Arquidiocese do Rio de Janeiro

28º 17º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 14/08/2018

14 de Agosto de 2018

Fraternidade e Paz

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13/03/2018 11:44 - Atualizado em 13/03/2018 11:45

Fraternidade e Paz 0

13/03/2018 11:44 - Atualizado em 13/03/2018 11:45

Temos em nossa Arquidiocese grandes personagens que deram a vida pela Igreja e que marcaram a nossa sociedade. Sinto-me pequeno de tão grandes atores de nossa caminhada cristã e cidadã neste chão tão importante desta grande cidade. Recordo hoje a intuição do nosso predecessor o Cardeal D. Eugênio de Araújo Sales que intuiu grandes momentos de evangelização que se tornaram depois nacionais.

É sempre uma graça divina lembrar o papel fundamental da intuição desse nosso amado predecessor que como responsável pelo Secretariado de Ação Social e presidente da Caritas Nacional e Administrador Apostólico da Arquidiocese de Natal, no Rio Grande do Norte, iniciou a Campanha da Fraternidade sob o impulso renovador do espírito do Concílio Vaticano II. Utilizando-me dos sites próprios e de livros sobre o assunto recordo um pouco dessa história para fazer memória dos ideais que marcam os grandes eventos de nossa caminhada pastoral.

Tudo começou quando um pequeno grupo de padres recém-ordenados, sob a coordenação de Dom Eugenio de Araújo Sales, reunia-se em Natal, cada mês, para rezar e refletir sobre a missão da Igreja e da ação Pastoral. Daí surgiram várias iniciativas postas em prática, com sucesso. Algumas vieram a ter dimensão nacional. Dentre elas estão o primeiro Regional da CNBB, que abrangia as dioceses da área territorial que ia do Maranhão à Bahia; o primeiro planejamento pastoral, colocando a técnica a serviço do Reino de Deus; a organização sistemática dos trabalhadores em sindicatos rurais, reconhecidos pelo Governo. E, logo a seguir, a primeira Federação dos Trabalhadores Rurais no Rio Grande do Norte; paróquias confiadas a religiosas; as escolas radiofônicas e outras iniciativas, sem esquecer a Campanha da Fraternidade, posteriormente assumida em nível nacional pela CNBB no ano de 1964.

Um pouco de história: “No Nordeste semiárido, pobre, mas confiante em Deus, nasceram estas atividades fecundas, fruto do Evangelho posto em prática. A Arquidiocese de Natal havia recebido alguma ajuda, de modo particular da Igreja da Alemanha, que mal saíra da catástrofe da 2ª Guerra Mundial. Muitos outros projetos de ajuda financeira eram encaminhados a outras nações, mas, particularmente, à “Aktion Misereor”, do Episcopado Alemão.

Alguns dirigentes do Serviço de Assistência Rural (SAR) julgaram ser importante criar, entre católicos, uma mentalidade de cooperação local com as obras pastorais e sociais da Igreja, dando, assim, maior credibilidade aos pedidos feitos ao estrangeiro. Ao chegarem respostas favoráveis dos católicos, o grupo de sacerdotes e leigos julgou que, de sua parte, deveria fazer algo para que se pudesse solicitar colaboração aos irmãos na Fé.

Dom Heitor de Araujo Sales, então sacerdote potiguar, estudando na Europa e passando as férias na Alemanha, trouxe todo o material da estrutura da “Misereor” e a divulgação de suas campanhas. Na sede do Movimento de Natal, os subsídios vindos da Europa foram traduzidos e adaptados à realidade brasileira. Um grupo estudou o assunto, escolheu o nome que vigora até hoje - Campanha da Fraternidade -, organizou da melhor maneira a Campanha com essa dupla finalidade: evangelizadora e social.

Foi na cidade de Nísia Floresta que surgiu o embrião da Campanha da Fraternidade. Caminhadas à pé, de casa em casa, de rua em rua, de povoado em povoado. Quase paralelamente às marchas, foram criadas as Semanas da Fraternidade. Eram doados ovos, galinhas, hortaliças frutas e o resultado comercializado numa feira cuja renda tinha como finalidade a compra de colchões, redes, dentre outras coisas, para as famílias pobres espalhadas em treze comunidades ligadas ao município.

A experiência das Irmãs Vigárias nesta cidade e das marchas foi implantada depois em São Gonçalo do Amarante e Taipu. Tudo com o apoio da Santa Sé, como sempre trabalhou Dom Eugenio Sales, e com a ajuda dos leigos.

A primeira Campanha da Fraternidade ficou restrita à Arquidiocese de Natal, em 1962. A coleta rendeu um milhão de cruzeiros importância que corresponde, hoje, em torno de R$ 47.700,00. A segunda, na Quaresma de 1963, abrangeu 25 dioceses do Nordeste. O aviso da Cúria nº 5/1963, sobre o assunto na Arquidiocese de Natal, trazia elementos valiosos: “Em todas as matrizes, igrejas, capelas, escolas e também no comércio, far-se-á uma grande coleta em favor das obras apostólicas e sociais da Arquidiocese”. Referia-se ao costume, iniciado nos Estados Unidos e países europeus, de designar um dia para angariar donativos destinados à Igreja e ao mundo “subdesenvolvido”. E continuava: “Entre nós, iniciamos no ano passado essa Campanha, que encontrou muita receptividade em nossas comunidades paroquiais. Ela é feita neste tempo para significar o sacrifício de toda a comunidade diocesana na Quaresma, em favor de seus irmãos”. Assina-o, o Vigário Geral. O Secretário da Cúria dá outras indicações e providências em documento também publicado no jornal diocesano, “A Ordem”, de 9 de março de 1963.

No opúsculo, “Campanha da Fraternidade, 20 anos de serviço à missão”, publicado em 1983 pela CNBB, na página 21, há uma correspondência do então Secretário Geral, Dom Helder Câmara, a todos os Bispos do Brasil, com data de 26 de setembro de 1963. É a transição de âmbito local para o nacional. O assunto fora tratado pelo Episcopado, reunido, em Roma, para o Concílio Vaticano II e aprovado a 20 de dezembro do ano seguinte.

Em 1964, a notícia, no citado periódico “A Ordem”, a 15 de fevereiro, traz o seguinte título: “Campanha da Fraternidade realiza-se, este ano, em todo o Brasil”. Assim começa a matéria: “Iniciou-se nesta semana a Quaresma e, com a Quaresma, a 3ª Campanha da Fraternidade, em Natal. Este ano, pela primeira vez, saiu como ‘Campanha Nacional com Dioceses’ em todo o País, tendo as mesmas finalidades. Tratava-se de uma oportunidade de os fiéis assumirem suas responsabilidades na manutenção das obras católicas. A ênfase era ser ‘Campanha mais formativa que promocional’. Incluiu outros colaboradores: ‘entidades comerciais da Cidade comprometeram-se a dar pleno apoio à Campanha’”.

Atualmente, na sua trajetória nacional desde 1964, com nobres objetivos, a Campanha alcança novos horizontes incluindo a comunhão com outras igrejas cristãs” (https://domeugeniosales.webnode.com.br/origem-da-campanha-da-fraternidade/, último acesso em 06 de março de 2018).

Neste ano de 2018 a Campanha da Fraternidade tem como lema: “Vós sois todos irmãos”(Mt 23,8) e como tema: “Fraternidade e superação da violência”. A Campanha da Fraternidade tem como objetivo geral: “Construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação à violência”(cf. Manual pág. 15).

São objetivos específicos da Campanha da Fraternidade: anunciar a Boa-Nova da fraternidade e da paz, estimulando ações concretas que expressem a conversão e a reconciliação no espírito quaresmal; analisar as múltiplas formas de violência, especialmente as provocadas pelo tráfico de drogas considerando suas causas e consequências na sociedade brasileira; identificar o alcance da violência, nas realidades urbana e rural de nosso país, propondo caminhos de superação, a partir do diálogo, da misericórdia e da justiça, em sintonia com o Ensino Social da Igreja; valorizar a família e a escola como espaços de convivência fraterna, de educação para a paz e de testemunho do amor e do perdão; identificar, acompanhar e reivindicar políticas públicas para superação as desigualdades social e da violência; estimular as comunidades cristãs, pastorais, associações religiosas e movimentos eclesiais ao compromisso com ações que levem à superação a violência; apoiar os centros de direitos humanos, comissões de justiça e paz, conselhos paritários de direitos e organizações da sociedade civil que trabalham para a superação da violência”(cf. Manual pág. 15).

“Três fatores são fundamentais para definir esses espaços de paz e de guerra. O primeiro deles é a ação (ou omissão) do poder público. Nos locais onde o Estado deveria estar mais presente, como nas periferias das grandes cidades, observa-se uma quase ausência das políticas de proteção, promoção e defesa dos direitos, deixando tais territórios e seus moradores, muitas vezes, entregues a grupos armados, ao tráfico de drogas e a toda a sorte de violência e de desordem social. Por outro lado, em áreas nobres, a presença do poder público se faz de múltiplas formas, garantindo direitos dos cidadãos e protegendo o patrimônio das elites” (Cf. Manual. N. 31).

Na nossa Carta Pastoral “Bem-Aventurados os que constroem a paz! ” Escrevemos que: “Na medida em que tolerar não significa omitir, ao aumento no índice da violência e no número das vítimas deve corresponder o incremento na atividade evangelizadora. Como bem sabemos, existe enorme diferença entre apresentar Jesus Cristo e impor Jesus Cristo. Sob o medo da imposição e com o louvável argumento do respeito, algumas pessoas acreditam que nem se deva mais falar de Jesus Cristo, de apresentar sua pessoa e sua mensagem. Grande, portanto, é o risco de uma atitude que leve até o extremo da omissão, ainda que sob a melhor das intenções. Nunca poderemos deixar de anunciar Jesus Cristo e o Reino de Deus. Este mandato está na origem e na identidade da Igreja. Transformam-se os tempos e os modos de evangelizar, mas a evangelização deve sempre acontecer. Por isso, considero importantes todas as iniciativas missionárias que têm sido realizadas por paróquias, movimentos e novas comunidades para que o Evangelho chegue a mais pessoas e grupos. Alegro-me quando constato as visitas a residências, locais de trabalho, hospitais, escolas e presídios. Gostaria de poder estar em cada celebração que acontece nas praças e nas ruas, com a disponibilidade de confissões onde as pessoas estão, por onde elas passam. Na impossibilidade física de sempre estar presente, uno-me na oração, desejando que continuem, que não se deixem levar pelo desânimo quando encontram dificuldades. Estes momentos missionários transmitem forte esperança a pessoas que não conseguiriam ser acolhidas e escutadas se não fosse ali. Mostram que as ruas de nossa cidade não são apenas lugares de violência e desrespeito. São também lugares de fraternidade e fé. Testemunham que nem tudo nessa vida necessita possuir valor monetário para ser reconhecido. O acolhimento gratuito faz com que muitas pessoas, marcadas pelas dores, vitimadas pela violência, possam exclamar como Isabel o fez ao receber a visita de Maria: “como é possível que a Mãe do meu Senhor me venha visitar?” (cf. Lc 1,39-44). Conhecer o Evangelho e ter contato com as comunidades de fé são caminhos para a superação da violência.”(cf. números 41-42).

Dentro dos gestos concretos da Campanha da Fraternidade está a Coleta da Campanha da Fraternidade a ser realizada no Domingo de Ramos. Somos chamados a fazer nossa parte entregando o que é fruto de nossa penitência e jejum para os trabalhos sociais de nossa igreja e nós sabemos quanto bem se faz com o pouco de cada um. Somos uma comunidade fraterna que partilha e que coloca com consciência diante de Deus a sua partilha. Por isso recordo párocos, vigários e padres que trabalham em nossa Arquidiocese que recordem ao nosso povo os inúmeros benefícios que esta coleta produz em muitos projetos que são aquinhoados com a doação de nossos fiéis. Nós lembramos que 60% desta coleta fica para o Fundo Diocesano de Solidariedade que é coordenado pelo Vicariato da Caridade Social de nossa arquidiocese e 40% é enviado para o Fundo Nacional. Em nossa Arquidiocese o Fundo Diocesano de Solidariedade apoia projetos que necessitam deste fundo e que chegaram em boa hora. Creio que é o momento de demonstrarmos que “sentimos com a igreja” e que na ação do Divino Espírito Santo, estamos dispostos a colaborar com a evangelização e com a superação da violência.

O manual da Campanha da Fraternidade lembra que: “Bispos, padres, religiosos(as), lideranças leigas, agentes de pastoral, colégios católicos e movimentos eclesiais são os principais motivadores e animadores da Campanha da Fraternidade. A Igreja espera que com esta motivação todos participem, oferecendo sua solidariedade em favor das pessoas, grupos e comunidades, pois: ‘Ao longo de uma história de solidariedade e compromisso com as incontáveis vítimas das inúmeras formas de destruição da vida, a Igreja se reconhece servidora do Deus da vida’ (DGAE, n. 66). O gesto fraterno da oferta tem um caráter de conversão quaresmal, condição para que advenha um novo tempo marcado pelo amor e pela valorização da vida” (cf. Manual, pág. 105).

Vivemos o ano do laicato: “Cristãos leigos e leigas, sujeitos na ‘Igreja em saída’, a serviço do Reino”, que tem como lema: “Sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-14). Por isso mesmo nossos cristãos leigos e leigos, cientes de que são protagonistas da nova Evangelização, vão se empenhar em ser testemunhas de esperança nesta nossa grande cidade cheia de tantas necessidades e com tantos problemas a serem resolvidos para sermos aqueles “que constroem a paz”. Sabemos também que iremos nos empenhar para que a Campanha da Fraternidade, fiel a intuição do grande Cardeal Eugênio Araújo Sales, continue fazendo o bem e evangelizando como bem intuiu e profetizou este grande e magno Arcebispo do Rio de Janeiro, para que o Cristo Redentor continue resplandecendo na vida de todos os batizados!

 

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Fraternidade e Paz

13/03/2018 11:44 - Atualizado em 13/03/2018 11:45

Temos em nossa Arquidiocese grandes personagens que deram a vida pela Igreja e que marcaram a nossa sociedade. Sinto-me pequeno de tão grandes atores de nossa caminhada cristã e cidadã neste chão tão importante desta grande cidade. Recordo hoje a intuição do nosso predecessor o Cardeal D. Eugênio de Araújo Sales que intuiu grandes momentos de evangelização que se tornaram depois nacionais.

É sempre uma graça divina lembrar o papel fundamental da intuição desse nosso amado predecessor que como responsável pelo Secretariado de Ação Social e presidente da Caritas Nacional e Administrador Apostólico da Arquidiocese de Natal, no Rio Grande do Norte, iniciou a Campanha da Fraternidade sob o impulso renovador do espírito do Concílio Vaticano II. Utilizando-me dos sites próprios e de livros sobre o assunto recordo um pouco dessa história para fazer memória dos ideais que marcam os grandes eventos de nossa caminhada pastoral.

Tudo começou quando um pequeno grupo de padres recém-ordenados, sob a coordenação de Dom Eugenio de Araújo Sales, reunia-se em Natal, cada mês, para rezar e refletir sobre a missão da Igreja e da ação Pastoral. Daí surgiram várias iniciativas postas em prática, com sucesso. Algumas vieram a ter dimensão nacional. Dentre elas estão o primeiro Regional da CNBB, que abrangia as dioceses da área territorial que ia do Maranhão à Bahia; o primeiro planejamento pastoral, colocando a técnica a serviço do Reino de Deus; a organização sistemática dos trabalhadores em sindicatos rurais, reconhecidos pelo Governo. E, logo a seguir, a primeira Federação dos Trabalhadores Rurais no Rio Grande do Norte; paróquias confiadas a religiosas; as escolas radiofônicas e outras iniciativas, sem esquecer a Campanha da Fraternidade, posteriormente assumida em nível nacional pela CNBB no ano de 1964.

Um pouco de história: “No Nordeste semiárido, pobre, mas confiante em Deus, nasceram estas atividades fecundas, fruto do Evangelho posto em prática. A Arquidiocese de Natal havia recebido alguma ajuda, de modo particular da Igreja da Alemanha, que mal saíra da catástrofe da 2ª Guerra Mundial. Muitos outros projetos de ajuda financeira eram encaminhados a outras nações, mas, particularmente, à “Aktion Misereor”, do Episcopado Alemão.

Alguns dirigentes do Serviço de Assistência Rural (SAR) julgaram ser importante criar, entre católicos, uma mentalidade de cooperação local com as obras pastorais e sociais da Igreja, dando, assim, maior credibilidade aos pedidos feitos ao estrangeiro. Ao chegarem respostas favoráveis dos católicos, o grupo de sacerdotes e leigos julgou que, de sua parte, deveria fazer algo para que se pudesse solicitar colaboração aos irmãos na Fé.

Dom Heitor de Araujo Sales, então sacerdote potiguar, estudando na Europa e passando as férias na Alemanha, trouxe todo o material da estrutura da “Misereor” e a divulgação de suas campanhas. Na sede do Movimento de Natal, os subsídios vindos da Europa foram traduzidos e adaptados à realidade brasileira. Um grupo estudou o assunto, escolheu o nome que vigora até hoje - Campanha da Fraternidade -, organizou da melhor maneira a Campanha com essa dupla finalidade: evangelizadora e social.

Foi na cidade de Nísia Floresta que surgiu o embrião da Campanha da Fraternidade. Caminhadas à pé, de casa em casa, de rua em rua, de povoado em povoado. Quase paralelamente às marchas, foram criadas as Semanas da Fraternidade. Eram doados ovos, galinhas, hortaliças frutas e o resultado comercializado numa feira cuja renda tinha como finalidade a compra de colchões, redes, dentre outras coisas, para as famílias pobres espalhadas em treze comunidades ligadas ao município.

A experiência das Irmãs Vigárias nesta cidade e das marchas foi implantada depois em São Gonçalo do Amarante e Taipu. Tudo com o apoio da Santa Sé, como sempre trabalhou Dom Eugenio Sales, e com a ajuda dos leigos.

A primeira Campanha da Fraternidade ficou restrita à Arquidiocese de Natal, em 1962. A coleta rendeu um milhão de cruzeiros importância que corresponde, hoje, em torno de R$ 47.700,00. A segunda, na Quaresma de 1963, abrangeu 25 dioceses do Nordeste. O aviso da Cúria nº 5/1963, sobre o assunto na Arquidiocese de Natal, trazia elementos valiosos: “Em todas as matrizes, igrejas, capelas, escolas e também no comércio, far-se-á uma grande coleta em favor das obras apostólicas e sociais da Arquidiocese”. Referia-se ao costume, iniciado nos Estados Unidos e países europeus, de designar um dia para angariar donativos destinados à Igreja e ao mundo “subdesenvolvido”. E continuava: “Entre nós, iniciamos no ano passado essa Campanha, que encontrou muita receptividade em nossas comunidades paroquiais. Ela é feita neste tempo para significar o sacrifício de toda a comunidade diocesana na Quaresma, em favor de seus irmãos”. Assina-o, o Vigário Geral. O Secretário da Cúria dá outras indicações e providências em documento também publicado no jornal diocesano, “A Ordem”, de 9 de março de 1963.

No opúsculo, “Campanha da Fraternidade, 20 anos de serviço à missão”, publicado em 1983 pela CNBB, na página 21, há uma correspondência do então Secretário Geral, Dom Helder Câmara, a todos os Bispos do Brasil, com data de 26 de setembro de 1963. É a transição de âmbito local para o nacional. O assunto fora tratado pelo Episcopado, reunido, em Roma, para o Concílio Vaticano II e aprovado a 20 de dezembro do ano seguinte.

Em 1964, a notícia, no citado periódico “A Ordem”, a 15 de fevereiro, traz o seguinte título: “Campanha da Fraternidade realiza-se, este ano, em todo o Brasil”. Assim começa a matéria: “Iniciou-se nesta semana a Quaresma e, com a Quaresma, a 3ª Campanha da Fraternidade, em Natal. Este ano, pela primeira vez, saiu como ‘Campanha Nacional com Dioceses’ em todo o País, tendo as mesmas finalidades. Tratava-se de uma oportunidade de os fiéis assumirem suas responsabilidades na manutenção das obras católicas. A ênfase era ser ‘Campanha mais formativa que promocional’. Incluiu outros colaboradores: ‘entidades comerciais da Cidade comprometeram-se a dar pleno apoio à Campanha’”.

Atualmente, na sua trajetória nacional desde 1964, com nobres objetivos, a Campanha alcança novos horizontes incluindo a comunhão com outras igrejas cristãs” (https://domeugeniosales.webnode.com.br/origem-da-campanha-da-fraternidade/, último acesso em 06 de março de 2018).

Neste ano de 2018 a Campanha da Fraternidade tem como lema: “Vós sois todos irmãos”(Mt 23,8) e como tema: “Fraternidade e superação da violência”. A Campanha da Fraternidade tem como objetivo geral: “Construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação à violência”(cf. Manual pág. 15).

São objetivos específicos da Campanha da Fraternidade: anunciar a Boa-Nova da fraternidade e da paz, estimulando ações concretas que expressem a conversão e a reconciliação no espírito quaresmal; analisar as múltiplas formas de violência, especialmente as provocadas pelo tráfico de drogas considerando suas causas e consequências na sociedade brasileira; identificar o alcance da violência, nas realidades urbana e rural de nosso país, propondo caminhos de superação, a partir do diálogo, da misericórdia e da justiça, em sintonia com o Ensino Social da Igreja; valorizar a família e a escola como espaços de convivência fraterna, de educação para a paz e de testemunho do amor e do perdão; identificar, acompanhar e reivindicar políticas públicas para superação as desigualdades social e da violência; estimular as comunidades cristãs, pastorais, associações religiosas e movimentos eclesiais ao compromisso com ações que levem à superação a violência; apoiar os centros de direitos humanos, comissões de justiça e paz, conselhos paritários de direitos e organizações da sociedade civil que trabalham para a superação da violência”(cf. Manual pág. 15).

“Três fatores são fundamentais para definir esses espaços de paz e de guerra. O primeiro deles é a ação (ou omissão) do poder público. Nos locais onde o Estado deveria estar mais presente, como nas periferias das grandes cidades, observa-se uma quase ausência das políticas de proteção, promoção e defesa dos direitos, deixando tais territórios e seus moradores, muitas vezes, entregues a grupos armados, ao tráfico de drogas e a toda a sorte de violência e de desordem social. Por outro lado, em áreas nobres, a presença do poder público se faz de múltiplas formas, garantindo direitos dos cidadãos e protegendo o patrimônio das elites” (Cf. Manual. N. 31).

Na nossa Carta Pastoral “Bem-Aventurados os que constroem a paz! ” Escrevemos que: “Na medida em que tolerar não significa omitir, ao aumento no índice da violência e no número das vítimas deve corresponder o incremento na atividade evangelizadora. Como bem sabemos, existe enorme diferença entre apresentar Jesus Cristo e impor Jesus Cristo. Sob o medo da imposição e com o louvável argumento do respeito, algumas pessoas acreditam que nem se deva mais falar de Jesus Cristo, de apresentar sua pessoa e sua mensagem. Grande, portanto, é o risco de uma atitude que leve até o extremo da omissão, ainda que sob a melhor das intenções. Nunca poderemos deixar de anunciar Jesus Cristo e o Reino de Deus. Este mandato está na origem e na identidade da Igreja. Transformam-se os tempos e os modos de evangelizar, mas a evangelização deve sempre acontecer. Por isso, considero importantes todas as iniciativas missionárias que têm sido realizadas por paróquias, movimentos e novas comunidades para que o Evangelho chegue a mais pessoas e grupos. Alegro-me quando constato as visitas a residências, locais de trabalho, hospitais, escolas e presídios. Gostaria de poder estar em cada celebração que acontece nas praças e nas ruas, com a disponibilidade de confissões onde as pessoas estão, por onde elas passam. Na impossibilidade física de sempre estar presente, uno-me na oração, desejando que continuem, que não se deixem levar pelo desânimo quando encontram dificuldades. Estes momentos missionários transmitem forte esperança a pessoas que não conseguiriam ser acolhidas e escutadas se não fosse ali. Mostram que as ruas de nossa cidade não são apenas lugares de violência e desrespeito. São também lugares de fraternidade e fé. Testemunham que nem tudo nessa vida necessita possuir valor monetário para ser reconhecido. O acolhimento gratuito faz com que muitas pessoas, marcadas pelas dores, vitimadas pela violência, possam exclamar como Isabel o fez ao receber a visita de Maria: “como é possível que a Mãe do meu Senhor me venha visitar?” (cf. Lc 1,39-44). Conhecer o Evangelho e ter contato com as comunidades de fé são caminhos para a superação da violência.”(cf. números 41-42).

Dentro dos gestos concretos da Campanha da Fraternidade está a Coleta da Campanha da Fraternidade a ser realizada no Domingo de Ramos. Somos chamados a fazer nossa parte entregando o que é fruto de nossa penitência e jejum para os trabalhos sociais de nossa igreja e nós sabemos quanto bem se faz com o pouco de cada um. Somos uma comunidade fraterna que partilha e que coloca com consciência diante de Deus a sua partilha. Por isso recordo párocos, vigários e padres que trabalham em nossa Arquidiocese que recordem ao nosso povo os inúmeros benefícios que esta coleta produz em muitos projetos que são aquinhoados com a doação de nossos fiéis. Nós lembramos que 60% desta coleta fica para o Fundo Diocesano de Solidariedade que é coordenado pelo Vicariato da Caridade Social de nossa arquidiocese e 40% é enviado para o Fundo Nacional. Em nossa Arquidiocese o Fundo Diocesano de Solidariedade apoia projetos que necessitam deste fundo e que chegaram em boa hora. Creio que é o momento de demonstrarmos que “sentimos com a igreja” e que na ação do Divino Espírito Santo, estamos dispostos a colaborar com a evangelização e com a superação da violência.

O manual da Campanha da Fraternidade lembra que: “Bispos, padres, religiosos(as), lideranças leigas, agentes de pastoral, colégios católicos e movimentos eclesiais são os principais motivadores e animadores da Campanha da Fraternidade. A Igreja espera que com esta motivação todos participem, oferecendo sua solidariedade em favor das pessoas, grupos e comunidades, pois: ‘Ao longo de uma história de solidariedade e compromisso com as incontáveis vítimas das inúmeras formas de destruição da vida, a Igreja se reconhece servidora do Deus da vida’ (DGAE, n. 66). O gesto fraterno da oferta tem um caráter de conversão quaresmal, condição para que advenha um novo tempo marcado pelo amor e pela valorização da vida” (cf. Manual, pág. 105).

Vivemos o ano do laicato: “Cristãos leigos e leigas, sujeitos na ‘Igreja em saída’, a serviço do Reino”, que tem como lema: “Sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-14). Por isso mesmo nossos cristãos leigos e leigos, cientes de que são protagonistas da nova Evangelização, vão se empenhar em ser testemunhas de esperança nesta nossa grande cidade cheia de tantas necessidades e com tantos problemas a serem resolvidos para sermos aqueles “que constroem a paz”. Sabemos também que iremos nos empenhar para que a Campanha da Fraternidade, fiel a intuição do grande Cardeal Eugênio Araújo Sales, continue fazendo o bem e evangelizando como bem intuiu e profetizou este grande e magno Arcebispo do Rio de Janeiro, para que o Cristo Redentor continue resplandecendo na vida de todos os batizados!

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro