Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/11/2017

23 de Novembro de 2017

Livros do Antigo Testamento (23)

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23 de Novembro de 2017

Livros do Antigo Testamento (23)

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08/10/2017 00:00 - Atualizado em 02/11/2017 13:42

Livros do Antigo Testamento (23) 0

08/10/2017 00:00 - Atualizado em 02/11/2017 13:42

No fim da trajetória de Abraão, vale a pena fazer alusão aos cuidados dele com o futuro da descendência projetada por Deus, a saber, o casamento de Isaac. Gn 24, 1-67 contém a longa história do casamento de Isaac.

1. Gn 24, 1-9: Juramento do servo a Abraão

Inicialmente temos a intervenção de Abraão muito ancião e já viúvo. Ele encarrega seu administrador, sob curioso juramento, de encontrar noiva digna para seu único filho legítimo:

Para que eu te faça jurar pelo Senhor Deus dos céus e Deus da terra, que não tomarás para meu filho mulher das filhas dos cananeus, no meio dos quais eu habito (Gênesis 24,3).

Curiosamente Isaac, o herdeiro, não deverá se casar com as mulheres da terra prometida. Abraão proíbe a união conjugal entre aquele de sua casa e as filhas dos cananeus. O servo-administrador deve buscar, fora dali, mulher adequada para seu herdeiro. E isto se encontra nas terras pagãs de sua família, de onde partira há muitos anos.

Estando muito velho, Abraão obriga seu servo, por juramento solene[1], a fidelizar sua ação garantindo-lhe pleno êxito. Aqui se esconde outra virtude abraâmica. Ele custodia a verdade da Aliança divina sob sua responsabilidade, isto é, e a proibição de serem as mulheres locais as eleitas:

E disse Abraão ao seu servo, o mais velho da casa, que tinha o governo sobre tudo o que possuía: põe agora a tua mão debaixo da minha coxa. (Gn 24,2).

2. Gn 24, 10- 27: O servo de Abraão e a Donzela de Naor

Chama a atenção, nesta unidade, os cuidados do servo de Abraão em realizar sua missão, sob juramento, com as bênçãos e a orientação de Deus. Em ao menos dois versículos ele implora e agradece a Deus pelos êxitos:

E disse: ó Senhor, Deus de meu senhor Abraão, dá-me hoje bom encontro, e faz beneficência ao meu senhor Abraão! (Gn 24,12).

Uma prece pelo sucesso de sua missão, como resposta à fidelidade de Abraão ao seu Deus. E, no versículo 27, a prece se torna louvor pela escolha de Rebeca, sobrinha de Abraão:

E disse: bendito seja o Senhor Deus de meu senhor Abraão, que não retirou a sua benevolência e a sua verdade de meu senhor; quanto a mim, o Senhor me guiou no caminho à casa dos irmãos de meu senhor (Gn 24,27).

3. Rebeca, a nova matriarca do Povo de Deus:

O servo de Abraão estabelece sinais e critérios para que se reconheça moça digna do filho de seu Senhor, e eis que Raquel se enquadra em todos eles.

Seja, pois, que a donzela, a quem eu disser: abaixa agora o teu cântaro para que eu beba; e ela disser: bebe, e também darei de beber aos teus camelos; esta seja a quem designaste ao teu servo Isaac, e que eu conheça nisso que usaste de benevolência com meu senhor (Gn 24,14).

Depois que o servo, durante vários versículos, reconta a história do juramento (v. 37-40) e dos sinais divinos que indicaram a ele ser Rebeca a mulher escolhida por Deus a Isaac (v. 42-48), ele formula o pedido em nome de Abraão (48-51).

Agora, pois, se vós haveis de fazer benevolência e verdade a meu senhor, fazei-me saber; e se não, também fazei-me saber, para que eu vá à direita, ou à esquerda (Gn 24,49).

Dois gestos qualificam a nova esposa de Isaac: o reconhecimento de seu senhor, como marido, a quem deverá respeito e obediência esponsal, e a ocupação da tenda de sua sogra, já falecida. Ele se torna sucessora na saga dos patriarcas de Israel.

E disse ao servo: quem é aquele homem que vem pelo campo ao nosso encontro? E o servo disse: este é meu senhor. Então tomou ela o véu e cobriu-se (Gn 24, 65).

E por fim, ela ocupará a tenda de Sara:

E Isaac trouxe-a para a tenda de sua mãe Sara, e tomou a Rebeca, e foi-lhe por mulher, e amou-a. Assim Isaac foi consolado depois da morte de sua mãe (Gn 24,67).

E começa o ciclo de Isaac!


Referência:


[1] Claro está que, com o compromisso que assumira com os termos da Aliança, Abraão, já velho, e após a morte e sepultamento de Sara (Gn 23), se preocupa com quem seria a futura esposa de Isaac. Solucionou a dificuldade com uma de sua parentela (Gn 24,3-4), consciente da genealogia de Nakor (Gn 22,20-24), seu irmão. Apresenta o narrador a origem de Rebeca, futura esposa de Isaac, vinculando-a por sua vez à linhagem de Set (Gn 4,25) a progênie da História da Salvação, garantia de fidelidade a Iavé e à Aliança já em processo. É bom observar aqui que a única porção de terra que Abraão possuiu como sua, adquirindo-a e pagando por ela, foi o terreno onde sepultou sua mulher Sara (Gn 23). O relato da compra mostra o ritual então em uso, que se pode até mesmo denominar de escritura pública da compra, tal como diz o narrador que "foi assegurado a Abraão, por aquisição na presença dos heteus e de todos os que se achavam presentes na porta da cidade" (Gn 23,18). A porta da cidade representava, naqueles tempos, o que hoje representam os cartórios de registro de aquisição de propriedades, ou seja, a publicitação, que é o tornar de conhecimento público, geral, para não mais se revogar e reconhecendo-se então a tradição da propriedade. A principal preocupação de Abraão era a Aliança, como manifesta ao exigir sob juramento ("com a mão sob a coxa" Gn 24,2), para a escolha da noiva, que não fosse das "filhas dos cananeus, no meio dos quais habito, mas irás à minha terra natal e aos meus parentes e tomarás dali mulher para meu filho Isaac". E ainda, que "não tirasse seu filho da terra onde morava, que era a propriedade que Deus prometera a sua descendência" (Gn 24,3-9). A narrativa da conquista da noiva para Isaac deve ser lida, não com os critérios da cultura de hoje, mas dentro das perspectivas do aculturamento de então, num mundo ainda rude, selvagem e bárbaro, onde a sobrevivências se devia a detalhes hoje mínimos, sem valor algum, mas naqueles tempos de uma imposição até mesmo insuperável. Cf. http://www.mundocatolico.com.br/biblia/biblia02.htm.

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08/10/2017 00:00 - Atualizado em 02/11/2017 13:42

No fim da trajetória de Abraão, vale a pena fazer alusão aos cuidados dele com o futuro da descendência projetada por Deus, a saber, o casamento de Isaac. Gn 24, 1-67 contém a longa história do casamento de Isaac.

1. Gn 24, 1-9: Juramento do servo a Abraão

Inicialmente temos a intervenção de Abraão muito ancião e já viúvo. Ele encarrega seu administrador, sob curioso juramento, de encontrar noiva digna para seu único filho legítimo:

Para que eu te faça jurar pelo Senhor Deus dos céus e Deus da terra, que não tomarás para meu filho mulher das filhas dos cananeus, no meio dos quais eu habito (Gênesis 24,3).

Curiosamente Isaac, o herdeiro, não deverá se casar com as mulheres da terra prometida. Abraão proíbe a união conjugal entre aquele de sua casa e as filhas dos cananeus. O servo-administrador deve buscar, fora dali, mulher adequada para seu herdeiro. E isto se encontra nas terras pagãs de sua família, de onde partira há muitos anos.

Estando muito velho, Abraão obriga seu servo, por juramento solene[1], a fidelizar sua ação garantindo-lhe pleno êxito. Aqui se esconde outra virtude abraâmica. Ele custodia a verdade da Aliança divina sob sua responsabilidade, isto é, e a proibição de serem as mulheres locais as eleitas:

E disse Abraão ao seu servo, o mais velho da casa, que tinha o governo sobre tudo o que possuía: põe agora a tua mão debaixo da minha coxa. (Gn 24,2).

2. Gn 24, 10- 27: O servo de Abraão e a Donzela de Naor

Chama a atenção, nesta unidade, os cuidados do servo de Abraão em realizar sua missão, sob juramento, com as bênçãos e a orientação de Deus. Em ao menos dois versículos ele implora e agradece a Deus pelos êxitos:

E disse: ó Senhor, Deus de meu senhor Abraão, dá-me hoje bom encontro, e faz beneficência ao meu senhor Abraão! (Gn 24,12).

Uma prece pelo sucesso de sua missão, como resposta à fidelidade de Abraão ao seu Deus. E, no versículo 27, a prece se torna louvor pela escolha de Rebeca, sobrinha de Abraão:

E disse: bendito seja o Senhor Deus de meu senhor Abraão, que não retirou a sua benevolência e a sua verdade de meu senhor; quanto a mim, o Senhor me guiou no caminho à casa dos irmãos de meu senhor (Gn 24,27).

3. Rebeca, a nova matriarca do Povo de Deus:

O servo de Abraão estabelece sinais e critérios para que se reconheça moça digna do filho de seu Senhor, e eis que Raquel se enquadra em todos eles.

Seja, pois, que a donzela, a quem eu disser: abaixa agora o teu cântaro para que eu beba; e ela disser: bebe, e também darei de beber aos teus camelos; esta seja a quem designaste ao teu servo Isaac, e que eu conheça nisso que usaste de benevolência com meu senhor (Gn 24,14).

Depois que o servo, durante vários versículos, reconta a história do juramento (v. 37-40) e dos sinais divinos que indicaram a ele ser Rebeca a mulher escolhida por Deus a Isaac (v. 42-48), ele formula o pedido em nome de Abraão (48-51).

Agora, pois, se vós haveis de fazer benevolência e verdade a meu senhor, fazei-me saber; e se não, também fazei-me saber, para que eu vá à direita, ou à esquerda (Gn 24,49).

Dois gestos qualificam a nova esposa de Isaac: o reconhecimento de seu senhor, como marido, a quem deverá respeito e obediência esponsal, e a ocupação da tenda de sua sogra, já falecida. Ele se torna sucessora na saga dos patriarcas de Israel.

E disse ao servo: quem é aquele homem que vem pelo campo ao nosso encontro? E o servo disse: este é meu senhor. Então tomou ela o véu e cobriu-se (Gn 24, 65).

E por fim, ela ocupará a tenda de Sara:

E Isaac trouxe-a para a tenda de sua mãe Sara, e tomou a Rebeca, e foi-lhe por mulher, e amou-a. Assim Isaac foi consolado depois da morte de sua mãe (Gn 24,67).

E começa o ciclo de Isaac!


Referência:


[1] Claro está que, com o compromisso que assumira com os termos da Aliança, Abraão, já velho, e após a morte e sepultamento de Sara (Gn 23), se preocupa com quem seria a futura esposa de Isaac. Solucionou a dificuldade com uma de sua parentela (Gn 24,3-4), consciente da genealogia de Nakor (Gn 22,20-24), seu irmão. Apresenta o narrador a origem de Rebeca, futura esposa de Isaac, vinculando-a por sua vez à linhagem de Set (Gn 4,25) a progênie da História da Salvação, garantia de fidelidade a Iavé e à Aliança já em processo. É bom observar aqui que a única porção de terra que Abraão possuiu como sua, adquirindo-a e pagando por ela, foi o terreno onde sepultou sua mulher Sara (Gn 23). O relato da compra mostra o ritual então em uso, que se pode até mesmo denominar de escritura pública da compra, tal como diz o narrador que "foi assegurado a Abraão, por aquisição na presença dos heteus e de todos os que se achavam presentes na porta da cidade" (Gn 23,18). A porta da cidade representava, naqueles tempos, o que hoje representam os cartórios de registro de aquisição de propriedades, ou seja, a publicitação, que é o tornar de conhecimento público, geral, para não mais se revogar e reconhecendo-se então a tradição da propriedade. A principal preocupação de Abraão era a Aliança, como manifesta ao exigir sob juramento ("com a mão sob a coxa" Gn 24,2), para a escolha da noiva, que não fosse das "filhas dos cananeus, no meio dos quais habito, mas irás à minha terra natal e aos meus parentes e tomarás dali mulher para meu filho Isaac". E ainda, que "não tirasse seu filho da terra onde morava, que era a propriedade que Deus prometera a sua descendência" (Gn 24,3-9). A narrativa da conquista da noiva para Isaac deve ser lida, não com os critérios da cultura de hoje, mas dentro das perspectivas do aculturamento de então, num mundo ainda rude, selvagem e bárbaro, onde a sobrevivências se devia a detalhes hoje mínimos, sem valor algum, mas naqueles tempos de uma imposição até mesmo insuperável. Cf. http://www.mundocatolico.com.br/biblia/biblia02.htm.

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica