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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/02/2018

23 de Fevereiro de 2018

Superação da Violência

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23 de Fevereiro de 2018

Superação da Violência

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14/02/2018 14:20 - Atualizado em 14/02/2018 14:20

Superação da Violência 0

14/02/2018 14:20 - Atualizado em 14/02/2018 14:20

O tempo quaresmal, como tempo de conversão, possibilita o caminho da renovação batismal. Os exercícios quaresmais do jejum, da oração e da esmola nos abrem para o encontro com Aquele que é a plenitude da vida, com Aquele que é a luz e a vida de toda a pessoa que vem a este mundo (Jo 1, 10). A mensagem do Papa Francisco para a Quaresma deste ano tem como centro justamente a reflexão sobre esses três temas. O jejum abre o nosso ser para a receptividade da vida nova, da liberdade. A oração é a exposição de quem espera ser atingido pela misericórdia d’aquele que nos amou primeiro e até o fim. (Jo 4,10). A esmola é o amor partilhado; é deixar-se tomar pela dinâmica da caridade; é sair de si mesmo; é deixar-se tocar pela presença do outro, especialmente do mais necessitado.

No caminho de conversão quaresmal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nos apresenta a Campanha da Fraternidade como itinerário de libertação pessoal, comunitário e social. Ela nos questiona sobre a necessidade de conversão ao mesmo tempo que propõe à sociedade uma realidade a ser superada. Por isso a CF ao ser trabalhada pela Igreja Católica, é no entanto, dirigida a todas as pessoas que boa vontade que examinam a realidade que hoje vivemos.

O tema da campanha da fraternidade é “fraternidade e superação da violência” e o lema é inspirado no Evangelho de São Mateus: “vós sois todos irmãos” (Mt 23, 8). A campanha tem como objetivo geral: “construir a fraternidade, promovendo a cultura de paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência”. Nós sofremos e estamos quase estarrecidos com tanta violência. Em nossa cidade se visibiliza tantas guerras e confrontos que chamam a atenção do mundo. O tema da superação da violência e, por isso, da segurança tornou-se uma das principais realidades a serem discutidas e tem inspirado diversas formas de políticas públicas. Nesse sentido, como sentido de acolher a proposta da Campanha da Fraternidade deste pude escrever uma carta pastoral específica para nossa arquidiocese: “bem-aventurados os que constroem a Paz” no intuito de incentivar esse trabalho em nossa realidade urbana.

No texto base da CF 2018 podemos aprofundar os vários itens. O item ver, está dividido em três partes: a violência na convivência humana, a violência e as estruturas sociais e a violência e algumas manifestações na sociedade. A violência e algumas manifestações na sociedade, é uma espécie de raio-x das causas que levam à violência, em todos os níveis. No ponto, a violência e as estruturas sociais, por exemplo, encontramos a relação da violência com a economia e mercado, a acumulação do capital, o fenômeno do consumo, a desigualdade e a violência promovidas pela lógica do mercado e a violação dos direitos fundamentais. No que diz respeito a violência e algumas manifestações na sociedade, estão elencados as drogas, o processo de criminalização institucional (negligência do Estado em relação às políticas sociais e justiça punitiva), os sujeitos violentados, como juventude pobre e negra; povos indígenas, mulheres exploradas sexualmente e as vítimas de tráfico humano, além da intolerância (raça, cor e religião etc).

O julgar apresenta uma abordagem do tema no Antigo Testamento (AT) e outra no Novo Testamento (NT). Essa divisão é apenas pedagógica, uma vez que o AT possui elementos suficientes para mostrar que, sendo Deus misericordioso, não se coloca ao lado a violência e estabelece caminho para superá-la. E o Novo Testamento culmina com a resposta definitiva de Deus para a superação da violência. No agir, encontramos ações concretas para a violência.

Quanto alguns dados da violência em nosso país, o Brasil é a oitava maior economia mundial. No entanto, é o décimo país mais desigual do mundo segundo o relatório do desenvolvimento humano, de 2016, das Organizações das Nações Unidas (ONU). A seguir, alguns dados sobre a violência no Brasil, extraídos no Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2018: Mortes por arma de fogo: 60 mil por ano, 123 por dia e 5 pessoas por hora. Violência contra mulher: estima-se que pode ter chegado a 454 mil casos. 45.460 estupros em 2015. Mortes entre jovens: 52 mil mortes por homicídio, 52,63% eram jovens, 71,44% negros e 93,03% do sexo masculino.

Mas o que podemos fazer para vencer este mal da violência? Para a Igreja no Brasil, superar as várias faces da violência é uma tarefa de todos. Assim, a Campanha da Fraternidade quer identificar, acompanhar e reivindicar políticas públicas para a superação da desigualdade social e da violência. A superação da violência nasce da relação com outro. A cultura da paz acontece em todas as realidades da vida e na relação com todos os seres. O primeiro lugar onde o ser humano aprende a se relacionar é na família. Os comportamentos e estímulos de superação da violência exercitados na família balizam as a serem desenvolvidas na comunidade e na sociedade. Vejo que além das ações para superar a violência o primeiro ponto ou ainda o ponto de partida, seja a mudança do coração da pessoa humana, de onde partem todas as ações, e por isso a necessidade da oração e a espiritualidade, pois, sua prática pode transformar comportamentos em atitudes, ou seja, elas são parte do processo de conversão.

 

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Superação da Violência

14/02/2018 14:20 - Atualizado em 14/02/2018 14:20

O tempo quaresmal, como tempo de conversão, possibilita o caminho da renovação batismal. Os exercícios quaresmais do jejum, da oração e da esmola nos abrem para o encontro com Aquele que é a plenitude da vida, com Aquele que é a luz e a vida de toda a pessoa que vem a este mundo (Jo 1, 10). A mensagem do Papa Francisco para a Quaresma deste ano tem como centro justamente a reflexão sobre esses três temas. O jejum abre o nosso ser para a receptividade da vida nova, da liberdade. A oração é a exposição de quem espera ser atingido pela misericórdia d’aquele que nos amou primeiro e até o fim. (Jo 4,10). A esmola é o amor partilhado; é deixar-se tomar pela dinâmica da caridade; é sair de si mesmo; é deixar-se tocar pela presença do outro, especialmente do mais necessitado.

No caminho de conversão quaresmal, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nos apresenta a Campanha da Fraternidade como itinerário de libertação pessoal, comunitário e social. Ela nos questiona sobre a necessidade de conversão ao mesmo tempo que propõe à sociedade uma realidade a ser superada. Por isso a CF ao ser trabalhada pela Igreja Católica, é no entanto, dirigida a todas as pessoas que boa vontade que examinam a realidade que hoje vivemos.

O tema da campanha da fraternidade é “fraternidade e superação da violência” e o lema é inspirado no Evangelho de São Mateus: “vós sois todos irmãos” (Mt 23, 8). A campanha tem como objetivo geral: “construir a fraternidade, promovendo a cultura de paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência”. Nós sofremos e estamos quase estarrecidos com tanta violência. Em nossa cidade se visibiliza tantas guerras e confrontos que chamam a atenção do mundo. O tema da superação da violência e, por isso, da segurança tornou-se uma das principais realidades a serem discutidas e tem inspirado diversas formas de políticas públicas. Nesse sentido, como sentido de acolher a proposta da Campanha da Fraternidade deste pude escrever uma carta pastoral específica para nossa arquidiocese: “bem-aventurados os que constroem a Paz” no intuito de incentivar esse trabalho em nossa realidade urbana.

No texto base da CF 2018 podemos aprofundar os vários itens. O item ver, está dividido em três partes: a violência na convivência humana, a violência e as estruturas sociais e a violência e algumas manifestações na sociedade. A violência e algumas manifestações na sociedade, é uma espécie de raio-x das causas que levam à violência, em todos os níveis. No ponto, a violência e as estruturas sociais, por exemplo, encontramos a relação da violência com a economia e mercado, a acumulação do capital, o fenômeno do consumo, a desigualdade e a violência promovidas pela lógica do mercado e a violação dos direitos fundamentais. No que diz respeito a violência e algumas manifestações na sociedade, estão elencados as drogas, o processo de criminalização institucional (negligência do Estado em relação às políticas sociais e justiça punitiva), os sujeitos violentados, como juventude pobre e negra; povos indígenas, mulheres exploradas sexualmente e as vítimas de tráfico humano, além da intolerância (raça, cor e religião etc).

O julgar apresenta uma abordagem do tema no Antigo Testamento (AT) e outra no Novo Testamento (NT). Essa divisão é apenas pedagógica, uma vez que o AT possui elementos suficientes para mostrar que, sendo Deus misericordioso, não se coloca ao lado a violência e estabelece caminho para superá-la. E o Novo Testamento culmina com a resposta definitiva de Deus para a superação da violência. No agir, encontramos ações concretas para a violência.

Quanto alguns dados da violência em nosso país, o Brasil é a oitava maior economia mundial. No entanto, é o décimo país mais desigual do mundo segundo o relatório do desenvolvimento humano, de 2016, das Organizações das Nações Unidas (ONU). A seguir, alguns dados sobre a violência no Brasil, extraídos no Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2018: Mortes por arma de fogo: 60 mil por ano, 123 por dia e 5 pessoas por hora. Violência contra mulher: estima-se que pode ter chegado a 454 mil casos. 45.460 estupros em 2015. Mortes entre jovens: 52 mil mortes por homicídio, 52,63% eram jovens, 71,44% negros e 93,03% do sexo masculino.

Mas o que podemos fazer para vencer este mal da violência? Para a Igreja no Brasil, superar as várias faces da violência é uma tarefa de todos. Assim, a Campanha da Fraternidade quer identificar, acompanhar e reivindicar políticas públicas para a superação da desigualdade social e da violência. A superação da violência nasce da relação com outro. A cultura da paz acontece em todas as realidades da vida e na relação com todos os seres. O primeiro lugar onde o ser humano aprende a se relacionar é na família. Os comportamentos e estímulos de superação da violência exercitados na família balizam as a serem desenvolvidas na comunidade e na sociedade. Vejo que além das ações para superar a violência o primeiro ponto ou ainda o ponto de partida, seja a mudança do coração da pessoa humana, de onde partem todas as ações, e por isso a necessidade da oração e a espiritualidade, pois, sua prática pode transformar comportamentos em atitudes, ou seja, elas são parte do processo de conversão.

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro