Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 15/12/2018

15 de Dezembro de 2018

Livros do Antigo Testamento (25)

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15 de Dezembro de 2018

Livros do Antigo Testamento (25)

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20/10/2017 13:27 - Atualizado em 20/10/2017 13:27

Livros do Antigo Testamento (25) 0

20/10/2017 13:27 - Atualizado em 20/10/2017 13:27

Neste artigo seguimos de perto a saga de Isaac. O segundo patriarca com seus dois filhos e a reviravolta da ‘lei natural’, o direito de primogenitura e a escolha de Jacó.

1) Gn 26:

As narrativas que lemos no período de Isaac têm profundas semelhanças com aquelas de seu Pai, Abraão. Encontramos, como em Abraão, o disfarce da mulher em irmã em terra estrangeira (26, 9-11//12, 11-20). Os efeitos materiais da bênção da Aliança, o enriquecimento (26, 13-14// 13,1-3). A esterilidade das esposas (25,21//16,1-2).

Qual teria sido o escopo? Teria sido simplesmente incompetência literária?

É evidente que o objetivo é assegurar ao povo de Israel e aos leitores de todas as gerações vindouras a certeza que a dinastia dos patriarcas tinha um fio condutor, a Presença de Deus, Fiel, em meio às fraquezas, mentiras e limitações humanas destes ‘herois’ fundadores do judaísmo. As estórias de Isaac permanecem em plena sintonia com a lógica narrativa e teológica de seu Pai, Abraão.

2) Gn 27,1-46: A primogenitura ‘roubada’ de Esaú!

Um longo relato nos mostra a dramática substituição da bênção patriarcal, pertencente originariamente a Esaú.

E aconteceu que, como Isaque envelheceu, e os seus olhos se escureceram, de maneira que não podia ver, chamou a Esaú, seu filho mais velho, e disse-lhe: Meu filho. E ele lhe disse: Eis-me aqui. E ele disse: Eis que agora já estou velho, e não sei o dia da minha morte; Agora, pois, toma as tuas armas, a tua aljava e o teu arco, e sai ao campo, e apanha para mim alguma caça. E faze-me um guisado saboroso, como eu gosto, e traze-mo, para que eu coma; para que minha alma te abençoe, antes que morra (Gn 27,1-4).

Pela ‘lei natural’ cabia ao primogênito os direitos da bênção paterna e os privilégios e responsabilidade do clã patriarcal de Israel: ‘para que minha alma te abençoe, antes que morra’.

Tratava-se de um ato religioso e jurídico de relevância estratégica na vida e no funcionamento do ordenamento social antigo, como também de Israel:

No Oriente, o primogênito, ou o filho mais velho, gozava de certos privilégios em relação aos outros filhos. Dava-se isto de um modo especial entre os hebreus. O primogênito era consagrado ao Senhor (Êx 22.29). Pertencia-lhe a excelência da dignidade e a excelência do poder (Gn 49.3). Quando morria o pai, recebia ele porção dobrada na distribuição dos bens de família (Dt 21.17) - e nas famílias reais era ele quem sucedia no trono (2 Cr 21.3). O direito de primogenitura e os privilégios que lhe eram inerentes poderiam ser retirados por inconveniente conduta do primogênito, como no exemplo dos filhos de Isaque, sendo transferidos os direitos dessa situação (Gn 27.37). Davi, por direção divina, excluiu do trono a Adonias para favorecer Salomão, sendo marcada a preferência pelo ato da unção. O filho mais velho era muito respeitado na família, e à medida que a família ia crescendo, ia ele pouco a pouco obtendo mais autoridade, vindo por esse fato a ser o maioral - ‘cabeça da casa de seu pai’ (Nm 7.2, e 21.18, 25.14). A ‘dobrada porção’ da herança da família, que cabia ao filho mais velho pela Lei de Moisés, explica o ter pedido Eliseu porção dobrada do espírito de Elias (2 Rs 2.9). Nas primitivas genealogias das Escrituras, o primogênito de uma linha é muitas vezes mencionado (Gn 22.21 e 25.13) de um modo particular. Também uma especial santidade se achava ligada no judaísmo ao título de primogênito, e é neste sentido que, segundo parece, é aplicado ao Messias (Rm 8.29 - Cl 1.18 - Hb 1.6 - Ap 1.5) - e como co-herdeiros dele reclamam os remidos a sua herança (Lc 22.29 - Rm 8.17 - Cl 3.24)1.

Rebeca, a matriarca intervém, após ter ouvido a orientação precisa de Isaac: o guisado de caça e a bênção, ela então irá tramar contra esta ordem natural, criando uma cilada que desviará a bênção para o filho mais novo (mesmo sendo gêmeos), Jacó. Os vv. 5-17 constituem a preparação da trama de engano do Patriarca quase cego!

Rebeca prepara uma ‘ficção’ do primogênito Esaú: comida semelhante, corporeidade, gestualidade, uma ‘santa farsa’. Mas, por que tudo isso não parece errado aos olhos de Rebeca?

Recordemos que anteriormente, dois eventos obscurecem os direitos ‘naturais’ de Esaú: a venda leviana de sua primogenitura por um prato de lentilha (Gn 26, 29-33). Neste texto, o autor expressa um grave juízo de valor contra Esaú: ‘E Jacó deu pão a Esaú e o guisado de lentilhas; e ele comeu, bebeu, levantou-se e saiu. Assim desprezou Esaú a sua primogenitura.’ Ele ‘desprezara’ sua condição de primogênito!

Depois, ele casa-se com mulheres pagãs, hititas: ‘Ora, sendo Esaú da idade de quarenta anos, tomou por mulher a Judite, filha de Beeri, heteu, e a Basemate, filha de Elom, heteu (Gn 26, 34)’. E isto desgostara seus Pais, por isso, Rebeca o repete, quase se justificando ao por os irmãos em contraste mortal:

E disse Rebeca a Isaque: Enfadada estou da minha vida, por causa das filhas de Hete; se Jacó tomar mulher das filhas de Hete, como estas são, das filhas desta terra, para que me servirá a vida? (Gn 27,46).

E, assim, Jacó, irá buscar refúgio e encontrará dinastia na casa de seus parentes, e não, em meio aos pagãos, como seu irmão, Esaú. Será na Casa de Labão, o tio materno, que ele encontrará (também com engano do sogro) o casamento com suas primas: Lia e Raquel:

Agora, pois, meu filho, ouve a minha voz, e levanta-te; acolhe-te a Labão meu irmão, em Harã, E mora com ele alguns dias, até que passe o furor de teu irmão (Gn 27, 43-44).

Referência:

1 http://www.bibliaonline.net/dicionario/?acao=pesquisar&procurar=direito%20de%20primogenitura&exata=on&link=bol&lang=pt-BR

 

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Livros do Antigo Testamento (25)

20/10/2017 13:27 - Atualizado em 20/10/2017 13:27

Neste artigo seguimos de perto a saga de Isaac. O segundo patriarca com seus dois filhos e a reviravolta da ‘lei natural’, o direito de primogenitura e a escolha de Jacó.

1) Gn 26:

As narrativas que lemos no período de Isaac têm profundas semelhanças com aquelas de seu Pai, Abraão. Encontramos, como em Abraão, o disfarce da mulher em irmã em terra estrangeira (26, 9-11//12, 11-20). Os efeitos materiais da bênção da Aliança, o enriquecimento (26, 13-14// 13,1-3). A esterilidade das esposas (25,21//16,1-2).

Qual teria sido o escopo? Teria sido simplesmente incompetência literária?

É evidente que o objetivo é assegurar ao povo de Israel e aos leitores de todas as gerações vindouras a certeza que a dinastia dos patriarcas tinha um fio condutor, a Presença de Deus, Fiel, em meio às fraquezas, mentiras e limitações humanas destes ‘herois’ fundadores do judaísmo. As estórias de Isaac permanecem em plena sintonia com a lógica narrativa e teológica de seu Pai, Abraão.

2) Gn 27,1-46: A primogenitura ‘roubada’ de Esaú!

Um longo relato nos mostra a dramática substituição da bênção patriarcal, pertencente originariamente a Esaú.

E aconteceu que, como Isaque envelheceu, e os seus olhos se escureceram, de maneira que não podia ver, chamou a Esaú, seu filho mais velho, e disse-lhe: Meu filho. E ele lhe disse: Eis-me aqui. E ele disse: Eis que agora já estou velho, e não sei o dia da minha morte; Agora, pois, toma as tuas armas, a tua aljava e o teu arco, e sai ao campo, e apanha para mim alguma caça. E faze-me um guisado saboroso, como eu gosto, e traze-mo, para que eu coma; para que minha alma te abençoe, antes que morra (Gn 27,1-4).

Pela ‘lei natural’ cabia ao primogênito os direitos da bênção paterna e os privilégios e responsabilidade do clã patriarcal de Israel: ‘para que minha alma te abençoe, antes que morra’.

Tratava-se de um ato religioso e jurídico de relevância estratégica na vida e no funcionamento do ordenamento social antigo, como também de Israel:

No Oriente, o primogênito, ou o filho mais velho, gozava de certos privilégios em relação aos outros filhos. Dava-se isto de um modo especial entre os hebreus. O primogênito era consagrado ao Senhor (Êx 22.29). Pertencia-lhe a excelência da dignidade e a excelência do poder (Gn 49.3). Quando morria o pai, recebia ele porção dobrada na distribuição dos bens de família (Dt 21.17) - e nas famílias reais era ele quem sucedia no trono (2 Cr 21.3). O direito de primogenitura e os privilégios que lhe eram inerentes poderiam ser retirados por inconveniente conduta do primogênito, como no exemplo dos filhos de Isaque, sendo transferidos os direitos dessa situação (Gn 27.37). Davi, por direção divina, excluiu do trono a Adonias para favorecer Salomão, sendo marcada a preferência pelo ato da unção. O filho mais velho era muito respeitado na família, e à medida que a família ia crescendo, ia ele pouco a pouco obtendo mais autoridade, vindo por esse fato a ser o maioral - ‘cabeça da casa de seu pai’ (Nm 7.2, e 21.18, 25.14). A ‘dobrada porção’ da herança da família, que cabia ao filho mais velho pela Lei de Moisés, explica o ter pedido Eliseu porção dobrada do espírito de Elias (2 Rs 2.9). Nas primitivas genealogias das Escrituras, o primogênito de uma linha é muitas vezes mencionado (Gn 22.21 e 25.13) de um modo particular. Também uma especial santidade se achava ligada no judaísmo ao título de primogênito, e é neste sentido que, segundo parece, é aplicado ao Messias (Rm 8.29 - Cl 1.18 - Hb 1.6 - Ap 1.5) - e como co-herdeiros dele reclamam os remidos a sua herança (Lc 22.29 - Rm 8.17 - Cl 3.24)1.

Rebeca, a matriarca intervém, após ter ouvido a orientação precisa de Isaac: o guisado de caça e a bênção, ela então irá tramar contra esta ordem natural, criando uma cilada que desviará a bênção para o filho mais novo (mesmo sendo gêmeos), Jacó. Os vv. 5-17 constituem a preparação da trama de engano do Patriarca quase cego!

Rebeca prepara uma ‘ficção’ do primogênito Esaú: comida semelhante, corporeidade, gestualidade, uma ‘santa farsa’. Mas, por que tudo isso não parece errado aos olhos de Rebeca?

Recordemos que anteriormente, dois eventos obscurecem os direitos ‘naturais’ de Esaú: a venda leviana de sua primogenitura por um prato de lentilha (Gn 26, 29-33). Neste texto, o autor expressa um grave juízo de valor contra Esaú: ‘E Jacó deu pão a Esaú e o guisado de lentilhas; e ele comeu, bebeu, levantou-se e saiu. Assim desprezou Esaú a sua primogenitura.’ Ele ‘desprezara’ sua condição de primogênito!

Depois, ele casa-se com mulheres pagãs, hititas: ‘Ora, sendo Esaú da idade de quarenta anos, tomou por mulher a Judite, filha de Beeri, heteu, e a Basemate, filha de Elom, heteu (Gn 26, 34)’. E isto desgostara seus Pais, por isso, Rebeca o repete, quase se justificando ao por os irmãos em contraste mortal:

E disse Rebeca a Isaque: Enfadada estou da minha vida, por causa das filhas de Hete; se Jacó tomar mulher das filhas de Hete, como estas são, das filhas desta terra, para que me servirá a vida? (Gn 27,46).

E, assim, Jacó, irá buscar refúgio e encontrará dinastia na casa de seus parentes, e não, em meio aos pagãos, como seu irmão, Esaú. Será na Casa de Labão, o tio materno, que ele encontrará (também com engano do sogro) o casamento com suas primas: Lia e Raquel:

Agora, pois, meu filho, ouve a minha voz, e levanta-te; acolhe-te a Labão meu irmão, em Harã, E mora com ele alguns dias, até que passe o furor de teu irmão (Gn 27, 43-44).

Referência:

1 http://www.bibliaonline.net/dicionario/?acao=pesquisar&procurar=direito%20de%20primogenitura&exata=on&link=bol&lang=pt-BR

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica