Arquidiocese do Rio de Janeiro

25º 15º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 16/08/2018

16 de Agosto de 2018

Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra?

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16 de Agosto de 2018

Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra?

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04/02/2018 00:00

Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? 0

04/02/2018 00:00

Na primeira leitura deste Domingo aparece-nos Jó, que introduz sua fala com um versículo forte, no qual todos nós nos identificamos: “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? Seus dias não são como os dias de um assalariado[1]?” Assim Jó, cuja história nós bem conhecemos, expressa a sua dor. A dor de Jó é um misto de todas as dores humanas: doença, morte dos filhos, perda dos bens, sofrimento moral etc. Assim esse personagem dá voz às grandes dores de todos os homens de todas as épocas.

No v. 2 Jó expressa sua dor através de duas imagens: a primeira delas é a do escravo que suspira pela sombra e a segunda a do assalariado que espera com angústia pela sua diária. No entanto, ele, Jó, não teve nem a sombra e nem o salário, mas só a continuidade da dor.

No v. 4 Jó declara que a sua dor não conhece interrupção, porque ao deitar pensa em levantar-se e, ao levantar-se, a sua vida é cheia de sofrimentos que o acompanham até o anoitecer.

Enfim, os vv. 6-7 finalizam a perícope num tom de grande desolação, porque Jó proclama que seus dias se consomem num contínuo “cessamento da esperança” – tiqwâ e que sua vida é simplesmente “vento” – rûah. Seria interessante explorer o sentido do termo tiqwâ. Ele não é o único termo utilizado para indicar esperança no Antigo Testamento, mas a sua raiz é bastante significativa. Ele provém do verbo qawah, que aparece nesta perícope, em Jó 7,2, para designar a atitude do assalariado que “espera” o seu pagamento e, segundo alguns autores, pode provir do substantivo qaw, que significa “corda”.[2] Ao perder a esperança, Jó perde aquilo que o une a Deus, que o faz confiar que a “corda que segura sua vida” ainda está nas mãos do Senhor e que, na hora exata, Ele haverá de puxá-lo salvando-o da sua condição de aparente falência total. Ao perder a “esperança” é como se Jó cortasse essa “corda”.

A perícope termina nesta angustiante constatação: “meus olhos não voltarão a ver a felicidade!” É o Evangelho que nos fará ver a felicidade, que mais que um sentimento, é uma pessoa: Jesus Cristo.

Na transição para o evangelho, está o Salmo de resposta, que coloca nos nossos lábios o louvor a Deus: Louvai a Deus, porque ele é bom e conforta os corações. No meio do sofrimento não compreendido só nos resta louvar e confiar de que Deus, no momento oportuno, haverá de agir, ou de mover o nosso agir.

Poderíamos dividir a perícope de Mc 1,29-39 em três partes:

v. 29 : Introdução (Jesus sai da sinagoga, e vai à casa de Simão)

vv. 30-31: Primeira cura – a da sogra de Pedro

v. 32a: Uma segunda introdução (localização temporal: à tarde...)

vv. 32b-34: Diversas curas e exorcismos

v. 35a: Uma terceira introdução (localização temporal: de madrugada...)

v. 35b: Jesus que ora num lugar deserto

vv. 36-38: Diálogo entre Jesus e seus discípulos

v. 38: Conclusão

A perícope que nos é apresentada hoje nos traz a primeira cura realizada por Jesus: a da sogra de Pedro. Antes Jesus havia libertado um possesso na sinagoga de Cafarnaum e, agora, se dirige à casa de Simão Pedro, onde ele cura a sua sogra. Este é o primeiro movimento da perícope. Num segundo momento, todos vêm até a casa. Não é Jesus que sai à procura dos doentes e possessos a fim de realizar gestos que chamem a atenção. Todos os doentes e possessos são atraídos ou trazidos por alguém, na certeza de que ali está alguém que pode libertá-los dos seus atrozes sofrimentos. Jesus não se nega a realizar tais sinais. Todavia, chama-nos a atenção o terceiro movimento da perícope, quando Jesus sai de madrugada e vai para um lugar deserto, “para rezar”. Os seus discípulos o procuram e ele os convida a continuarem seu caminho, porque era necessário “pregar” ainda em outros lugares. Marcos, na conclusão da perícope, nos mostra que foi exatamente isso que foi feito, Jesus andava por toda a Galileia, “pregando nas sinagogas” e “expulsando os demônios”.

Em paralelo com a primeira leitura, o evangelho nos mostra a “luta” que é a vida do homem sobre a terra, ao apresentar todos os enfermos e possessos que são levados a Jesus. Todos, os doentes, os possessos e os que cuidam deles estão exaustos e querem ser aliviados da sua luta. Enquanto a primeira leitura termina num tom de angústia e silêncio divino, aqui o evangelho nos apresenta a solução enviada pelo Pai: Jesus, que veio tomar sobre si nossas dores.

Contudo, é necessário ler com atenção o evangelho e ver o que nele é mais essencial no  que diz respeito à atitude de Jesus. Talvez possamos analisar com mais calma o v. 31, onde a sogra de Pedro é curada e começa a “servir a Igreja”: a Jesus e aos seus discípulos; ou ainda poderíamos estar atentos ao terceiro movimento da perícope, onde Jesus aparece no v. 35b se retirando para um lugar deserto, para rezar.

O centro de toda a perícope está, sem dúvida, no v. 38, onde ao ser procurado por seus discípulos, Jesus os incita dizendo: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”. Foi para “isso” que Ele veio. O “isso” se refere à pregação e não às curas. Jesus não é um curandeiro, mas veio anunciar a boa-nova do Reino. Se Ele também cura é por compaixão, porque não deseja ver o sofrimento dos homens. Se Ele também cura é para ratificar a sua pregação. Mas a sua missão primeira é pregar a boa-nova do Reino e expulsar os demônios, como sinal de que o poder de Satanás sobre este mundo está com os dias contados. O ápice da sua missão se deu quando, sobre a cruz, ofereceu-se a si mesmo num supremo gesto de amor por nós. Ali a sua pregação se tornou gesto e o poder de Satanás sobre os homens foi completamente destruído.

Diferentemente dos cultos “neo-pentecostais” centralizados na necessidade da cura física e da prosperidade – ou seja, da busca de uma vida boa e tranquila neste plano no qual vivemos – a liturgia é proclamação e atualização da Páscoa de Cristo, ou seja, do Mistério de Deus que assume a nossa humanidade e que morre para vencer a morte, a fim de que todos tenhamos a certeza de sairmos também, um dia, vitoriosos da batalha contra o nosso último inimigo que é a morte (cf. 1Cor 15,26). A liturgia nos ensina, assim, que ainda que a nossa vida seja permeada por tribulações, enfermidades e, no fim, seja-nos dado sentir o amargo beijo da morte, ela, a morte, é uma inimiga vencida, não porque Deus nos há de curar de todas as doenças, mas sim porque Ele há de nos ressuscitar dos mortos e nos fazer assentar com Ele nos céus (cf. Rm 6,5.8).

Esse é o evangelho que devemos pregar, essa é boa nova da salvação, cujo anúncio é, para nós, uma “necessidade” conforme diz Paulo na segunda leitura. Assim como muitos doentes foram a Jesus também muitos vêm até nossas igrejas. Devemos orar por eles e com eles. Podemos até suplicar pela sua cura. Mas temos de mostrar, como fazia Jesus, que a “grande cura” é a salvação, a vida eterna, que nos foi conquistada pelo preço do sangue do Cordeiro que por nós foi à cruz.

Que a exemplo do nosso Mestre possamos buscar uma vida de intimidade com o Pai (cf. Mc 1,35b) e que como Paulo, o grande apóstolo das gentes, empenhemos nossa vida em ser anunciadores da Palavra de Deus, a fim de ganhar o máximo possível para Cristo.



[1] Prefiro traduzir o termo hebraico śakîr por assalariado, uma vez que mercenário tem, muitas vezes, um tom negativo. Aqui o texto deseja designar alguém que trabalha esperando o seu salário no fim do dia e, por isso, o trabalho é angustiante, porque se ele for demitido no fim do dia, não terá salário no dia seguinte.

[2] Cf. WASCHKE, E.-J.תִּקְוָה. In: BOTTERWECK, G. J. et allii. Tehological Dictionary of the Old Testament. V. XV. p. 759.

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Na primeira leitura deste Domingo aparece-nos Jó, que introduz sua fala com um versículo forte, no qual todos nós nos identificamos: “Não é acaso uma luta a vida do homem sobre a terra? Seus dias não são como os dias de um assalariado[1]?” Assim Jó, cuja história nós bem conhecemos, expressa a sua dor. A dor de Jó é um misto de todas as dores humanas: doença, morte dos filhos, perda dos bens, sofrimento moral etc. Assim esse personagem dá voz às grandes dores de todos os homens de todas as épocas.

No v. 2 Jó expressa sua dor através de duas imagens: a primeira delas é a do escravo que suspira pela sombra e a segunda a do assalariado que espera com angústia pela sua diária. No entanto, ele, Jó, não teve nem a sombra e nem o salário, mas só a continuidade da dor.

No v. 4 Jó declara que a sua dor não conhece interrupção, porque ao deitar pensa em levantar-se e, ao levantar-se, a sua vida é cheia de sofrimentos que o acompanham até o anoitecer.

Enfim, os vv. 6-7 finalizam a perícope num tom de grande desolação, porque Jó proclama que seus dias se consomem num contínuo “cessamento da esperança” – tiqwâ e que sua vida é simplesmente “vento” – rûah. Seria interessante explorer o sentido do termo tiqwâ. Ele não é o único termo utilizado para indicar esperança no Antigo Testamento, mas a sua raiz é bastante significativa. Ele provém do verbo qawah, que aparece nesta perícope, em Jó 7,2, para designar a atitude do assalariado que “espera” o seu pagamento e, segundo alguns autores, pode provir do substantivo qaw, que significa “corda”.[2] Ao perder a esperança, Jó perde aquilo que o une a Deus, que o faz confiar que a “corda que segura sua vida” ainda está nas mãos do Senhor e que, na hora exata, Ele haverá de puxá-lo salvando-o da sua condição de aparente falência total. Ao perder a “esperança” é como se Jó cortasse essa “corda”.

A perícope termina nesta angustiante constatação: “meus olhos não voltarão a ver a felicidade!” É o Evangelho que nos fará ver a felicidade, que mais que um sentimento, é uma pessoa: Jesus Cristo.

Na transição para o evangelho, está o Salmo de resposta, que coloca nos nossos lábios o louvor a Deus: Louvai a Deus, porque ele é bom e conforta os corações. No meio do sofrimento não compreendido só nos resta louvar e confiar de que Deus, no momento oportuno, haverá de agir, ou de mover o nosso agir.

Poderíamos dividir a perícope de Mc 1,29-39 em três partes:

v. 29 : Introdução (Jesus sai da sinagoga, e vai à casa de Simão)

vv. 30-31: Primeira cura – a da sogra de Pedro

v. 32a: Uma segunda introdução (localização temporal: à tarde...)

vv. 32b-34: Diversas curas e exorcismos

v. 35a: Uma terceira introdução (localização temporal: de madrugada...)

v. 35b: Jesus que ora num lugar deserto

vv. 36-38: Diálogo entre Jesus e seus discípulos

v. 38: Conclusão

A perícope que nos é apresentada hoje nos traz a primeira cura realizada por Jesus: a da sogra de Pedro. Antes Jesus havia libertado um possesso na sinagoga de Cafarnaum e, agora, se dirige à casa de Simão Pedro, onde ele cura a sua sogra. Este é o primeiro movimento da perícope. Num segundo momento, todos vêm até a casa. Não é Jesus que sai à procura dos doentes e possessos a fim de realizar gestos que chamem a atenção. Todos os doentes e possessos são atraídos ou trazidos por alguém, na certeza de que ali está alguém que pode libertá-los dos seus atrozes sofrimentos. Jesus não se nega a realizar tais sinais. Todavia, chama-nos a atenção o terceiro movimento da perícope, quando Jesus sai de madrugada e vai para um lugar deserto, “para rezar”. Os seus discípulos o procuram e ele os convida a continuarem seu caminho, porque era necessário “pregar” ainda em outros lugares. Marcos, na conclusão da perícope, nos mostra que foi exatamente isso que foi feito, Jesus andava por toda a Galileia, “pregando nas sinagogas” e “expulsando os demônios”.

Em paralelo com a primeira leitura, o evangelho nos mostra a “luta” que é a vida do homem sobre a terra, ao apresentar todos os enfermos e possessos que são levados a Jesus. Todos, os doentes, os possessos e os que cuidam deles estão exaustos e querem ser aliviados da sua luta. Enquanto a primeira leitura termina num tom de angústia e silêncio divino, aqui o evangelho nos apresenta a solução enviada pelo Pai: Jesus, que veio tomar sobre si nossas dores.

Contudo, é necessário ler com atenção o evangelho e ver o que nele é mais essencial no  que diz respeito à atitude de Jesus. Talvez possamos analisar com mais calma o v. 31, onde a sogra de Pedro é curada e começa a “servir a Igreja”: a Jesus e aos seus discípulos; ou ainda poderíamos estar atentos ao terceiro movimento da perícope, onde Jesus aparece no v. 35b se retirando para um lugar deserto, para rezar.

O centro de toda a perícope está, sem dúvida, no v. 38, onde ao ser procurado por seus discípulos, Jesus os incita dizendo: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”. Foi para “isso” que Ele veio. O “isso” se refere à pregação e não às curas. Jesus não é um curandeiro, mas veio anunciar a boa-nova do Reino. Se Ele também cura é por compaixão, porque não deseja ver o sofrimento dos homens. Se Ele também cura é para ratificar a sua pregação. Mas a sua missão primeira é pregar a boa-nova do Reino e expulsar os demônios, como sinal de que o poder de Satanás sobre este mundo está com os dias contados. O ápice da sua missão se deu quando, sobre a cruz, ofereceu-se a si mesmo num supremo gesto de amor por nós. Ali a sua pregação se tornou gesto e o poder de Satanás sobre os homens foi completamente destruído.

Diferentemente dos cultos “neo-pentecostais” centralizados na necessidade da cura física e da prosperidade – ou seja, da busca de uma vida boa e tranquila neste plano no qual vivemos – a liturgia é proclamação e atualização da Páscoa de Cristo, ou seja, do Mistério de Deus que assume a nossa humanidade e que morre para vencer a morte, a fim de que todos tenhamos a certeza de sairmos também, um dia, vitoriosos da batalha contra o nosso último inimigo que é a morte (cf. 1Cor 15,26). A liturgia nos ensina, assim, que ainda que a nossa vida seja permeada por tribulações, enfermidades e, no fim, seja-nos dado sentir o amargo beijo da morte, ela, a morte, é uma inimiga vencida, não porque Deus nos há de curar de todas as doenças, mas sim porque Ele há de nos ressuscitar dos mortos e nos fazer assentar com Ele nos céus (cf. Rm 6,5.8).

Esse é o evangelho que devemos pregar, essa é boa nova da salvação, cujo anúncio é, para nós, uma “necessidade” conforme diz Paulo na segunda leitura. Assim como muitos doentes foram a Jesus também muitos vêm até nossas igrejas. Devemos orar por eles e com eles. Podemos até suplicar pela sua cura. Mas temos de mostrar, como fazia Jesus, que a “grande cura” é a salvação, a vida eterna, que nos foi conquistada pelo preço do sangue do Cordeiro que por nós foi à cruz.

Que a exemplo do nosso Mestre possamos buscar uma vida de intimidade com o Pai (cf. Mc 1,35b) e que como Paulo, o grande apóstolo das gentes, empenhemos nossa vida em ser anunciadores da Palavra de Deus, a fim de ganhar o máximo possível para Cristo.



[1] Prefiro traduzir o termo hebraico śakîr por assalariado, uma vez que mercenário tem, muitas vezes, um tom negativo. Aqui o texto deseja designar alguém que trabalha esperando o seu salário no fim do dia e, por isso, o trabalho é angustiante, porque se ele for demitido no fim do dia, não terá salário no dia seguinte.

[2] Cf. WASCHKE, E.-J.תִּקְוָה. In: BOTTERWECK, G. J. et allii. Tehological Dictionary of the Old Testament. V. XV. p. 759.

Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida