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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 13/12/2018

13 de Dezembro de 2018

Maria Madalena, apóstola de Cristo

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Maria Madalena, apóstola de Cristo

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16/03/2018 11:24 - Atualizado em 16/03/2018 11:24

Maria Madalena, apóstola de Cristo 0

16/03/2018 11:24 - Atualizado em 16/03/2018 11:24

A reforma litúrgica realizada após o Concílio Vaticano II ajudou-nos a corrigir a interpretação que unia na mesma pessoa Maria Madalena, a mulher flagrada em adultério, e perdoada, e Maria, a irmã de Marta e Lázaro. Consciente de que essa interpretação havia vigorado por bom tempo, a Igreja Católica realizou um importante e esclarecedor trabalho de afirmação de que a celebração do dia 22 de julho era reservada exclusivamente à pessoa de Maria Madalena, procedendo a uma revisão das leituras, das orações, das antífonas da celebração eucarística e da Liturgia das Horas.

Mais recentemente, no dia 3 de junho de 2016, a pedido do Papa Francisco, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos publicou um decreto elevando a já existente e antiga celebração de Santa Maria Madalena da categoria litúrgica de ‘memória’ à categoria de ‘festa’ no calendário da tradição católica romana, publicando, inclusive, um novo prefácio próprio para a festa, e que recebeu o eloquente título de “Apóstola dos apóstolos”, já usado antes por Santo Tomás de Aquino.

Embora alguns de seus aspectos não devam ser tomados como uma reprodução literal da Escritura, nem tampouco como a exata reflexão teológica produzida pelo Magistério da Igreja, o recém lançado filme “Maria Madalena” pode ser visto e apreciado dentro desse movimento de esclarecimento, mas principalmente, resgate da contribuição que essa peculiar figura feminina do Novo Testamento tem a dar à experiência do seguimento de Cristo.

Assim como ocorrera com o processo de reforma litúrgica católica, o filme toma como traço característico de sua fisionomia o texto de Jo 20,1-2.11-18, onde Maria Madalena é apresentada de maneira exclusiva, sem a referência a outras mulheres e em diálogo direto com Jesus.

A trama cinematográfica entende que não é tão importante averiguar se houve um passado, mais ou menos pecaminoso, de Maria Madalena. Nem mesmo quer nos fazer conhecer o sentido da expressão: “liberta de sete demônios” (cf. Lc 8,2).

O que interessa é contemplar o amor da Madalena a Jesus Cristo, porque ela, como aliás todos nós, foi envolvida pelo amor do Nazareno. Tal amor irá potencializar ainda mais a sua força, sua coragem, mas principalmente o seu desejo de compreender qual é a sensação de estar unida a Deus.

Parece-me ser um filme a ser respeitado no ritmo que nos quer propor, não o do frenesi da ação, mas o da morosidade da contemplação. A grandeza de Maria Madalena, bem como de quem mergulha na Água da Vida, reside no amar muito e sentir-se amada pelo Cristo. A moldura para que reflitamos sobre essa verdade mística é aquela de Jesus que anuncia o reino de Deus acompanhado por uma comunidade de homens, mas ainda não libertos do medo, dos esquemas religiosos, das pretensões políticas e das expectativas pessoais.

A esse pequeno grupo, Jesus associa a mulher de Mágdala que, embora incompreendida, ridicularizada, desrespeitada e silenciada pelos seus familiares e conterrâneos, é convidada ao séquito de Jesus, é colocada em pé de igualdade com os homens. O filme parece querer afirmar que se esses foram escolhidos, foram vocacionados, ela também encontra no gesto de acolhida amorosa do profeta Galileu a estrada (sem volta) para realizar sua vocação e missão.

Belo destaque dado ao revolucionário e anormal fato de que Jesus não se deixa condicionar pelo modelo social de seu ambiente, que havia fixado a mulher num papel de segregação e marginalização social e religiosa. O desejo de Jesus é que o reino de Deus torne-se visível já ali naquela pequena comunidade reunida ao redor de sua pessoa: uma comunidade convidada a libertar-se de um passado de temor e de prevenções. Em outras palavras, onde chega o reino de Deus, surgem entre homens e mulheres relações novas, caracterizadas pela liberdade e solidariedade do serviço.

Gradualmente, Maria Madalena vai passando da mais profunda incompreensão do que acontece em sua vida à fé em Jesus. Uma fé, segundo o filme, ainda mais explícita e definida do que a dos apóstolos. Movida pelo coração de mulher, Maria vai fazendo seu itinerário da fé. É submetida ao desconcerto da morte em cruz e sepultamento do seu amigo/messias. Até atingir a certeza de que tudo aquilo trata-se da razão mesma, porque Jesus não reteve sua prisão e nem insuflou uma revolução de contornos político-religiosos.

A fé em Jesus, ressuscitado pelo Pai, não brota de maneira natural e espontânea no coração dos discípulos. O calvário e o sepulcro são lugares de interrogações, de incertezas e, por essa razão, Maria Madalena é, no filme, apresentada como aquela que não se distanciou do Gólgota e do lugar em que o corpo inanimado do Senhor foi deposto. E ali, próxima ao sepulcro, ela desperta para a fé no Cristo ressuscitado. Abrindo-se à fé na ressurreição de Jesus, ela decide fazer o percurso de testemunhá-Lo aos demais apóstolos.

Está imbuída da certeza de que é decisivo não esquecer Jesus e o projeto do seu reino. É preciso continuar amando-O com paixão e buscando, com todas as forças, edificar o reinado aqui e agora. Aquele que vive deve ser buscado onde há vida. Por isso, as divisões e as lutas estéreis devem ser superadas.

O Ressuscitado é o amigo da vida. Eis porque antepunha a saúde dos enfermos a qualquer lei, tradição religiosa e até mesmo suas forças físicas, porque defendida os pobres, os famintos e os desprezados. Seguindo os passos do Ressuscitado, Maria Madalena parte curando a vida e aliviando o sofrimento das outras pessoas.

O Ressuscitado faz justiça às vítimas inocentes, fazendo triunfar a vida sobre a morte, o bem sobre o mal, a verdade sobre a mentira, o amor sobre o ódio. Maria Madalena parte entendendo que quem perde sua vida pelo reino, a salvará. E nessa caminhada, aos poucos, ela vai descobrindo que não está só. Que o simples ato de se colocar em caminho, anima e ajuda a caminhada de outras e outros.

A contemplação do apostolado de Maria Madalena (com ou sem a visão do filme) é um convite a abandonarmos a tristeza, a não curvar-nos sobre nós mesmos e a não nos encapsularmos numa tentativa de fazer voltar ao passado. A “Apóstola dos apóstolos” ajuda-nos a compreender a necessidade de abertura às irmãs e aos irmãos e de construção de relações humanas novas com Cristo, por Cristo e em Cristo. Só aí encontraremos os reais sentimentos de estarmos mergulhados em Deus: alegria, paz, vida espiritual, perdão dos pecados.

Ó Deus, o vosso Filho confiou a Maria Madalena, “Apóstola dos apóstolos”, o primeiro anúncio da alegria pascal; dai-nos por seu exemplo, anunciar também que o Cristo vive, edificando já aqui os alicerces de seu reinado. Amém.

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Maria Madalena, apóstola de Cristo

16/03/2018 11:24 - Atualizado em 16/03/2018 11:24

A reforma litúrgica realizada após o Concílio Vaticano II ajudou-nos a corrigir a interpretação que unia na mesma pessoa Maria Madalena, a mulher flagrada em adultério, e perdoada, e Maria, a irmã de Marta e Lázaro. Consciente de que essa interpretação havia vigorado por bom tempo, a Igreja Católica realizou um importante e esclarecedor trabalho de afirmação de que a celebração do dia 22 de julho era reservada exclusivamente à pessoa de Maria Madalena, procedendo a uma revisão das leituras, das orações, das antífonas da celebração eucarística e da Liturgia das Horas.

Mais recentemente, no dia 3 de junho de 2016, a pedido do Papa Francisco, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos publicou um decreto elevando a já existente e antiga celebração de Santa Maria Madalena da categoria litúrgica de ‘memória’ à categoria de ‘festa’ no calendário da tradição católica romana, publicando, inclusive, um novo prefácio próprio para a festa, e que recebeu o eloquente título de “Apóstola dos apóstolos”, já usado antes por Santo Tomás de Aquino.

Embora alguns de seus aspectos não devam ser tomados como uma reprodução literal da Escritura, nem tampouco como a exata reflexão teológica produzida pelo Magistério da Igreja, o recém lançado filme “Maria Madalena” pode ser visto e apreciado dentro desse movimento de esclarecimento, mas principalmente, resgate da contribuição que essa peculiar figura feminina do Novo Testamento tem a dar à experiência do seguimento de Cristo.

Assim como ocorrera com o processo de reforma litúrgica católica, o filme toma como traço característico de sua fisionomia o texto de Jo 20,1-2.11-18, onde Maria Madalena é apresentada de maneira exclusiva, sem a referência a outras mulheres e em diálogo direto com Jesus.

A trama cinematográfica entende que não é tão importante averiguar se houve um passado, mais ou menos pecaminoso, de Maria Madalena. Nem mesmo quer nos fazer conhecer o sentido da expressão: “liberta de sete demônios” (cf. Lc 8,2).

O que interessa é contemplar o amor da Madalena a Jesus Cristo, porque ela, como aliás todos nós, foi envolvida pelo amor do Nazareno. Tal amor irá potencializar ainda mais a sua força, sua coragem, mas principalmente o seu desejo de compreender qual é a sensação de estar unida a Deus.

Parece-me ser um filme a ser respeitado no ritmo que nos quer propor, não o do frenesi da ação, mas o da morosidade da contemplação. A grandeza de Maria Madalena, bem como de quem mergulha na Água da Vida, reside no amar muito e sentir-se amada pelo Cristo. A moldura para que reflitamos sobre essa verdade mística é aquela de Jesus que anuncia o reino de Deus acompanhado por uma comunidade de homens, mas ainda não libertos do medo, dos esquemas religiosos, das pretensões políticas e das expectativas pessoais.

A esse pequeno grupo, Jesus associa a mulher de Mágdala que, embora incompreendida, ridicularizada, desrespeitada e silenciada pelos seus familiares e conterrâneos, é convidada ao séquito de Jesus, é colocada em pé de igualdade com os homens. O filme parece querer afirmar que se esses foram escolhidos, foram vocacionados, ela também encontra no gesto de acolhida amorosa do profeta Galileu a estrada (sem volta) para realizar sua vocação e missão.

Belo destaque dado ao revolucionário e anormal fato de que Jesus não se deixa condicionar pelo modelo social de seu ambiente, que havia fixado a mulher num papel de segregação e marginalização social e religiosa. O desejo de Jesus é que o reino de Deus torne-se visível já ali naquela pequena comunidade reunida ao redor de sua pessoa: uma comunidade convidada a libertar-se de um passado de temor e de prevenções. Em outras palavras, onde chega o reino de Deus, surgem entre homens e mulheres relações novas, caracterizadas pela liberdade e solidariedade do serviço.

Gradualmente, Maria Madalena vai passando da mais profunda incompreensão do que acontece em sua vida à fé em Jesus. Uma fé, segundo o filme, ainda mais explícita e definida do que a dos apóstolos. Movida pelo coração de mulher, Maria vai fazendo seu itinerário da fé. É submetida ao desconcerto da morte em cruz e sepultamento do seu amigo/messias. Até atingir a certeza de que tudo aquilo trata-se da razão mesma, porque Jesus não reteve sua prisão e nem insuflou uma revolução de contornos político-religiosos.

A fé em Jesus, ressuscitado pelo Pai, não brota de maneira natural e espontânea no coração dos discípulos. O calvário e o sepulcro são lugares de interrogações, de incertezas e, por essa razão, Maria Madalena é, no filme, apresentada como aquela que não se distanciou do Gólgota e do lugar em que o corpo inanimado do Senhor foi deposto. E ali, próxima ao sepulcro, ela desperta para a fé no Cristo ressuscitado. Abrindo-se à fé na ressurreição de Jesus, ela decide fazer o percurso de testemunhá-Lo aos demais apóstolos.

Está imbuída da certeza de que é decisivo não esquecer Jesus e o projeto do seu reino. É preciso continuar amando-O com paixão e buscando, com todas as forças, edificar o reinado aqui e agora. Aquele que vive deve ser buscado onde há vida. Por isso, as divisões e as lutas estéreis devem ser superadas.

O Ressuscitado é o amigo da vida. Eis porque antepunha a saúde dos enfermos a qualquer lei, tradição religiosa e até mesmo suas forças físicas, porque defendida os pobres, os famintos e os desprezados. Seguindo os passos do Ressuscitado, Maria Madalena parte curando a vida e aliviando o sofrimento das outras pessoas.

O Ressuscitado faz justiça às vítimas inocentes, fazendo triunfar a vida sobre a morte, o bem sobre o mal, a verdade sobre a mentira, o amor sobre o ódio. Maria Madalena parte entendendo que quem perde sua vida pelo reino, a salvará. E nessa caminhada, aos poucos, ela vai descobrindo que não está só. Que o simples ato de se colocar em caminho, anima e ajuda a caminhada de outras e outros.

A contemplação do apostolado de Maria Madalena (com ou sem a visão do filme) é um convite a abandonarmos a tristeza, a não curvar-nos sobre nós mesmos e a não nos encapsularmos numa tentativa de fazer voltar ao passado. A “Apóstola dos apóstolos” ajuda-nos a compreender a necessidade de abertura às irmãs e aos irmãos e de construção de relações humanas novas com Cristo, por Cristo e em Cristo. Só aí encontraremos os reais sentimentos de estarmos mergulhados em Deus: alegria, paz, vida espiritual, perdão dos pecados.

Ó Deus, o vosso Filho confiou a Maria Madalena, “Apóstola dos apóstolos”, o primeiro anúncio da alegria pascal; dai-nos por seu exemplo, anunciar também que o Cristo vive, edificando já aqui os alicerces de seu reinado. Amém.

Padre Abimar Oliveira de Moraes
Autor

Padre Abimar Oliveira de Moraes

Professor do Departamento de Teologia da PUC-Rio e vigário paroquial da Paróquia de Santa Rita (Centro)