Arquidiocese do Rio de Janeiro

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Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, 23/10/2017

23 de Outubro de 2017

Livros do Antigo Testamento (12)

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23 de Outubro de 2017

Livros do Antigo Testamento (12)

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21/07/2017 00:00 - Atualizado em 24/07/2017 18:30

Livros do Antigo Testamento (12) 0

21/07/2017 00:00 - Atualizado em 24/07/2017 18:30

No artigo anterior, passamos do anúncio do Dilúvio à elaboração da arca. Através da escolha (Aliança de Deus) de Noé e de sua família, Deus realizará uma forma de ‘nova Criação’ sobre a Terra.

A Unidade 8, 1-22 retrata o decurso do Dilúvio e a sua conclusão, da qual destacamos a imagem da pomba, que nos milênios se tornará o símbolo da paz (a ONU aproveitou esta simbologia em seu estema), e a emocionante promessa ou juramento divino, concluído com o arco-íris.

Deus se recorda de Noé

E lembrou-Se Deus de Noé, e de todos os seres viventes, e de todo o gado que estava com ele na arca; e Deus fez passar um vento sobre a terra, e aquietaram-se as águas (Gn 8,1).

O início do Capítulo 8 marca um ponto de viragem, devido ao fato de que Deus se recorda de Noé. O narrador não faz referência às qualidades morais de Noé, nem a sua obediência. Em vez disso, ele qualifica o divino ato de se lembrar de Noé, como um ato totalmente livre.

Aliás, é sempre assim que Deus age na história humana, com prioridade (Ele se antecipa) e liberdade.

“Recordar” (Zakar), na linguagem bíblica, tem um sentido muito intenso e gerativo. O verbo, na verdade, não significa simplesmente recordar algo que foi esquecido, mas sim tomar conta das pessoas ou das situações que lhes são caras. Deus, portanto, lembra-se de Noé, porque leva a sério o destino da humanidade e, portanto, n’ele, Ele salva todos os homens.

Da mesma forma Deus o fará com Israel: Veja, em particular, os textos de Gên. 19,29; 30,22; Ex 2,24 e 6,5; Ex 49,14-15; Sl. 105,8 (NT em Lc 1,68). Várias vezes, em oração, Israel implora a Deus que se “lembre” da sua aliança e do seu povo: Sal 25, 61; 74, 22; 106, 4.45; 111,49.

Da recordação de Deus, o narrador dá à luz sua primeira ação: “Deus enviou um vento sobre a terra, e águas baixaram” (8,1b), onde o “vento” (Ruach) também se refere ao papel do nível do vocabulário “espírito de Deus” que reuniu-se em Gênesis 1.2.

Do seu expirar, as águas começam a diminuir. Diante do pecado humano, surge assim a graça daqu’Ele Deus que se recorda deles, e a água cessa. O Senhor deu a conhecer a sua justiça, mas agora também revela Sua misericórdia; após o julgamento do mal do mundo começa a emergir da água como uma nova criação. A “memória” de Deus recria.

a) A pomba da paz

Temos inicialmente um corvo, lançado ao ar, citado no v. 7.

E soltou um corvo, que saiu, indo e voltando, até que as águas se secaram  sobre a terra.

Como o olho de uma câmera, o foco do narrador muda das águas do Dilúvio para Noé e os que com ele estavam na arca. Estes não deixam precipitadamente a arca; querem ter certeza de que antes a terra está realmente seca e fá-lo através da elaboração da estratégia do envio das aves (8,7 a 12).

Primeiro libera um corvo que traz más notícias, já que ele retorna (8,7).

O “corvo” (‘Orab) no antigo Oriente Próximo foi o patrono da navegação, mas em Israel foi considerado um animal impuro (talvez porque preto Cf. Lv 11, 15?)3.

Esta é talvez a razão de seu papel negativo na história do Dilúvio. Também o fato de que Noé não tivesse consigo marinheiros experientes, de quem o corvo era o animal protetor, e ele mesmo não o fosse, mostra que a navegação e o desembarque foram conduzidos por uma mão providencial.

Depois, entre os vv. 8-12, vemos a cena famosíssima da soltura da pomba com o ramo de oliveira, após o descimento das águas:

Depois soltou uma pomba, para ver se as águas tinham minguado de sobre a face da terra. A pomba, porém, não achou repouso para a planta do seu pé, e voltou a ele para a arca; porque as águas estavam sobre a face de toda a terra; e ele estendeu a sua mão, e tomou-a, e recolheu-a consigo na arca. E esperou ainda outros sete dias, e tornou a enviar a pomba fora da arca. E a pomba voltou a ele à tarde; e eis, arrancada, uma folha de oliveira no seu bico; e conheceu Noé que as águas tinham minguado de sobre a terra. Então esperou ainda outros sete dias, e enviou fora a pomba, mas não tornou mais a ele.

Em seguida, três vezes através de uma pomba que, somente na segunda tentativa retorna com uma folha de oliveira em seu bico (v. 11), enquanto na terceira vez não retorna (v. 12), sinalizando, assim, que o tempo de desembarcar chegou.

Embora o mundo seja atravessado por desastres impressionantes e pelo risco de destruição total, há sempre um sinal de estabilidade, uma força de vida que volta e que faz começar tudo de novo. Deus é mais forte do que o mal. E a vida é mais forte que a morte. É por isso que a imagem de uma pomba, com um ramo de oliveira em seu bico, tornou-se um símbolo universal de esperança e de paz.

Aliança e sacrifício a Deus

E edificou Noé um altar ao Senhor; e tomou de todo o animal limpo e de toda a ave limpa, e ofereceu holocausto sobre o altar (Gn 8,20).

A harmonia redescoberta com Deus e com a natureza é selada e comemorada com a oferta de um sacrifício de louvor, com um odor que chega até Deus como um sinal de aprovação.

Assim, a nova humanidade começa a povoar a terra que está no signo de Abel e não Caim (cujo odor do sacrifício não foi agradável a Deus).

E o Senhor sentiu o suave cheiro, e o Senhor disse em seu coração: Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice, nem tornarei mais a ferir todo o vivente, como fiz (Gn 8,21).

Neste ambiente de convívio de serenidade, o autor insere um solilóquio de Deus, no qual ele parece fazer “autocrítica” sobre a forma como ele agiu em um momento de raiva.

É a imagem do pai que, depois de ter castigado seu filho, pergunta-se sobre a melhor maneira de educar e o valor punições: Não mais amaldiçoarei o mundo por causa do homem.

É verdade que, desde a sua juventude, ele tem em seu coração apenas más inclinações. O homem fez assim, e Deus promete a Si mesmo aceitá-lo como ele é, assegurando a passagem à vida pacífica, no decorrer dos anos e das estações.

Deus vai intervir novamente na história humana diante da propagação do mal, mas sempre para trazer as pessoas de volta ao caminho do bem; não vai intervir com punição ou milagres, mas através de pessoas de fé e por meio de Seu Filho, que veio não para condenar o mundo, mas para salvá-lo (João 3, 17):

“Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele”.

Referências:

1 “Lembra-te, Senhor, das tuas misericórdias e das tuas benignidades, porque são desde a eternidade”.

2 “Lembra-te da tua congregação, que compraste desde a antiguidade; da vara da tua herança, que remiste; deste monte Sião, em que habitaste”

3 Aqui tomamos a unidade Lev 11, 13-15: “Das aves, estas abominareis; não se comerão, serão abominação: a águia, e o quebrantosso, e o xofrango,E o milhano, e o abutre segundo a sua espécieTodo o corvo segundo a sua espécie”.

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21/07/2017 00:00 - Atualizado em 24/07/2017 18:30

No artigo anterior, passamos do anúncio do Dilúvio à elaboração da arca. Através da escolha (Aliança de Deus) de Noé e de sua família, Deus realizará uma forma de ‘nova Criação’ sobre a Terra.

A Unidade 8, 1-22 retrata o decurso do Dilúvio e a sua conclusão, da qual destacamos a imagem da pomba, que nos milênios se tornará o símbolo da paz (a ONU aproveitou esta simbologia em seu estema), e a emocionante promessa ou juramento divino, concluído com o arco-íris.

Deus se recorda de Noé

E lembrou-Se Deus de Noé, e de todos os seres viventes, e de todo o gado que estava com ele na arca; e Deus fez passar um vento sobre a terra, e aquietaram-se as águas (Gn 8,1).

O início do Capítulo 8 marca um ponto de viragem, devido ao fato de que Deus se recorda de Noé. O narrador não faz referência às qualidades morais de Noé, nem a sua obediência. Em vez disso, ele qualifica o divino ato de se lembrar de Noé, como um ato totalmente livre.

Aliás, é sempre assim que Deus age na história humana, com prioridade (Ele se antecipa) e liberdade.

“Recordar” (Zakar), na linguagem bíblica, tem um sentido muito intenso e gerativo. O verbo, na verdade, não significa simplesmente recordar algo que foi esquecido, mas sim tomar conta das pessoas ou das situações que lhes são caras. Deus, portanto, lembra-se de Noé, porque leva a sério o destino da humanidade e, portanto, n’ele, Ele salva todos os homens.

Da mesma forma Deus o fará com Israel: Veja, em particular, os textos de Gên. 19,29; 30,22; Ex 2,24 e 6,5; Ex 49,14-15; Sl. 105,8 (NT em Lc 1,68). Várias vezes, em oração, Israel implora a Deus que se “lembre” da sua aliança e do seu povo: Sal 25, 61; 74, 22; 106, 4.45; 111,49.

Da recordação de Deus, o narrador dá à luz sua primeira ação: “Deus enviou um vento sobre a terra, e águas baixaram” (8,1b), onde o “vento” (Ruach) também se refere ao papel do nível do vocabulário “espírito de Deus” que reuniu-se em Gênesis 1.2.

Do seu expirar, as águas começam a diminuir. Diante do pecado humano, surge assim a graça daqu’Ele Deus que se recorda deles, e a água cessa. O Senhor deu a conhecer a sua justiça, mas agora também revela Sua misericórdia; após o julgamento do mal do mundo começa a emergir da água como uma nova criação. A “memória” de Deus recria.

a) A pomba da paz

Temos inicialmente um corvo, lançado ao ar, citado no v. 7.

E soltou um corvo, que saiu, indo e voltando, até que as águas se secaram  sobre a terra.

Como o olho de uma câmera, o foco do narrador muda das águas do Dilúvio para Noé e os que com ele estavam na arca. Estes não deixam precipitadamente a arca; querem ter certeza de que antes a terra está realmente seca e fá-lo através da elaboração da estratégia do envio das aves (8,7 a 12).

Primeiro libera um corvo que traz más notícias, já que ele retorna (8,7).

O “corvo” (‘Orab) no antigo Oriente Próximo foi o patrono da navegação, mas em Israel foi considerado um animal impuro (talvez porque preto Cf. Lv 11, 15?)3.

Esta é talvez a razão de seu papel negativo na história do Dilúvio. Também o fato de que Noé não tivesse consigo marinheiros experientes, de quem o corvo era o animal protetor, e ele mesmo não o fosse, mostra que a navegação e o desembarque foram conduzidos por uma mão providencial.

Depois, entre os vv. 8-12, vemos a cena famosíssima da soltura da pomba com o ramo de oliveira, após o descimento das águas:

Depois soltou uma pomba, para ver se as águas tinham minguado de sobre a face da terra. A pomba, porém, não achou repouso para a planta do seu pé, e voltou a ele para a arca; porque as águas estavam sobre a face de toda a terra; e ele estendeu a sua mão, e tomou-a, e recolheu-a consigo na arca. E esperou ainda outros sete dias, e tornou a enviar a pomba fora da arca. E a pomba voltou a ele à tarde; e eis, arrancada, uma folha de oliveira no seu bico; e conheceu Noé que as águas tinham minguado de sobre a terra. Então esperou ainda outros sete dias, e enviou fora a pomba, mas não tornou mais a ele.

Em seguida, três vezes através de uma pomba que, somente na segunda tentativa retorna com uma folha de oliveira em seu bico (v. 11), enquanto na terceira vez não retorna (v. 12), sinalizando, assim, que o tempo de desembarcar chegou.

Embora o mundo seja atravessado por desastres impressionantes e pelo risco de destruição total, há sempre um sinal de estabilidade, uma força de vida que volta e que faz começar tudo de novo. Deus é mais forte do que o mal. E a vida é mais forte que a morte. É por isso que a imagem de uma pomba, com um ramo de oliveira em seu bico, tornou-se um símbolo universal de esperança e de paz.

Aliança e sacrifício a Deus

E edificou Noé um altar ao Senhor; e tomou de todo o animal limpo e de toda a ave limpa, e ofereceu holocausto sobre o altar (Gn 8,20).

A harmonia redescoberta com Deus e com a natureza é selada e comemorada com a oferta de um sacrifício de louvor, com um odor que chega até Deus como um sinal de aprovação.

Assim, a nova humanidade começa a povoar a terra que está no signo de Abel e não Caim (cujo odor do sacrifício não foi agradável a Deus).

E o Senhor sentiu o suave cheiro, e o Senhor disse em seu coração: Não tornarei mais a amaldiçoar a terra por causa do homem; porque a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice, nem tornarei mais a ferir todo o vivente, como fiz (Gn 8,21).

Neste ambiente de convívio de serenidade, o autor insere um solilóquio de Deus, no qual ele parece fazer “autocrítica” sobre a forma como ele agiu em um momento de raiva.

É a imagem do pai que, depois de ter castigado seu filho, pergunta-se sobre a melhor maneira de educar e o valor punições: Não mais amaldiçoarei o mundo por causa do homem.

É verdade que, desde a sua juventude, ele tem em seu coração apenas más inclinações. O homem fez assim, e Deus promete a Si mesmo aceitá-lo como ele é, assegurando a passagem à vida pacífica, no decorrer dos anos e das estações.

Deus vai intervir novamente na história humana diante da propagação do mal, mas sempre para trazer as pessoas de volta ao caminho do bem; não vai intervir com punição ou milagres, mas através de pessoas de fé e por meio de Seu Filho, que veio não para condenar o mundo, mas para salvá-lo (João 3, 17):

“Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele”.

Referências:

1 “Lembra-te, Senhor, das tuas misericórdias e das tuas benignidades, porque são desde a eternidade”.

2 “Lembra-te da tua congregação, que compraste desde a antiguidade; da vara da tua herança, que remiste; deste monte Sião, em que habitaste”

3 Aqui tomamos a unidade Lev 11, 13-15: “Das aves, estas abominareis; não se comerão, serão abominação: a águia, e o quebrantosso, e o xofrango,E o milhano, e o abutre segundo a sua espécieTodo o corvo segundo a sua espécie”.

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Autor

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos

Doutor em Teologia Bíblica