Arquidiocese do Rio de Janeiro

26º 14º

Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 14/08/2018

14 de Agosto de 2018

O Papa e os jovens

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14 de Agosto de 2018

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03/11/2017 11:01 - Atualizado em 03/11/2017 11:01

O Papa e os jovens 0

03/11/2017 11:01 - Atualizado em 03/11/2017 11:01

Na esteira da preparação para o Sínodo dos Bispos sobre os jovens em Outubro próximo em Roma, creio que podemos refletir os anseios do Santo Padre, o Papa Francisco, ao responder alguns questionamentos dos jovens da Comunidade CatólicaShalom em visita comemorativa a Roma.

No dia 4 de setembro, o Papa Francisco recebeu, na Sala Paulo VI, membros da Comunidade Shalom – com grande presença em muitas Dioceses do Brasil – e, proferiu, então, uma verdadeira catequese para a juventude em sua vida diária e no relacionamento com os mais velhos. Vale a pena percorrer e transcrever alguns trechos da fala de Francisco que tocam a cada um de nós em nosso dia a dia, especialmente no trabalho com as jovens gerações.

O primeiro a falar e a ter, por conseguinte, a resposta do Santo Padre foi João, um jovem missionário da comunidade que gasta a sua vida anunciando com a vida e a palavra o Evangelho da misericórdia. A ele o Papa diz: “Saíste de ti mesmo na oração para te encontrares com Deus, saíste de ti mesmo ao compartilhar a fraternidade para te encontrares com os irmãos, e saíste de ti mesmo para ir evangelizar, para dar uma boa notícia. E a boa notícia – usaste a palavra – é a misericórdia num mundo marcado pelo desespero e pela indiferença. É curioso, a misericórdia é algo absoluto. Não podes falar apenas da misericórdia, tens que a testemunhar, que a compartilhar, que ensinar saindo de ti mesmo”.

Em outras palavras: não se fala de misericórdia, se vive a misericórdia ao encontro do próximo mais necessitado, espiritual e materialmente. Somos como que veículos ou meios do anúncio do amor de Deus para com a humanidade sofredora, cada um de nós é (ou deveria ser) imitador do Pai do Filho pródigo que espera a volta do que está perdido, não para censurar, mas, ao contrário, para acolher e perdoar. E aqui, o Papa entra na referida passagem bíblica com belíssimo comentário: “Recorda-te do trecho do filho que volta para a casa. Em Lucas, no capítulo 15, há uma frase que diz que o pai o viu ao longe. Tinha-se afastado de casa alguns anos antes, houve quem o levou a gastar tudo o que possuía. Viu-o ao longe. Isto me faz pensar que esse pai, todos os dias e talvez a toda a hora, subia ao terraço para ver se o filho voltava. Deus é assim conosco, até nos piores momentos de pecado, e também nos momentos difíceis. E o Evangelho prossegue: ‘E o Pai quando o viu ao longe ficou comovido – com esse verbo que em hebraico significa ‘as suas entranhas mexeram-se’, essas entranhas paternas e maternas de Deus – e saiu a correr para abraçá-lo’. Esse filho cometeu um dos pecados mais graves, estava na pior situação, e quando disse ‘vou à casa do meu pai’, o pai já estava à espera dele. Isto é misericórdia, nunca desesperar. Além disso, parece que o nosso Deus tem uma predileção especial pelos pecadores, inclusive os de ‘puro-sangue’: espera por eles. Portanto eu sugiro-te isto: continua a sair de ti mesmo e dá a entender a todos que há sempre um pai que espera por nós com carinho e com ternura, ao primeiro passo que quisermos dar”.

A segunda a falar e receber a resposta de Francisco foi Justine, uma jovem recém-batizada, por decidir-se, já depois de adulta, a entregar-se a Deus, que é o Tudo da nossa existência, pela graça do Batismo. Por ele nos tornamos filhos no Filho (cf. Gl4,5-7). Não há graça maior nesta vida que a de ser filho(a) de Deus. O Batismo nos regenera, fazendo-nos sair da morte do pecado para viver na graça: quem se entrega ao próximo e se esquece de si, vive muito mais feliz, porque está imerso no Senhor da vida e não no apego ao que não pode trazer a real felicidade que todos almejamos.

Daí falar o Papa à jovem: “Saíste de algo que causa tristeza, que é estar concentrado em si mesmo, a autorreferencialidade. Um jovem que se fecha em si mesmo, que vive unicamente para si próprio, acaba – e espero que compreendam o verbo, porque é um verbo argentino – acaba por ficar empachado de autorreferencialidade, ou seja, cheio de autorreferencialidade”. É um egoísmo narcisista de olhar apenas para si ou, em outras palavras, se auto olhar. É o que constata o Papa: “O narcisismo causa-te tristeza porque vives preocupado em maquiar a tua alma todos os dias, em aparecer melhor do que és, em contemplar se és mais bonito do que os demais, é a doença do espelho. Jovens, quebrai esse espelho! Não vos contempleis ao espelho, porque o espelho engana, olhai para fora, olhai para os demais, fugi deste mundo, desta cultura que estamos a viver – à qual fizeste referência – que é consumista e narcisista. E se algum dia quiserdes admirar-vos ao espelho, dou-vos um conselho: contemplai-vos ao espelho para vos rirdes de vós mesmos. Um dia fazei a prova: olhai e começai-vos a rir do que virdes nele, a vossa alma será refrescada. Saber rir-se de si próprio, isso dá alegria e salva-nos da tentação do narcisismo”.

Por terceiro, falou Mateus, um jovem recém-recuperado do vício das drogas, uma das grandes doenças – a drogadição é doença a ser tratada como problema de saúde pública – de nosso tempo a prejudicar a totalidade da pessoa humana: o físico e o espiritual de cada um(a) que envereda por esse descaminho sinuoso a parecer levar quem usa a droga a fugir de algo ou de si mesmo. Fuga que, evidentemente, não é o caminho. Para cada problema que temos, requer-se enfrentamento e solução, jamais a fuga. Daí, a resposta do Papa ao jovem: “A droga leva-nos a negar tudo o que temos arreigado, arreigamento carnal, arreigamentohistórico, arreigamento problemático, tudo o que estiver arreigado. Corta a tua raiz e faz-te viver num mundo sem raízes, desenraizado de tudo. Desarreigado de projetos, desarreigado do presente, desarreigado do teu passado, da tua história, desarreigado da tua pátria, da tua família, do teu amor, de tudo. Acabas por viver num mundo sem qualquer arreigamento e é esse o drama da droga. Jovens totalmente desarreigados, sem compromissos concretos, isto é, sem verdadeiros compromissos de carne, porque na droga nem sequer sentes o teu próprio corpo. E depois de teres passado por essa experiência de invisibilidade, e quando te tomas consciência, apercebeste-te de todos os arreigamentos que existem no coração. Eu pergunto a cada um de vós: estais conscientes dos verdadeiros arreigamentos que tendes no coração, estais conscientes das vossas raízes, estais conscientes dos vossos amores, estais conscientes dos vossos projetos, estais conscientes da vossa capacidade criativa, estais conscientes de que sois poetas neste universo para criar coisas novas e bonitas? Libertar-se da droga significa tomar consciência disto, é o testemunho de alguém que saiu dela, por isso coloca-nos perguntas que eu acabei de fazer”. 

Por fim, Francisco convida a uma reflexão sobre a verdadeira gratuidade da oferta de nossas vidas e do intercâmbio – como troca de experiências – entre os mais jovens e os idosos (os verdadeiramente idosos em tempo de vida). Fala, então, o Papa: “Se tu estás aqui, se nós estamos aqui, é porque gratuitamente nos trouxeram aqui. Por favor, demos de graça o que recebemos. Dar gratuitamente o que recebemos. E dar de graça enche-te a alma, descomercializa-te, torna-te magnânimo, ensina-te a abraçar e a beijar, faz-te sorrir, liberta-te de qualquer interesse egoísta. Dá de graça o que recebeste gratuitamente, eis o ensinamento que Ele nos está convidando a fazer”.

E mais: “Os jovens precisam de ouvir os idosos e os idosos precisam de ouvir os jovens [...] os idosos têm sabedoria, uma sabedoria que lhes chega ao coração e os estimula a ir em frente. Os idosos – para vós jovens – não devem ser guardados num roupeiro, não devem ser escondidos, os idosos esperam que um jovem vá e os ouça, os faça sonhar. E vós, jovens, precisais de receber destes homens e destas mulheres esses sonhos, essas ilusões que os façam reviver. [...] Fala com o teu avô e com a tua avó, isto é, uma geração mais velha, eles possuem a sabedoria, e eles muito mais, precisam que batas ao seu coração para te darem a sabedoria. E seria esta a recomendação que vos faço: animai-vos, animai-vos nesse diálogo, esse diálogo é promessa para o futuro, esse diálogo ajudar-vos-á a ir em frente”.

Nestes tempos de preparação para o Sínodo sobre a juventude, aprofundemos e aprendamos, pois, com essa importante Alocução do Santo Padre!

 

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03/11/2017 11:01 - Atualizado em 03/11/2017 11:01

Na esteira da preparação para o Sínodo dos Bispos sobre os jovens em Outubro próximo em Roma, creio que podemos refletir os anseios do Santo Padre, o Papa Francisco, ao responder alguns questionamentos dos jovens da Comunidade CatólicaShalom em visita comemorativa a Roma.

No dia 4 de setembro, o Papa Francisco recebeu, na Sala Paulo VI, membros da Comunidade Shalom – com grande presença em muitas Dioceses do Brasil – e, proferiu, então, uma verdadeira catequese para a juventude em sua vida diária e no relacionamento com os mais velhos. Vale a pena percorrer e transcrever alguns trechos da fala de Francisco que tocam a cada um de nós em nosso dia a dia, especialmente no trabalho com as jovens gerações.

O primeiro a falar e a ter, por conseguinte, a resposta do Santo Padre foi João, um jovem missionário da comunidade que gasta a sua vida anunciando com a vida e a palavra o Evangelho da misericórdia. A ele o Papa diz: “Saíste de ti mesmo na oração para te encontrares com Deus, saíste de ti mesmo ao compartilhar a fraternidade para te encontrares com os irmãos, e saíste de ti mesmo para ir evangelizar, para dar uma boa notícia. E a boa notícia – usaste a palavra – é a misericórdia num mundo marcado pelo desespero e pela indiferença. É curioso, a misericórdia é algo absoluto. Não podes falar apenas da misericórdia, tens que a testemunhar, que a compartilhar, que ensinar saindo de ti mesmo”.

Em outras palavras: não se fala de misericórdia, se vive a misericórdia ao encontro do próximo mais necessitado, espiritual e materialmente. Somos como que veículos ou meios do anúncio do amor de Deus para com a humanidade sofredora, cada um de nós é (ou deveria ser) imitador do Pai do Filho pródigo que espera a volta do que está perdido, não para censurar, mas, ao contrário, para acolher e perdoar. E aqui, o Papa entra na referida passagem bíblica com belíssimo comentário: “Recorda-te do trecho do filho que volta para a casa. Em Lucas, no capítulo 15, há uma frase que diz que o pai o viu ao longe. Tinha-se afastado de casa alguns anos antes, houve quem o levou a gastar tudo o que possuía. Viu-o ao longe. Isto me faz pensar que esse pai, todos os dias e talvez a toda a hora, subia ao terraço para ver se o filho voltava. Deus é assim conosco, até nos piores momentos de pecado, e também nos momentos difíceis. E o Evangelho prossegue: ‘E o Pai quando o viu ao longe ficou comovido – com esse verbo que em hebraico significa ‘as suas entranhas mexeram-se’, essas entranhas paternas e maternas de Deus – e saiu a correr para abraçá-lo’. Esse filho cometeu um dos pecados mais graves, estava na pior situação, e quando disse ‘vou à casa do meu pai’, o pai já estava à espera dele. Isto é misericórdia, nunca desesperar. Além disso, parece que o nosso Deus tem uma predileção especial pelos pecadores, inclusive os de ‘puro-sangue’: espera por eles. Portanto eu sugiro-te isto: continua a sair de ti mesmo e dá a entender a todos que há sempre um pai que espera por nós com carinho e com ternura, ao primeiro passo que quisermos dar”.

A segunda a falar e receber a resposta de Francisco foi Justine, uma jovem recém-batizada, por decidir-se, já depois de adulta, a entregar-se a Deus, que é o Tudo da nossa existência, pela graça do Batismo. Por ele nos tornamos filhos no Filho (cf. Gl4,5-7). Não há graça maior nesta vida que a de ser filho(a) de Deus. O Batismo nos regenera, fazendo-nos sair da morte do pecado para viver na graça: quem se entrega ao próximo e se esquece de si, vive muito mais feliz, porque está imerso no Senhor da vida e não no apego ao que não pode trazer a real felicidade que todos almejamos.

Daí falar o Papa à jovem: “Saíste de algo que causa tristeza, que é estar concentrado em si mesmo, a autorreferencialidade. Um jovem que se fecha em si mesmo, que vive unicamente para si próprio, acaba – e espero que compreendam o verbo, porque é um verbo argentino – acaba por ficar empachado de autorreferencialidade, ou seja, cheio de autorreferencialidade”. É um egoísmo narcisista de olhar apenas para si ou, em outras palavras, se auto olhar. É o que constata o Papa: “O narcisismo causa-te tristeza porque vives preocupado em maquiar a tua alma todos os dias, em aparecer melhor do que és, em contemplar se és mais bonito do que os demais, é a doença do espelho. Jovens, quebrai esse espelho! Não vos contempleis ao espelho, porque o espelho engana, olhai para fora, olhai para os demais, fugi deste mundo, desta cultura que estamos a viver – à qual fizeste referência – que é consumista e narcisista. E se algum dia quiserdes admirar-vos ao espelho, dou-vos um conselho: contemplai-vos ao espelho para vos rirdes de vós mesmos. Um dia fazei a prova: olhai e começai-vos a rir do que virdes nele, a vossa alma será refrescada. Saber rir-se de si próprio, isso dá alegria e salva-nos da tentação do narcisismo”.

Por terceiro, falou Mateus, um jovem recém-recuperado do vício das drogas, uma das grandes doenças – a drogadição é doença a ser tratada como problema de saúde pública – de nosso tempo a prejudicar a totalidade da pessoa humana: o físico e o espiritual de cada um(a) que envereda por esse descaminho sinuoso a parecer levar quem usa a droga a fugir de algo ou de si mesmo. Fuga que, evidentemente, não é o caminho. Para cada problema que temos, requer-se enfrentamento e solução, jamais a fuga. Daí, a resposta do Papa ao jovem: “A droga leva-nos a negar tudo o que temos arreigado, arreigamento carnal, arreigamentohistórico, arreigamento problemático, tudo o que estiver arreigado. Corta a tua raiz e faz-te viver num mundo sem raízes, desenraizado de tudo. Desarreigado de projetos, desarreigado do presente, desarreigado do teu passado, da tua história, desarreigado da tua pátria, da tua família, do teu amor, de tudo. Acabas por viver num mundo sem qualquer arreigamento e é esse o drama da droga. Jovens totalmente desarreigados, sem compromissos concretos, isto é, sem verdadeiros compromissos de carne, porque na droga nem sequer sentes o teu próprio corpo. E depois de teres passado por essa experiência de invisibilidade, e quando te tomas consciência, apercebeste-te de todos os arreigamentos que existem no coração. Eu pergunto a cada um de vós: estais conscientes dos verdadeiros arreigamentos que tendes no coração, estais conscientes das vossas raízes, estais conscientes dos vossos amores, estais conscientes dos vossos projetos, estais conscientes da vossa capacidade criativa, estais conscientes de que sois poetas neste universo para criar coisas novas e bonitas? Libertar-se da droga significa tomar consciência disto, é o testemunho de alguém que saiu dela, por isso coloca-nos perguntas que eu acabei de fazer”. 

Por fim, Francisco convida a uma reflexão sobre a verdadeira gratuidade da oferta de nossas vidas e do intercâmbio – como troca de experiências – entre os mais jovens e os idosos (os verdadeiramente idosos em tempo de vida). Fala, então, o Papa: “Se tu estás aqui, se nós estamos aqui, é porque gratuitamente nos trouxeram aqui. Por favor, demos de graça o que recebemos. Dar gratuitamente o que recebemos. E dar de graça enche-te a alma, descomercializa-te, torna-te magnânimo, ensina-te a abraçar e a beijar, faz-te sorrir, liberta-te de qualquer interesse egoísta. Dá de graça o que recebeste gratuitamente, eis o ensinamento que Ele nos está convidando a fazer”.

E mais: “Os jovens precisam de ouvir os idosos e os idosos precisam de ouvir os jovens [...] os idosos têm sabedoria, uma sabedoria que lhes chega ao coração e os estimula a ir em frente. Os idosos – para vós jovens – não devem ser guardados num roupeiro, não devem ser escondidos, os idosos esperam que um jovem vá e os ouça, os faça sonhar. E vós, jovens, precisais de receber destes homens e destas mulheres esses sonhos, essas ilusões que os façam reviver. [...] Fala com o teu avô e com a tua avó, isto é, uma geração mais velha, eles possuem a sabedoria, e eles muito mais, precisam que batas ao seu coração para te darem a sabedoria. E seria esta a recomendação que vos faço: animai-vos, animai-vos nesse diálogo, esse diálogo é promessa para o futuro, esse diálogo ajudar-vos-á a ir em frente”.

Nestes tempos de preparação para o Sínodo sobre a juventude, aprofundemos e aprendamos, pois, com essa importante Alocução do Santo Padre!

 

Cardeal Orani João Tempesta
Autor

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro