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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 15/12/2018

15 de Dezembro de 2018

Livros do Antigo Testamento (20)

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15 de Dezembro de 2018

Livros do Antigo Testamento (20)

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17/09/2017 00:00 - Atualizado em 02/11/2017 11:51

Livros do Antigo Testamento (20) 0

17/09/2017 00:00 - Atualizado em 02/11/2017 11:51

A saga abraâmica atinge seu auge com a promessa realizada do nascimento de Isaac (Gn 18). Filho da Fé e da confiança de Abraão em Deus, que é fiel e cumpre sua Palavra no pacto da Aliança: “Farei de ti um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome...” (Gn 12,2).

Este capítulo traz dois temas diversos à baila: de um lado, a visita de Deus à tenda de Abraão na figura misteriosa dos três homens (anjos?), e de outro, a questão da destruição de Sodoma e Gomorra, com a figura do intercessor em Abraão, por causa de Lot e sua família, que lá habitam.

1. A visita de Deus e a concepção de Isaac (Gn 18, 1-15)

Entre os vv. 9-15 encontramos o trecho que trata do futuro nascimento de Isaac:

Então disse o Senhor: “Voltarei a você na primavera, e Sara, sua mulher, terá um filho”. Sara escutava à entrada da tenda, atrás dele (Gênesis 18, 10).

A narração envolve, primeiramente, a hospitalidade abraâmica (v. 1-8), com uma série de ações de cuidado (sombra, alimentação sadia e acolhida):

“Mandarei buscar um pouco d’água para que lavem os pés e descansem debaixo desta árvore. Vou trazer-lhes também o que comer, para que recobrem forças e prossigam pelo caminho, agora que já chegaram até este seu servo”. “Está bem; faça como está dizendo”, responderam. Abraão foi apressadamente à tenda e disse a Sara: “Depressa, pegue três medidas da melhor farinha, amasse-a e faça uns pães”. Depois correu ao rebanho e escolheu o melhor novilho, e o deu a um servo, que se apressou em prepará-lo. Trouxe então coalhada, leite e o novilho que havia sido preparado, e os serviu. Enquanto comiam, ele ficou perto deles em pé, debaixo da árvore (Gênesis 18, 4-8)

E conclui-se com o famoso diálogo de Abraão com Deus sobre o destino das cidades pecadoras e a presença de Lot (Justo).

Na cena dos vv. 1-15, como já dissemos temos duas subcenas (vv.1-8 e vv. 9-15) que parecem entrecruzar-se. A acolhida tão especial aos homens que passavam diante da Tenda de Abraão e a promessa da prole de Abraão e Sara, já que Ismael é filho da escrava.

Chama a atenção o efeito literário de ver Abraão conversar com os três homens como se fossem um só. Situação sugestiva para a exegese dos padres da Igreja, na aurora da Igreja, que dentro da ótica cristã e neotestamentária da Bíblia, obviamente aí virão a presença do Mistério Trinitário.

Na primeira cena, a chegada e a hospitalidade abraâmicas teriam efeitos sobre a segunda? Se Abraão tivesse ignorado a passagem destes homens, teria recebido os anúncios do nascimento de seu Filho Isaac e da destruição de Sodoma e Gomorra?

Não sabemos, mas podemos estabelecer ao menos um ensinamento espiritual desta cena: acolher a Deus traz-nos boas novas, coloca-nos em contato com a exposição da Vontade Divina.

Mas a cena não é nada ‘piegas’, pois se no capítulo anterior, 17, 17, fora Abraão a rir-se de Deus: “Abraão prostrou-se, rosto em terra; riu-se e disse a si mesmo: Poderá um homem de 100 anos de idade gerar filhos? Poderá Sara dar à luz aos 90 anos?”. Agora é a vez de Sara, fazê-lo:

Abraão e Sara já eram velhos, de idade bem avançada, e Sara já tinha passado da idade de ter filhos. Por isso riu consigo mesma, quando pensou: “Depois de já estar velha e meu senhor já idoso, ainda terei esse prazer?”. Mas o Senhor disse a Abraão: “Por que Sara riu e disse: ‘Poderei realmente dar à luz, agora que sou idosa?’”  (Gênesis 18,11-13).

Rir-se das ‘improporcionais’ promessas de Deus aos nossos pobres olhos. No resgate do pecado, é preciso entrar na escola da confiança indiscutível em Deus.

Nas risadas dos patriarcas, Abraão e Sara, se exprime bem uma verdade, sem o Dom da Fé; tudo pode parecer absurdo e risível nos trajetos da história da Salvação do passado e do presente.

Apesar de conter muitos elementos históricos, o Génesis é uma obra essencialmente teológica que procurava responder aos problemas angustiantes colocados pelo acontecimento do Exílio (séc. VI): no meio das trevas, Deus é a luz do seu povo; no desespero do cativeiro, Deus renovará a Aliança feita depois da saída do Egito.

Por detrás das “histórias” contadas pelos seus autores, o Génesis contém os grandes temas teológicos, não somente do Pentateuco, mas da Bíblia em geral: a Aliança de Deus com a Humanidade, o pecado do homem, a nova promessa de Aliança, a promessa da Terra Prometida, a bênção de Deus garantindo a perenidade do povo, o monoteísmo javista.

O Génesis não foi redigido para escrever História, mas para dizer que Deus domina a História. Por isso, é essencialmente um livro de catequese e de teologia, mesmo nos 11 primeiros capítulos, em que não há preocupação histórica ou científica, no sentido atual1.

Todos os grandes temas teológicos do Gênesis foram relidos pelos cristãos à luz do autor da nova criação, Jesus Cristo (Jo 1,1-3). Os grandes personagens do Gênesis – Adão, Eva, Noé, Abraão e os outros patriarcas – aparecem frequentemente ao longo do Novo Testamento para lembrar aos crentes que há uma só História da Salvação.

Por isso, o Apocalipse – o último livro da Bíblia – não se compreende sem o primeiro.

Referência:

1 Por isso, a Pontifícia Comissão Bíblica, já em 16 de Janeiro de 1948, dizia, a este respeito: “Estas formas literárias não correspondem a nenhuma das nossas categorias clássicas e não podem ser julgadas à luz dos géneros literários greco-latinos e modernos.”

 

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Livros do Antigo Testamento (20)

17/09/2017 00:00 - Atualizado em 02/11/2017 11:51

A saga abraâmica atinge seu auge com a promessa realizada do nascimento de Isaac (Gn 18). Filho da Fé e da confiança de Abraão em Deus, que é fiel e cumpre sua Palavra no pacto da Aliança: “Farei de ti um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome...” (Gn 12,2).

Este capítulo traz dois temas diversos à baila: de um lado, a visita de Deus à tenda de Abraão na figura misteriosa dos três homens (anjos?), e de outro, a questão da destruição de Sodoma e Gomorra, com a figura do intercessor em Abraão, por causa de Lot e sua família, que lá habitam.

1. A visita de Deus e a concepção de Isaac (Gn 18, 1-15)

Entre os vv. 9-15 encontramos o trecho que trata do futuro nascimento de Isaac:

Então disse o Senhor: “Voltarei a você na primavera, e Sara, sua mulher, terá um filho”. Sara escutava à entrada da tenda, atrás dele (Gênesis 18, 10).

A narração envolve, primeiramente, a hospitalidade abraâmica (v. 1-8), com uma série de ações de cuidado (sombra, alimentação sadia e acolhida):

“Mandarei buscar um pouco d’água para que lavem os pés e descansem debaixo desta árvore. Vou trazer-lhes também o que comer, para que recobrem forças e prossigam pelo caminho, agora que já chegaram até este seu servo”. “Está bem; faça como está dizendo”, responderam. Abraão foi apressadamente à tenda e disse a Sara: “Depressa, pegue três medidas da melhor farinha, amasse-a e faça uns pães”. Depois correu ao rebanho e escolheu o melhor novilho, e o deu a um servo, que se apressou em prepará-lo. Trouxe então coalhada, leite e o novilho que havia sido preparado, e os serviu. Enquanto comiam, ele ficou perto deles em pé, debaixo da árvore (Gênesis 18, 4-8)

E conclui-se com o famoso diálogo de Abraão com Deus sobre o destino das cidades pecadoras e a presença de Lot (Justo).

Na cena dos vv. 1-15, como já dissemos temos duas subcenas (vv.1-8 e vv. 9-15) que parecem entrecruzar-se. A acolhida tão especial aos homens que passavam diante da Tenda de Abraão e a promessa da prole de Abraão e Sara, já que Ismael é filho da escrava.

Chama a atenção o efeito literário de ver Abraão conversar com os três homens como se fossem um só. Situação sugestiva para a exegese dos padres da Igreja, na aurora da Igreja, que dentro da ótica cristã e neotestamentária da Bíblia, obviamente aí virão a presença do Mistério Trinitário.

Na primeira cena, a chegada e a hospitalidade abraâmicas teriam efeitos sobre a segunda? Se Abraão tivesse ignorado a passagem destes homens, teria recebido os anúncios do nascimento de seu Filho Isaac e da destruição de Sodoma e Gomorra?

Não sabemos, mas podemos estabelecer ao menos um ensinamento espiritual desta cena: acolher a Deus traz-nos boas novas, coloca-nos em contato com a exposição da Vontade Divina.

Mas a cena não é nada ‘piegas’, pois se no capítulo anterior, 17, 17, fora Abraão a rir-se de Deus: “Abraão prostrou-se, rosto em terra; riu-se e disse a si mesmo: Poderá um homem de 100 anos de idade gerar filhos? Poderá Sara dar à luz aos 90 anos?”. Agora é a vez de Sara, fazê-lo:

Abraão e Sara já eram velhos, de idade bem avançada, e Sara já tinha passado da idade de ter filhos. Por isso riu consigo mesma, quando pensou: “Depois de já estar velha e meu senhor já idoso, ainda terei esse prazer?”. Mas o Senhor disse a Abraão: “Por que Sara riu e disse: ‘Poderei realmente dar à luz, agora que sou idosa?’”  (Gênesis 18,11-13).

Rir-se das ‘improporcionais’ promessas de Deus aos nossos pobres olhos. No resgate do pecado, é preciso entrar na escola da confiança indiscutível em Deus.

Nas risadas dos patriarcas, Abraão e Sara, se exprime bem uma verdade, sem o Dom da Fé; tudo pode parecer absurdo e risível nos trajetos da história da Salvação do passado e do presente.

Apesar de conter muitos elementos históricos, o Génesis é uma obra essencialmente teológica que procurava responder aos problemas angustiantes colocados pelo acontecimento do Exílio (séc. VI): no meio das trevas, Deus é a luz do seu povo; no desespero do cativeiro, Deus renovará a Aliança feita depois da saída do Egito.

Por detrás das “histórias” contadas pelos seus autores, o Génesis contém os grandes temas teológicos, não somente do Pentateuco, mas da Bíblia em geral: a Aliança de Deus com a Humanidade, o pecado do homem, a nova promessa de Aliança, a promessa da Terra Prometida, a bênção de Deus garantindo a perenidade do povo, o monoteísmo javista.

O Génesis não foi redigido para escrever História, mas para dizer que Deus domina a História. Por isso, é essencialmente um livro de catequese e de teologia, mesmo nos 11 primeiros capítulos, em que não há preocupação histórica ou científica, no sentido atual1.

Todos os grandes temas teológicos do Gênesis foram relidos pelos cristãos à luz do autor da nova criação, Jesus Cristo (Jo 1,1-3). Os grandes personagens do Gênesis – Adão, Eva, Noé, Abraão e os outros patriarcas – aparecem frequentemente ao longo do Novo Testamento para lembrar aos crentes que há uma só História da Salvação.

Por isso, o Apocalipse – o último livro da Bíblia – não se compreende sem o primeiro.

Referência:

1 Por isso, a Pontifícia Comissão Bíblica, já em 16 de Janeiro de 1948, dizia, a este respeito: “Estas formas literárias não correspondem a nenhuma das nossas categorias clássicas e não podem ser julgadas à luz dos géneros literários greco-latinos e modernos.”

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica