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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 16/10/2018

16 de Outubro de 2018

“O menino crescia... e a graça de Deus estava com Ele”

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16 de Outubro de 2018

“O menino crescia... e a graça de Deus estava com Ele”

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“O menino crescia... e a graça de Deus estava com Ele” 0

31/12/2017 00:00

A família é um projeto nascido no coração de Deus. A Sagrada Escritura nos mostra que, no início, Deus criou o homem e a mulher e lhes deu a ordem de formarem uma família(Cf. Gn 1,27-28; Gn 2,22-24).

Sendo a vida intradivina uma comunidade de amor - Deus Pai, Filho e Espírito: um só Deus em três pessoas -, Deus quis que também os homens vivessem em pequenas comunidades, repletas de amor e autodoação. Esse lugar de amor e autodoação é a família, embora saibamos que muitas famílias vivem segundo outros critérios; muitas vezes o que reina não é, de fato, o amor.

Sendo a família esse lugar onde deve reinar o amor, o primeiro mandamento de Deus em relação ao próximo diz respeito à família, e é o único que vem acompanhado de uma promessa: Honra teu pai e tua mãe, conforme te ordenou o Senhor teu Deus, para que os teus dias se prolonguem e tudo corra bem na terra que o Senhor teu Deus te dá (cf. Dt 5,16). É dever dos filhos honrar os pais. Se estes honram seus pais, supõe-se que também saberão honrar seus filhos. Este é o desejo, o projeto de Deus para a família: que ela seja uma comunhão no amor.

Ao celebrarmos hoje a festa litúrgica da Sagrada Família, ouvimos um trecho do livro do Eclesiástico que retoma e amplia o texto de Dt 5,16. Deus faz inúmeras promessas para aqueles que honram seu pai e sua mãe. A maior delas se encontra, sem dúvida, em Eclo 3,15b-16: a caridade feita a teu pai não será esquecida, mas servirá para resgatar os teus pecados... Deus jamais se esquece do bem que o homem faz. Ele está disposto a apagar nossos pecados e a sempre se lembrar do bem que realizamos. Que ternura infinita a que o Senhor tem para conosco!

Também o Salmo 127, salmo responsorial dessa liturgia da palavra, é uma celebração da vida familiar. Ao homem que “teme o Senhor” é prometida uma grande bênção: uma esposa fecunda como uma videira, filhos como rebentos de oliveira etc. Uma família numerosa e feliz, eis o sinal da bênção de Deus, conforme diz o salmista.

Paulo, na segunda leitura, nos fala de modo sublime no v. 13 que devemos “suportar-nos” e “perdoar-nos” mutuamente. Poderíamos dizer que, sobretudo na família, é preciso viver isso: suportar e perdoar. O verbo utilizado por Paulo e que é traduzido aqui por “suportar” pode significar “tolerar/dar suporte/sustentar”. Numa família precisamos ser capazes de tolerar com paciência as fraquezas uns dos outros. Precisamos ser capazes de sustentar os outros no meio das suas crises, misérias e fracassos. Isso significa “suportar”.

O verbo traduzido aqui por ‘perdoar’ é o verbo grego charidzoma. Em sua raiz, ele traz o termo ‘charis’, que pode ser traduzido como ‘graça, favor’. Perdoar é conceder favor, graça àquele que me feriu, assim como Cristo faz comigo todo o tempo, pois o texto diz: Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai vós também... Esse deve ser um exercício diária na família: o exercício do amor, da graça, do perdão sem limites.

A segunda leitura termina com os conselhos de Paulo para a vida em família: as mulheres devem ser “solícitas” para com seus maridos; os maridos, por sua vez, devem “amar” as suas esposas; os filhos devem “obedecer” aos pais, e os pais, por sua vez, não devem “intimidar” os seus filhos.

A maneira de Paulo descrever essas relações parece demonstrar bem a visão que ele tem do matrimônio como uma imagem da relação entre Cristo e a Igreja. O marido deve “amar” a sua esposa. Paulo usa aqui o verbo agapauo, o mesmo que ele usa em Ef 5,25 quando ele também afirma que os maridos devem “amar” as suas esposas, e diz que eles devem fazer isso do “mesmo modo como Cristo” - Maridos amai as vossas esposas como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.

A esposa pode “submeter-se/ser solícita” ao seu esposo, porque reconhece nele o Cristo, que está disposto a dar, por ela, a sua vida. O submeter-se torna-se, aqui, uma confiança total naquele que dará a vida por mim, assim como Cristo o fez. Está longe de ser uma submissão servil que aviltaria a condição da mulher. Paulo não tem isto em mente, embora alguém possa interpretar erroneamente o texto, dando a ele este sentido.

A relação entre pais e filhos também é contemplada pelo apóstolo. Os filhos devem ter com relação aos pais uma atitude de obediência e estes, por sua vez, não devem provocar/irritar/exasperar seus filhos, a fim de que estes não desanimem.

Embora esta pareça uma realidade distante, eis diante de nossos olhos o desejo de Deus para nossas famílias, para todas as famílias.

O nosso olhar se dirige, agora, para o Evangelho, para a família de Nazaré, lugar onde tudo isso que falamos até agora foi vivido, sem dúvida, de forma sublime. Maria e José vão ao Templo cumprir a Lei: a purificação da mãe e o resgate do primogênito (Ex 13,11-16; Lv 12,2-8). Não somente cumprem a Lei, mas realizam um ato comum a pessoas piedosas: apresentam o menino no Templo (1Sm 1,24-25).

A respeito do menino ouvem coisas grandiosas. A Maria é dirigida uma palavra obscura: “uma espada te traspassará a alma...”. Depois de cumprirem tudo, voltam para seu lar em Nazaré e o menino cresce, tornando-se cheio de sabedoria e da graça de Deus.

Olhando para a família de Nazaré podemos colher muitos exemplos que devemos imitar em nossos lares: a piedade, a fidelidade a Deus, a importância do acolhimento da Palavra, o valor do trabalho, a alegria de uma vida familiar vivida sob o olhar de Deus etc.

Que nesta festa da Sagrada Família possamos pedir a Deus por nossas famílias e pelas famílias do mundo inteiro. Ao olharmos para nossas casas percebemos que estamos, muitas vezes, distantes daquilo o que é o desejo de Deus para nós. Isso acontece porque somos marcados pelo pecado. Contudo, as coisas não estão perdidas como às vezes achamos. Se eu mudar, muita coisa pode mudar ao meu redor.

Para além da nossa mudança pessoal, devemos confiar, ainda, na força da nossa oração. É claro que não se trata de mágica. Deus conta, também, com a liberdade de cada um. Todavia, a consciência pessoal da nossa necessidade de conversão contínua, associada à oração intensa e confiante, é já um grande passo para que muita coisa se modifique em nossa família e nas famílias que estão ao nosso redor.

Que a Sagrada Família de Nazaré seja um exemplo para nós. E que a comunhão da vida trinitária seja sempre nosso modelo mais inspirador!


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“O menino crescia... e a graça de Deus estava com Ele”

31/12/2017 00:00

A família é um projeto nascido no coração de Deus. A Sagrada Escritura nos mostra que, no início, Deus criou o homem e a mulher e lhes deu a ordem de formarem uma família(Cf. Gn 1,27-28; Gn 2,22-24).

Sendo a vida intradivina uma comunidade de amor - Deus Pai, Filho e Espírito: um só Deus em três pessoas -, Deus quis que também os homens vivessem em pequenas comunidades, repletas de amor e autodoação. Esse lugar de amor e autodoação é a família, embora saibamos que muitas famílias vivem segundo outros critérios; muitas vezes o que reina não é, de fato, o amor.

Sendo a família esse lugar onde deve reinar o amor, o primeiro mandamento de Deus em relação ao próximo diz respeito à família, e é o único que vem acompanhado de uma promessa: Honra teu pai e tua mãe, conforme te ordenou o Senhor teu Deus, para que os teus dias se prolonguem e tudo corra bem na terra que o Senhor teu Deus te dá (cf. Dt 5,16). É dever dos filhos honrar os pais. Se estes honram seus pais, supõe-se que também saberão honrar seus filhos. Este é o desejo, o projeto de Deus para a família: que ela seja uma comunhão no amor.

Ao celebrarmos hoje a festa litúrgica da Sagrada Família, ouvimos um trecho do livro do Eclesiástico que retoma e amplia o texto de Dt 5,16. Deus faz inúmeras promessas para aqueles que honram seu pai e sua mãe. A maior delas se encontra, sem dúvida, em Eclo 3,15b-16: a caridade feita a teu pai não será esquecida, mas servirá para resgatar os teus pecados... Deus jamais se esquece do bem que o homem faz. Ele está disposto a apagar nossos pecados e a sempre se lembrar do bem que realizamos. Que ternura infinita a que o Senhor tem para conosco!

Também o Salmo 127, salmo responsorial dessa liturgia da palavra, é uma celebração da vida familiar. Ao homem que “teme o Senhor” é prometida uma grande bênção: uma esposa fecunda como uma videira, filhos como rebentos de oliveira etc. Uma família numerosa e feliz, eis o sinal da bênção de Deus, conforme diz o salmista.

Paulo, na segunda leitura, nos fala de modo sublime no v. 13 que devemos “suportar-nos” e “perdoar-nos” mutuamente. Poderíamos dizer que, sobretudo na família, é preciso viver isso: suportar e perdoar. O verbo utilizado por Paulo e que é traduzido aqui por “suportar” pode significar “tolerar/dar suporte/sustentar”. Numa família precisamos ser capazes de tolerar com paciência as fraquezas uns dos outros. Precisamos ser capazes de sustentar os outros no meio das suas crises, misérias e fracassos. Isso significa “suportar”.

O verbo traduzido aqui por ‘perdoar’ é o verbo grego charidzoma. Em sua raiz, ele traz o termo ‘charis’, que pode ser traduzido como ‘graça, favor’. Perdoar é conceder favor, graça àquele que me feriu, assim como Cristo faz comigo todo o tempo, pois o texto diz: Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai vós também... Esse deve ser um exercício diária na família: o exercício do amor, da graça, do perdão sem limites.

A segunda leitura termina com os conselhos de Paulo para a vida em família: as mulheres devem ser “solícitas” para com seus maridos; os maridos, por sua vez, devem “amar” as suas esposas; os filhos devem “obedecer” aos pais, e os pais, por sua vez, não devem “intimidar” os seus filhos.

A maneira de Paulo descrever essas relações parece demonstrar bem a visão que ele tem do matrimônio como uma imagem da relação entre Cristo e a Igreja. O marido deve “amar” a sua esposa. Paulo usa aqui o verbo agapauo, o mesmo que ele usa em Ef 5,25 quando ele também afirma que os maridos devem “amar” as suas esposas, e diz que eles devem fazer isso do “mesmo modo como Cristo” - Maridos amai as vossas esposas como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.

A esposa pode “submeter-se/ser solícita” ao seu esposo, porque reconhece nele o Cristo, que está disposto a dar, por ela, a sua vida. O submeter-se torna-se, aqui, uma confiança total naquele que dará a vida por mim, assim como Cristo o fez. Está longe de ser uma submissão servil que aviltaria a condição da mulher. Paulo não tem isto em mente, embora alguém possa interpretar erroneamente o texto, dando a ele este sentido.

A relação entre pais e filhos também é contemplada pelo apóstolo. Os filhos devem ter com relação aos pais uma atitude de obediência e estes, por sua vez, não devem provocar/irritar/exasperar seus filhos, a fim de que estes não desanimem.

Embora esta pareça uma realidade distante, eis diante de nossos olhos o desejo de Deus para nossas famílias, para todas as famílias.

O nosso olhar se dirige, agora, para o Evangelho, para a família de Nazaré, lugar onde tudo isso que falamos até agora foi vivido, sem dúvida, de forma sublime. Maria e José vão ao Templo cumprir a Lei: a purificação da mãe e o resgate do primogênito (Ex 13,11-16; Lv 12,2-8). Não somente cumprem a Lei, mas realizam um ato comum a pessoas piedosas: apresentam o menino no Templo (1Sm 1,24-25).

A respeito do menino ouvem coisas grandiosas. A Maria é dirigida uma palavra obscura: “uma espada te traspassará a alma...”. Depois de cumprirem tudo, voltam para seu lar em Nazaré e o menino cresce, tornando-se cheio de sabedoria e da graça de Deus.

Olhando para a família de Nazaré podemos colher muitos exemplos que devemos imitar em nossos lares: a piedade, a fidelidade a Deus, a importância do acolhimento da Palavra, o valor do trabalho, a alegria de uma vida familiar vivida sob o olhar de Deus etc.

Que nesta festa da Sagrada Família possamos pedir a Deus por nossas famílias e pelas famílias do mundo inteiro. Ao olharmos para nossas casas percebemos que estamos, muitas vezes, distantes daquilo o que é o desejo de Deus para nós. Isso acontece porque somos marcados pelo pecado. Contudo, as coisas não estão perdidas como às vezes achamos. Se eu mudar, muita coisa pode mudar ao meu redor.

Para além da nossa mudança pessoal, devemos confiar, ainda, na força da nossa oração. É claro que não se trata de mágica. Deus conta, também, com a liberdade de cada um. Todavia, a consciência pessoal da nossa necessidade de conversão contínua, associada à oração intensa e confiante, é já um grande passo para que muita coisa se modifique em nossa família e nas famílias que estão ao nosso redor.

Que a Sagrada Família de Nazaré seja um exemplo para nós. E que a comunhão da vida trinitária seja sempre nosso modelo mais inspirador!


Padre Fábio Siqueira
Autor

Padre Fábio Siqueira

Vice-diretor das Escolas de Fé e Catequese Mater Ecclesiae e Luz e Vida