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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 14/12/2017

14 de Dezembro de 2017

Livros do Antigo Testamento (18)

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14 de Dezembro de 2017

Livros do Antigo Testamento (18)

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01/09/2017 15:12 - Atualizado em 01/09/2017 15:13

Livros do Antigo Testamento (18) 0

01/09/2017 15:12 - Atualizado em 01/09/2017 15:13

Avançamos pela longa e edificante história de Abraão, pai da fé. Sua trajetória envolve sempre uma lição essencial: apesar de nossas fragilidades, pela fé, lidamos com Deus, e sua graça nos envolve numa história de diálogos, alianças e socorro da parte de Deus. Com a vida de Abraão se aprende a viver na companhia de Deus através da obediência, da oração (culto) e da confiança.

Ora Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos, e ele tinha uma serva egípcia, cujo nome era Agar (Gênesis 16,1)

Um drama que descreve uma lição para a Tenda de Abraão.

À esterilidade, Sara contrapõe sua ansiedade e toma uma decisão equivocada. A decisão de seguir um arriscado método de fecundação:

E disse Sarai a Abrão: Eis que o Senhor me tem impedido de dar à luz; toma, pois, a minha serva; porventura terei filhos dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai (Gênesis 16,2).

Muitos equívocos que refletem ‘crendices’, isto é, produtos da ‘fé humana’, aquilo que pensamos ou atribuímos a Deus: “o Senhor me tem impedido de dar à luz”. Deus autor do mal? A vida humana que, neste contexto, traveste-se de vitimização em relação a Deus, esquecendo-se ou desviando-se o foco do pecado original para a ação divina.

Deste equívoco ‘teológico’, ‘se Deus não quer ou me impede’, ajamos então desta maneira, sigamos os ‘ditames’ pagãos, da ética do mundo entorno: “toma, pois, a minha serva; porventura terei filhos dela.”:

O verbo empregado por Deus ao criar a mulher significa “construir”, “edificar” (waybên) 3 , e essa terminologia será empregada pelas matriarcas estéreis, com o intuito de designar sua própria edificação como ser social no seio da sua família. Sara, em Gênesis 16,2, diz a Abraão: Eis que o Senhor me tem impedido de ter filhos; toma, pois, a minha serva; porventura terei filhos [ybanê] por meio dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai. Raquel, em Gênesis 30:3, propõe: Eis aqui minha serva Bila; recebe-a por mulher, para que ela dê à luz sobre os meus joelhos, e eu deste modo tenha filhos (ybanê) por ela1.

O texto do Gênesis ao expor esta situação na Tenda de Abraão, o patriarca, não quer trazer à tona más notícias da Casa Patriarcal, mas ao contrário, fazer disso, pela autoridade de Abraão, uma mensagem ‘moralizadora’: com a Aliança nascem deveres aos crentes; estes devem confiar em Deus e navegar confiantes em suas promessas.

Percebe-se um paralelo entre o relato do Gen 3,6:

E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.

Ali, Eva erra e seduz ao erro seu marido, também ele, incapaz de obedecer a Deus, de verdade: ‘E ouviu Abrão a voz de Sarai’ (Gen 16,2). Ele, ‘ouviu a voz de sua mulher’ em detrimento da Vox Dei, tema que será enfatizado no percurso pascal, no famoso shema iwsrael (‘ouve Israel!’).

Os efeitos são danosos e chegam rápido à Casa de Abraão. A serva, estrangeira, comporta-se agora como senhora e despreza a esterilidade de Sara: “E ele possuiu a Agar, e ela concebeu; e vendo ela que concebera, foi sua senhora desprezada aos seus olhos” (Gênesis 16,4):

Agar, pesada em sua gravidez e imbuída da honra de portar o filho do patriarca, olha com desprezo para Sarai, sua senhora estéril. O narrador bíblico declara que “Sarai torna-se leve aos seus olhos”, jogando habilmente com os sentidos de peso/honra não enunciados, mas implícitos na gravidez da serva2.

Como nos primeiros 11 capítulos do Gênesis, as decisões pecaminosas trazem castigos e danos consequentes às desordens que elas introduzem no relacionamento com Deus e entre os homens.

Com aquele gesto impensado, ou melhor, tresloucado da ‘lógica’ da Aliança com Deus, com o reestabelecimento da ‘obediência’ a Deus, Sara introduz desordem na tenda de Abraão; ele, aceita este estado de coisas e sofre também, pois Abraão consentiu os projetos de fertilidade de Sara, comuns ao mundo e à mentalidade em torno de Israel, que nascia.

Ao restabelecer a ‘ordem’ em sua tenda patriarcal, Abraão mais uma vez gera ‘injustiça’, para aplacar a ira e a insatisfação de sua mulher pelos nefastos efeitos daquela estranha fecundação pela serva, Agar:

E disse Abrão a Sarai: Eis que tua serva está na tua mão; faze-lhe o que bom é aos teus olhos. E afligiu-a Sarai, e ela fugiu de sua face (Gênesis 16,6).

A aflição entra no mundo dos patriarcas; a esfera do pecado gera, mais uma vez, equívocos e transtornos. A fuga de Agar, com o filho ilegítimo da Aliança: Ismael.

A segunda parte do relato, dos vv. 7-16, é dominada pela reinterpretação do papel de Agar e Ismael na Tenda Abraão.

Primeiramente, Deus e não Sara indicam os caminhos da normalidade na Tenda patriarcal de Israel:

Então lhe disse o anjo do SENHOR: Torna-te para tua senhora, e humilha-te debaixo de suas mãos (Gênesis 16,9).

Retornar à autoridade da Matriarca equivocada, para que ela também entenda que somente a ‘lógica’ divina pode trazer verdadeira fecundidade à Casa de Abraão. Deus inverte os caminhos enganosos daquela narrativa que teve Sara e Abraão como protagonistas.

O rebento alienado de Abraão terá um ‘lugar’ em sua tenda para que se perceba cada vez mais claramente como deve funcionar o povo de Deus, em particular sob o manto das adversidades.

Mas, virá Isaac, a resposta pronta de Deus, no tempo justo e favorável! Deve-se esperar até Gn 21, para que Deus, de novo, decida a sorte do filho de Agar, mais uma vez rejeitado na tenda de Abraão, por Sara, então, finalmente, Mãe legítima.

Referências:

1 http://docplayer.com.br/34322208-Familia- e-cla- nas-narrativas- patriarcais-e- na-literatura- profetica-um-

breve-comentario.html acesso 22 de agosto de 2017.

2 http://docplayer.com.br/34322208-Familia- e-cla- nas-narrativas- patriarcais-e- na-literatura- profetica-um-

breve-comentario.html acesso 22 de agosto de 2017.

 

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01/09/2017 15:12 - Atualizado em 01/09/2017 15:13

Avançamos pela longa e edificante história de Abraão, pai da fé. Sua trajetória envolve sempre uma lição essencial: apesar de nossas fragilidades, pela fé, lidamos com Deus, e sua graça nos envolve numa história de diálogos, alianças e socorro da parte de Deus. Com a vida de Abraão se aprende a viver na companhia de Deus através da obediência, da oração (culto) e da confiança.

Ora Sarai, mulher de Abrão, não lhe dava filhos, e ele tinha uma serva egípcia, cujo nome era Agar (Gênesis 16,1)

Um drama que descreve uma lição para a Tenda de Abraão.

À esterilidade, Sara contrapõe sua ansiedade e toma uma decisão equivocada. A decisão de seguir um arriscado método de fecundação:

E disse Sarai a Abrão: Eis que o Senhor me tem impedido de dar à luz; toma, pois, a minha serva; porventura terei filhos dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai (Gênesis 16,2).

Muitos equívocos que refletem ‘crendices’, isto é, produtos da ‘fé humana’, aquilo que pensamos ou atribuímos a Deus: “o Senhor me tem impedido de dar à luz”. Deus autor do mal? A vida humana que, neste contexto, traveste-se de vitimização em relação a Deus, esquecendo-se ou desviando-se o foco do pecado original para a ação divina.

Deste equívoco ‘teológico’, ‘se Deus não quer ou me impede’, ajamos então desta maneira, sigamos os ‘ditames’ pagãos, da ética do mundo entorno: “toma, pois, a minha serva; porventura terei filhos dela.”:

O verbo empregado por Deus ao criar a mulher significa “construir”, “edificar” (waybên) 3 , e essa terminologia será empregada pelas matriarcas estéreis, com o intuito de designar sua própria edificação como ser social no seio da sua família. Sara, em Gênesis 16,2, diz a Abraão: Eis que o Senhor me tem impedido de ter filhos; toma, pois, a minha serva; porventura terei filhos [ybanê] por meio dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai. Raquel, em Gênesis 30:3, propõe: Eis aqui minha serva Bila; recebe-a por mulher, para que ela dê à luz sobre os meus joelhos, e eu deste modo tenha filhos (ybanê) por ela1.

O texto do Gênesis ao expor esta situação na Tenda de Abraão, o patriarca, não quer trazer à tona más notícias da Casa Patriarcal, mas ao contrário, fazer disso, pela autoridade de Abraão, uma mensagem ‘moralizadora’: com a Aliança nascem deveres aos crentes; estes devem confiar em Deus e navegar confiantes em suas promessas.

Percebe-se um paralelo entre o relato do Gen 3,6:

E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.

Ali, Eva erra e seduz ao erro seu marido, também ele, incapaz de obedecer a Deus, de verdade: ‘E ouviu Abrão a voz de Sarai’ (Gen 16,2). Ele, ‘ouviu a voz de sua mulher’ em detrimento da Vox Dei, tema que será enfatizado no percurso pascal, no famoso shema iwsrael (‘ouve Israel!’).

Os efeitos são danosos e chegam rápido à Casa de Abraão. A serva, estrangeira, comporta-se agora como senhora e despreza a esterilidade de Sara: “E ele possuiu a Agar, e ela concebeu; e vendo ela que concebera, foi sua senhora desprezada aos seus olhos” (Gênesis 16,4):

Agar, pesada em sua gravidez e imbuída da honra de portar o filho do patriarca, olha com desprezo para Sarai, sua senhora estéril. O narrador bíblico declara que “Sarai torna-se leve aos seus olhos”, jogando habilmente com os sentidos de peso/honra não enunciados, mas implícitos na gravidez da serva2.

Como nos primeiros 11 capítulos do Gênesis, as decisões pecaminosas trazem castigos e danos consequentes às desordens que elas introduzem no relacionamento com Deus e entre os homens.

Com aquele gesto impensado, ou melhor, tresloucado da ‘lógica’ da Aliança com Deus, com o reestabelecimento da ‘obediência’ a Deus, Sara introduz desordem na tenda de Abraão; ele, aceita este estado de coisas e sofre também, pois Abraão consentiu os projetos de fertilidade de Sara, comuns ao mundo e à mentalidade em torno de Israel, que nascia.

Ao restabelecer a ‘ordem’ em sua tenda patriarcal, Abraão mais uma vez gera ‘injustiça’, para aplacar a ira e a insatisfação de sua mulher pelos nefastos efeitos daquela estranha fecundação pela serva, Agar:

E disse Abrão a Sarai: Eis que tua serva está na tua mão; faze-lhe o que bom é aos teus olhos. E afligiu-a Sarai, e ela fugiu de sua face (Gênesis 16,6).

A aflição entra no mundo dos patriarcas; a esfera do pecado gera, mais uma vez, equívocos e transtornos. A fuga de Agar, com o filho ilegítimo da Aliança: Ismael.

A segunda parte do relato, dos vv. 7-16, é dominada pela reinterpretação do papel de Agar e Ismael na Tenda Abraão.

Primeiramente, Deus e não Sara indicam os caminhos da normalidade na Tenda patriarcal de Israel:

Então lhe disse o anjo do SENHOR: Torna-te para tua senhora, e humilha-te debaixo de suas mãos (Gênesis 16,9).

Retornar à autoridade da Matriarca equivocada, para que ela também entenda que somente a ‘lógica’ divina pode trazer verdadeira fecundidade à Casa de Abraão. Deus inverte os caminhos enganosos daquela narrativa que teve Sara e Abraão como protagonistas.

O rebento alienado de Abraão terá um ‘lugar’ em sua tenda para que se perceba cada vez mais claramente como deve funcionar o povo de Deus, em particular sob o manto das adversidades.

Mas, virá Isaac, a resposta pronta de Deus, no tempo justo e favorável! Deve-se esperar até Gn 21, para que Deus, de novo, decida a sorte do filho de Agar, mais uma vez rejeitado na tenda de Abraão, por Sara, então, finalmente, Mãe legítima.

Referências:

1 http://docplayer.com.br/34322208-Familia- e-cla- nas-narrativas- patriarcais-e- na-literatura- profetica-um-

breve-comentario.html acesso 22 de agosto de 2017.

2 http://docplayer.com.br/34322208-Familia- e-cla- nas-narrativas- patriarcais-e- na-literatura- profetica-um-

breve-comentario.html acesso 22 de agosto de 2017.

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica