Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 18/11/2018

18 de Novembro de 2018

Tu sabes que eu te amo

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30/03/2018 15:44 - Atualizado em 30/03/2018 15:45

Tu sabes que eu te amo 0

30/03/2018 15:44 - Atualizado em 30/03/2018 15:45

Na sexta-feira santa, somos chamados a contemplar o grande mistério do Amor de Deus por nós. Lembremo-nos que nossas vidas foram estimadas por alguém, o Homem-Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo. Temos um valor infinito, pois Alguém se doou por nós. É muito importante sabermos disto para não perdemos o sentido deste acontecimento e nem dizer de forma superficial que “Cristo morreu pelos nossos pecados”. Primeiramente, devemos ter a consciência que havia um pacto de fidelidade no Antigo Testamento, Deus que fez a aliança com o povo de Israel.

Não era fácil obedecer todas as leis que haviam, por isso existia um dia no ano o qual era dedicado à expiação, o dia chamado de Yom Kipur, dia do perdão. Neste dia, o Sumo Sacerdote entrava no lugar mais sagrado do Templo, onde o mesmo pronunciava o nome de Deus e aspergia o propiciatório com o sangue das “vítimas” que eram animais.

O propiciatório, por sua vez, era o lugar onde Deus estava para aquele povo. Esse ritual, anualmente, era o sinal o qual mostrava que nós merecemos a morte, porque nós não obedecemos a lei. Tocando aquele lugar santo era como se purificasse o povo. Aliás, quando colocamos algo puro no impuro, a tendência é daquilo que é puro se tornar impuro. Porém, a ideia do povo do Antigo Testamento era o inverso, ou seja, o sangue impuro daquele povo era purificado por Deus, naquele lugar denominado propiciatório. Ora, logo os profetas viram e denunciaram aqueles sacrifícios de animais, pois não havia suficiência, já não havia mais sentido de continuar. Deus queria um coração puro e obediente, e não sacrifícios de animais.

Diante dessa explicação caímos na pergunta: o que era necessário para o povo seguir a aliança com Deus? O profeta Ezequiel nos responde: “Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne" (36,26).  

O Antigo Testamento termina com esta expectativa: de precisar de um coração novo, puro e obediente. E em Jesus Cristo veio este coração novo, um coração obediente, um coração que traz a realização perfeita daquele pacto do Antigo Testamento. Ensina-nos o Catecismo da Igreja Católica no parágrafo 433: Quando São Paulo diz de Jesus que “Deus o destinou como instrumento de propiciação, por seu próprio Sangue, quer afirmar que na humanidade deste último era Deus que em Cristo reconciliava consigo o mundo”. Para melhor compreensão, Jesus é o propiciatório, aquele lugar onde era aspergido o sangue das vítimas. Jesus morre na cruz. O sangue da vítima toca o propiciatório, ali acontece o sacrifício propiciatório definitivo.

O puro e imaculado que é Deus, homem sem pecado, toma os nossos pecados. Aliás, não foi um acontecimento simbólico, tampouco um ritual externo; entretanto de forma real, ele tomou sobre si os nossos pecados (1Pd 2,24). Ele recebe todo o impacto da nossa miséria. A morte toca em Jesus, o puro, por isso nos liberta, nos salva e nos reabilita. Eis o porquê da morte de Jesus que fazemos memória ao celebrarmos na tarde de sexta-feira da Semana Maior em vista da ressurreição, pois “na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem”, assim como escutamos na proclamação da segunda leitura da ação litúrgica.

São Tomás de Aquino, escreve que Cristo morreu por amor, pois sua obediência procedia de seu amor pelo Pai e por nós. Não podemos pensar em tamanho sacrifício: “tão desfigurado ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano” como nos relata o cântico do servo sofredor no livro do profeta Isaías na primeira leitura da liturgia da sexta-feira santa.

No Evangelho da Paixão de Jesus Cristo segundo João podemos citar vários personagens que foram relatados pelo autor, entre os quais Pedro, com quem Jesus teve tanto contato. Aliás, o apóstolo que Ele próprio confiou para a edificação da sua Igreja (Mt 16,18).

Simão Pedro, no primeiro momento, faz uma espécie de ataque para defender Jesus, o qual lhe pede para guardar a espada (Jo 18,11). Logo depois, relata que Pedro seguiu Jesus (Jo 18,15). Simão Pedro fica do lado de fora do pátio do Sumo Sacerdote (Jo 18,16). Simão Pedro entra no pátio (Jo 18,16). Logo em seguida, Simão Pedro é interrogado por parecer parte dos discípulos de Jesus, o nazareno, e assim acontece a primeira negação.

Pedro se aquece com os empregados e guardas que tinha feito uma fogueira (Jo 18,18). O discípulo em quem Jesus tanto confiara estava de pé e nega pela segunda vez o mestre quando Anás enviou Jesus para Caifás (Jo 18,24-25). Pedro nega a terceira vez e o galo cantou (Jo 18,27) como havia profetizado Jesus (Mt 26,34). As ações de Pedro para com Jesus continuam a se repetir através das nossas vidas.

Mateus relata no versículo 33 do capítulo 26 que Pedro interveio dizendo: “Mesmo que sejas para todos uma ocasião de queda, para mim jamais o serás” e mesmo ainda depois de Jesus profetizar suas ações, Pedro continua a dizer: “Mesmo que seja necessário morrer contigo, jamais te negarei!”. Ora, fazemos o mesmo que Pedro, quando vamos à casa do Senhor, comungamos da Palavra e da Eucaristia que é o próprio Cristo, muitas vezes choramos e deixamos nos levar pelo momento, todavia, nos momentos que querem prender o Cristo com interesses humanos, não cristãos, indo contra a doutrina católica, nós nos omitimos e com isso o negamos e aquilo que parecia ser uma promessa, um pacto de fidelidade com Cristo, cai por terra.

O Papa Emérito Bento XVI, na sua encíclica Caritas in Veritate, no parágrafo terceiro escreve: “Sem a Verdade, a Caridade cai no sentimentalismo”, e é esse o perigo que corremos quando somente dialogamos, ou até mesmo um diálogo sem compromissos com Deus, uma fé fria capaz de negar o Cristo e a sua Igreja em qualquer lugar e, assim, ter dificuldades posteriores de acolher a misericórdia ou até mesmo de ser misericordioso consigo mesmo.

Com amor sincero e fé profunda peçamos ao Senhor, o Cristo que morreu para nos salvar, que sempre nos conceda as graças necessárias para não negarmos o nosso conhecimento por Ele. Na celebração de sexta-feira santa, na qual temos a oportunidade de celebrar a paixão do Senhor, peçamos a Deus que consigamos chegar à Ressurreição assim como Pedro chegou depois de se converter naquilo que precisava.

Que a figura de Pedro nos sirva de exemplo para não negarmos Jesus e posteriormente chorarmos amargamente como nos fala o evangelista Lucas em outra narração da paixão (Lc 22,62). Contudo, que com o exemplo de Pedro, que teve suas fraquezas, possamos voltar ao Senhor e dizer: “Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo” (Jo 21,17).

 

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30/03/2018 15:44 - Atualizado em 30/03/2018 15:45

Na sexta-feira santa, somos chamados a contemplar o grande mistério do Amor de Deus por nós. Lembremo-nos que nossas vidas foram estimadas por alguém, o Homem-Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo. Temos um valor infinito, pois Alguém se doou por nós. É muito importante sabermos disto para não perdemos o sentido deste acontecimento e nem dizer de forma superficial que “Cristo morreu pelos nossos pecados”. Primeiramente, devemos ter a consciência que havia um pacto de fidelidade no Antigo Testamento, Deus que fez a aliança com o povo de Israel.

Não era fácil obedecer todas as leis que haviam, por isso existia um dia no ano o qual era dedicado à expiação, o dia chamado de Yom Kipur, dia do perdão. Neste dia, o Sumo Sacerdote entrava no lugar mais sagrado do Templo, onde o mesmo pronunciava o nome de Deus e aspergia o propiciatório com o sangue das “vítimas” que eram animais.

O propiciatório, por sua vez, era o lugar onde Deus estava para aquele povo. Esse ritual, anualmente, era o sinal o qual mostrava que nós merecemos a morte, porque nós não obedecemos a lei. Tocando aquele lugar santo era como se purificasse o povo. Aliás, quando colocamos algo puro no impuro, a tendência é daquilo que é puro se tornar impuro. Porém, a ideia do povo do Antigo Testamento era o inverso, ou seja, o sangue impuro daquele povo era purificado por Deus, naquele lugar denominado propiciatório. Ora, logo os profetas viram e denunciaram aqueles sacrifícios de animais, pois não havia suficiência, já não havia mais sentido de continuar. Deus queria um coração puro e obediente, e não sacrifícios de animais.

Diante dessa explicação caímos na pergunta: o que era necessário para o povo seguir a aliança com Deus? O profeta Ezequiel nos responde: “Dar-vos-ei um coração novo e porei dentro de vós um espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei um coração de carne" (36,26).  

O Antigo Testamento termina com esta expectativa: de precisar de um coração novo, puro e obediente. E em Jesus Cristo veio este coração novo, um coração obediente, um coração que traz a realização perfeita daquele pacto do Antigo Testamento. Ensina-nos o Catecismo da Igreja Católica no parágrafo 433: Quando São Paulo diz de Jesus que “Deus o destinou como instrumento de propiciação, por seu próprio Sangue, quer afirmar que na humanidade deste último era Deus que em Cristo reconciliava consigo o mundo”. Para melhor compreensão, Jesus é o propiciatório, aquele lugar onde era aspergido o sangue das vítimas. Jesus morre na cruz. O sangue da vítima toca o propiciatório, ali acontece o sacrifício propiciatório definitivo.

O puro e imaculado que é Deus, homem sem pecado, toma os nossos pecados. Aliás, não foi um acontecimento simbólico, tampouco um ritual externo; entretanto de forma real, ele tomou sobre si os nossos pecados (1Pd 2,24). Ele recebe todo o impacto da nossa miséria. A morte toca em Jesus, o puro, por isso nos liberta, nos salva e nos reabilita. Eis o porquê da morte de Jesus que fazemos memória ao celebrarmos na tarde de sexta-feira da Semana Maior em vista da ressurreição, pois “na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem”, assim como escutamos na proclamação da segunda leitura da ação litúrgica.

São Tomás de Aquino, escreve que Cristo morreu por amor, pois sua obediência procedia de seu amor pelo Pai e por nós. Não podemos pensar em tamanho sacrifício: “tão desfigurado ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano” como nos relata o cântico do servo sofredor no livro do profeta Isaías na primeira leitura da liturgia da sexta-feira santa.

No Evangelho da Paixão de Jesus Cristo segundo João podemos citar vários personagens que foram relatados pelo autor, entre os quais Pedro, com quem Jesus teve tanto contato. Aliás, o apóstolo que Ele próprio confiou para a edificação da sua Igreja (Mt 16,18).

Simão Pedro, no primeiro momento, faz uma espécie de ataque para defender Jesus, o qual lhe pede para guardar a espada (Jo 18,11). Logo depois, relata que Pedro seguiu Jesus (Jo 18,15). Simão Pedro fica do lado de fora do pátio do Sumo Sacerdote (Jo 18,16). Simão Pedro entra no pátio (Jo 18,16). Logo em seguida, Simão Pedro é interrogado por parecer parte dos discípulos de Jesus, o nazareno, e assim acontece a primeira negação.

Pedro se aquece com os empregados e guardas que tinha feito uma fogueira (Jo 18,18). O discípulo em quem Jesus tanto confiara estava de pé e nega pela segunda vez o mestre quando Anás enviou Jesus para Caifás (Jo 18,24-25). Pedro nega a terceira vez e o galo cantou (Jo 18,27) como havia profetizado Jesus (Mt 26,34). As ações de Pedro para com Jesus continuam a se repetir através das nossas vidas.

Mateus relata no versículo 33 do capítulo 26 que Pedro interveio dizendo: “Mesmo que sejas para todos uma ocasião de queda, para mim jamais o serás” e mesmo ainda depois de Jesus profetizar suas ações, Pedro continua a dizer: “Mesmo que seja necessário morrer contigo, jamais te negarei!”. Ora, fazemos o mesmo que Pedro, quando vamos à casa do Senhor, comungamos da Palavra e da Eucaristia que é o próprio Cristo, muitas vezes choramos e deixamos nos levar pelo momento, todavia, nos momentos que querem prender o Cristo com interesses humanos, não cristãos, indo contra a doutrina católica, nós nos omitimos e com isso o negamos e aquilo que parecia ser uma promessa, um pacto de fidelidade com Cristo, cai por terra.

O Papa Emérito Bento XVI, na sua encíclica Caritas in Veritate, no parágrafo terceiro escreve: “Sem a Verdade, a Caridade cai no sentimentalismo”, e é esse o perigo que corremos quando somente dialogamos, ou até mesmo um diálogo sem compromissos com Deus, uma fé fria capaz de negar o Cristo e a sua Igreja em qualquer lugar e, assim, ter dificuldades posteriores de acolher a misericórdia ou até mesmo de ser misericordioso consigo mesmo.

Com amor sincero e fé profunda peçamos ao Senhor, o Cristo que morreu para nos salvar, que sempre nos conceda as graças necessárias para não negarmos o nosso conhecimento por Ele. Na celebração de sexta-feira santa, na qual temos a oportunidade de celebrar a paixão do Senhor, peçamos a Deus que consigamos chegar à Ressurreição assim como Pedro chegou depois de se converter naquilo que precisava.

Que a figura de Pedro nos sirva de exemplo para não negarmos Jesus e posteriormente chorarmos amargamente como nos fala o evangelista Lucas em outra narração da paixão (Lc 22,62). Contudo, que com o exemplo de Pedro, que teve suas fraquezas, possamos voltar ao Senhor e dizer: “Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo” (Jo 21,17).

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro