Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 19/10/2018

19 de Outubro de 2018

Livros do Antigo Testamento (22)

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19 de Outubro de 2018

Livros do Antigo Testamento (22)

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01/10/2017 00:00 - Atualizado em 02/11/2017 13:38

Livros do Antigo Testamento (22) 0

01/10/2017 00:00 - Atualizado em 02/11/2017 13:38

O último grande evento na história do patriarca Abraão é o sacrifício de seu filho único, Isaac. Neste evento-prova da parte de Deus, consagra-se definitivamente, não somente o personagem, mas as virtudes necessárias para o bom trato com Deus.

A narrativa se encontra em Gn 22,1-24. Impressiona o leitor perceber a serenidade e prontidão de Abraão em responder a Deus em sua exigência tão radical:

E disse: toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaac, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi (Gn 22,2).

Não se pode iniciar a leitura desta narrativa sem prestar atenção à informação do escritor sagrado: “E aconteceu depois destas coisas, que provou Deus a Abraão, e disse-lhe: Abraão! E ele disse: eis-me aqui” (Gn 22,1). Deus quis pôr Abraão à prova.

Trata-se de um tema recorrente nas Escrituras, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Deus elabora uma estratégia para verificar, reconhecer, expor, consolidar a verdadeira ação humana sincera e verdadeira diante dele. Não basta dizer sim, é preciso corroborar com a coragem da confiança e do temor íntegros!

Pois tu, ó Deus, nos provaste; tu nos afinaste como se afina a prata (Sl 66, 10).

Disse eu no meu coração, quanto à condição dos filhos dos homens, que Deus os provaria, para que assim pudessem ver que são, em si mesmos, como os animais (Ecl 3,18).

E disse Moisés ao povo: não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis. (Ex 20,20).

E farei passar esta terceira parte pelo fogo, e a purificarei, como se purifica a prata, e a provarei, como se prova o ouro. Ela invocará o meu nome, e eu a ouvirei; direi: é meu povo; e ela dirá: o Senhor é o meu Deus. (Zc 13,9).

Por fim, o próprio Filho submete-se no nosso lugar às provas de Deus:

Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu (Hb 5,8).

Não há contestação na pronta resposta de Abraão. Ele, como S. José1, no NT, coloca-se em ação para cumprir o que Deus ordenou.

Um romancista teria, no entanto, o direito de traçar linhas sobre um romance interessante: “oh angústias do coração paterno de Abraão diante do sacrifício de Isaac”. Quanta angústia e dor. Sacrificar “o teu único filho, Isaac, a quem amas”.

Não se trata de uma criatura qualquer. Não é uma besta do rebanho ou o filho da escrava Agar. Mas seu filho único, dele e de Sara, a matriarca. Perguntar-se-ia o romancista: será que ele revelou o destino do menino a sua mãe? Quanto lhe custou gesto tão pronto?

Mas tudo isso é a justa pena do romance e da imaginação, não é a pena do hagiógrafo, que ensina as gerações de Israel com as lições do passado. Podemos haurir dois ensinamentos desta narração: o primeiro, que não quer sacrifícios humanos.

Com a saga de Abraão tem-se um modelo para orientar o Povo de Deus sobre as circunstâncias corretas dos sacrifícios a Deus: seres humanos jamais! O contexto religioso de Israel parece indicar que estas circunstâncias ocorriam nas concepções religiosas pagãs. Qual deveria ser o comportamento do Povo de Deus?

Temos um paralelo dramático na vida do juiz Jefté (Jz 11, 30-40). O sacrifício de sua filha única, que contrariamente àquele de Isaac, irá ocorrer2. Ele, contando que seu servo mais fiel fosse ao seu encontro à sua chegada, verá, no entanto, sua filha, que festosa espera seu pai à porta da casa.

Aqui também parece ocorrer, com mais tragédia e dor, a cunha do ensinamento divino: não prometas a vida humana a Deus, pois esta já a Ele pertence!

Voltemos a Isaac. Parece que ele é ovelha inocente. Não desconfia do propósito do pai, Abraão.

Então falou Isaac a Abraão seu pai, e disse: meu pai! E ele disse: eis-me aqui, meu filho! E ele disse: eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? (Gn 22,7).

Isaac deve buscar em Abraão a resposta a uma questão tão urgente. Quem seria o sacrifício digno à gloria de Deus? A resposta de Abraão entrará definitivamente na história de espiritualidade cristã, uma pérola da Revelação:

E disse Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. Assim caminharam ambos juntos (Gn 22,8).

A Igreja antiga entendeu esta inspirada resposta de Abraão a partir da Revelação do Cristo: somente Ele poderia ser aquele cordeiro que Deus preparou para o único sacrifício agradável e santo.

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3, 16).

O texto se conclui com a revelação feliz da parte de Deus, de que Abraão sobrepujou a prova:

Então disse: Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho (Gênesis 22:12).

Os valores básicos da fé e da aliança estavam bem alicerçados através da história e dos gestos abraâmicos. A Deus, a plena obediência é sinal da fidelidade à aliança.

Referências: 

1  E José, despertando do sono, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu a sua mulher (Mt 1,24).

2 E sucedeu que, ao fim de dois meses, tornou ela para seu pai, o qual cumpriu nela o seu voto que tinha feito (Jz 11,39).

 

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Livros do Antigo Testamento (22)

01/10/2017 00:00 - Atualizado em 02/11/2017 13:38

O último grande evento na história do patriarca Abraão é o sacrifício de seu filho único, Isaac. Neste evento-prova da parte de Deus, consagra-se definitivamente, não somente o personagem, mas as virtudes necessárias para o bom trato com Deus.

A narrativa se encontra em Gn 22,1-24. Impressiona o leitor perceber a serenidade e prontidão de Abraão em responder a Deus em sua exigência tão radical:

E disse: toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaac, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi (Gn 22,2).

Não se pode iniciar a leitura desta narrativa sem prestar atenção à informação do escritor sagrado: “E aconteceu depois destas coisas, que provou Deus a Abraão, e disse-lhe: Abraão! E ele disse: eis-me aqui” (Gn 22,1). Deus quis pôr Abraão à prova.

Trata-se de um tema recorrente nas Escrituras, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Deus elabora uma estratégia para verificar, reconhecer, expor, consolidar a verdadeira ação humana sincera e verdadeira diante dele. Não basta dizer sim, é preciso corroborar com a coragem da confiança e do temor íntegros!

Pois tu, ó Deus, nos provaste; tu nos afinaste como se afina a prata (Sl 66, 10).

Disse eu no meu coração, quanto à condição dos filhos dos homens, que Deus os provaria, para que assim pudessem ver que são, em si mesmos, como os animais (Ecl 3,18).

E disse Moisés ao povo: não temais, Deus veio para vos provar, e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis. (Ex 20,20).

E farei passar esta terceira parte pelo fogo, e a purificarei, como se purifica a prata, e a provarei, como se prova o ouro. Ela invocará o meu nome, e eu a ouvirei; direi: é meu povo; e ela dirá: o Senhor é o meu Deus. (Zc 13,9).

Por fim, o próprio Filho submete-se no nosso lugar às provas de Deus:

Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu (Hb 5,8).

Não há contestação na pronta resposta de Abraão. Ele, como S. José1, no NT, coloca-se em ação para cumprir o que Deus ordenou.

Um romancista teria, no entanto, o direito de traçar linhas sobre um romance interessante: “oh angústias do coração paterno de Abraão diante do sacrifício de Isaac”. Quanta angústia e dor. Sacrificar “o teu único filho, Isaac, a quem amas”.

Não se trata de uma criatura qualquer. Não é uma besta do rebanho ou o filho da escrava Agar. Mas seu filho único, dele e de Sara, a matriarca. Perguntar-se-ia o romancista: será que ele revelou o destino do menino a sua mãe? Quanto lhe custou gesto tão pronto?

Mas tudo isso é a justa pena do romance e da imaginação, não é a pena do hagiógrafo, que ensina as gerações de Israel com as lições do passado. Podemos haurir dois ensinamentos desta narração: o primeiro, que não quer sacrifícios humanos.

Com a saga de Abraão tem-se um modelo para orientar o Povo de Deus sobre as circunstâncias corretas dos sacrifícios a Deus: seres humanos jamais! O contexto religioso de Israel parece indicar que estas circunstâncias ocorriam nas concepções religiosas pagãs. Qual deveria ser o comportamento do Povo de Deus?

Temos um paralelo dramático na vida do juiz Jefté (Jz 11, 30-40). O sacrifício de sua filha única, que contrariamente àquele de Isaac, irá ocorrer2. Ele, contando que seu servo mais fiel fosse ao seu encontro à sua chegada, verá, no entanto, sua filha, que festosa espera seu pai à porta da casa.

Aqui também parece ocorrer, com mais tragédia e dor, a cunha do ensinamento divino: não prometas a vida humana a Deus, pois esta já a Ele pertence!

Voltemos a Isaac. Parece que ele é ovelha inocente. Não desconfia do propósito do pai, Abraão.

Então falou Isaac a Abraão seu pai, e disse: meu pai! E ele disse: eis-me aqui, meu filho! E ele disse: eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para o holocausto? (Gn 22,7).

Isaac deve buscar em Abraão a resposta a uma questão tão urgente. Quem seria o sacrifício digno à gloria de Deus? A resposta de Abraão entrará definitivamente na história de espiritualidade cristã, uma pérola da Revelação:

E disse Abraão: Deus proverá para si o cordeiro para o holocausto, meu filho. Assim caminharam ambos juntos (Gn 22,8).

A Igreja antiga entendeu esta inspirada resposta de Abraão a partir da Revelação do Cristo: somente Ele poderia ser aquele cordeiro que Deus preparou para o único sacrifício agradável e santo.

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3, 16).

O texto se conclui com a revelação feliz da parte de Deus, de que Abraão sobrepujou a prova:

Então disse: Não estendas a tua mão sobre o moço, e não lhe faças nada; porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único filho (Gênesis 22:12).

Os valores básicos da fé e da aliança estavam bem alicerçados através da história e dos gestos abraâmicos. A Deus, a plena obediência é sinal da fidelidade à aliança.

Referências: 

1  E José, despertando do sono, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu a sua mulher (Mt 1,24).

2 E sucedeu que, ao fim de dois meses, tornou ela para seu pai, o qual cumpriu nela o seu voto que tinha feito (Jz 11,39).

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica