusos é a ausência traumática de instrumentos históricos, culturais e conteúdos teológicos, ordenados e sistemáticos, que a muitos expõe serem reconhecidos como destituídos de conhecimento profundo sobre a própria fé e a própria Igreja. 

Compreendendo esse sintoma, agora ouçamos o que ensina o Magistério da Igreja sobre a Liturgia: “A Liturgia é o exercício do múnus sacerdotal de Cristo, único mediador entre Deus e o homem, para a perfeita glorificação de Deus e a santificação do homem10”.  A Santa Missa é a celebração do Mistério Pascal de Cristo, de sua paixão, morte e ressurreição11. A Santíssima Eucaristia é a fonte e o ápice da vida da Igreja12; é a presença real de Cristo13, de uma maneira única e inteira. Na Liturgia, Deus e homem se encontram.

Quando celebramos o divino culto de nosso Redentor, a Santa Missa, afirmamos que, segundo a sã doutrina, a Eucaristia que celebramos hoje é a mesma que Jesus celebrou na Quinta-Feira Santa com seus discípulos. Não há nenhuma diferença e nem tão pouco o dar-se menos da graça salvífica. É a mesma santa ceia, a mesma graça, o mesmo Liturgo presente. Em conclusão, a fé eclesial acolhe o realismo da Quinta-Feira Santa, de maneira radical e global: o Cristo que verdadeiramente ressuscitou está também presente no Sacramento da Eucaristia.

Portanto, o que faz a Igreja ao celebrar a Eucaristia é participar da única oferenda que seu Senhor fez de Si mesmo. Ela comunga no sacrifício de Cristo e em sua páscoa.

A Liturgia constitui uma epifania da Igreja. Por obra do Pai e do Filho e do Espírito Santo (cf. LG 2-4), a Igreja toda aparece como povo reunido (LG 4). A Liturgia pode ser concebida como ofício divino, obra da Santíssima Trindade. Ofício significa fazer uma obra (opus facere). A obra divina consiste na obra da criação e na obra da nova criação, a salvação. Contudo, sabemos que, com frequência, sobre a Liturgia, ouvimos tais definições: missa sertaneja, missa de formatura, missa dos pais e das mães, missas dos jovens e crianças etc., tudo isso é rigorosamente falso, teologicamente insustentável e alienador. A missa é a celebração do Mistério Pascal de Cristo, celebramos a certeza de seu triunfo eterno sobre a morte. Por este simples e compreensível motivo, a missa não pode ser dos pais ou dos demais citados etc., porque não foram eles que se sacrificaram e morreram na cruz para redimir a Humanidade. Contudo, o Santo Mistério Pascal de Cristo que a Santa Igreja celebra na missa, pode conter infinitas intenções para a vida do mundo e do homem, a saber, o elenco exemplificado acima. O descuidado com o modo de se exprimir denuncia o déficit da formação teológica e a precária catequese. 

A Liturgia é a ação do Cristo todo. O mistério de Cristo é celebrado, não é repetido; o que se repete são as celebrações; em cada uma delas sobrevém a efusão do Espírito Santo que atualiza o único mistério (CIC 1104). “Como forças que saem do corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante, ações do Espírito Santo em operação no seu corpo que é a Igreja” (...) (CIC 1116)14.

Cristo, a única Liturgia e o único Liturgo

“Moisés (...), retire as sandálias porque esse lugar é santo” (Ex 3,5). Precisamos realizar esse gesto quando nos dirigimos ao altar: A Liturgia cristã é o próprio Cristo, Ele é o culto agradável a Deus. A Liturgia cristã é o sacrifício redentor de Cristo na cruz, Ele na cruz é o verdadeiro e único culto. Ele é a oferenda gratuita de Si mesmo; o seu próprio Corpo é o altar; Sua entrega e abandono sem limites à vontade do Pai é o culto. Ele sobre o seu próprio corpo sacrificado exprime a sua oração sacerdotal; Ele é o culto existencial. O culto de Cristo – Liturgia da Igreja – é um fato histórico. Não nos foi dado outro culto além desse. O Seu santíssimo sangue derramado é testemunho eterno de Sua Paixão e do amor do Pai para com o mundo. Através desse inimaginável sofrimento para os homens, estão contidos o poder e o mistério de Sua Ressurreição. O amor é real, tudo é real em seu sacrifício, tudo é real em Sua ressurreição. Cristo é o único liturgo e única Liturgia, isto é, o único mediador – entre Deus e os homens – que salva a Humanidade, porque Ele é a oferenda diante da qual não podemos conceber outra maior e nem mais perfeita. Esta é a única Liturgia da Igreja e de consequência o seu credo.

Celebrarmos algo que nos coloca fora desse fato histórico-salvífico ou teatralizá-lo é situar-se fora do credo da Igreja? – “lex orandi, lex credenti” – a lei da oração, estabeleça a lei da fé O prevalecimento determinante da  vontade humana sobre o culto  pode levar aos desvios gravíssimos dos dados de fé, os quais são todos e de forma plena salvaguardados pela autêntica e genuína Liturgia da Igreja. Formalizar a adulteração da Liturgia significa formalizar uma contestação ou um protesto15 contra o credo apostólico? Opor-se ao carisma da verdade?  Atitude que de consequência pode nos expor a saída da Igreja? Porque não estamos em comunhão com o que a Igreja ensina, ordena e crê? Mas em evidente linha herétical e profana. Este sintoma vem definido como esquizofrenia religiosa.

Enfim, as ramificações em forte contexto de solidificação que adulteram a liturgia revelam uma fé infantil e uma “espiritualidade” medíocre. Reflitamos sobre a fé e o culto dos mártires, dos santos e santos, das virgens e dos confessores.

 “Pela oblação de seu corpo, pregado na Cruz, levou a plenitude os sacrifícios antigos. Confiante, entregou em vossas mãos seu espírito, cumprindo inteiramente vossa santa vontade, revelando-se ao mesmo tempo, sacerdote, altar e cordeiro”16.

 

1 J. F. Lyotard, La Condition Postmoderne, Editions de Minuit, Paris, 1979. M. Eliade, Images et symbols, Essai sur le symbolism magico-religiuex, Gallimard, Paris, 1952. A área bibliográfica é imponente, essas novas escolas de antropologia sociocultural superaram os esquemas funcionalistas de intepretação das culturas.   

 2 Joseph Ratzinger, La mia vita, Roma, San Paolo, pág. 112 e 113.

3  João Paulo II, Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nn 10, 52, 61.

 4 Algumas das razões apresentadas, referindo-se negativamente à nova liturgia, não se aplicam exatamente ao novo rito da missa celebrado tal qual foi promulgado pela Santa Sé e segundo suas normas litúrgicas, missas no rito celebradas correta, respeitosa e piedosamente, mas sim às missas como são muitas vezes celebradas, nas quais os abusos litúrgicos são frequentes.

5  Discurso de S.S. Paulo VI na XI Plenária do Consilium, 14 de outubro de 1968.

6 Cardeal Joseph Ratzinger, O Sal da Terra, Imago, pág. 140.

 7 Ibidem, p. 142.

8 Segundo a entrevista de D. Rifan (Fraternidade Pio X) que gerou um artigo “Desvios na Liturgia”, em Jornal La Croix, 25.06.2006. “Desvios na Liturgia”.

9 Ibidem pg. 142.

10 Papa Pio XII, Encíclica Mediator Dei. Ver: Constituição Sacrosanctum Concilium.

11 Constituição Sacrosanctum Concilium. Vaticano II.

12 Idem.

13 Concílio Trento, dec. Sacramentum. 

14 Veja também Concilium Vaticano II – Constituição Sacrosanctum Concilium n. 27. Não é inútil afirmar que as variedades de invenções nas “celebrações” é uma banal fantasia e uns dos sintomas da esquizofrenia religiosa de nossos tempos.

15 Protesto citato no texto se aproxima também do conceito de protestantismo clássico.

16 Missal Romano Papa Paulo VI – Prefácio da Páscoa V.

Leia os comentários

Deixe seu comentário

Resposta ao comentário de:

Enviando...
Por favor, preencha os campos adequadamente.
Ocorreu um erro no envio do comentário.
Comentário enviado para aprovação.

Liturgia: crítica sobre o antropocentrismo no culto

30/04/2018 12:33 - Atualizado em 30/04/2018 12:33

Segundo a antropologia sociocultural contemporânea baseada na epistemologia semiótica, o fenômeno religioso e a experiência religiosa desaparecem e são destruídos quando são eliminados os seus ritos. A morte do rito é a morte da religião1. A interpretação antropológica do fenômeno religioso descobre que a adulteração dos rituais é adulteração daquilo que se crê e, como consequência, não se cultua mais o dado original – segundo um dom recebido –, mas aquilo que se quer crer. Não se recebe, mas se produz.

Paulo Apóstolo exorta: “Vos transmito, o que recebi do Senhor”; o texto faz referência à fração do pão (1 Cor 11, 23ss). A clareza contida no texto e a sã inteligência admitem que o apóstolo não se exprime como o autor: “eu acho, suponho, eu quero, imponho, é contagiante” etc., não há, no texto sagrado, coerentemente nada análogo que possa dar margem implícita à adulteração de uma transmissão original de um núcleo de fé. Quando assumimos posturas que relativizam os dados revelados, concorremos explicitamente a favor da adulteração do que foi transmitido; é o prevalecimento da vontade humana sobre a fé e que refletirá sobre o culto e o culto sobre a fé.

Ninguém de correta visão e competência teológica pode negar a existência do antropocentrismo na liturgia da Igreja, afirmada por vários Papas: “Estou convencido de que a crise da Igreja, na qual hoje nos encontramos, depende, em grande parte, do desmoronamento da Liturgia2”. 

Observações fundamentadas sobre os abusos na Liturgia

Os abusos – “ambiguidades, liberdades, criatividades, adaptações, reduções e instrumentalizações”, lamentados pelo Papa São João Paulo II3, aparecem, desde o começo, tão estranhos à nova liturgia da missa, que, equivocadamente, foram atribuídos ao próprio rito da missa promulgado pela Igreja, provocando, assim, grande restrição, aliás, com relação ao próprio rito promulgado pela Igreja4.

O Papa Paulo VI exortou-nos: “Em matéria litúrgica, as próprias Conferências Episcopais vão às vezes, por sua própria conta, além dos justos limites. Acontece igualmente que se fazem experiências arbitrárias ou que se introduzam ritos que estão em oposição flagrante com as regras estabelecidas pela Igreja5.

Bento XVI explicava em matéria de Liturgia: “Não é nada que novas comissões voltem sempre a inventar. Porque assim se tornaria uma coisa feita por nós mesmos, quer as comissões estejam em Roma, quer em Trier, quer em Paris. Pelo contrário, tem que conservar sempre sua continuidade e uma última ausência de arbitrariedade, em que realmente eu me encontro com os séculos e, através deles, com o que é eterno, e sou elevado para uma comunidade de celebração que é uma coisa diferente do que imaginam os comitês ou uma comissão de festas6”.

Não se pode comparar a Liturgia a um mecanismo desmontável e reparável à vontade, mas a um organismo vivo cujas leis internas determinam as modalidades do seu futuro desenvolvimento. A criatividade não deve constituir uma categoria autêntica da Liturgia. Essa noção pertence, ademais, a uma visão marxista do mundo. Num universo desprovido de sentido e fruto da evolução cega, o homem marxista é capaz de criatividade fazendo nascer um mundo novo e melhor7.

A Liturgia não é um show, um espetáculo que necessite de diretores geniais e de atores de talento. A Liturgia não vive de surpresas “simpáticas”, de invenções “cativantes”, mas de repetições solenes – se não repetirmos não estamos fazendo o original, por isso que se repete para fazer o original, caso contrário estaremos fazendo outra coisa –. Não deve exprimir a atualidade e o seu efêmero, mas o mistério sagrado. Muitos pensaram e disseram que a Liturgia deve ser “feita” por toda a comunidade para ser realmente sua. É um modo de ver que levou a avaliar o seu sucesso em termos de eficácia espetacular, de entretenimento. Desse modo, porém, terminou por dispersar o proprium litúrgico, que não deriva daquilo que nós fizemos, mas do fato de que pertence. Algo que nós todos juntos não podemos, de algum modo, fazer. Na Liturgia age uma força, um poder que nem mesmo a Igreja inteira pode atribuir-se: o que nela se manifesta é o absolutamente outro que, através da comunidade, chega até nós. Para o católico, a Liturgia é a pátria comum, é a fonte mesma da sua identidade. Por isso deve ser “predeterminada”, “imperturbável”, porque através do rito se manifesta a santidade de Deus. “Ao contrário, a revolta contra aquilo que foi chamado “velha rigidez rubricista”, acusada de inibir a “criatividade”, arrastou também a Liturgia ao vórtice do “faça-você-mesmo”, banalizando-a, porque a reduziu à nossa medíocre medida”.

O Papa emérito Bento XVI, quando cardeal prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, dizia: “em nossa reforma litúrgica há uma tendência, a meu ver errada, que visa à inculturação total da Liturgia ao mundo moderno: fazê-lo mais curta, fazer desaparecer o que considera incompreensível, traduzi-la em uma linguagem ainda mais simples, mais vulgar”. Desse modo, a essência da Liturgia e a própria celebração ficam completamente desvirtuadas; porque em Liturgia não se tem que entender as coisas só de forma racional, como se entende uma conferência, mas de modo mais completo, participando com todos os sentidos e deixando-se compenetrar por uma celebração que não foi inventada por uma comissão, mas que nos chega desde a profundidade dos séculos e, definitivamente, desde a eternidade8.

Em certas circunstâncias, se dá ao sacerdote, à pessoa do sacerdote, uma importância desmedida, quer dizer, se espera dele que faça tudo perfeito. Porque, com essa mentalidade, o centro da celebração é realmente o sacerdote. Em consequência, cabe perguntar-se: “por que só algumas pessoas o podem fazer”? Quando, ao contrário, o sacerdote sabe desaparecer pessoalmente,  reconhece-se só como mero “representante” e se limita a cumprir com fé o que lhe pede a Igreja, então o que sucede não gira em torno dele, sua pessoa não é o centro, mas se põe de lado e aparece algo maior. Julgo que se deve ver mais o poder e a força da tradição que não pode ser manipulada.

Bento VI já observava: “o sacerdote não é um showman ou showmaster que hoje inventa qualquer coisa e a transmite com habilidade. Pelo contrário, ele pode não ter talento nenhum como showman, porque ele está representando algo completamente diferente e que não depende absolutamente dele mesmo9.

Liturgia, fé e oração da Igreja – a volta ao mistério

A Liturgia pertence à Igreja inteira; é o que temos de mais santo, mais semelhante à Liturgia celeste; seus ritos devem exprimir dignidade, respeito, adoração, enfim, sacralidade. O sentido misterioso da Liturgia, que se desvela diante de nós sobre o altar, exprime as ações de Deus crescente no curso dos séculos da fé da Igreja. Leva em si todo o peso da história da Salvação e da história humana. Nem tudo desde o inicio era lógico, muitas coisas eram complicadas e não era sempre fácil se orientar.

A percepção do mistério envolve a globalidade do homem, provoca sua realidade existencial-interior, desperta as mais profundas e radicais reflexões, gera no homem um dos estados da natureza humana de mais difícil alcance: a contemplação. O sagrado está no inteiro corpo do homem, e o sentido do mistério o aborda conduzindo-o a pensar e a encontrar o mistério que está presente em si mesmo. Para a antropologia do Novo Testamento, o homem é Templo do Espírito Santo, e não o barro e nem o pó, segundo a antropologia do Antigo Testamento.

A Liturgia precisa redescobrir a sua dimensão divina, se abrir a epifania do mistério de Cristo e a assembleia cristã orientada a entender que quando fazemos Liturgia estamos diante do Sagrado, do Santíssimo. Porque a graça redentora nos é dada somente por esta via da ação divina e não pela via da cultura ou da ação do homem.

O primeiro juízo a ser formulado é aquele que demonstra disposições normais para compreender o que não podemos deixar de chamar de ignorância teológica. Provavelmente, no largo da constante expansão dos abusos litúrgicos, entendemos que umas das grandes verdades que causam esses abusos é a ausência traumática de instrumentos históricos, culturais e conteúdos teológicos, ordenados e sistemáticos, que a muitos expõe serem reconhecidos como destituídos de conhecimento profundo sobre a própria fé e a própria Igreja. 

Compreendendo esse sintoma, agora ouçamos o que ensina o Magistério da Igreja sobre a Liturgia: “A Liturgia é o exercício do múnus sacerdotal de Cristo, único mediador entre Deus e o homem, para a perfeita glorificação de Deus e a santificação do homem10”.  A Santa Missa é a celebração do Mistério Pascal de Cristo, de sua paixão, morte e ressurreição11. A Santíssima Eucaristia é a fonte e o ápice da vida da Igreja12; é a presença real de Cristo13, de uma maneira única e inteira. Na Liturgia, Deus e homem se encontram.

Quando celebramos o divino culto de nosso Redentor, a Santa Missa, afirmamos que, segundo a sã doutrina, a Eucaristia que celebramos hoje é a mesma que Jesus celebrou na Quinta-Feira Santa com seus discípulos. Não há nenhuma diferença e nem tão pouco o dar-se menos da graça salvífica. É a mesma santa ceia, a mesma graça, o mesmo Liturgo presente. Em conclusão, a fé eclesial acolhe o realismo da Quinta-Feira Santa, de maneira radical e global: o Cristo que verdadeiramente ressuscitou está também presente no Sacramento da Eucaristia.

Portanto, o que faz a Igreja ao celebrar a Eucaristia é participar da única oferenda que seu Senhor fez de Si mesmo. Ela comunga no sacrifício de Cristo e em sua páscoa.

A Liturgia constitui uma epifania da Igreja. Por obra do Pai e do Filho e do Espírito Santo (cf. LG 2-4), a Igreja toda aparece como povo reunido (LG 4). A Liturgia pode ser concebida como ofício divino, obra da Santíssima Trindade. Ofício significa fazer uma obra (opus facere). A obra divina consiste na obra da criação e na obra da nova criação, a salvação. Contudo, sabemos que, com frequência, sobre a Liturgia, ouvimos tais definições: missa sertaneja, missa de formatura, missa dos pais e das mães, missas dos jovens e crianças etc., tudo isso é rigorosamente falso, teologicamente insustentável e alienador. A missa é a celebração do Mistério Pascal de Cristo, celebramos a certeza de seu triunfo eterno sobre a morte. Por este simples e compreensível motivo, a missa não pode ser dos pais ou dos demais citados etc., porque não foram eles que se sacrificaram e morreram na cruz para redimir a Humanidade. Contudo, o Santo Mistério Pascal de Cristo que a Santa Igreja celebra na missa, pode conter infinitas intenções para a vida do mundo e do homem, a saber, o elenco exemplificado acima. O descuidado com o modo de se exprimir denuncia o déficit da formação teológica e a precária catequese. 

A Liturgia é a ação do Cristo todo. O mistério de Cristo é celebrado, não é repetido; o que se repete são as celebrações; em cada uma delas sobrevém a efusão do Espírito Santo que atualiza o único mistério (CIC 1104). “Como forças que saem do corpo de Cristo, sempre vivo e vivificante, ações do Espírito Santo em operação no seu corpo que é a Igreja” (...) (CIC 1116)14.

Cristo, a única Liturgia e o único Liturgo

“Moisés (...), retire as sandálias porque esse lugar é santo” (Ex 3,5). Precisamos realizar esse gesto quando nos dirigimos ao altar: A Liturgia cristã é o próprio Cristo, Ele é o culto agradável a Deus. A Liturgia cristã é o sacrifício redentor de Cristo na cruz, Ele na cruz é o verdadeiro e único culto. Ele é a oferenda gratuita de Si mesmo; o seu próprio Corpo é o altar; Sua entrega e abandono sem limites à vontade do Pai é o culto. Ele sobre o seu próprio corpo sacrificado exprime a sua oração sacerdotal; Ele é o culto existencial. O culto de Cristo – Liturgia da Igreja – é um fato histórico. Não nos foi dado outro culto além desse. O Seu santíssimo sangue derramado é testemunho eterno de Sua Paixão e do amor do Pai para com o mundo. Através desse inimaginável sofrimento para os homens, estão contidos o poder e o mistério de Sua Ressurreição. O amor é real, tudo é real em seu sacrifício, tudo é real em Sua ressurreição. Cristo é o único liturgo e única Liturgia, isto é, o único mediador – entre Deus e os homens – que salva a Humanidade, porque Ele é a oferenda diante da qual não podemos conceber outra maior e nem mais perfeita. Esta é a única Liturgia da Igreja e de consequência o seu credo.

Celebrarmos algo que nos coloca fora desse fato histórico-salvífico ou teatralizá-lo é situar-se fora do credo da Igreja? – “lex orandi, lex credenti” – a lei da oração, estabeleça a lei da fé O prevalecimento determinante da  vontade humana sobre o culto  pode levar aos desvios gravíssimos dos dados de fé, os quais são todos e de forma plena salvaguardados pela autêntica e genuína Liturgia da Igreja. Formalizar a adulteração da Liturgia significa formalizar uma contestação ou um protesto15 contra o credo apostólico? Opor-se ao carisma da verdade?  Atitude que de consequência pode nos expor a saída da Igreja? Porque não estamos em comunhão com o que a Igreja ensina, ordena e crê? Mas em evidente linha herétical e profana. Este sintoma vem definido como esquizofrenia religiosa.

Enfim, as ramificações em forte contexto de solidificação que adulteram a liturgia revelam uma fé infantil e uma “espiritualidade” medíocre. Reflitamos sobre a fé e o culto dos mártires, dos santos e santos, das virgens e dos confessores.

 “Pela oblação de seu corpo, pregado na Cruz, levou a plenitude os sacrifícios antigos. Confiante, entregou em vossas mãos seu espírito, cumprindo inteiramente vossa santa vontade, revelando-se ao mesmo tempo, sacerdote, altar e cordeiro”16.

 

1 J. F. Lyotard, La Condition Postmoderne, Editions de Minuit, Paris, 1979. M. Eliade, Images et symbols, Essai sur le symbolism magico-religiuex, Gallimard, Paris, 1952. A área bibliográfica é imponente, essas novas escolas de antropologia sociocultural superaram os esquemas funcionalistas de intepretação das culturas.   

 2 Joseph Ratzinger, La mia vita, Roma, San Paolo, pág. 112 e 113.

3  João Paulo II, Encíclica Ecclesia de Eucharistia, nn 10, 52, 61.

 4 Algumas das razões apresentadas, referindo-se negativamente à nova liturgia, não se aplicam exatamente ao novo rito da missa celebrado tal qual foi promulgado pela Santa Sé e segundo suas normas litúrgicas, missas no rito celebradas correta, respeitosa e piedosamente, mas sim às missas como são muitas vezes celebradas, nas quais os abusos litúrgicos são frequentes.

5  Discurso de S.S. Paulo VI na XI Plenária do Consilium, 14 de outubro de 1968.

6 Cardeal Joseph Ratzinger, O Sal da Terra, Imago, pág. 140.

 7 Ibidem, p. 142.

8 Segundo a entrevista de D. Rifan (Fraternidade Pio X) que gerou um artigo “Desvios na Liturgia”, em Jornal La Croix, 25.06.2006. “Desvios na Liturgia”.

9 Ibidem pg. 142.

10 Papa Pio XII, Encíclica Mediator Dei. Ver: Constituição Sacrosanctum Concilium.

11 Constituição Sacrosanctum Concilium. Vaticano II.

12 Idem.

13 Concílio Trento, dec. Sacramentum. 

14 Veja também Concilium Vaticano II – Constituição Sacrosanctum Concilium n. 27. Não é inútil afirmar que as variedades de invenções nas “celebrações” é uma banal fantasia e uns dos sintomas da esquizofrenia religiosa de nossos tempos.

15 Protesto citato no texto se aproxima também do conceito de protestantismo clássico.

16 Missal Romano Papa Paulo VI – Prefácio da Páscoa V.

Autor

Padre Manoel de Freitas

Mestre e doutor em teologia litúrgica pelo Pontifício Ateneo de Santo Anselmo, Roma.